22 maio 2015

Resenha Crítica: "American Beauty" (1999)

 Lester Burnham (Kevin Spacey) é um indivíduo de quarenta e dois anos de idade, de classe média, que mantém uma relação de enorme distanciamento com Carolyn (Annette Benning), a sua esposa, de quem tem uma filha, Jane (Thora Birch), uma adolescente que o despreza. Quem vir esta família sem a conhecer poderá pensar que é feliz e vive de forma bastante aprazível, mas "American Beauty" logo procura arrasar com as aparências. Essa situação é notória desde logo quando, após uma introdução onde encontramos Jane a dizer que gostava que alguém matasse o pai, deparamo-nos com Lester a abordar de forma irónica a sua vida e a proximidade da sua morte: "(...) dentro de menos de um ano, estarei morto. É claro que eu ainda não sei isso. Aliás, de certa maneira, eu já estou morto. Olhem para mim, a masturbar-me no duche. Este será o ponto alto do meu dia." A narração apresenta um tom sardónico na exposição dos eventos anteriores à morte de Lester, com Sam Mendes a fazer recordar os momentos iniciais de "Sunset Boulevard", um filme realizado por Billy Wilder, nos quais o personagem interpretado por William Holden se propõe a apresentar os episódios que antecederam o seu assassinato, sempre num tom marcado por alguma ironia. Lester tem um emprego que despreza num jornal onde labora no departamento de publicidade, num espaço que se prepara para despedir funcionários devido a um ajustar de despesas. O casamento com Carolyn (Annette Bening) vive de aparências, com esta a surgir como uma vendedora imobiliária ambiciosa, aparentemente frígida, pedante e materialista. A relação com a filha é uma nulidade, com Jane a ser representada como a típica adolescente que mantém uma relação complicada com os pais (quase que nos faz recordar a filha da protagonista de "Mildred Pierce"). Lester é considerado um falhado pela filha e pela esposa, parecendo ainda sentir pouco amor próprio. Estes vivem numa espécie de vivenda, nos subúrbios, contando com os Fitts como novos vizinhos. Os Fitts são compostos por três elementos: O Coronel Fitts (Chris Cooper), um militar rígido, homofóbico e conservador que esconde alguns aspectos da sua personalidade; Barbara (Alison Janney), a esposa do primeiro, uma mulher viciada em arrumações; Ricky (Wes Bentley), o estranho filho do casal, um indivíduo que passa boa parte do seu tempo a filmar Jane, levando um estilo de vida acima da média devido a ser um traficante de droga. Todos estes personagens parecem no seu exterior algo que não o são na realidade. Talvez com excepção do casal de homossexuais que se mudou para esta rua, que não tem problemas em esconder as suas orientações sexuais e mantêm um modo de vida relativamente comum, algo que pode explicar a pouca relevância atribuída por Sam Mendes aos mesmos. Sam Mendes prefere antes centrar-se nos elementos que vivem de aparências enquanto desconstrói as mesmas ao longo deste magnífico drama onde Kevin Spacey tem uma das grandes interpretações da sua carreira. Curiosamente, Kevin Spacey nem era a primeira escolha do estúdio, mas a insistência de Sam Mendes revelou-se acertada. Kevin Spacey tanto nos convence do estado de letargia do seu personagem como logo de seguida destaca-se ao apresentar a reviravolta a nível comportamental do mesmo, sobretudo a partir do momento em que conhece a bela e muito mais jovem Angela (Mena Suvari), uma amiga e colega da sua filha. A primeira vez que repara em Angela é quando esta se encontra num espectáculo de cheerleaders onde também participa Jane. Lester fica siderado a olhar para esta de boca aberta, procurando logo meter conversa com a mesma quando a encontra com a filha. A cena é magnífica, com Lester a observar a jovem atentamente, pensando estar a sós com esta no pavilhão, enquanto assistimos em câmara lenta a alguns dos movimentos e a banda sonora logo indica que estamos a entrar no plano do sonho. Diga-se que Sam Mendes viria a repetir estes delírios em momentos marcantes como aquele em que Lester sonha estar a ver Angela quando esta se encontra numa banheira coberta de pétalas vermelhas, naquele que é um dos momentos de maior lirismo e sensualidade do filme. A tonalidade vermelha não é escolhida ao acaso, com Angela a simbolizar o desejo para este homem cuja vida sexual tem sido marcada pela repressão. O momento em que Lester tenta meter conversa com a personagem interpretada por Mena Suvari, uma espécie de Lolita, é meio constrangedor, sobretudo para Jane, se tivermos em conta a diferença de idades, apesar de Angela até gostar de ser alvo de desejo por parte dos homens, considerando isso um bom sinal para os seus objectivos de ser modelo profissional, algo revelador da vacuidade a nível de personalidade desta adolescente mimada.

A descoberta de Angela e o facto de a ouvir a elogiá-lo, salientando o desejo que poderia despertar se fizesse exercício físico, conduz a que Lester comece a mudar. Diga-se que Lester sempre transmitiu a ideia de que se encontrava a reprimir os sentimentos, parecendo estar finalmente a soltar-se e a procurar aproveitar a vida. Começa a deixar de acatar todos os desejos da esposa e a enfrentá-la, consegue uma indemnização choruda ao ameaçar revelar os podres da sua empresa após demitir-se da mesma, começa a fazer exercício físico e até volta a consumir drogas, adquirindo as mesmas a Ricky, um elemento que irá iniciar uma relação com Jane, algo que inicialmente parecia impossível de acontecer. Um dos elementos fulcrais para "American Beauty" funcionar centra-se na sua capacidade de desconstruir os seus personagens, partindo dos estereótipos até expor por completo as suas verdadeiras personalidades. Lester é a figura central. É este que se encontra na crise dos quarenta, a lidar com um casamento fracassado e a ter uma relação algo fria com a filha. Diga-se que os relacionamentos entre pais e filhos é uma das temáticas centrais do filme. Lester e Carolyn pouco se preocuparam com Jane, mantendo com esta uma relação pouco próxima, enquanto o personagem interpretado por Chris Cooper procura controlar de forma violenta o filho. São maneiras distintas de educar mas ambas acabam por causar a revolta dos adolescentes, com o filme a lidar ainda com a sexualidade destes jovens e dos seus progenitores. Lester sonha de forma quase delirante com Angela, com a banda sonora a dar todo um tom distinto a estes momentos nos quais por vezes encontramos a jovem banhada de pétalas vermelhas de rosas. Existe algum lirismo e estranheza a rodear estes momentos, com a personagem interpretada por Mena Suvari a surgir como objecto de desejo, quase como fetiche de um homem de meia idade que parece procurar nesta jovem um meio de regressar a uma juventude já perdida. Mena Suvari tem em "American Beauty" um dos papéis de maior relevo da sua carreira algo irregular, interpretando uma adolescente fútil que pretende ser modelo e adora ser alvo da atenção dos homens, embora mais tarde até descubramos que a sua abertura a nível sexual é mais fanfarronice do que real. É o paradigma dos vários personagens do filme. Veja-se o caso de Carolyn, uma mulher ambiciosa, capaz de trair o marido, pronta a envolver-se sexualmente com Buddy Kane (Peter Gallagher), o dono de uma empresa imobiliária rival, considerado o "rei" do sector, enquanto não deixa de apresentar alguma indignação em relação ao comportamento do esposo. Annette Bening consegue expor o contraste entre a frieza desta mulher em relação ao casamento com o fogosidade que apresenta fora do mesmo, interpretando uma personagem materialista e pouco habituada a ser contrariada mas, ao mesmo tempo, não deixa de ser algo solitária. Ainda no campo dos adultos temos o personagem interpretado por Chris Cooper, um homofóbico violento que mais tarde descobrirmos ter um casamento de fachada escondendo a repressão em relação ao seu desejo por homens. A repressão sexual é outra das temáticas em foco ao longo do filme. Lester tem na masturbação os momentos de maior prazer, já que a relação sexual com a esposa pouco tem de vivaz, enquanto o Coronel Fitts esconde as suas verdadeiras orientações sexuais. Já Carolyn liberta o fogo entorpecido com Buddy, enquanto Angela revela-se mais contida do que seria de esperar e Jane inicia uma estranha relação com Ricky. A relação entre estes dois adolescentes é o paradigma do filme: marcada por uma enorme estranheza. São personagens solitários, apesar de Jane até ser amiga de Angela, com as suas bizarrias a complementarem-se na perfeição, com o argumento de Alan Ball, um elemento que viria a criar a aclamada série "Six Feet Under", a atribuir uma complexidade latente aos personagens que rodeiam o enredo de "American Beauty", uma obra cujo resultado final salda-se numa estreia marcante de Sam Mendes na realização de longas-metragens.

Entre a sátira e o comentário social sobre o american way of life, "American Beauty" apresenta-nos a um conjunto peculiar de personagens de classe média que carregam em si toda a estranheza, cinismo e vacuidade de um modo de vida onde o parecer está muito longe da realidade quotidiana. A maioria dos personagens que nos são apresentados não passam por crises financeiras, nem têm dificuldades notórias, nem problemas graves de saúde, nem podem ser considerados totalmente "bons" ou "maus", parecem apenas fartos da vida que levam, algo que "American Beauty" procura expor e explorar. Jane não se dá com os pais, nem pretende, ou melhor, por vezes parece que gostava de ser mais controlada mas evita o contacto, reservando dinheiro para colocar silicone nos seios apesar destes já terem um tamanho generoso. Ricky pouca ligação tem com os progenitores. Lester está farto de se ter transformado num "banana" que faz tudo o que lhe mandam, seja em casa ou no trabalho. Carolyn ambiciona ascender mais na vida e ter novas aventuras sexuais. O Coronel é homofóbico de fachada e bissexual. Angela quer ser modelo e finge uma vida sexual activa quando na realidade tudo não passa de uma fachada. É esta jovem sedutora, impertinente e provocadora que surge como gatilho para parte das alterações de Lester, surgindo aparentemente como uma espécie de fetiche deste por uma cheerleader e uma mulher mais jovem, mas aos poucos a vida do protagonista conhece mesmo grandes alterações. "American Beauty" é também um interessante estudo de personagem, ou melhor, de personagens, exibindo-nos as transformações dos mesmos, o modo como reagem às mudanças e acima de tudo como estes parecem ter mudado a um ponto em que já não se conhecem a si próprios. Veja-se o caso de Lester que já nem se recorda do tempo em que ouviu músicas dos Pink Floyd, enquanto a sua esposa pareceu começar a apreciar mais os luxos e o mobiliário caro do que os momentos de felicidade pueris que outrora fizeram com que a relação florescesse. Existe um momento em que Lester se recorda de vários momentos do passado e percebemos a forma pouco gratificante como a sua vida e a da família evoluiu, com este e a esposa a parecerem ter perdido o entusiasmo e capacidade de se amarem de outrora. Se não os conhecêssemos e apenas os víssemos de fora pensaríamos que os Burnham formavam uma família feliz, coesa, com uma enorme estabilidade emocional e financeira. Diz-se que quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro e no caso dos Burnham esta expressão popular adapta-se na perfeição. Existe uma enorme complexidade a rodear estes personagens aparentemente comuns, com Sam Mendes a conseguir ainda explorar algumas temáticas com algum humor negro, tais como o interesse de Lester em Angela, a traição de Carolyn e até a procura do protagonista em mudar de vida. Lester passa a querer viver um dia de cada vez, a procurar gozar o momento e acordar da letargia a que esteve sujeito, com Kevin Spacey a elevar este personagem que a certa altura deixa de surgir como elemento passivo para passar a activo. A transformação revela-se deliciosa de se ver, ao mesmo tempo que "American Beauty" reúne uma série de personagens com motivos para tentarem eliminar o protagonista. O assassino apenas é revelado no final do filme, enquanto o assassinato é exposto logo nos momentos iniciais pelo próprio protagonista, algo que deixa sempre um enorme mistério às causas para este acto. O desejo que este sente por Angela nunca chega a ser completamente traduzido na prática, embora sirva para este clarear posteriormente as ideias num enredo onde os personagens andam em constante convulsão sentimental. Mesmo Ricky, um jovem capaz de ficar minutos e minutos a observar a beleza do movimento de um saco a voar ao vento, também conta com os seus pecados e problemas, enquanto inicia uma relação com Jane.

Jane e Ricky são dois jovens estranhos, interpretados eficazmente por Wes Bentley e Tora Birch, que habitam um universo narrativo onde todos os personagens parecem querer dar um sentido à sua vida e aparecem frustrados por alguns dos seus insucessos. Enquanto Ricky parece saber apreciar os pequenos momentos do quotidiano, encontrando beleza mesmo onde esta não existe, já o universo narrativo dos adultos parece marcado pelo desencanto. O que terá conduzido estes personagens a mudarem tanto? Sam Mendes não inventa a roda a explorar a realidade de uma família de classe média mas apresenta de forma assertiva as mudanças que a mesma foi conhecendo ao longo do tempo. O trabalho, filhos, novos objectivos, comodismo, passagem do tempo, tudo parece contribuir para estas alterações nos personagens. Lester é algo cínico na forma como narra alguns dos episódios que o rodeiam, algo que se ajusta ao tom do filme, capaz de despertar alguns sorrisos, de ter alguns momentos dramáticos e até de algum erotismo, sempre sem descurar o drama e a representação da evolução destes personagens. As próprias casas destes personagens parecem reflectir muito daquilo que eles são. A casa de Lester é marcado pelo jardim cuidado ao pormenor pela esposa, mobiliário caro e pouco sentimento, algo exposto paradigmaticamente nos momentos ao jantar, onde os três elementos pouco falam entre si, tendo ainda de aturar a "música de elevador" escolhida por Carolyn. A habitação dos Fitts surge com uma arrumação notória, frieza e bizarria, algo latente no prato pertencente aos nazis que o pai de Ricky guarda com grande zelo. O pai de Ricky conta ainda com uma alargada colecção de armas, com Chris Cooper a conseguir expressar as contradições deste violento personagem. Diga-se que raro é o personagem de "American Beauty", um título que até se revela entre o irónico e o verdadeiro, tanto nos apresentando às belezas como às debilidades do american way of life, que não se contradiz. Não seremos nós todos algo contraditórios ao longo da vida? Estes personagens não são diferentes, embora a opinião que tenho sobre "American Beauty" mantenha-se desde a primeira vez que assisti ao filme: é um trabalho magnífico. Na altura tinha cerca de 15/16 anos, agora já cheguei aos 30. Os elementos que me fascinaram na época continuam lá todos, incluindo a hipnotizante banda sonora de Thomas Newman, as excelentes interpretações, o comentário ácido sobre a sociedade, a cinematografia de Conrad Hall (sobretudo nas cenas em que o protagonista delira com Angela), enquanto Tara Reid é exposta com uma beleza fascinante que nunca voltaria a atingir. Diga-se que Sam Mendes, oriundo do teatro, viria a comprovar ao longo destes anos que é um realizador versátil e para ter sempre em atenção, mesmo quando se insere no universo da saga "James Bond" e realiza "Skyfall", aquele que é um dos filmes que entra no meu top 5 da franquia. Entre a sátira ao modo de vida destes elementos de classe média e o drama, "American Beauty" surge-nos como uma obra marcada por uma atmosfera sedutora, uma banda sonora com uma relevância notória para a narrativa e um argumento capaz de explorar e fazer-nos questionar sobre as temáticas abordadas, num filme que conta ainda com algum humor negro e é capaz de dar espaço para o seu elenco sobressair em grande nível.

Título original: "American Beauty". 
Título em Portugal: "Beleza Americana". 
Realizador: Sam Mendes. 
Argumento: Alan Ball.
Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Wes Bentley, Allison Janney, Mena Suvari, Chris Cooper.

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