01 maio 2015

Resenha Crítica: "The Asphalt Jungle" (1950)

 A noite parece ser a parceira ideal dos protagonistas de "The Asphalt Jungle", uma obra onde assistimos ao planeamento meticuloso, execução e efeitos provocados por um assalto ao Belletier's, um local em cujo cofre se encontrava cerca de meio milhão de dólares em jóias mais uma quantia avultada em divisas. Os cenários nocturnos são perfeitos para a atmosfera de insegurança criada por John Huston, com este a realizar um filme de assalto marcado por algum realismo que viria a influenciar várias obras deste subgénero, ao mesmo tempo que mescla vários elementos das obras noir. Raro é o personagem moralmente recomendável ao longo do filme, com quase tudo e todos a terem os seus muitos defeitos, enquanto o crime aumenta exponencialmente neste espaço citadino onde nem na polícia se pode confiar totalmente. O argumento de Ben Maddow e John Huston procura atribuir densidade ao grupo de assaltantes, ao mesmo tempo que nos inquieta durante boa parte da execução do roubo, onde parece claro que os protagonistas não contavam com uma série de reviravoltas que os conduzem a terem de entrar em fuga enquanto assistimos a novas alianças entre estes elementos, traições, mortes e muita tensão. O plano para o assalto é preparado pelo Erwin "Doc" Riedenschneider (Sam Jaffe), um indivíduo de origem alemã, conhecido pela sua inteligência na elaboração dos crimes, que esteve preso durante sete anos, preparando um regresso em grande. O problema? Não tem fundos. Nesse sentido, Doc recorre a Cobby (Marc Lawrence), um bookie conhecido pelas relações promiscuas que mantém com as autoridades, sobretudo Ditrich (Barry Kelley), mantendo uma vasta rede de influências e contactos. Cobby conhece Alonzo Emmerich (Louis Calhern), um advogado famoso e corrupto que supostamente pretende financiar o assalto. Doc necessita de cinquenta mil dólares, uma verba que Alonzo procura recolher dos clientes em dívida, recorrendo a Bob Brannom (Brad Dexter), o seu detective privado, um elemento pouco confiável. Perante o insucesso de Bob, o advogado não tem problemas em efectuar um plano que passa por trair os assaltantes, apesar de autorizar a reunião da equipa e o desenvolvimento roubo. É assim que são contratados Louie Ciavelli (Anthony Caruso), Gus Minissi (James Whitmore) e Dix Handley (Sterling Hayden). Louie é o especialista em assaltar cofres, um elemento casado que tem um filho com alguns meses, especialista na sua função. Gus é o dono de um bar frequentado regularmente por Dix, um amigo pessoal, sendo o motorista do quarteto. Já Dix é um assaltante conhecido por evadir-se quase sempre às autoridades, não tendo problemas em utilizar a violência. De olhar duro, falas lacónicas, expressões rígidas, Dix está longe de ser alguém recomendável, apresentando uma força impressionante e uma capacidade única para perder o seu dinheiro em apostas em corridas de cavalos. Dix é um cliente habitual de Cobby, um elemento que o engana regularmente, tendo em Doll Conovan (Jean Hagen) uma mulher que se interessa na sua pessoa, embora a profissão e o feitio do protagonista não sejam muito propícios a relações sentimentais felizes. Este é um criminoso conhecido pela sua brutalidade e lealdade mas não pela inteligência, embora desperte a atenção de Doll, uma mulher que a espaços desperta o seu lado mais humano, embora Dix rechace muitas das vezes a possibilidade de terem um romance.

Dix é dos poucos que sabe dos receios de Doc em relação a Alonzo, com o segundo a procurar ter um aliado na figura do personagem interpretado por Sterling Hayden, enquanto percebemos que a confiança entre estes elementos não é a melhor. A confiança nunca poderia ser elevada. Estamos a lidar com criminosos do pior, um advogado que vive de aparências, um polícia que "fecha" os olhos a diversos crimes devido a subornos, entre outros elementos que rodeiam esta narrativa marcada pela magnífica sequência do roubo na qual John Huston nos deixa perante um assalto pormenorizado quase em tempo real. Este detalhe colocado no assalto e o nosso envolvimento emocional com o mesmo beneficia de toda uma construção prévia dos personagens e da capacidade de John Huston em aproveitar o elenco que tem à disposição. Sam Jaffe consegue convencer-nos da calma e frieza de Doc, um estratega acima da média que procura não utilizar armas e pensar em todos os passos que deve tomar, quer no cumprimento dos assaltos, quer no quotidiano. O actor atribui um tom frio mas não totalmente desumano ao seu personagem, contrastante com os nervos à flor da pele de Dix. Sterling Hayden atribui ao seu personagem uma personalidade lacónica que varia entre um estilo Robert Mitchum mesclado com Humphrey Bogart embora sem o carisma de ambos, com Dix a ser o "braço forte" e aparentemente pouco inteligente do grupo. Este sonha em recuperar a propriedade que os pais perderam durante a Grande Depressão, onde tinham inclusive cavalos, algo que em parte explica a sua obsessão em apostar nas corridas dos mesmos. Outro dos elementos em destaque no elenco é Louis Calhern como Emmerich, um advogado tão ou mais malicioso do que os ladrões, um personagem casado que conta ainda com uma relação extra-conjugal com a bela Angela Phinlay (Marilyn Monroe), ou seja, mais um representante das figuras pouco confiáveis que rodeiam o enredo de "The Asphalt Jungle". A imoralidade rodeia o enredo, mas também nos afecta, com John Huston a chegar a fazer com que fiquemos do lado de elementos como Dix e esperemos que se safem da situação perigosa em que se colocaram, numa obra que não poupa ainda em perseguições policiais e reviravoltas. O ponto alto está na já citada cena do assalto com John Huston a realizar mais uma obra marcada por uma atmosfera negra e de algum pessimismo, tendo como protagonistas um grupo de ladrões que pensa estar a cometer o crime perfeito. A obra viria não só a marcar o seu tempo mas a provavelmente inspirar outros filmes como "Du rififi chez les hommes" de Jules Dassin, onde também tínhamos um grupo de criminosos a procurar colocar em prática um assalto, entre vários outros exemplos. No caso de "Du rififi chez les hommes" estávamos perante o espaço parisiense, enquanto em "The Asphalt Jungle", um filme baseado no livro homónimo de W. R. Burnett, temos os espaços urbanos dos EUA, com John Huston a não poupar na utilização de cenários externos e a atribuir um enorme realismo à obra. Veja-se desde logo as cenas iniciais onde encontramos a polícia a procurar Dix, enquanto este anda pelas ruas até entrar no café de Gus, com este último a esconder a arma do crime, ao mesmo tempo que o personagem interpretado por Sterling Hayden consegue safar-se das garras da justiça graças à testemunha do assalto salientar que não o reconhece.

No entanto, é nos espaços fechados que estes personagens mais sobressaem, sejam estes o apartamento onde Cobby desenvolve as suas actividades ligadas ao jogo ilegal, seja o edifício do local onde é cometido o assalto, sejam as instalações de Emmerich, para além da casa de Dix. A habitação do ladrão conta ainda temporariamente com a presença de Doll, uma mulher que procura ajudá-lo quando este se encontra em maiores perigos, com este a não compreender totalmente todo o afecto que a personagem interpretada por Jean Hagen lhe dedica. Este ajudara Doll no início do filme, quando esta fora despejada, apresentando alguma afeição por esta mulher, embora demonstre a mesma de forma muito própria. Diga-se que o filme ficou também conhecido pelo retrato humano que efectua dos criminosos, apresentando-os como figuras complexas que encaram a sua actividade como uma profissão, um pouco a fazer recordar o assaltante que Jean-Paul Belmondo viria a interpretar em "Le Feu Follet", onde encarava os seus actos como uma situação laboral e uma paixão. No caso de "The Asphalt Jungle", Doc exemplifica paradigmaticamente o assaltante profissional, enquanto o advogado surge como alguém afogado em dívidas que vê no roubo uma oportunidade para fugir às mesmas; Dix procura recuperar a propriedade que pertencera aos pais; o especialista em arrombar cofres pretende dar uma vida segura ao filho, ou seja, existe alguma dimensão a rodear estes personagens. Estamos longe dos psicopatas que apenas pensam em matar. Diga-se que Doc até é contra a utilização de armas devido a estas poderem culminar em mortes e penas maiores. São elementos que sabem o que fazem, embora não estejam totalmente preparados para as adversidades e para apresentarem uma dinâmica em equipa. As diferenças entre os vários elementos da equipa de criminosos são mais do que muitas, com estes a serem ainda rodeados por elementos como um polícia corrupto e um detective com poucos escrúpulos que exibem algum cinismo em relação à representação desta sociedade da época, apesar de ainda existir uma defesa em relação ao trabalho das autoridades no discurso de um personagem que parece ter sido colocado como "favor". "The Asphalt Jungle" é ainda considerado um dos primeiros filmes de assalto a representar a preparação do crime e a colocação em prática do mesmo com enorme minúcia (para além de na época ser invulgar apresentar estes acontecimentos do ponto de vista dos criminosos), explorando com intensidade os efeitos que se seguem ao mesmo, sempre com algum realismo à mistura e uma sensação que os personagens não podem escapar ao destino. Com uma cena de assalto que fica na memória, uma procura em dar alguma densidade e complexidade aos assaltantes, "The Asphalt Jungle" sobressai como um filme noir de eleição, comprovando mais uma vez o talento de John Huston para realização de obras deste subgénero.

Título original: "The Asphalt Jungle". 
Título em Portugal: "Quando a Cidade Dorme". 
Realizador: John Huston.
Argumento: Ben Maddow e John Huston.
Elenco: Sterling Hayden, Louis Calhern, Jean Hagen, James Whitmore, Sam Jaffe.

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