17 abril 2015

Resenha Crítica: "The Wind Rises" ("As Asas do Vento")

     Reconheço desde já que a ideia de escrever uma crítica a um filme do Miyazaki nunca me encheu de especial confiança. Quanto ao motivo, explico-o imediatamente: acontece que penso que por mais que puxe pela minha imaginação, nunca conseguirei fazer justiça a qualquer uma das suas obras. Não unicamente por achar difícil descrever as suas personagens, inicialmente misteriosas mas posteriormente admiráveis, que podem tomar a forma tanto de espíritos como de animais selvagens, de terem quatro patas ou duas longas asas, e possuírem narizes de porco ou bigodes de gato ou, por vezes, não terem focinho de todo. Nem sequer pela dificuldade em desconstruir as suas fantasiosas histórias, desenroladas em universos inimagináveis com criaturas fantásticas e paisagens pintadas à mão, em períodos temporais muitas vezes incertos. Não; a minha resistência advém de um aspeto mais profundo e mais abstrato, relacionado com a aura de inocência que envolve as obras de Miyazaki. Nem sei bem como hei de me explicar; como raio é que se descreve uma aura?
     Antes de mais, que fique perfeitamente claro que esta atmosfera de ingenuidade não significa que as suas obras sejam particularmente lamechas ou excessivamente felizes. Aliás, aquela que mais me apraz ("Princesa Mononoke") até é particularmente funesta, ao desenrolar-se no meio de uma guerra feroz onde perecem centenas de criaturas inocentes. O verdadeiro fenómeno, parece-me, é a invulgar honestidade que o cineasta consegue incutir aos seus simpáticos protagonistas, a qual se reflete posteriormente nos seus relacionamentos com os demais. Esta honestidade desenvolve-se, frequentemente, em sentimentos afetuosos entre o protagonista e o seu interesse amoroso, representados de forma tão cândida que se torna facilmente contagiante. Absorvidos inteiramente para este mundo imaginário, damos por nós muitas vezes a conter inconscientemente as lágrimas do lado de cá do ecrã.
     Não sei bem se me consegui explicar e receio estar já a desbaratar palavras, mas asseguro o leitor que esta divagação tem a sua razão de ser. Em suma, a ideia que quero passar é que tendo em conta a originalidade dos filmes de Hayao Miyazaki, tenho a sorte de estar a tentar analisar um dos seus trabalhos mais simples. Desta vez não há criaturas míticas ou animalescas, nem uma narrativa de descrição complexa. Antes pelo contrário, a história de “The Wind Rises” até é relativamente convencional, alicerçando-se num contexto histórico bem definido pelo seu cineasta, o que já não sucedia desde o emocionante “Porco Rosso”, lançado em 1992, que tinha como protagonista um aviador italiano da Primeira Guerra Mundial que, na sequência de uma maldição, se transformou num carismático suíno.
     “As Asas do Vento” partilha ainda com esse filme a temática da aviação, o que, como se sabe, não é mero fruto do acaso, tendo a paixão de Miyazaki pelo voo sido já manifestada em algumas das suas obras, muitas delas guarnecidas de criaturas aladas de evidente importância (recordam-se por exemplo do jovem dragão marinho de “A Viagem de Chihiro” ou do feiticeiro Howl de “O Castelo Andante”? E da amável bruxa esvoaçante de “Kiki – A Aprendiz de Feiticeira”, enamorada de um jovem apaixonado pela aviação? Até a inacreditável criatura de “O Meu Vizinho Totoro”, a dada altura, começa a elevar-se do chão, apanhando-nos de surpresa).
     Apesar de todas estas semelhanças “As Asas do Vento” tem um carácter particularmente singular, havendo vestígios que nos indicam que é um projeto mais pessoal. Por exemplo, sabemos que, na realidade, o pai de Miyazaki detinha uma empresa que fabricava peças para os caças japoneses da Segunda Guerra Mundial, e que o filho (o agora cineasta), ao visitar uma fábrica numa ocasião singular, ficou entusiasmado pela forma como as peças se encaixavam engenhosamente umas nas outras. Não será, portanto, coincidência que o protagonista do filme em questão é precisamente o inventor desses aviões, o engenheiro Jiro Horikoshi. Informa-nos também um artigo do The Telegraph que, na sua infância, Hayao tinha um sonho recorrente em que se elevava do solo e começava a planar entre as nuvens, esvoaçando alegremente pelas povoações onde residia, sucedendo que por vezes, por um motivo qualquer, despenhava-se subitamente até embater no solo. Também não será seguramente por acaso que “The Wind Rises” se inicia com o protagonista a ter um sonho semelhante, no qual levanta voo e sobrevoa a sua aldeia num pequeno avião, até avistar por cima de si, e fazendo-lhe sombra, um dirigível negro e monumental, que começa a libertar bombas ocupadas por criaturas bizarras que o vão fazer despenhar-se no chão (e, por fim, acordar).
     Os pormenores mais evidentes da pessoalidade deste filme ficam-se no entanto por aí, pois a sua narrativa focar-se-á em ilustrar, essencialmente, a história atribulada do seu afável protagonista, desde a sua infância até ao pico da sua vida adulta, e podemos mesmo dizer que desde a conceção de um sonho até à sua concretização. A atribulada vida pessoal de Jiro, (maioritariamente inventada por Miyazaki), conjugar-se-á com a sua carreira profissional, não nos restando quaisquer dúvidas sobre a forma como uma era influenciada pela outra. Para a ilustração deste extenso período, como tantas vezes sucede neste tipo de obras biográficas, a narrativa recorre com alguma frequência a saltos temporais, neste caso concebidos com notável habilidade, tal a forma como os períodos mais importantes da vida do engenheiro coincidem com os eventos históricos mais relevantes do Japão e, nalguns casos, da Europa, na primeira metade do século XX.
     O primeiro episódio histórico retratado corresponde, precisamente, a uma das cenas mais memoráveis do filme, e, como é costume, para infortúnio do leitor, só descansarei até o ter descrito do início ao fim. Comecemos, portanto, por visualizar o nosso protagonista em meados da sua adolescência, com uns óculos de fundo de garrafa que contribuem para uma aparência estouvada e simultaneamente amável, todo encolhido numa locomotiva a vapor a caminho de Tóquio. Sentado a observar a paisagem verdejante através da janela, Jiro dá uma olhadela à sua volta e, através das suas grossas lentes, vislumbra uma senhora de pé a quem cede cordialmente o lugar. Posto isto encaminha-se para a extremidade da carruagem, abrindo caminho desajeitadamente por uma massa de rostos iguais, abatidos e com esgares de indiferença, transpondo uma porta que o leva para o exterior do longo veículo, a uma pequena plataforma. Aqui, espaçoso e mais confortável, saboreia o vento fresco com redobrado encanto, coloca na cabeça um chapéu branco para se resguardar do sol radiante e senta-se num degrau para ler um livro com tranquilidade. A sua acalmia, no entanto, será interrompida pelo surgimento, na plataforma adjacente, da carruagem vizinha, de uma jovem talvez mais nova do que ele, que ostenta um vestido claro e um chapéu condizente com um laçarote, e que se faz acompanhar de uma adulta de aspeto mais sério e mais responsável. Encantando-se com a brisa e deslumbrando-se com o panorama, a rapariga vê-se assolada por uma exultação espontânea e lembra-se inocentemente de recitar um verso de um poema em francês - Le vent se lève -, que é imediatamente reconhecido pelo futuro e silencioso engenheiro. Nada incomodado por esta súbita companhia, dir-se-ia até que muito antes pelo contrário, Jiro volta a abstrair-se na sua leitura mas, imprevisivelmente, durante a travessia de uma ponte, o vento ergue-se violentamente levando consigo o seu chapéu. Instintiva e decididamente a jovem estica-se em bicos de pés, desapoiando-se perigosamente na plataforma e afligindo o espetador pela iminente calamidade, e agarra com inesperada desenvoltura o chapéu que quase fugia. Novamente em segurança devolve-o ao protagonista, que, impressionado, até prossegue a declamação do poema que ela começara a recitar. Findo o breve encontro a jovem e a sua responsável reentrarão na respetiva carruagem, deixando Jiro entregue ao seu livro e às suas ponderadas reflexões.
     Poucos minutos volvidos, estando a locomotiva a aproximar-se do seu destino final, o protagonista enfrentará um episódio dramático. Anuncia-o um troar grave e aterrador, como que vindo de uma criatura emergida das profundezas da terra, e acompanha-o uma vaga negra de destruição vinda repentinamente do oceano, que se alastra para todas as direções ocultando a cidade de Tóquio. Impressionados por este repentino momento de devastação, observamos o desmoronamento de bairros inteiros, muitos deles engolidos pela terra, e testemunhamos os gritos dos seus residentes consumidos pelo desespero. Entretanto nuvens negras e monumentais erguem-se da massa de habitações, obscurecendo o céu à medida que um incêndio se vai propagando até às povoações da periferia. A locomotiva que transporta Jiro e outras dezenas de passageiros também fica inutilizada pelo tremor de terra, e é abandonada por uma multidão dominada pelo pânico que brada, sem fundamento, que a sua caldeira está na iminência de explodir. Abalado pelo acidente mas no controlo das emoções, o protagonista salta da carruagem para a berma dos carris do comboio e, olhando à sua volta como se afetado por um pressentimento, distingue entre a multidão a rapariga que lhe salvara o chapéu. A sua postura é agora vacilante, enquanto se debruça preocupada sobre a mulher que a acompanhava que, por ter fraturado a perna, não se consegue levantar do solo. Sem demasiadas hesitações o protagonista improvisa uma tala e carrega a mulher às costas, seguindo o êxodo dos passageiros em direção à cidade e repousando, por fim, às portas de um templo no interior de um bosque. No meio deste cenário caótico, no qual se amontoam dezenas de figuras anónimas e exaustas entre a parca segurança das árvores, o trio repousa por breves instantes. A urgência das circunstâncias, porém, inviabiliza a possibilidade de um descanso total, e apressa Jiro e a jovem a abandonarem a mulher ferida no meio da relva e a encaminharem-se para a metrópole prometendo regressar com o auxílio necessário. Dentro de poucos instantes chegarão à morada da família da jovem, de onde sairão dois homens robustos que, entre agradecimentos sinceros, seguem o protagonista para o refúgio das árvores, resgatando finalmente a mulher lesionada. Vendo a situação finalmente resolvida, Jiro despede-se sem olhar sequer para trás. Arrepender-se-á mais tarde, durante alguns anos, de não se ter lembrado de perguntar o nome da rapariga.
     Antes de prosseguir com a história há um simples aparte que desejo abordar, que poderá explicar a minha insistência na descrição deste episódio. Ao testemunharem esta cena de trágica destruição, os espetadores com mais cultura geral, entre os quais eu infelizmente não me incluo, terão reconhecido no referido cataclismo o Grande sismo de Kantō de 1923: um fenómeno terrível que abalou uma vasta zona do Japão causando mais de cem mil vítimas, originando uma tempestade de fogo que levou à devastação da cidade de Tóquio. Apesar de não evidenciar uma única morte que seja, a violência com que este episódio foi retratado comprova um princípio que separa este filme de todas as outras obras de Hayao Miyazaki, como o próprio reconheceu numa entrevista posterior: conforme nos disse o cineasta, enquanto o seu restante repertório foi feito a pensar numa audiência infantil – dessa, pelos vistos, já faço parte - “Nas Asas do Vento” destinou-se a um público adulto. Este pormenor explica o singular realismo da história, que se reflete nalguns planos assombrosos e pormenorizados que ilustram, de longe, as multidões impotentes em fuga, e que evidenciam a pequenez destas figuras face à monumentalidade das nuvens negras que se erguem no céu com aspeto ameaçador.
     Seja como for, a verdade é que Jiro Horikoshi parece ter ultrapassado este fenómeno sem demasiados sobressaltos, acabando por prosseguir os estudos e graduar-se com distinção na universidade, como um engenheiro dedicado à construção de aviões, encorajado nos seus sonhos pelo seu ídolo italiano e colega de profissão, o inspirador Gianni Caproni. Se eu fosse um blogger mais otimista, poderia até realçar a forma notável como a cidade de Tóquio se reergueu, e louvar os seus prédios reconstruídos e suas ruas novas e inclusivamente mais largas, mas é-me difícil conservar o otimismo quando estamos a chegar à década de 1930. E nem a propósito, passados alguns meses, são-nos expostos os efeitos da crise de 1929: ao viajar de comboio e posteriormente de táxi para os escritórios da Mitsubishi, onde acabara de ser admitido para começar a sua carreira profissional, Jiro testemunha um novo êxodo de rostos famintos que viajam do campo para a cidade, ancorados com desespero à possibilidade de nela arranjarem um emprego. Chegado novamente a um centro urbano observa-se mais uma cena particularmente angustiante, na qual um grupo de cidadãos exasperados acorre às portas de mais um banco acabado de falir. A abordagem da pobreza do povo japonês será, aliás, abordada de forma relativamente recorrente, e a dada altura é-nos mencionada a contraditória obsessão do governo pelo investimento nas tecnologias – entre as quais a da aviação – apesar de a sua população se compor de adultos e crianças tantas vezes afligidos pela fome.
A importância dada por Miyazaki à contextualização histórica evidenciar-se-á numa outra ocasião. Estamos mais ou menos a meio do filme, e o foco da narrativa direciona-se para a carreira profissional do protagonista que, apesar de se manter longe da estagnação, não está a corresponder às esperanças que nele tinham sido depositadas. A sua genialidade é indubitável, mas a tecnologia utilizada pelo Japão parece ser demasiado rudimentar para a concretização dos seus sonhos. Por este motivo a Mitsubishi envia-o por uma temporada para a Alemanha para assimilar as suas inovações tecnológicas, fazendo-o acompanhar-se do seu amigo Honjo, outro engenheiro, mais prático e menos sonhador, que lhe está sempre a cravar cigarros (outro sinal de que o filme não se destina bem a crianças). Neste cenário bem distinto do habitual, a atenção ao pormenor é verificável tanto na arquitetura das ruas, como nas feições e até nas roupas envergadas pelos transeuntes ocidentais, mas há uma alteração ainda mais importante na criação de uma atmosfera adequada à fase nebulosa da Alemanha de Hitler de meados de 1930, particularmente rígida e fria em mais do que um sentido. Neste sentido, não foi por acaso que Miyazaki fez este período coincidir com o advento do inverno, o que se torna particularmente relevante num episódio muito simbólico em que os engenheiros decidem dar uma volta pelas ruas germânicas às tantas da noite, encontrando-as tristes e desertas. A quietude deste ambiente, correspondente com o súbito silenciar da banda sonora de Joe Hishashi, será subitamente quebrado por três vultos apressados que rugem ameaçadoramente em alemão, e que prosseguem a sua corrida em direção a uma rua estreita. À medida que viram uma esquina e a luz de um candeeiro incide sobre as suas costas, vemos as suas sombras aumentarem de tamanho transformando-se em figuras arrepiantes. Os segundos que se seguirão levar-nos-ão a perceber que estamos na Noite de Cristal, um episódio negro da história da Alemanha desenrolado em novembro de 1938, no qual dezenas de indivíduos pertencentes ao partido de Hitler incendiaram ou destruíram as lojas e as residências de milhares de judeus, assassinando, espancando ou prendendo grande parte dos seus ocupantes.
     O enredo de “As Asas do Vento”, no entanto, não se fará somente de desgraças e, na sequência de outra experiência aeronáutica falhada, Jiro será encaminhado para uma estância de férias numa povoação campestre, provavelmente para descomprimir. O cenário é tranquilo e paradisíaco, um verdadeiro refúgio dos problemas mundanos, e está sempre abrilhantado pelo sol, por belas flores e por bosques frondosos. Confortado por estas agradáveis circunstâncias, o protagonista tentará ultrapassar as suas depressões através de uns aprazíveis passeios pelo campo. E veja-se só a sua sorte, logo na sua primeira caminhada, Jiro Horikoshi conhece uma rapariga. O encontro dá-se numa colina verdejante, em cuja base caminha um Jiro perdido nos seus pensamentos e, em cujo topo, senta-se uma jovem a pintar um quadro, resguardada por um chapéu-de-sol. Subitamente, o vento, até então agradável, ergue-se violentamente, levando consigo o chapéu-de-sol. Decidida e instintivamente o jovem persegue o inestimável resguardo, segurando-o em esforço com desenvoltura inesperada. Posto isto surge a correr colina abaixo um adulto mais velho, portador de um bigode e de uma aparência responsável, que descobrimos ser o pai da rapariga, que agradece ao protagonista pelo seu importante auxílio.
     Não sei se o leitor já adivinhou quem é esta jovem, mas penso que seja melhor esclarecê-lo para que não restem nenhumas dúvidas: é precisamente aquela que no comboio, há alguns anos, mais precisamente em 1923, salvou o chapéu do engenheiro. A revelação será contada no dia seguinte pela própria jovem, que informa ainda o atónito protagonista que, enquanto ele andava a desenhar aviões e a testemunhar as atrocidades do Reich, ela suspirava por uma nova oportunidade de reencontrar o seu herói. Escusado será dizer que a estadia de Jiro nesta estância de férias será inesquecível, pois nela crescerá um cândido romance.
     O cândido romance, tal como deve ser feito, não nascerá de um momento para o outro; antes pelo contrário, crescerá através de algumas interações gradualmente mais enaltecedoras entre os dois jovens apaixonados, que acabarão por contribuir para aquela aura de inocência que referi no início do texto. Os acontecimentos seguintes evidenciarão dois aspetos típicos das obras realizadas por Hayao Miyazaki: em primeiro lugar, a pureza do romance entre os dois protagonistas será passível de contagiar mesmo o mais cínico dos espetadores; em segundo, ao seu desenvolvimento seguir-se-ão momentos de relacionamento entre os seus intervenientes em que nada parece estar a acontecer, concebidos propositadamente para gerar empatia entre as personagens e o ingénuo espetador, preparando-o para o momento dramático que certamente se avizinha.
Por motivos que me parecem óbvios não revelarei os contornos desse dramatismo e, em vez disso, demorar-me-ei por mais uns instantes para abordar uma personagem encontrada na estância de férias, concretamente o estrangeiro Hans Castorp. O espetadores com mais cultura geral terão, porventura, reconhecido este nome, pois é o mesmo do protagonista do livro A Montanha Mágica, de Thomas Mann (como já salientei eu próprio não me insiro nesse grupo de espetadores, tanto mais que até já tentei ler esse mesmo livro numa ocasião, em meados da minha adolescência, mas desisti na ducentésima página pois pareceu-me que não acontecia nada). Na realidade, não obstante o seu nome, esta personagem foi na realidade inspirada em Richard Sorge, um espião soviético que chegou a trabalhar no Japão no início da década de 1940. Seja como for as referências à Montanha Mágica não se ficam por aí, sendo ainda facilmente discernível a coincidência entre o motivo que levou Castorp, (no livro), a chegar à Montanha e o destino reservado à namorada de Jiro Horikoshi.
     O relevo dado a esta singular figura é, aliás, um reflexo da importância dada por Miyazaki a cada uma das personagens que vão aparecendo pela narrativa, todas elas guarnecidas de traços distintivos que as tornam facilmente reconhecíveis. Assim, se na Mitsubishi sobressai Honjo, distinguível pelos seus constantes pedidos por cigarros, e Kurokawa, o patrão do protagonista, um homenzinho cómico e minúsculo daqueles que está sempre a demonstrar bondade, mas contrariado, na estância destaca-se Castorp, pela sua expressividade e pelo seu apego à rúcula, e na família de Jiro evidencia-se a sua irmã mais nova, que aparece perpetuamente zangada com o protagonista.
Mas este incontornável rigor, como tenho tentado salientar, não se restringe apenas às personagens, sendo extensível a praticamente todos os aspetos de “As Asas do Vento”. Veja-se a importância dada ao contexto histórico, estudado atentamente pela equipa do realizador, que, aliado à evolução do vestuário e dos meios de transporte, marca subtilmente a passagem do tempo; atente-se à banda sonora do compositor Joe Hishashi, (incontornável colaborador de qualquer obra de Miyazaki), perfeitamente adequada a cada momento em que se faz ouvir e capaz de manipular as emoções do espetador; observem-se ainda as belas paisagens pintadas à mão, ou os planos incrivelmente pormenorizados em mais do que uma ocasião; vislumbrem-se todos os cuidados prestados às personagens; saliente-se a inocência do romance entre Jiro e Nahoko e, finalmente, emocione-se o espetador com o seu culminar conturbado.
     É inegável que “As Asas do Vento” constitui um capítulo bem distinto da filmografia de Hayao Miyazaki, e penso ser provável que se me dissessem, há poucas semanas, que o nome de Adolf Hitler seria pronunciado uma vez que fosse numa das obras deste cineasta, pensaria estar a ser enganado. No entanto, encontramo-nos perante um capítulo mais frio e invulgarmente realista, que não tem medo de abordar um período negro da história do Japão; e, ao fazê-lo, defende a complexidade da vida humana, ilustrando as suas contradições: quer a de um governo que investia na inovação tecnológica enquanto o seu povo perecia à fome, quer a de um engenheiro apaixonado pela aviação forçado a construir máquinas de guerra. No final, curiosamente, “As Asas do Vento” acaba por constituir ele próprio um paradoxo, ao defender uma mensagem anti-guerra ao mesmo tempo que se centra no inventor de um avião militar.
     Em jeito de conclusão, resta-me reconhecer que “As Asas do Vento” sobressai pela inexistência de defeitos, destacando-se provavelmente como uma das cinco melhores obras da filmografia de Miyazaki. Pode não apresentar a criatividade ou a genialidade de obras-primas como “Princesa Mononoke” ou “A Viagem de Chihiro” e, se desejarmos compará-lo a filmes mais frios e realistas, podemos afirmar que não atinge o nível do monumental “Grave of the Fireflies”, realizado por Isao Takahata mas produzido, também, pelos estúdios Ghibli. No entanto, uma coisa é bem provável: consta que a notícia do abandono de Hayao Miyazaki do universo da realização provocou neste blogger a mesma reação que o término deste seu último filme – num olho uma lágrima de orgulho e, no outro, uma de emoção.

Ficha técnica:

Título original: "Kaze Tachinu"
Título em português: "As Asas do Vento"
Realização: Hayao Miyazaki
Argumento: Hayao Miyazaki
Elenco (vocal): Hideaki Anno, Hidetoshi Nishijima, Miori Takimoto, Masahiko Nishimura, Mansai Nomura, Jun Kunimura, entre outros.

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