02 abril 2015

Resenha Crítica: "Yojimbo" (1961)

 "Yojimbo" marca o regresso de Akira Kurosawa aos filmes de época, com o cineasta a deixar-nos perante um ronin aparentemente cínico que chega a uma cidade que se encontra a viver dias conturbados devido ao confronto entre Seibei (Seizaburo Kawazu) e Ushitora (Kyū Sazanka), dois elementos que procuram reunir apoios para disputarem o controlo do território. Este ronin auto-intitula-se de Kuwabatake Sanjuro (Toshiro Mifune), surgindo como um indivíduo sem grandes posses, acompanhado pela sua espada, algo insolente, que se prepara para tirar proveitos do confronto entre Seibei e Ushitora. É um personagem sem grande rumo que chega a este território onde a lei raramente consegue prevalecer, utilizando a sua inteligência e sentido de estratégia militar para colocar os gangs de Seibei e Ushitora em confronto. Sanjuro é interpretado por Toshiro Mifune, um colaborador habitual de Akira Kurosawa, que volta a emprestar o seu carisma e capacidade de sobressair através dos seus gestos corporais a um personagem a quem dá vida. Mifune atribui a este personagem um estilo meio despreocupado em relação ao seu destino e aqueles que o rodeiam, ao mesmo tempo que nos convence da capacidade de Sanjuro para o combate. Este chega a uma espécie de estalagem onde conhece Gonji (Eijirō Tōno), um indivíduo pouco dado a conflitos, que logo se preocupa com as convulsões que este personagem pode trazer ao local. A cidade é apresentada inicialmente como um espaço algo desolador, onde o crime impera e um cão a andar com uma mão humana decepada na boca parece ser algo de natural. O vento e a poeira marcam o território, bem como o espaço desértico que o rodeia, enquanto a sonoplastia adensa o som da ventania que se acerca deste local. A sonoplastia é utilizada com acerto para exacerbar sons como o vento a bailar por entre estes homens prontos a trazerem consigo a morte, ou as balas disparadas pela única pistola do local, ao mesmo tempo que a areia circula ao ritmo feroz dos sentimentos. Um dos poucos indivíduos que parece prosperar nesta cidade desoladora é o vendedor de caixões, com o seu negócio a encontrar-se de vento em poupa diante do elevado número de mortes que ocorrem. A juntar a este cenário temos ainda elementos facilmente capazes de serem corrompidos, tais como Tazaemon (Kamatari Fujiwara), um vendedor de seda e actual líder da cidade que se encontra a viver às custas dos fundos de Seibei. Temos ainda Tokuemon (Takashi Shimura), o produtor de saqué, um elemento apoiado por Ushitora tendo em vista a ocupar o lugar de Tazaemon. Para aproveitar este universo narrativo conturbado, o protagonista logo elimina com uma facilidade e engenho notáveis três homens ligados a Ushitora, tendo em vista a infiltrar-se junto do clã de Seibei. Consegue ser contratado, mas facilmente descobre que Orin (Isuzu Yamada), a esposa de Seibei, pretende que Yoichiro (Hiroshi Tachikawa), o filho do casal, elimine-o assim que o conflito contra Ushitora estiver concluído. Sanjuro finge estar convencido do acordo financeiro com o clã de Seibei para participar na batalha contra os elementos de Ushitora, acabando por desistir da mesma quando se encontrava prestes a começar ao revelar que ouviu a conversa de Orin. O conflito parece estar prestes a desenrolar-se, mas a notícia da chegada de um representante da justiça leva a um adiar do banho de sangue que se preparava para diminuir o contingente humano do território.

Os jogos entre o protagonista e os gangs não se ficam por aqui. Um desses ardis do protagonista acontece quando rapta dois elementos contratados por Ushitora para assassinarem um oficial da justiça, com Sanjuro a "vender" os dois criminosos a Seibei. Pouco depois revela a Ushitora que Seibei raptou estes elementos gerando-se um imbróglio que vai ainda envolver Unosuke (Tatsuya Nakadai), o irmão mais novo do primeiro, um indivíduo violento que conta com uma arma de fogo, a única no território. Acompanhado muitas das vezes por Inokichi (Daisuke Katō), outro dos seus irmãos, um indivíduo que se auto-intitula de muito forte mas apresenta um medo latente de fantasmas, Unosuke circula pelas ruas com uma arma de fogo, não tendo problemas em utilizá-la, entrando em confronto com o protagonista quando percebe que é ludibriado pelo mesmo. Aparentemente frio e pragmático, Sanjuro toma uma atitude reveladora de enorme humanidade quando salva Nui (Yoko Tsukasa). Esta é casada com Kohei (Yoshio Tsuchiya), um agricultor que perde os seus bens para Ushitora, incluindo a esposa, numa dívida de jogo, com este último a oferecer a mesma a Tokuemon, algo que leva o protagonista a eliminar os guardas e reunir Nui com o marido. Os dois fogem, algo que promete trazer mais problemas a Sanjuro, que não só terá de conseguir desenvolver uma jogada para colocar os gangs em conflito e destruírem-se, mas também vai ter de lutar pela sua sobrevivência. Sanjuro acaba por ser brutalmente agredido por Unosuke e um elemento da confiança deste, conseguindo escapar com vida e preparar a sua vingança numa história que, como podemos perceber, foi imensamente copiada por Sergio Leone em "A Fistfull of Dollars". Ambos os filmes ganharam o seu lugar icónico na História do Cinema, com Akira Kurosawa a voltar a deixar-nos perante um personagem capaz de efectuar actos de heroísmo ainda que de forma relutante, um pouco como os protagonistas de "Seven Samurai". No caso de "Yojimbo", o protagonista praticamente elabora os seus gestos de forma isolada, surgindo como um samurai sem senhor em plenos anos 60 do século XIX, no final do Xogunato Tokugawa, procurando ganhar dinheiro a enganar uns quantos criminosos que se encontram a contaminar os cenários do filme com a morte, crime e violência. Esta é uma cidade onde o crime predomina sobre a lei, com Akira Kurosawa a criar toda uma atmosfera de pessimismo a envolver o enredo, onde não faltam as célebres cenas à chuva das obras do cineasta, mas também todo um cuidado na criação e utilização dos cenários. Veja-se quando Sanjuro ludibria os dois clãs para participarem no combate e assiste ao mesmo num plano mais elevado, com a colocação dos personagens a parecer ter sido arquitectada com enorme rigor, ao mesmo tempo que a utilização do deep focus permite que assistamos com enorme pormenor às movimentações do grupo e às atitudes do protagonista. Diga-se que o deep focus é utilizado com enorme acerto para incrementar a narrativa, bem como a utilização da iluminação, sobressaindo as cenas nocturnas nas quais a luz surge apenas proveniente das habitações deste cenário, marcado por dois grupos em conflito e um samurai exímio do ponto de vista estratégico e do combate. As cenas de acção são emotivas, com Akira Kurosawa a não poupar a destruição de cenários como a fábrica de seda ou o local onde Tokuemon aprovisiona saqué, tal como não poupa a exibir o talento de Sanjuro a utilizar a espada.

O talento de Sanjuro para o combate não o impede que seja espancado, tal como a sua personalidade aparentemente pragmática não o impossibilita de formar amizade com Gonji, um dos vários personagens secundários que tem espaço para sobressair ao longo do enredo. Eijirō Tōno forma uma dupla por vezes meio cómica com Toshiro Mifune, com o primeiro a interpretar um elemento que parece evitar os conflitos a todo o custo, enquanto o segundo dá vida a um personagem que parece querer lucrar com a violência mas também pacificar de vez a cidade. Sanjuro é um indivíduo mais complexo do que inicialmente pode parecer, mesclando pragmatismo e sentimentalismo, deixando-se levar muitas das vezes pelas emoções, apesar de as procurar esconder através da sua "capa" de samurai duro e inflexível. Se Sanjuro demonstra uma certa humanidade, já Unosuke é precisamente o oposto, com este indivíduo a surgir como um criminoso pronto a matar, quase sempre acompanhado pela sua pistola enquanto Tatsuya Nakadai atribui a este indivíduo uma aura quase sempre temível. Já Daisuke Katō interpreta um elemento que se assume como perigoso embora apareça muitas das vezes como algo caricato e patético, naquele que é provavelmente um dos elos mais fracos do clã de Ushitora. Ficamos perante um território onde a morte permeia os cenários, as areias surgem muitas das vezes desabitadas e quando o contingente humano aparece é para trazer consigo a morte. Tal como "Yojimbo" influenciou claramente "A Fistfull of Dollars", também Akira Kurosawa, muito provavelmente se terá inspirado nos westerns, com Sanjuro a surgir quase como o protótipo do "cowboy solitário". Vale ainda a pena realçar o facto de Akira Kurosawa se ter inspirado em "The Glass Key", um filme noir realizado por Stuart Heisler que teve como base o livro homónimo da autoria de Dashiell Hammett, com o protagonista a parecer partilhar algum do cinismo dos protagonistas deste subgénero. Akira Kurosawa parece ainda ter aproveitado mais uma vez uma obra que se desenrola no passado para comentar elementos do presente, algo latente ao ficarmos perante uma sociedade em mudança. Veja-se logo nos momentos iniciais quando Gonji salienta que agora todos pensam em ganhar dinheiro fácil no jogo, ao mesmo tempo que ficamos perante um filme de época onde o poder central pouco parece conseguir fazer para controlar o crime. Nesse sentido, Sanjuro vai procurar aproveitar-se do crime que reina pelo território para lucrar com o mesmo e, ao mesmo tempo, pacificar a cidade ao destruir os dois grupos rivais. É um estratega nato, tal como Akira Kurosawa demonstra uma habilidade exímia para trabalhar as imagens, compondo alguns planos que ficam claramente na memória pelo seu rigor e alguma simetria. O próprio guarda-roupa surge adequado ao ideal da época representada, com "Yojimbo" a aparecer como mais uma recomendável obra do currículo de Akira Kurosawa. Poucos são os personagens moralmente recomendáveis, com o próprio protagonista a surgir como um ronin que se procura aproveitar da disputa entre os dois gangs que o procuram contratar como "segurança", embora apresente laivos de humanidade que o vão colocar em perigo. Este está longe de representar o samurai leal ao elemento que o contrata ou ao seu senhor, procurando antes não se comprometer com os dois lados da barricada, provavelmente já "escaldado" de episódios de outrora, com Akira Kurosawa a subverter a representação do samurai, indo ao encontro das críticas que tinha feito em obras como "Drunken Angel" relacionadas com a excessiva obediência e sacrifícios que a sociedade japonesa já tinha feito ao longo da sua história. A presença da arma de fogo remete para o facilitar da morte graças aos avanços tecnológicos, algo que pode surgir como um comentário relacionado com as bombas nucleares, uma situação que chegou a atemorizar o protagonista de "I Live in Fear", um filme realizado por Akira Kurosawa. Os momentos finais de "Yojimbo" são intensos e inquietantes, surgindo como o culminar de uma obra onde a violência aumenta de forma gradual e Toshiro Mifune volta a exibir o seu enorme carisma.

Título original: "Yojimbo".
Realizador: Akira Kurosawa.
Argumento: Ryuzo Kikushima e Akira Kurosawa.
Elenco: Toshiro Mifune, Tatsuya Nakadai, Yoko Tsukasa, Isuzu Yamada.

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