21 abril 2015

Resenha Crítica: "Vive l'Amour" (Ai qing wan sui)

 A falta de diálogos em "Vive l'amour" apenas adensa o óbvio: o isolamento e a solidão a que estamos muitas das vezes sujeitos nos espaços urbanos contemporâneos. Tsai Ming-liang não tem contemplações para com os seus personagens. Coloca-os muitas das vezes isolados perante os espaços citadinos povoados de gentes e carros em movimento, um território em constante agitação, contrastando-o com os seus planos de longa duração (muitas das vezes fixos), habilmente compostos, prontos a deixarem-nos "saborear o momento", ao mesmo tempo que nos deprime em alguns momentos. Não é pela má qualidade do filme, bem pelo contrário, mas pela forma dura como este nos confronta com uma realidade que muitas das vezes até é a nossa, embora não a queiramos enfrentar em vários momentos. Trabalhamos, vamos para casa, trabalhamos, vamos para casa, trabalhamos, vamos para casa. Sim, a frase é repetitiva, mas também muitas das nossas rotinas e a destes personagens solitários. May Lin (Yang Kuei-Mei) é uma agente imobiliária que apresenta as habitações aos possíveis compradores, cola cartazes nas ruas, contactando o seu chefe por telefone, surgindo como uma das várias figuras solitárias da narrativa. Esta é seguida por Ah-jung (Chen Chao-jung), um indivíduo que a encontra num espaço de refeições de um centro comercial, com ambos a formarem uma estranha conexão, a ponto de May Lin o conduzir até uma casa que procura vender e fazerem sexo no local. Quem habita clandestinamente nesta casa é Hsiao-kang (Lee Kang-sheng), um vendedor de urnas, que procura cometer suicídio embora trave o impulso de cortar os pulsos de forma fatal, encontrando-se na habitação devido a ter furtado a chave da mesma. Fica surpreso pela presença do casal, embora mais tarde, após um atrito inicial, até forme amizade com Ah-jung, com ambos a ocuparem a habitação. Ah-jung e May Lin formam uma estranha relação, sem grande intimidade mas muito sexo, enquanto Hsiao-kang gradualmente exibe a sua homossexualidade, algo visível quando veste roupas de mulher. Este é um dos momentos de alguma estranheza que por vezes povoam as obras de Tsai Ming-liang, com o Hsiao-Kang a aperaltar-se por completo, fazer a roda e desfrutar do momento. Temos ainda os momentos em que se masturba, com Tsai Ming-liang a não poupar Lee Kang-sheng a alguns momentos meio caricatos como Hsiao-kang, um personagem que partilha o nome com o elemento que o actor dera vida em "Rebels of the Neon God". Por vezes quase que podemos pensar no personagem de "Rebels of the Neon God" como alguém que decidiu aventurar-se pelo negócio de vendas de urnas, tais as semelhanças entre os dois personagens algo alienados perante a sociedade que os rodeia. É sobre estes personagens que se debruça a narrativa, enquanto Tsai Ming-liang coloca o isolamento dos mesmos em contraste com os espaços urbanos que os rodeiam, representando de forma simultaneamente lírica e algo crua a alienação a estamos sujeitos no dia a dia.

Seremos nós um pouco como estes personagens? Ou Tsai Ming-liang estará apenas a falar para as almas solitárias, aquelas que foram ver a última sessão de uma sala de cinema prestes a fechar em "Goodbye, Dragon Inn" ou as figuras peculiares e sós de "The Hole" ou o monge que deambula calmamente em "Journey to the West", já para não faltar nos jovens rebeldes de "The Rebels of the Neon God" que não apresentavam grande rumo em relação à vida e ao futuro. Os filmes de Tsai Ming-liang, associados ao slow cinema, exigem alguma entrega da nossa parte, mas retribuem-nos com uma experiência capaz de despertar os sentidos e sentimentos. Em "Vive l'Amour", Tsai Ming-liang deixa-nos perante um conjunto de personagens solitários, marcados por uma estranheza profundamente humana. Lee Kang-Sheng, Yang Kuei-Mei, Chen Chao-Jung, os elementos que dão vida aos protagonistas, apresentam interpretações marcadas por algum minimalismo e sobriedade, convencendo como estes seres humanos algo alienados da sociedade. Lee Kang-Sheng e Chen Chao-Jung já tinham colaborado com Tsai Ming-liang em “Rebels of the Neon God”, a primeira longa-metragem realizada pelo realizador. Interpretavam personagens algo à margem da sociedade, aparentemente sem rumo ou objectivos cuja procura para desfrutarem dos prazeres proporcionados pela sociedade moderna nem sempre trouxe uma enorme satisfação ou capacidade de combaterem o tédio. Diga-se que também os personagens de "Vive l'Amour" lidam com os prazeres do consumo moderno, supostamente fornecedor de conforto mas ao mesmo tempo tão alienador. Não falta o supermercado com a presença da Coca-Cola, o centro comercial onde vastas gentes se reúnem e poucos se conhecem, o cinema preenchido por filmes dos EUA com Julia Roberts e Steven Seagal a sobressaírem nos posters. Em "Rebels of the Neon God" era James Dean quem sobressaía, pronto a efectuar um paralelismo com os jovens aparentemente sem rumo que habitavam o enredo, enquanto em "Vive l'Amour" parece ser mais importante realçar a sociedade de consumo neste espaço urbano de Taiwan. Tsai Ming-liang é exímio na atenção ao pormenor, seja no aproveitamento dos cenários, seja na atenção dada às particularidades dos personagens. Do cenário, sobressai desde logo o apartamento vazio que os personagens habitam, marcado por enorme modernidade, quer no seu design, quer na sua decoração, quer na vacuidade que representa. Veja-se que um jovem vendedor de urnas passa ali o seu tempo livre; um vendedor de "import/export" ou melhor de material roubado visita uma mulher solitária, enquanto esta vendedora utiliza o apartamento como se fosse seu. Tsai Ming-liang sobressai imenso na atenção que atribui aos gestos dos personagens que povoam o enredo, à forma como os seus actores expressam os seus sentimentos, mas também aos sons que envolvem a narrativa, enquanto estes elementos deambulam como figuras quase fantasmagóricas, prontas a sentir e a ter desejos sexuais, embora raramente pareçam pertencer a uma sociedade que não os integra. O apartamento que estes habitam temporariamente surge como um espaço quase à parte do Mundo real, onde exprimem os seus sentimentos, num território de Taiwan bastante povoado, embora o seu mercado imobiliário pareça estar bastante estrangulado, algo visível na incapacidade da protagonista em vender (ironicamente as urnas são um mercado em expansão).

 As dificuldades no negócio imobiliário e a alienação do ser humano na sociedade actual são temáticas transversais a "Vive l'Amour" e "Stray Dogs", com a mais recente obra cinematográfica de Tsai Ming-liang a abordar temas semelhantes. Diga-se que vamos encontrar ainda outros elementos típicos do cineasta, tais como os planos de longa duração, os personagens fumadores, a atenção dada à água (seja a ser bebida numa garrafa, a ser despejada num vaso, colocada numa banheira, entre outros exemplos), os personagens algo isolados da sociedade, para além da presença de Lee Kang-Sheng. A presença deste actor que esteve em boa parte das obras de Tsai Ming-liang eleva uma obra já por si brilhante, com este a ser muitas das vezes um enigma difícil de decifrar que aos poucos revela os seus verdadeiros sentimentos. Já Chen Chao-jung interpreta um personagem aparentemente mais confiante mas igualmente solitário que ganha a vida com negócios ilegais, apresentando traços muito semelhantes aos do elemento que interpretara em "Rebels of the Neon God". Temos ainda uma interpretação recheada de sentimento por parte de Yang Kuei-Mei, com esta a interpretar uma vendedora imobiliária com dificuldades no negócio que tem no sexo casual e nas saídas solitárias uma maneira de enfrentar uma rotina entediante. May Lin maquilha-se, veste-se bem, procura utilizar os seus discursos mais convincentes, mas isso não implica que seja bem sucedida a nível profissional e seja feliz no pessoal. No final, um choro convulsivo, doloroso, pronto a deixar bem presente a incapacidade de podermos esconder aquilo que nos vai na alma. É provavelmente um dos planos mais poderosos do filme, com Tsai Ming-liang a revelar-se mais uma vez um mestre na arte da observação do rosto dos seus personagens, dos seus corpos e sentimentos. May Lin bem tenta controlar-se, mas facilmente nos deixa condoídos perante um ataque de choro que exibe o desespero desta mulher. "Vive l'Amour" venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1994, exprimindo bem a aceitação que o filme teve junto da crítica, numa obra marcada por enorme humanidade. A certa altura do filme podemos ver May Lin a deambular solitária, a observar as montras das lojas, os posters dos filmes, com Tsai Ming-liang a dar tempo para explorar este momento que tanto exibe a solidão desta personagem, mas também o consumismo da sociedade contemporânea, exposto paradigmaticamente nos luxos destes espaços que parecem não conseguir cobrir as lacunas sentimentais destes elementos. A maquilhagem apenas esconde temporariamente algumas dores, o tabaco que os personagens fumam demasiadas vezes apenas é um prazer momentâneo, enquanto a realidade parece sempre mais difícil de enfrentar. Tsai Ming-liang revela-se ainda mais uma vez exímio em desafiar as nossas expectativas. Veja-se quando encontramos May Lin a lamber de forma entusiasta os mamilos de Ah-jung, quando esperaríamos que fosse o contrário, num dos vários momentos onde o cineasta nos troca as voltas, algo ainda latente quando encontramos Hsiao-kang a fazer a roda vestido de mulher. O cineasta volta ainda a representar um território urbano como um espaço de capaz de alienar o ser humano e isolá-lo, com o próprio apartamento a surgir localizado num edifício elevado, com o seu espaço a permitir algo tão improvável como May Lin nunca se cruzar com Hsiao-kang. De aparente simplicidade, "Vive l'Amour" coloca-nos perante a solidão do ser humano e a alienação do mesmo num espaço urbano, sempre com algum realismo e poesia, em mais uma obra cinematográfica magnífica de um cineasta associado à Segunda Nova Vaga do Cinema de Taiwan.

Título original: "Ai qing wan sui".
Título em inglês: "Vive l'Amour". 
Realizador: Tsai Ming-liang.
Argumento:
Tsai Ming-liang, Tsai Yi-chun, Yang Pi-ying. 
Elenco: Lee Kang-sheng, Chen Chao-jung, Yang Kuei-Mei.

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