15 maio 2015

Entrevista a Marcelo Galvão sobre "A Despedida"

 Elogiado pela crítica e pelo público, "A Despedida" estreou em Portugal na edição de 2015 do FESTin, tendo sido agraciado com os merecidos prémios de Melhor Filme e Melhor Actor (Nelson Xavier). O Rick's Cinema teve a honra de entrevistar online o realizador Marcelo Galvão, a quem agradecemos imenso a disponibilidade para responder às nossas questões. Na entrevista foram abordados assuntos como a relevância dos festivais de cinema, a inspiração para a elaboração do argumento de "A Despedida", a entrada de Juliana Paes e Nelson Xavier no elenco, o próximo filme de Marcelo Galvão, entre outros temas. A entrevista pode ser lida já de seguida. 

Rick's Cinema: "A Despedida" estreou no Festival do Gramado, tendo sido exibido em diversos festivais ao redor do Mundo. Qual é a importância que atribui aos festivais de cinema para a divulgação dos seus trabalhos cinematográficos?

Marcelo Galvão: Se hoje tenho algum reconhecimento, é simplesmente fruto dos prémios que ganhei com meus filmes nos festivais, pois de 6 longas, só um realmente estreou no cinema. A mídia espontânea que é gerada quando você ganha algum festival importante como Gramado ou a Mostra Internacional de São Paulo faz com que o seu trabalho fique conhecido por um público muitas vezes maior do que aquele que você conseguiria atingir com o dinheiro reservado para a divulgação do seu filme. Sou um produtor independente e que por isso depende muito da mídia espontânea para os meus filmes.

RC: Tal como "Colegas", "A Despedida" volta a ser bem recebido pelo público e pela crítica. Para si, quais são os principais motivos para a boa adesão gerada por estes dois filmes?

MG: Acho que são filmes que abordam temas universais, por isso a identificação do público. Quanto a crítica, creio que seja porque esses dois filmes são, cada um de sua forma, verdadeiros,  bem feitos e que nos fazem acreditar nos personagens.

RC: Ambos os filmes são baseados em pessoas próximas ao Marcelo Galvão. No caso de "A Despedida", procurou pesquisar sobre mais elementos com problemas de locomoção e da idade do Almirante ou o argumento foi todo inspirado na história do seu avô?

MG: O argumento foi todo inspirado na história do meu avô. Eu presenciei essa degeneração que ele sofreu com seus últimos anos de vida e a vontade que tinha de viver e de se encontrar com a sua amante, 55 anos mais nova que ele. Porém houve muita pesquisa sobre filmes de terceira idade e sobre pessoas nessa situação degenerativa, onde a locomoção torna-se factor fundamental para a independência dessas pessoas.

RC: Um dos elementos que mais sobressai em "A Despedida" é a representação digna que efectua de um personagem idoso que lida com uma série de dificuldades inerentes à idade, algo para o qual muito contribui a interpretação magnífica de Nelson Xavier. Pode falar­-nos um pouco do trabalho de composição do personagem, quer a nível do argumento, quer no trabalho com o actor?

RC: Esse era um personagem muito difícil para eu encontrar, pois a maior parte dos actores que passam da metade da vida, não querem falar sobre o fim dela, ainda mais da decrepitude. Tive a sorte de ter Nelson no meu filme, mas para que ele se torna-se um senhor 20 anos mais velho do que é tivemos que fazer alguns laboratórios assessorados por um grande médico amigo meu chamado Paulo Muzy. Além disso mostrei vídeos do meu avô para que ajudasse o Nelson na composição do seu personagem. A ideia era que ele tivesse uma alma juvenil, porém com um corpo envelhecido obrigado a lutar contra todos os seus desejos de viver. 

RC: Como surgiu a entrada do Nelson Xavier e da Juliana Paes no elenco de "A Despedida"?

MG: Filmei um curta publicitário com a Juliana um dia após ter ganhado o festival de Gramado com o filme Colegas, então, no set do curta, a Juliana me disse que gostaria muito de fazer um filme comigo. Contei para ela o roteiro e ela adorou. Fui para casa e fiz uma lista de 10 nomes de grandes actores brasileiros na faixa dos seus 70 anos. Apresentei para ela, sem dizer que o Nelson era a minha preferência, pois queria que ela escolhesse sozinha, já que precisava muito haver uma sinergia entre os dois actores. Por felicidade minha ela escolheu o Nelson de cara.

RC: As cenas entre Nelson Xavier e Juliana Paes são das mais marcantes do filme, sobressaindo a enorme dinâmica entre ambos. Já estava tudo planeado no argumento ou deu espaço aos actors para improvisarem?

MG: O roteiro é muito simples, com poucas falas, mas ao mesmo tempo bem profundo, por isso fiz um laboratório com os dois actores durante alguns dias para que tudo saísse do jeito que imaginava. Uma vez encontrado o caminho, tudo saiu do jeito que queríamos, sem muitos improvisos, mas com total liberdade dentro do texto.

RC: A certa altura de "A Despedida", o Almirante salienta que "o meu problema não é ser velho, é ter sido jovem". Apesar das limitações físicas do Almirante, o filme nunca cai no drama excessivo, com o protagonista a ser um homem bastante espirituoso. Durante a elaboração do argumento procurou fugir aos estereótipos associados aos personagens na terceira idade?

MG: Sim, quis fazer do jeito que via o meu avô, um homem fora dos estereótipos dos personagens da terceira idade. Um jovem vestido em um corpo envelhecido e estragado pelo tempo.

RC: O Marcelo realizou o documentário "Lado B: Como Fazer um Longa Sem Grana no Brasil". Com o sucesso dos seus trabalhos mais recentes tem conseguido um financiamento maior para os seus filmes ou o orçamento continua a ser um problema? O problema também se aplica à distribuição a nível comercial?

MG: Captar recursos sempre será um problema, porém, quando você fica mais conhecido e tem trabalhos reconhecidos pela crítica e pelos festivais, suas chances aumentam nos editais de cinema. Porém a distribuição a nível comercial é sempre o maior problema nosso, pois todas as políticas de incentivo ao cinema brasileiro estão directamente ligadas quase, única e exclusivamente, a produção. São muito filmes feitos no Brasil que não conseguem ir para o cinema. Eu mesmo tenho 4 longas que não foram para o cinema e um que estou tentando colocar.

RC: Se as informações que li não me traem, o seu próximo trabalho é o western "O Matador", um filme que vai ser protagonizado por Seu Jorge. O que nos pode dizer sobre "O Matador"?

MG: Esse filme será um western, ambientado em 1930, interior de Pernambuco, época do cangaço. Seu Jorge é o protagonista, ele faz o papel de um matador que quando bebé foi abandonado na mata para os bichos o comerem, mas um cangaceiro o achou e resolveu lhe criar. Isolado de tudo e de todos ele cresce aprendendo tudo na arte de matar. Quando adulto, vai à cidade em busca do pai desaparecido e descobre que ele trabalhava como matador para um francês que comanda o comércio de pedras preciosas. Em um território sangrento, segue seu instinto e como bicho feroz  se torna um dos matadores mais temidos do sertão.

Aproveitamos para voltar a agradecer a Marcelo Galvão pela disponibilidade demonstrada. A entrevista foi efectuada no âmbito da cobertura da edição de 2015 do Festin: http://bogiecinema.blogspot.pt/2015/04/festin-2015-resumo-da-cobertura.html

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