13 abril 2015

Resenha Crítica: "A Vizinhança do Tigre"

 Onde começa a realidade e termina a ficção em "A Vizinhança do Tigre"? Deambulando entre as margens do documentário e da ficção, esta obra cinematográfica realizada por Affonso Uchoa procura apresentar-nos a Juninho (Aristides de Souza), Menor (Maurício Chagas), Neguinho (Wederson dos Santos), Adilson (Adilson Cordeiro) e Eldo (Eldo Rodrigues), um grupo de jovens que habitam o bairro Nacional, localizado na periferia de Contagem (MG). Mais do que estar preocupado com o contexto dos adultos que rodeiam estes elementos, "A Vizinhança do Tigre" procura deixar-nos diante destes jovens que procuram reprimir o tigre que se encontra alojado nas suas almas e parece poder soltar-se a qualquer momento e resultar numa onda de rebeldia, enquanto esboçam uma luta para mudarem e "afiam as garras" para enfrentarem o destino. Affonso Uchoa filma o quotidiano destes elementos com um realismo notório, procurando criar uma espécie de docuficção tendo em vista a colocar-nos diante de uma dura realidade onde os episódios quotidianos aparentemente banais podem mesclar-se com tráfico e consumo de droga, armas na mão e um receio que a qualquer momento o rastilho de violência seja aceso. Esta procura de mesclar a improvisação e situações reais com a ficção foi salientada pelo próprio Affonso Uchoa numa entrevista a Felipe Fernandes para o site da Mostra de Cinema de Direitos Humanos: "Há no filme uma grande mistura entre o improviso e a direção ficcional. São poucas as cenas em que há puro improviso, sem direção e algum grau de elaboração dos diálogos. Em geral, repetíamos muito as cenas. As de diálogos, principalmente, com cenas que eram filmadas durante vários dias e com mais de 70 takes, por vezes". Esta situação atribui a "A Vizinhança do Tigre" um valor acrescido ao mesmo tempo que Affonso Uchoa cria algo que parece apenas poder ser totalmente apreendido após diversas visualizações, tal o número de nuances exibidas ao longo desta estranha obra cinematográfica que contamina a realidade de ficção e vice-versa, ao mesmo tempo que nos deixa diante de um grupo de jovens que até podem querer mudar mas parecem demasiado presos a este espaço e a este estilo de vida. São jovens algo problemáticos que vivem num meio adverso, embora Affonso Uchoa procure fugir aos convencionalismos da representação do território apresentando-nos a uma multitude de personagens que estão longe de serem apenas influenciadas pelo espaço onde habitam. Veja-se que encontramos um casal que contraiu matrimónio, com o tráfico de droga e as ameaças de violência a contrastarem com a seriedade e os sonhos de muitas destas gentes. Nesse sentido, tanto vemos estes jovens a divertirem-se de forma algo inconsequente como qualquer um da sua idade, como os encontramos em actos nem sempre recomendáveis. Essa situação é notória quando nos deparamos com a presença de elementos como Juninho e Neguinho em amena cavaqueira, quer a insultarem-se, quer a cantarem, quer a divertirem-se, quer a fumarem, com o primeiro a já ter contado com alguns tempos em reclusão numa instituição prisional, tendo ainda de lidar com as consequências desses actos. Diga-se que logo no início do filme encontramos este a escrever uma carta para um amigo que se encontra detido, tendo a consciência das dificuldades pelas quais passam quando estão presos num estabelecimento prisional. "A Vizinhança do Tigre" não julga os seus personagens, parecendo antes procurar que os compreendamos com os seus defeitos e virtudes, bem como ao território que habitam.

As casas, na sua maioria, são degradadas, as roupas que estes usam não são as mais caras, os próprios personagens sabem disso e até chegam a brincar com essa realidade, mas esta situação não é utilizada para um retrato maniqueísta para explicar os comportamentos negativos destes elementos, bem pelo contrário. Diga-se que o bairro da cidade de Contagem (MG) é um espaço próximo a Affonso Uchoa devido a habitar no mesmo, criando uma obra muito pessoal que conquistou o público e a crítica na 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes (venceu o Prémio da Crítica e o de Melhor Filme pelo Júri oficial), algo que gradualmente se entende com o desenrolar de "A Vizinhança do Tigre". O argumento foi pensado com os próprios actores, inspirado em episódios reais, embora trabalhados de forma ficcional, com os elementos do elenco a serem não profissionais. Na interessante entrevista concedida por Affonso Uchoa ao Cinefestivais, o realizador comentou o peculiar desenvolvimento do filme e do argumento: "Quando João Dumans e eu fizemos a primeira versão do roteiro, já tínhamos oito meses de filmagens acontecidas e mais ou menos 30 horas de material filmadas. Então foi uma sedimentação de algo que já tinha passado e uma espécie de preparação para o que a gente ainda ia passar. Esse roteiro foi reinventado a cada dia de filmagem. A maioria das cenas que a gente tinha pensado não foi filmada. Era um roteiro muito diferente, sem nenhuma escrita de diálogos e apenas uma lista de cenas e de ideias junto com um longo texto meu pensando quem seriam esses personagens". Affonso Uchoa procurou aproximar-se do seu bairro com "A Vizinhança do Tigre" e ao mesmo tempo aproxima-nos do mesmo numa obra cinematográfica que transgride por completo as barreiras que lhe podemos catalogar. Não é documentário. Não é totalmente ficção. Não é a realidade. É algo que aos poucos sentimos e descobrimos, uma realidade apresentada de forma ficcional que retrata um quotidiano nem sempre exposto no grande ecrã com a assertividade de "A Vizinhança do Tigre". Um dos elementos que mais sobressai no enredo é Juninho, em grande parte devido à sua complexidade e carisma. Este é um elemento em liberdade condicional, que trabalha nas obras, fuma droga, vê-se na contingência de ter de traficar, gosta de se divertir e procura mudar de vida, tendo em Neguinho um dos seus melhores amigos. Veja-se quando utilizam os sons de músicas no telemóvel para simularem letras dos próprios num misto de infantilidade e irreverência, surpreendendo este lado distinto de dois jovens que levam vidas nem sempre fáceis. Nos momentos de lazer ainda os encontramos a apanhar e comer tangerinas, a insultarem-se mutuamente em tom de brincadeira muito típico de jovens da sua idade, a fumarem, entre outras situações que são contrastadas com outras mais sérias. Os momentos onde fumam parecem ainda surgir acompanhados de uma certa procura de afirmação masculina, com Juninho a exibir que não fuma cigarro de mulher ao contrário de Neguinho, enquanto o fumo exala e estes jovens têm um momento de descontracção num território florestal. No grupo de jovens temos ainda elementos como Menor, um indivíduo que gosta de andar de skate embora a sua mãe não aprecie esta actividade. A tábua do skate conta com a figura de Snoop Dogg, com a cultura dos EUA a parecer estar presente nestes jovens que em alguns momentos se revêm nestas celebridades que apresentam personas algo à margem da sociedade. Menor ainda se encontra a estudar, embora as notas não sejam as melhores, por vezes fuma drogas, participando em brincadeiras tão infantis como pintar a cara com corrector ao lado de Neguinho, um elemento que conta com uma arma. Temos ainda Adilson e Bruna, um casal que se casa e comprova que este território também é feito de esperança, algo ainda representado na mãe de Juninho, uma mulher que procura que o filho entre no rumo certo. Este é um filme sobre as gentes da margem que procuram viver da melhor forma possível enquanto enfrentam a vida de frente. Sonham, esbarram com a realidade, cometem erros, mas parecem ter esperança que podem mudar as suas vidas. A banda sonora é em alguns momentos marcada pela canção "Eu Queria Mudar" do grupo Pacificadores que, em certa medida, se adequa aos personagens que habitam a narrativa de "A Vizinhança do Tigre", com a música a ter um papel de relevo no quotidiano destes elementos.

O elenco é bastante competente a interpretar versões algo ficcionais de si próprios, embora Aristides de Souza seja o elemento que mais sobressai como Juninho. Este é o personagem mais complexo. Trabalha, parece querer mudar de vida, mas tem de lidar com um assalto falhado no passado e a compra de uma arma, algo que conduz os vendedores da mesma a procurarem receber o dinheiro em falta a todo o custo. Este sabe que falhou e muito ao longo da vida. O destino não está todo nas mãos destes jovens mas uma parte pode ser alterada pelos mesmos. Juninho sabe disso, algo que salienta num diálogo com Menor: "(...)Eu já repeti muito de ano 'Zé'. Eu sempre fiz a mesma coisa. A mesma coisa. Os caras da minha idade anda tudo de motinha e carrinho novo. O que é que eu tenho 'Zé'? O que é que nós tem 'Zé'? (...) Este ano eu quero fazer diferente". O diálogo é mantido num momento onde fumam um charro, com Affonso Uchoa a exibir as dicotomias que atravessam estes jovens que procuram mudar apesar de cometerem uma diversidade de erros. Juninho procura ainda pagar as dívidas aos elementos que lhe venderam a arma e colocaram a vida em risco, procurando que Eldo se desloque ao local para cumprir esse desiderato. O jovem não tem todo o dinheiro, temendo o que podem fazer à sua pessoa, pelo que incumbe o conhecido de entregar uma parte da dívida, esperando que esta medida acalme temporariamente os elementos que pretendem cobrar o valor em atraso. A falta de flexibilidade dos criminosos despoleta que este se envolva no tráfico de droga para pagar as dívidas, uma situação que subtilmente expõe como estes jovens podem envolver-se neste mundo, mesmo que tenham vontade em mudar. Este é também um retrato realista e sentido sobre um bairro de gentes depauperadas, um espaço exposto com notório conhecimento, onde as paredes degradadas das casas estão longe de simbolizar a degradação moral das suas gentes. É verdade que estes jovens cometem erros. No entanto, também é certo que não deixam de sonhar, incluindo com a possibilidade de mudarem, com os momentos de lazer entre ambos a serem um exemplo dessa infantilidade e rebeldia que ainda marcam os seus quotidianos. A certa altura de "A Vizinhança do Tigre", encontramos um grupo de jovens a andar de skate, em momentos onde o toque das rodas com o asfalto parece proporcionar uma enorme liberdade, enquanto estes se locomovem sem um rumo aparentemente definido. Não sabemos como será o futuro destes jovens. O que sabemos é que Affonso Uchoa cria em "A Vizinhança do Tigre" uma obra cinematográfica assaz interessante que vagueia entre as margens da ficção e do documentário para nos apresentar a um grupo de jovens e ao bairro onde vive. Os diálogos incluem muitas expressões da gíria destes jovens, surgindo bem reais e sentidos, com "A Vizinhança do Tigre" a deixar-nos ainda em alguns momentos diante do silêncio entre estes personagens. Dá tempo para reflectirmos sobre os mesmos, bem como sobre o seu dia a dia e o espaço onde habitam, com Affonso Uchoa a não tentar que tenhamos pena dos mesmos, mas sim que fiquemos diante do quotidiano deste grupo restrito que nos apresenta para exibir uma visão do real mais lata. A certa altura do filme, Neguinho diz que gostava de ter uma arma para poder explodir com tudo. As armas são uma presença real no quotidiano destes jovens, bem como drogas, violência, mas também sonhos, esperança, divertimento e trabalho. Quem espera conclusões redentoras ou retratos redutores sobre estes bairros, é melhor desenganar-se em relação a "A Vizinhança do Tigre", com Affonso Uchoa a procurar antes criar uma obra cinematográfica que tenta transmitir uma realidade nem sempre conhecida, procurando respeitar os seres humanos e o território que retrata. No final parece que durante hora e meia fizemos parte deste quotidiano, com o trabalho de câmara a contribuir para essa proximidade, enquanto "A Vizinhança do Tigre" nos chega como uma obra cinematográfica que inicialmente causa estranheza, deixa-nos a questionar sobre o que será realidade e ficção e mostra o porquê de ter sido aclamada na 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Título original: "A Vizinhança do Tigre".
Realizador: Affonso Uchoa. 
Argumento: Affonso Uchoa, João Dumans, Aristides de Sousa, Maurício Chagas, Wederson Patrício, Eldo Rodrigues, Adílson Cordeiro.
Elenco: Aristides de Sousa, Maurício Chagas, Wederson Patrício, Eldo Rodrigues, Adílson Cordeiro.

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