14 maio 2015

Resenha Crítica: "Bob le Flambeur" (1956)

 Exímio na elaboração de filmes de gangsters, Jean-Pierre Melville transporta uma atmosfera negra do pós-guerra, muito a fazer recordar as obras noir dos EUA, para a cidade de Paris em "Bob le Flambeur", apresentando-nos a Bob Montagné (Roger Duchesne), um jogador inveterado de meia idade, algo solitário, com princípios morais e fortes valores de lealdade, que se encontra algo depauperado e com a sorte em baixa. O fumo dos cigarros rodeia os cenários, exprime os prazeres vãos que os personagens vivem e a fugacidade dos seus momentos de lazer, ou não estivéssemos perante um grupo de criminosos ou ex-criminosos que até podem ter alguns valores mas nem por isso se deixam de envolver em problemas. Logo no início do filme é salientado que Montmarte tanto é o paraíso como o inferno, algo latente nos seus clubes nocturnos, onde tanto podem decorrer alguns números musicais e actos de prazer e convívio, como podem ser arquitectadas artimanhas facilmente condenáveis pela lei. Bob já teve esses problemas, há cerca de vinte anos, quando procurou assaltar o banco Rimbaud. Diz-se que está mais calmo, mas estará mesmo? O que é certo é que não tem problemas em condenar Marc (Gérard Buhr), um proxeneta, por agredir Yvonne (Simon Paris), a dona de um clube nocturno que foi financiado pelo protagonista, acabando posteriormente por ajudar Anne (Isabelle Corey), uma jovem prostituta sem grandes perspectivas de futuro que deixa ficar em sua casa, procurando protegê-la de destinos menos agradáveis. Anne trabalha num clube nocturno, envolvendo-se sentimentalmente com Paolo (Daniel Caucy), um jovem parceiro no mundo do crime do protagonista. Bob decide desenvolver um plano para assaltar o casino Deauville no dia do Grande Prémio, conseguindo a informação sobre a planta do local graças a Roger (André Garet), um amigo de longa data que contacta com Jean (Claude Cerval), um ex-criminoso e croupier do estabelecimento, algo que lhes permite formar uma equipa competente e um plano aparentemente à prova de falhas. Tudo é meticulosamente preparado (embora o plano nem sempre nos convença), incluindo a procura em ludibriar o inspector Ledru (Guy Lecomble), um indivíduo que acredita pouco na inocência de Bob, apesar de respeitar o jogador e o seu passado. Diga-se que quase todos respeitam Bob, menos Marc, que não tem problemas em o trair, com o protagonista a ter na sua pessoa uma aura de credibilidade que facilmente nos faz esquecer que estamos perante um criminoso. Bob tem em Roger um companheiro de crime e amigo pessoal, mantendo uma relação de enorme afinidade com Yvonne, ao mesmo tempo que procura que Paolo evite envolver-se em negociatas com Marc. Claro que Paolo acaba por revelar informação a mais sobre o crime a Anne e esta deixa Marc ao corrente, com este último a procurar denunciar o plano a Ledru, sendo desde logo eliminado pelo personagem interpretado por Daniel Caucy para evitar mais chatices. O assalto pode ou não dar certo, mas o mais provável é que não dê, tendo em conta a quantidade de gente envolvida e o facto da mulher do croupier que deu a informação sobre o cofre se preparar para complicar ainda mais a concretização do crime. A vida destes homens e mulheres sempre foi marcada pela incerteza, Jean-Pierre Melville exibe-nos isso mesmo, transportando-nos mais uma vez para o seu mundo dos gangsters citadinos, marcados por alguns valores morais e prontos a cometerem algumas traições. 

O nevoeiro, o fumo dos cigarros, tudo se esfuma, tudo permite ludibriar, esconder, adensar o mistério, ao longo de uma obra onde ficamos perante clubes nocturnos, cenários citadinos marcados pelo crime e pelo jogo, onde a morte pode pairar a qualquer momento e a incerteza pontua o destino dos protagonistas. Estamos perante ex-presidiários, proxenetas, prostitutas, criminosos e jogadores, pelo que nada do que podemos esperar dos seus destinos pode parecer minimamente positivo. Roger Duchesne é o nome do elenco que mais se destaca, com o actor a espelhar de forma notória a credibilidade transmitida por Bob, um indivíduo que parece algo desiludido com o mundo que o rodeia, mas nem por isso menos ambicioso, algo que explica esta propensão para o assalto ao casino. Em certa medida "Bob le flambeur" remete-nos para "The Asphalt Jungle", bem como "Du Rififi chez les hommes", onde tínhamos um assalto perfeitamente arquitectado, apesar de em "Bob le flambeur" o furto não ter o desfecho esperado, embora fiquemos a perceber um pouco do talento do protagonista para o jogo. Vive num apartamento onde não falta uma presença de uma slot machine, mas também algum espaço, sobretudo para alguém que vive de forma solitária. Este é um homem que parece fora do seu tempo e aqueles que o acompanham parecem saber disso, embora nem por isso o deixem de seguir, apresentando um misto de cavalheirismo e desejo para com Anne, embora não pretenda trair Paolo e os seus ideais, com o seu estatuto de "big shot" pré-Guerra a ser algo do passado. Paolo é mais jovem e sentimental, mais propenso a cometer erros, enquanto Anne surge quase como uma mulher fatal e interesseira, com o elenco a ser bastante competente no desempenho dos papéis, num filme que muito tem das obras cinematográficas noir dos EUA. Jean-Pierre Melville, tal como Jules Dassin em "Du rififi chez les hommes", e Jacques Becker em "Touchez pas au grisbi" (sobretudo esta obra, onde também tínhamos um protagonista envelhecido, com valores morais e de lealdade para com os amigos), coloca-nos perante os sonhos quebrados dos yankees em pleno território francês, mas também perante um mundo pós-II Guerra Mundial mais cínico, onde as relações de lealdade até podem existir mas muito se parece ter perdido. O crime surge como um meio para triunfar na vida, que tanto pode dar o prazer momentâneo daquele cigarro fumado no clube nocturno, como esfumar-se com a facilidade do mesmo e o destino dos protagonistas perigar sem contemplações. Os espaços nocturnos por onde os personagens circulam são exibidos com perícia no seu interior e no seu exterior, com Melville a não esconder a vida que rodeia esta cidade quando o Sol desaparece e a Lua mostra a sua face. A polícia, através de Ledru, procura capturar Bob, mas nem por isso deixa de existir uma ligação próxima entre ambos, ou não tivesse o primeiro uma vez visto a sua vida ser salva por este gangster que partilha o carisma e pose de um Pépé le moko, cujas vestes formais não identificam a sua possível queda. 

Os protagonistas dos noir sempre tiveram uma relação pouco clara com a polícia, Bob não é diferente, embora a passagem do tempo não impeça a sua coragem em tentar um golpe arriscado. O assalto parece fadado ao fracasso mas também a vida de Bob, ou não tivesse este já vivido os melhores tempos da sua existência. A banda sonora é capaz de intensificar os momentos de maior tensão, ou indiciar a possível violência que aí vem, envolvendo-se facilmente com as imagens em movimento, numa obra que conta ainda com um argumento digno de elogios. Com o avançar da narrativa logo nos percebemos que algo pode não correr bem. Não queremos saber. O que interessa é acompanhar estes personagens e deixarmo-nos levar por esta quixotesca luta de Bob em manter-se activo e efectuar um assalto aparentemente impossível. É um jogador inveterado que perdeu quase tudo, um elemento capaz de defender uma mulher indefesa, mas incapaz de trair um amigo, reunindo um grupo de criminosos para colocar o plano em prática, embora este pareça estar destinado ao fracasso, sobretudo quando a esposa de um elemento chave denuncia o mesmo. O próprio Jean-Pierre Mellville também se revelou um jogador a seleccionar o elenco do filme, apostando em elementos considerados algo arriscados tendo muito poucos fundos para elaborar "Bob le Flambeur", algo salientado por Roger Ebert: "The safecracker is played by Rene Salgue, who was, Cauchy says, a real gangster. It was not easy for Melville to find successful actors who would agree to work for nothing and drop everything when he had raised more money; Duchesne, who plays Bob, was considered a risk because of a drinking problem. And as for Isabel Corey, whose performance as Anne is one of the best elements of the movie, Melville picked her up off the street. Offered her a ride in his American car. Found out she was almost 16". Diga-se que a, então jovem, Isabelle Corey é um dos destaques do filme, com esta a interpretar com enorme sagacidade uma mulher de carácter dúbio, tanto capaz de se envolver com Paolo como revelar um segredo que este mencionou. Vale ainda a pena realçar André Garet como Roger, um amigo de longa data do protagonista, um elemento aparentemente calmo que tem alguma influência na narrativa. Mas o maior destaque é Jean-Pierre Melville, com o cineasta a explorar assertivamente os espaços citadinos e as ruas de Paris, sobretudo durante a noite, utilizando a câmara na mão com elegância ao mesmo tempo que revela uma enorme capacidade em expor estes locais com realismo. "Bob le Flambeur" terá inspirado filmes como "Ocean's Eleven", não só na proposta de assalto ao casino mas também na preparação do plano, tal como provavelmente terá sido influenciado por películas como "Touchez pas au grisbi", onde também tínhamos um protagonista que parecia viver fora do seu tempo, com Jean-Pierre Mellville a realizar uma obra cinematográfica de enorme mérito, influência e relevância.

Título original: "Bob le Flambeur".
Título em português: "Bob, o jogador".
Realizador: Jean-Pierre Melville.
Argumento: Jean-Pierre Melville e Auguste Le Breton.
Elenco: Roger Duchesne, Isabelle Corey, Guy Decomble, André Garet.

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