12 maio 2015

Resenha Crítica: "Amour Fou" ("Amour Louco")

     Viajemos, por breves instantes, até ao ano de 1811: época em que Napoleão dominava a quase totalidade da Europa Central, desde a Espanha até à Áustria e passando pelo Reino da Prússia; e em que o movimento cultural romântico se aproximava do seu auge, inspirando uma multidão de artistas a ilustrar ou a provocar a manifestação de sentimentos intensos, associando frequentemente o amor ao desespero e o desespero ao suicídio; ano também em que o escritor Heinrich von Kleist, uma das figuras proeminentes do romantismo alemão, que tinha trinta e quatro anos de idade mas a amargura de quem vivera muitos mais, decidiu que estava na altura de pôr um termo à sua vida. É verdade que desconhecemos as causas desta importante decisão mas, independentemente do que ele possa ter andado a palrar aos seus amigos e conhecidos, duvido que se relacionasse com sentimentos afetuosos. Podem-me dizer que para levar a cabo a sua empresa o homem chegou a propor a duas ou três mulheres que se matassem com ele, por amor, mas é provável que tal não passasse unicamente de uma desculpa. Afinal de contas, o próprio declarou numa carta à sua irmã que a morte era a «serenidade inexpressiva», pelo que o homem queria é matar-se, de preferência com uma companheira feminina, não se sabe bem porquê. Concordo que não estou a fazer mais do que especular sobre uma personagem que nenhum de nós realmente conheceu, mas em minha defesa creio que Jessica Hausner, a realizadora de “Amour Fou”, aprovaria esta reflexão. De facto, foi precisamente essa a ideia que ela tentou transmitir ao longo do filme em análise.
     E já que estamos a falar de Jessica Hausner, reconheçamos-lhe mérito por ter arranjado um ator com surpreendentes semelhanças com Heinrich von Kleist, tanto a nível físico como a nível de estilo. Aliás, penso que as primeiras parecenças se coadunam com as segundas, pois a sua falta de beleza física, exacerbada por uns lábios amplos e grossos como os de um sapo, e por um volumoso nariz encimado por um saliente osso supraorbital, conjugam-se com o seu estilo triste e deselegante, agravado por uma postura curvada e um excesso de coletes e sobrecasacas que nos dão a impressão de que o indivíduo não tem pescoço. Como se tal não bastasse, o tipo parecer ser tão caloroso como uma gélida noite berlinense, e a maneira insólita como o vemos a exprimir a sua indignação à sua prima no início do filme, acusando-a de egoísmo por se recusar a levar um tiro na têmpora com ele, faz com que nos pareça uma figura perturbadora e até um tanto perturbada.
     No entanto, não obstante o singular desempenho do ator Christian Friedel, nem é ele o único protagonista da narrativa. Essa responsabilidade coube também à atriz Birte Schnöink, que interpreta a aristocrata Henriette Vogel, uma senhora de aparência engraçada com uma cara pequena e redonda à qual se contrapõe uma testa pálida e espaçosa. A sua personalidade parece ser discreta e silenciosa, e as suas ambições são as de cumprir o papel reservado à mulher na sociedade. Não foi por acaso que se casou com um homem de quem gosta mas por quem não sente paixão, como se comprova pelo facto de dormirem no mesmo quarto mas em camas separadas. Mesmo a sua filha, ainda mais calada do que a mãe, não parece ser recetáculo de grandes afetos. E se podemos admitir que Henriette questione, silenciosamente, a frieza do seu casamento, tal acontecerá em momentos de rara fraqueza, e as suas reflexões jamais seriam partilhadas com quem quer que fosse, pois ela é mesmo assim, reflexiva mas reservada.
     O status quo da aristocrata alterar-se-á em duas fases distintas. A primeira quando, após ter travado conhecimento com o deprimido Heinrich na sequência de uma sessão musical noturna, o artista confidencia-lhe que está a planear o seu suicídio, pedindo-lhe que ela se mate com ele uma vez que ambos se dão bem, têm personalidades semelhantes e, portanto, foram feitos um para o outro. Henriette, como é óbvio, rejeita a proposta, mas guarda-a para uma ocasião posterior, num canto recatado da sua mente. A segunda fase sucede na sequência de um inesperado desmaio da matriarca à mesa de jantar, depois do qual lhe será diagnosticado um tumor que, afiança-lhe um desolado médico, tolher-lhe-á a vida num prazo curto de alguns meses. A protagonista receberá a notícia com uma estranha passividade mas, poucos dias volvidos, num reencontro com Heinrich em sua casa, manifesta-lhe uma súbita abertura à possibilidade do suicídio. O escritor, afligido pela surpresa mas com uma inabalável perspicácia, responde-lhe que, assim de repente, já não tem tantas certezas sobre a iniciativa. «Perdoa-me, Henriette.», queixa-se ele no seu tom irritante, «Tinha esperanças que decidisses tomar esse passo por mim - porque aceitavas a minha angústia como tua e que me amarias por ela - e não pelo teu medo da morte. É que eu sofro com a vida, e não com a morte.»
     Não é descabido acreditar que a poesia deste belo discurso tenha convencido Henriette dos ideais românticos do seu companheiro, mas o mesmo não se pode dizer em relação ao espetador. Este, mais cínico e mais instruído, com os horizontes mais abertos, tem pleno conhecimento dos subterfúgios utilizados pelo ser humano para, muitas vezes, ocultar os seus verdadeiros pensamentos por debaixo das eloquentes construções frásicas do seu mais pomposo vernáculo. E de facto, na cena seguinte vemos Heinrich a encaminhar-se para uma imponente mansão cor-de-rosa, em cujo salão iniciará um diálogo com uma velha e odiosa aristocrata, revestida de cores berrantes e ofuscada pela sua enorme cabeleira que por pouco não se emaranha nos candelabros do teto. A conversa começará com os habituais queixumes do grupo social aristocrata, com a indignação da idosa com o alastrar dos ideais da Revolução Francesa de 1789 que, pelos vistos, chegaram a Berlim e obrigarão os nobres a passar a solver impostos como se fossem camponeses ou mesteirais. O tema da conversa que realmente nos virá a seguir, quando a mulher informar o interlocutor que a sua prima, precisamente aquela jovem que se recusara a levar um tiro na têmpora, estava prestes a casar-se com um francês. Consta que, na sequência desta revelação, após ter saído do imponente casario, um afetado Henrich terá comunicado a Henriette a aceitação da sua proposta, uma vez que, em breve, os dois já se encontram a viajar para o campo num ornamentado coche para uma estadia de poucos dias, ele enfiado nas suas habituais sobrecasacas e ela ineditamente trajada de negro, como se caminhasse para o seu próprio funeral.
     Não sei se foi possível percebê-lo através desta descrição, mas a narrativa de “Amour Fou” desenrola-se num universo peculiar que lhe confere uma identidade muito distinta, e que se alicerça, acima de tudo, num singular conceito de estética e na estranheza das personagens e dos seus relacionamentos. O rigor estético manifesta-se de forma mais evidente nos planos fixos compostos de forma cuidada, na conjugação pensada das cores presentes nos cenários e na disposição dos mesmos, arranjados simétrica e harmoniosamente. Até os atores são cuidadosamente arrumados, alinhando-se muitas vezes da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, uns sentados e outros de pé, praticamente imóveis quando não estão a falar. Por vezes a imobilidade dos atores é contrastada com a ocasional presença de um cão que, estrategicamente colocado, por vezes de modo a ser refletido num dos espelhos da divisão, lá vai abanando as orelhas ou movimentando as suas patas caprichosamente, parecendo-nos a única criatura despreocupada deste seriíssimo ambiente.
     A rigidez da construção dos cenários conjuga-se na perfeição com um estilo de cinematografia invulgar que assenta numa câmara pouco movimentada e muitas vezes estática, que com frequência foca as personagens desde a cabeça até à cintura ou mesmo até aos pés, a qual, aliada à ausência de banda sonora não diegética, perpassa uma ideia de artificialidade que nos faz lembrar da representação de uma peça de teatro. Efetivamente, se repararmos bem até conseguiremos discernir uma diversidade de cortinas vermelhas cheias de simbolismo em vários cenários interiores, quase invisíveis tal é a forma como se enquadram na decoração mas, ainda assim, espreitando sorrateiramente como quem não quer a coisa.
     Esta atmosfera de artificialidade reflete-se ainda nos comportamentos das personagens, caracterizados por uma inatural passividade. Se já fiz questão de mencionar que Henriette é demasiado fechada na exposição dos seus sentimentos, estendo agora essa afirmação a quase todas as personagens do enredo. Realmente, excetuando os simpáticos cães que se limitam a desfrutar da sua existência e sem contarmos com umas velhas que lá vão aparecendo a criticar a sociedade e a vida em geral, o universo de “Amour Fou” povoa-se de figuras tão reservadas como deprimidas. Lembremo-nos que a filha da protagonista mal dirige uma palavra a quem quer que seja ou que o pai criança, um indivíduo de aparência íntegra e cordialíssima, nem sequer profere o nome de Heinrich em voz alta, mencionando-o apenas indiretamente; até o médico responsável pelos exames de Henriette parece ser tão infeliz como todos os outros, envergando sempre um fato negro sem que o possamos censurar. Apesar desta trupe silenciosa as figuras mais reservadas são de longe Heinrich e Henriette, que enganam não apenas os outros mas, arriscamos a dizê-lo, a eles próprios também: o primeiro ao forjar uma narrativa que o transforma num mártir da infelicidade humana, decidido a morrer por causas nobres e empenhado em descobrir uma senhora que o ame pela sua infelicidade e que, nós bem o sabemos, deveria ser a sua prima, e Henriette, por sua vez, mediante o seu alinhamento nesta bela história, que tem o objetivo de ocultar o seu medo da morte por debaixo de uma camada de ideias românticos e superficiais.
     Pois bem, sucede que, por mais inteligente que seja, a conceção dos comportamentos destes personagens acaba por transformá-los em duas figuras egoístas com quem é difícil de simpatizar. Essa antipatia poderia ser amenizada pela exposição do sofrimento de Henrich e Henriette, mas a passividade e o seu fechamento emocional impossibilitam que tal aconteça. Como tal, se as insistências do poeta na ideia de se suicidar parecem exageradas por nunca o vermos sofrer, e a forma como a protagonista ignora constantemente a sua família para perder os últimos dias com o seu amante também não beneficiam a sua imagem. Cria-se assim um distanciamento do espetador em relação a estas personagens, o que retira a intensidade que se poderia atribuir à aproximação do seu falecimento. De facto, até posso afirmar categoricamente que a morte de um dos cães me provocaria maior pesar do que a de qualquer um dos seus donos. Assim sendo não é de estranhar que o filme não seja particularmente emocionante, o que se torna mais evidente no seu último terço quando a história se torna mais repetitiva, uma vez que os dois protagonistas vão andando para a frente e para trás nas suas intenções fazendo o espetador menos paciente suspirar pelo advento de um mosquete que ponha um termo às suas existências.
     Não deixemos, porém, o pessimismo da atmosfera do filme propagar-se para o texto de blogger, nem percamos como é nosso dever a perspetiva das circunstâncias. Exerçamos o direito de criticar o filme pela sua falta de intensidade ou de envolvência, mas reconheçamos que os seus aspetos positivos são superiores aos negativos. E concluamos, como tal, que “Amour Fou” tem motivos de sobra para ser considerado interessante: desde a elegância dos seus cenários à perspicácia dos comportamentos das suas personagens, passando pela atenção prestada ao seu contexto histórico e pelos ocasionais laivos de humor subtil. Acima de tudo é um filme pensado ao pormenor e elaborado com coerência, que pode não ser tão imersivo como alguns textos do romantismo mas que partilha a exposição das neuroses de alguns dos seus maiores artistas.

Ficha técnica:

Título original: "Amour Fou"
Título em Portugal: "Amor Louco"
Realização: Jessica Hausner
Argumento: Jessica Hausner
Elenco: Christian Friedel, Birte Schnoeink, Stephan Grossmann, Marc Bischoff, entre outros.

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