07 maio 2015

Resenha Crítica: "Astérix: Le domaine des dieux" (Astérix: O Domínio dos Deuses)

 Regresso das adaptações das obras literárias protagonizadas por Astérix e companhia ao formato de animação, "Astérix: Le domaine des dieux" consegue mesclar com sucesso os momentos de humor para os adultos com os gags destinados ao público mais infantil, contando com uma história relativamente simples como fio condutor mas capaz de despertar algum interesse. Um dos elementos que mais sobressai ao longo de "Astérix: Le domaine des dieux" passa pela capacidade do filme em conseguir abordar temáticas que muito dizem aos adultos, em tom de sátira, algo latente no momento em que um senador liberta os escravos e logo salienta que a partir dessa altura estes vão ter de pagar uma renda igual aos restantes cidadãos livres, embora logo os felicite pois vão receber um salário que… cobre as despesas da renda, num momento que certamente dirá muito aos trabalhadores cujas despesas essenciais sorvem grande parte do vencimento. As próprias lutas entre gladiadores, encenadas como se fossem combates de wrestling, exibem essa procura de associar o tempo da narrativa, localizado numa antiguidade ficcional, com elementos do presente, aos quais juntam-se situações como Obélix a caçar javalis, as célebres murraças que colocam os romanos a voarem, as escaramuças entre gauleses para se divertirem nos tempos livres, um número musical hilariante no "Domínio dos Deuses", entre outros momentos que provavelmente vão fazer rir os mais novos (e não só). De lado ficou a animação em duas dimensões, para Astérix e companhia assumirem um formato tridimensional que inicialmente estranha-se mas depois logo se entranha, com o bom trabalho da equipa responsável por este quesito a utilizar a tecnologia ao serviço de um enredo que coloca mais uma vez os romanos a procurarem derrotar os irredutíveis gauleses. Os planos de Júlio César (Philippe Morier-Genoud) são expostos logo no prólogo, com o imperador romano a incumbir Anglaigus (Lorànt Deutsch), um arquitecto, de construir, com o recurso a mão de obra escrava, o "Domínio dos Deuses", um condomínio residencial localizado na floresta que rodeia a aldeia gaulesa onde habitam Astérix, Obélix, Idéfix, Panoramix e companhia, algo que permitiria acercarem-se gradualmente do território tendo em vista a controlarem o mesmo. Júlio César não só pretende colocar um conjunto de romanos, civis, a habitar o local, algo que permitiria evitar ataques gauleses, já que estes não se atreveriam a agredir elementos comuns que apenas estão ali a residir com as suas famílias, mas também que os cidadãos locais sejam seduzidos pelo estilo de vida romano. O desiderato de Júlio César é inicialmente sabotado por Astérix, Obélix e Panoramix, com os dois primeiros a depararem-se com os planos romanos quando se encontravam a caçar javalis na companhia de Idéfix. Estes colocam os nervos de Anglaigus em franja, com o arquitecto a não poupar a esforços para ver a sua tarefa cumprida, pese os vários contratempos, incluindo as dificuldades em conseguir que os escravos, liderados por Travaillerpluspourgagnerplus (Florian Gazan), consigam colocar as suas ideias em prática com eficiência. Tiram uma árvore, mas Obélix logo a volta a colocar no local, ou Panoramix planta sementes mágicas que fazem as mesmas transformarem-se em árvores num ápice. Tudo muda quando Astérix resolve dar a poção mágica a Travaillerpluspourgagnerplus (um dos vários personagens cujo nome é um trocadilho) para este e os restantes escravos fugirem e terem a sua independência. No entanto, o escravo logo questiona o protagonista se a fuga também não será uma nova forma de dominação, já que se encontra obrigado a sair do local. Travaillerpluspourgagnerplus aproveita a poção para negociar de igual para igual com os responsáveis romanos, conseguindo uma casa para cada escravo, algo que impele estes elementos a construírem o edifício em tempo record.

 Enquanto isso, em Roma, poucos são aqueles que inicialmente parecem querer ir viver para um local longínquo, perto dos gauleses, algo que conduz Júlio César a efectuar um concurso num duelo de gladiadores onde o premiado terá direito a uma estadia grátis num dos apartamentos. O premiado é Petiminus (Artus de Penguern), um elemento com talento para os mosaicos, casado com Dulcia (Géraldine Nakache), de quem tem um filho, o jovem Apeldjus (Oscar Pauwels). No entanto, o sucesso inesperado do "Domínio dos Deuses", após a rejeição inicial, é tal que Petiminus e a família não conseguem um apartamento, com estes a encontrarem um surpreendente acolhimento junto dos gauleses. Mais surpreendente é vermos os gauleses a não rejeitarem a presença dos romanos civis pelas redondezas, com a região onde habitam a tornar-se num espaço turístico a ponto do território começar a ser alterado para atrair a presença destes elementos que até pagam mais do que os residentes na região. Veja-se o duelo entre Ordralfabétix (François Morel) e o ferreiro Cétautomatix (Lionnel Astier) para ver quem atrai mais clientela, com os próprios a aumentarem exponencialmente os preços já que os novos clientes são mais abastados. Os duelos entre os dois são uma versão algo exagerada do que acontece nas regiões que se começaram a modificar tendo em vista a ficarem mais aprazíveis aos turistas, com estas quezílias entre o peixeiro e o ferreiro a fazerem recordar os célebres momentos em que saímos dos cacilheiros e logo temos os funcionários dos restaurantes de ementa em punho prontos a trazer a clientela para o seu estabelecimento em Cacilhas. Astérix e Obélix logo ficam irritados com a simpatia dos seus companheiros para com os romanos e a inacção de Abraracourcix (Serge Papagalli), o líder local, com os planos de Júlio César a resultarem a um ponto em que este consegue incumbir Anglaicus de construir ainda mais edifícios, destruindo o espaço verde da floresta e afastando os javalis que faziam as delícias da dupla de protagonistas. Tudo piora quando César consegue seduzir os gauleses e fazer com que estes vão habitar para o "Domínio dos Deuses", cabendo a Astérix, Obélix, Panoramix e Idéfix defenderem a honra do convento, com estes a procurarem defender o território de um possível ataque romano, agora que este último reduto da Gália encontra-se praticamente despovoado e desprotegido. A história é relativamente simples e o seu desfecho previsível, embora Alexandre Astier e Louis Clichy, a dupla de realizadores, coloque pelo meio uma diversidade de problemas a Astérix e Obélix tendo em vista a dinamizarem o enredo, com o argumento a entroncar com relativo sucesso a história destes personagens com as situações do presente que são relativamente universais. Nesse sentido vamos ter: soldados romanos e escravos a reivindicarem aumentos salariais e direitos laborais; os planos romanos a parecerem surgir como uma crítica ao capitalismo ou estes não procurassem destruir uma cultura ao oferecer-lhes os bens de consumo e comodidades que os gauleses não poderiam ter, uma situação que lhes tira alguma da sua identidade; a desflorestação para a construção de edifícios; as alterações nos locais potencialmente frequentados por turistas para agradar aos mesmos, entre outros exemplos que demonstram a actualidade que os argumentistas incutiram nesta história baseada no décimo sétimo livro dos célebres personagens criados por René Goscinny e Albert Uderzo.

 "Astérix: O Domínio dos Deuses" consegue captar com algum sucesso o espírito e energia das histórias de Astérix e Obélix, algo desde logo notório na interacção entre os dois personagens citados, com o filme a tomar a opção inteligente de não oferecer demasiadas explicações sobre elementos que já sabemos sobre o universo destas figuras icónicas (os realizadores tomam como algo de concreto que os espectadores sabem o que é a poção mágica, que Obélix caiu do caldeirão, a inaptidão de Assurancetourix para a cantoria, entre outros elementos), algo que beneficia a fluidez narrativa. Astérix surge como o líder que procura defender o território, apesar de estar muito dependente da poção mágica para ganhar vantagem em relação aos inimigos, enquanto Obélix aparece quase sempre pronto a desancar em romanos, caçar javalis e brincar com Idéfix, embora até chegue a formar amizade com o jovem Apeldjus. A amizade entre Apeldjus e Obélix é explorada com eficácia pelo argumento, com os pais do jovem a serem bem recebidos pelos gauleses, acabando por ser dos poucos elementos que os aceitam como realmente são, não tendo uma agenda escondida com os homens ao serviço de César, com estes personagens secundários a irem ter algum relevo ao longo deste movimentado enredo. Não faltam ainda as cenas de acção, com "Astérix: O Domínio dos Deuses" a brindar-nos com momentos em que Obélix parece saído de um filme da saga Godzilla ou King Kong, com a poção mágica a ser utilizada com parcimónia pelos gauleses ao longo do enredo, numa tentativa da dupla de realizadores em dificultar ainda mais a situação aos protagonistas. Temos ainda os célebres momentos de cantoria de Assurancetourix, com este a ser utilizado como uma arma contra os romanos, com a sua voz a ser uma fonte de terror, proporcionando alguns gags que prometem despertar um ou outro sorriso. O próprio fica encantado com o "Domínio dos Deuses", com a aldeia gaulesa a ficar praticamente devotada ao abandono, até os romanos chegarem em massa e caber a Astérix arregimentar as tropas para a defesa do último reduto gaulês. É óbvio que o fio que conduz a narrativa é sempre bastante simples ou não estivéssemos diante de um filme que procura chegar acima de tudo ao público infantil, mas Alexandre Astier e Louis Clichy conseguem criar algo que também envolve os adultos com enorme facilidade, a ponto de alguns elementos da história provavelmente apenas irem ser compreendidos pelos mesmos. O trabalho a nível de animação é relativamente competente, ficando particularmente na memória os frenéticos momentos finais ao mesmo tempo que surge a certeza que estes personagens funcionam muito melhor neste ambiente do que em boa parte dos filmes com actores reais. Com piadas a piscar o olho a adultos e crianças, uma história capaz de despertar minimamente a atenção, acompanhada por alguns comentários culturais, sociais e económicos pelo meio, "Astérix: O Domínio dos Deuses" marca o regresso de Astérix e companhia ao formato de animação. Esperamos que seja para ficar.  

Título original: "Astérix: Le domaine des dieux"
Título em Portugal: "Astérix: O Domínio dos Deuses".
Realizadores: Louis Clichy e Alexandre Astier
Argumento: Alexandre Astier, Jean-Rémy François e Philip LaZebnik.
Elenco vocal: Roger Carel, Lorànt Deutsch, Laurent Lafitte, Guillaume Briat.

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