23 abril 2015

Resenha Crítica: "The Wayward Cloud" (Tian bian yi duo yun)

 Devo salientar que "The Wayward Cloud" é o "filme perfeito" para vermos num Domingo à tarde com a família em casa, sobretudo quando existem pessoas como o meu pai que abrem a porta indiscriminadamente para realçar os resultados futebolísticos. O que estás a ver? É um filme do Tsai Ming-liang, mas isto não é pornografia!!! No entanto, logo nos momentos iniciais as imagens por vezes desmentem-me e mostram o quão louca e perturbada pode ser a mente deste brilhante cineasta, capaz tanto de doses de brilhantismo como em “Rebels of the Neon God”, “Vive l’Amour” e outros que tais, como de uma obra cinematográfica tão debochada e completamente louca como "The Wayward Cloud". Não falta sexo, números musicais bizarros e claro está temáticas típicas do cineasta como a solidão e alienação no espaço urbano, planos enquadrados de forma exímia de forma a parecer que o território afecta e se sobrepõe muitas das vezes ao indivíduo, o consumo de melancia e a falta de água (quando não é em excesso esta encontra-se em falta nas obras de Tsai Ming-liang). Se em "The River", as cenas de masturbação entre homossexuais na sauna eram expostas numa iluminação mínima, já em "The Wayward Cloud" Tsai Ming-liang expõe tudo sem grandes problemas, parecendo mesmo querer provocar o espectador e causar escândalo. O personagem principal de “The Wayward Cloud” é Hsiao-kang (Lee Kang-sheng), o protagonista de "What Time is it There?”, embora este também seja o nome do personagem interpretado pelo actor em "Rebels of the Neon God", "Vive l'amour", "The Skywalk is Gone", para além de obras posteriores como "I Don't Want to Sleep Alone" e "Stray Dogs", ou seja, se quisermos podemos fazer algumas teorias sobre a possibilidade do actor interpretar variantes do mesmo personagem. No caso de "The Wayward Cloud", conhecido em Portugal como "O Sabor da Melancia", Hsiao-kang é um conhecido actor pornográfico sem pudores em participar nos números sexuais mais bizarros. Veja-se desde logo no início do filme, quando se encontra com a sua colega de trabalho num momento de pinocada. Ela satisfaz-se a roçar meia melancia na vagina, até Hsiao-kang chegar e começar a lamber o fruto, furá-lo com o dedo, até utilizar como capacete e fornicar à séria com a sua colega de trabalho enquanto a equipa grava estes momentos. Não existe grande erotismo. A cena está entre o grotesco, o hilariante e o completamente idiota, com o momento em que Hsiao-kang coloca a melancia a fazer de capacete a ser no mínimo bizarro (ou o ponto máximo do "sexo com segurança"). Se pensarmos que "O Sabor da Melancia" saiu da mente do mesmo cineasta que colocou pai e filho a masturbarem-se um ao outro numa sauna por engano em "The River" talvez tudo faça sentido, com o realizador a elaborar uma obra cinematográfica caótica, irreverente, ultrajante, cómica, dramática e, por vezes, completamente idiota. Nestes momentos iniciais encontramos ainda Shiang-chyi (Chen Shiang-chyi) a regressar ao apartamento, provavelmente vinda de França, para onde viajou em "What Time is it There?" e protagonizou alguns momentos solitários, que nem uma aproximação do foro sexual com uma jovem de Hong Kong pareceu ajudar a quebrar. Diga-se que o sexo nas obras de Tsai Ming-liang nem sempre está ligado ao prazer ou amor, algo notório no filme mencionado, bem como em "Vive l'Amour" e "The River", com "The Wayward Cloud" a deixar-nos diante de um actor pornográfico que fornica para ganhar a vida, ou seja, onde poucas emoções verdadeiras são colocadas em prática. Provavelmente existem meios bem piores para colocar dinheiro na conta bancária ao final do mês mas isso não implica que Hsiao-kang pareça completamente satisfeito, bem pelo contrário.

É também nos momentos iniciais que, na casa da protagonista, descobrimos que existe uma notória falta de água, bem como o facto do preço da melancia e do seu sumo estar mais barato do que nunca. Ou seja, a melancia e o seu sumo servem para quase tudo no filme, incluindo para beber, para fornicar, para servir de capacete. Já a água está em falta, incluindo a canalizada, algo que preocupa os governantes de Taiwan. O calor parece ser mais do que muito, incluindo à noite, com Hsiao-kang e Shiang-chyi a aproveitarem o horário nocturno para se lavarem. Ela lava-se em sua casa, utilizando água engarrafada. Ele lava-se num espaço público até se iniciar um dos vários bizarros números musicais do filme. O protagonista surge praticamente nu, com parte da cara, dos braços e do tronco revestidos de uma espécie de brilhantes, enquanto as costas surgem cobertas por barbatanas (ou algo que se pareça) e este canta para a Lua. A partir daqui, se já parecia difícil levar (tendo em conta o filme até este termo tem de ser utilizado com parcimónia) "O Sabor da Melancia" a sério, depois do número musical entre o sentimental, o kitsch e o ridículo, Tsai Ming-liang facilita-nos um pouco a tarefa quanto à seriedade com que devemos encarar os episódios e as extravagâncias de uma obra cinematográfica que conta com diversos elementos transversais ao trabalho do cineasta mas uma clara mudança de tom em relação ao que estamos habituados a associar o mesmo. No entanto, é possível encontrarmos vários elementos associados aos trabalhos do cineasta: a alienação no espaço urbano; uma sociedade de consumo que permite aos seres humanos usufruírem de bens que supostamente serviriam para melhorar a sua qualidade de vida embora nem sempre isso simbolize felicidade para os mesmos; o sexo sem representar propriamente sentimentos amorosos; personagens fumadores; o consumo de melancias; a falta de água (ou excesso nos casos de outros filmes); a utilização da profundidade de campo; os planos maioritariamente fixos e de longa duração (excepção feita aos números musicais); poucos diálogos; a utilização eficaz das elipses, entre outros exemplos. A presença das melancias é ainda visível numa cena diurna, onde encontramos Shiang-chyi a deparar-se com uma presença notória desta fruta no meio do rio. O calor é abrasador, uma situação visível na própria iluminação mas também na utilização de um chapéu de sol por parte da protagonista, algo que contrasta com as fortes chuvadas que encontramos em outras obras cinematográficas de Tsai Ming-liang, tais como "Rebels of the Neon God", "Goodbye, Dragon Inn", "Stray Dogs", entre outras. Quando passa pelo parque, Shiang-chyi reencontra Hsiao-kang, com este a dormir num banco, enquanto se encontra à sombra. Esta logo pergunta se o personagem interpretado por Lee Kang-sheng ainda vende relógios (tal como no filme anterior), uma questão à qual este não responde, tendo em vista a omitir a sua profissão verdadeira. Hsiao-kang ajuda Shiang-chiy a retirar a chave da mala de viagem da protagonista, devido a ter ficado presa no asfalto. Os dois ainda jantam juntos, até Tsai Ming-liang avançar a narrativa no tempo e colocar o personagem interpretado por Lee Kang-sheng em plena acção no local de trabalho. É mais um momento caricato de sexo, com os elementos da equipa de filmagens a utilizarem água de um garrafão para fingirem que os protagonistas se encontram a fazer sexo numa banheira com o chuveiro a escorrer, embora, e surpreendentemente, esta nem seja a cena mais estranha do género.

O edifício onde são filmadas estas obras pornográficas parece ser o mesmo onde habita Shiang-chyi, com esta e o protagonista a formarem uma relativa proximidade. Pouco os vemos a falar, mas protagonizam alguns estranhos momentos de intimidade, quer quando Hsiao-Kang fuma um cigarro colocando o mesmo entre os dedos dos pés de Shiang-chyi, quer quando comem uma lagosta, quer no momento em que Tsai Ming-liang nos exibe apenas as sombras dos mesmos, entre outros exemplos. Esta não sabe que o personagem interpretado por Lee Kang-sheng é um actor de filmes pornográficos, algo que a vai deixar inicialmente surpresa. Lee Kang-sheng, actor-fetiche de Tsai Ming-liang tendo participado em quase todos os trabalhos cinematográficos do mesmo, empresta mais uma vez a sua capacidade muito própria de nos desafiar a procurar encontrar os sentimentos do personagem que interpreta, enquanto "The Wayward Cloud" nos apresenta a um retrato desencantado da indústria pornográfica. Os sentimentos exagerados e a variada panóplia de cores dos momentos musicais são contrastados com as cenas de sexo, onde uma actriz estar desmaiada não é motivo suficiente para as filmagens serem travadas. Existe ainda algum estranho humor nestas situações, tais como o momento em que a tampa de uma garrafa fica presa na vagina de uma actriz enquanto se masturbava com a mesma, já para não falar nos bizarros momentos finais ou o esperma que por vezes invade o ecrã. Tsai Ming-liang é um cineasta que sabe filmar e aquilo que faz, algo exibido paradigmaticamente quando Shiang-chyi observa Hsiao-Kang em pleno acto sexual durante as filmagens, separada por uma parede que praticamente gera o efeito de split screen, com o plano a deixar-nos diante daquilo que acontece dentro e fora da sala. Interpretada por Chen Shiang-chyi, outra das colaboradoras habituais de Tsai Ming-liang, esta mulher regressa ao território de Taiwan para se deparar perante uma realidade onde a água escasseia e a melancia é o fruto mais consumido. Diga-se que a melancia serve para quase tudo no filme. Seja para fazer sumo, seja para comer, seja para uma actriz pornográfica se satisfazer, seja para o actor pornográfico utilizar de capacete, seja para aparecer como motivo decorativo dos chapéus de chuva de um dos vários momentos musicais, não faltam melancias ao longo de um dos mais bizarros filmes de Tsai Ming-liang. É certo que este por vezes tinha procurado o humor em obras anteriores mas em "O Sabor da Melancia" este estica em demasia a corda e a paciência com o enredo a nem sempre funcionar. Os números musicais sobressaem mas pouco acrescentam de forma efectiva ao enredo (embora a loucura e o grotesco sejam latentes quando temos um número com um pénis saltitante), a relação entre a dupla de protagonistas convence-nos mas não nos agarra, enquanto Tsai Ming-liang volta a abordar várias temáticas e a utilizar diversos recursos presentes nas suas obras cinematográficas que facilmente permitem encontrar um ponto de ligação entre "The Wayward Cloud" e trabalhos anteriores. Entre a pornografia e o humor negro, números musicais espampanantes e relações desencantadas, personagens solitários e uma equipa pronta a filmar vários actos sexuais, "The Wayward Cloud" deixa-nos diante da procura de Tsai Ming-liang em desafiar possíveis barreiras narrativas e o espectador, numa obra cinematográfica caótica e irreverente que, para o bem e para o mal, não gera indiferença.

Título original: "Tian bian yi duo yun".
Título em inglês: "The Wayward Cloud".
Título em Portugal: "O Sabor da Melancia".
Realizador: Tsai Ming-liang.
Argumentista: Tsai Ming-liang.
Elenco:  Lee Kang-sheng, Chen Shiang-chyi, Yang Kuei-Mei, Sumomo Yozakura.

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