01 maio 2015

Resenha Crítica: "Bodyguard" (1948)

 Filme noir de baixo orçamento e pouco mais de uma hora de duração, "Bodyguard" exibe o engenho de Richard Fleischer para a realização de obras cinematográficas deste subgénero. Realizador de obras como "Conan the Destroyer", "Red Sonja", "Soylent Green", "Fantastic Voyage", Fleischer apresentou uma enorme versatilidade ao longo da sua carreira, tendo em "Bodyguard" um exemplo do seu engenho para os noir de série b, um subgénero onde conseguiu sobressair com algum nível. A história remete para vários filmes do subgénero, com Lawrence Tierney a interpretar Mike Carter, um detective privado que foi expulso da polícia devido a "esquecer-se" muitas das vezes de aplicar a lei. Numa dessas situações acabou por involuntariamente arrasar com uma investigação que se encontrava a ser efectuada num clube nocturno, algo que lhe valeu uma suspensão. Pouco tempo depois de receber a notícia, Mike agride o seu superior, Borden (Frank Fenton), um acto que conduz ao seu despedimento. Mike tem uma relação com Doris Brewster (Priscilla Lane), uma mulher que trabalha como escriturária no arquivo da polícia. Doris vai ter um papel fulcral para provar a inocência do protagonista quando este for acusado de um crime que não cometeu, numa situação narrativa a fazer recordar "Stranger on the Third Floor", "Phantom Lady", "Black Angel", entre outros filmes noir, com Priscilla Lane a ter uma oportunidade para sobressair ao longo do enredo. O momento em que é contactado por Freddie Dysen (Phillip Reed), o sobrinho de Gene Dysen (Elisabeth Risdon), uma magnata do ramo da carne embalada/congelada, proprietária da Continental Meat Packing Corporation, promete trazer muitas complicações para Mike. Este rejeita inicialmente a oferta, mas o facto de lhe ser colocado dinheiro debaixo da porta da sua casa conduz a que se dirija à habitação de Gene, onde se encontram ainda Freddie, Connie (a secretária de Gene, interpretada por June Clayworth) e Peter (o criado de Gene). Mike não tem a mínima intenção de ser o guarda-costas de Gene, tal como esta não parece muito agradada com a ideia, pelo menos até um tiro irromper e colocar a vida da personagem interpretada por Elisabeth Risdon em perigo. Perante um avultado pagamento, Mike aceita passar a noite na casa dos Dysen, acabando posteriormente por seguir Gene e o seu criado quando estes saem muito cedo para supostamente irem a um dos matadouros desta mulher (embora esta se dirija para o distrito industrial de Los Angeles). Mike é inesperadamente agredido, ficando inconsciente durante algum tempo, até acordar no interior do carro com o corpo de Borden ao lado. Acusado de um assassinato que não cometeu, Mike tem de descobrir até que ponto este crime está ligado aos Dysen, ao mesmo tempo que procura provar a sua inocência contando com a preciosa ajuda de Doris. Interpretada por Priscilla Lane, a doce Jean de "The Roaring Twenties", esta mulher a espaços faz-nos recordar os elementos femininos de "Black Angel" e "Stranger on the Third Floor", que procuram provar a inocência da cara metade, embora em "Bodyguard" esta conte a espaços com a companhia de Mike (o contacto entre estes dois personagens, enquanto colaboram na investigação, é introduzido de forma relativamente engenhosa na narrativa por Richard Fleischer, como por exemplo, através dos discos que Doris grava com as leituras que efectua dos casos investigados por Borden, tendo em vista a procurar uma possível ligação com os Dysen, com o protagonista a ouvir posteriormente os mesmos num local combinado).

 Doris e Mike até acabam por esporadicamente formar uma boa dupla. Ela é corajosa mas algo frágil, enquanto Mike é o típico detective dos filmes noir, capaz de estar no lugar errado à hora errada, apresentando um enorme cinismo, pragmatismo e algumas falas sardónicas. Não tem problemas em agredir o seu superior, contornar as leis, desrespeitar elementos de estatuto social mais elevado, envolvendo-se num caso intrincado muito ao jeito dos filmes noir. Richard Fleischer filma "Bodyguard" num estilo quase semi-documental, dotando a obra de algum realismo e violência, mesclando com acerto os cenários interiores filmados em estúdio e os cenários citadinos exteriores, algo que vai acompanhar outras das suas obras como "Armored Car Robbery". Um desses cenários interiores em destaque é o local onde é cortada a carne da empresa de Gene Dysen, onde as máquinas incutem algum sentimento de perigo e desumanização, num espaço onde o protagonista lida com figuras obscuras como Fenton (Steve Brodie), o supervisor deste local, um indivíduo que esconde alguns segredos por revelar. Estamos perante uma fase da carreira de Fleischer em que este constrói muito com pouco, naquele que foi mais um noir de baixo orçamento que filmou para a RKO Radio Pictures, um filme de série b que conta com pouco mais de uma hora de duração e muito para nos dar. Nesse sentido, Fleischer explora ao máximo o argumento de Fred Niblo, Jr. e Harry Essex (a partir de uma história original de George W. George e Robert Altman), executando uma narrativa que avança de descoberta em descoberta, até o protagonista desvendar as causas do assassinato e o(s) perpetuador(es) do mesmo. É um universo narrativo marcado pela insegurança, morte e violência, com o espaço citadino a ser representado de forma nem sempre agradável, enquanto Fleischer volta a mostrar um certo "prazer" em mutilar os corpos de alguns personagens, algo que já tinha acontecido nos momentos finais de "Armored Car Robbery". Temos ainda um habitual jogo de luz e sombras típico dos noir, mas também os personagens de carácter dúbio, sendo praticamente impossível confiar em boa parte dos elementos que rodeiam a história. Vários filmes do subgénero já nos ensinaram que até da inocência do protagonista devemos suspeitar, embora em "Bodyguard" o personagem interpretado por um competente Lawrence Tierney pareça genuinamente inocente. Tierney é um actor que protagonizou ainda vários filmes b até alcançar um maior reconhecimento, incluindo "Dillinger" onde dera vida ao gangster John Dillinger, tendo em Mike Carter um personagem com um comportamento irascível, muito ao estilo da sua persona fora do grande ecrã. "Bodyguard" é um dos bons exemplos dos filmes noir de série B produzidos pela RKO, com Richard Fleischer a mostrar uma competência que mais tarde lhe valeria um maior reconhecimento e possibilidade de contar com mais condições de trabalho.

Título original: "Bodyguard".
Título em Portugal: "O Meu Guarda-Costas".
Realizador: Richard Fleischer.
Argumento: Fred Niblo, Jr. e Harry Essex.
Elenco: Lawrence Tierney, Priscilla Lane, Phillip Reed, Elisabeth Risdon.

Sem comentários: