09 abril 2015

Resenha Crítica: "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa"

 Quase sempre de cigarro na mão, barba por fazer, muitas vezes acompanhado por uma cervejinha, falas que variam sobre assuntos como mamas, drogas, trocadilhos com o nome Jesus, luta contra o espírito capitalista e o seu gosto por uma vida livre de amarras, Lucas (Marat Descartes) é um indivíduo imprevisível, que vive para o momento. Este é um dos dois protagonistas de "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa", um filme realizado por Gustavo Galvão, com o cineasta a remeter a origem deste personagem para uma tradição algo perdida no cinema brasileiro: "Fiel a uma tradição para a qual o cinema brasileiro deu as costas a partir da “Retomada”, a do cafajeste, o personagem de Marat Descartes estabelece uma conexão direta com alguns dos bastiões do nosso cinema marginal – O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla, 1968), O Anjo Nasceu (Júlio Bressane, 1969) e Bang Bang (Andrea Tonacci, 1971)". O outro protagonista é Pedro (Vinícius Ferreira), um indivíduo que deixou a irmã preocupada com o seu súbito desaparecimento. De óculos escuros, poucas falas, sabemos que Pedro foi despedido e tem poucas perspectivas para o futuro, envolvendo-se num conjunto de episódios algo rocambolescos com Lucas. Ao contrário do companheiro de viagem, Pedro é pouco expansivo, procura não beber e tem pouca experiência nestas andanças de circular à deriva pelas estradas. Pedro gostava de ser poeta mas tornou-se jornalista, tendo um emprego que o desmotivava e coartava a sua felicidade. Sabemos que a irmã encontra-se à sua procura mas, através de um diálogo desta com a ex-mulher de Pedro, descobrimos que pouco se falavam anteriormente. Pedro conhece Lucas na casa de banho de um café-restaurante na beira da estrada, com o segundo a ter uma estranha maneira de abordar o interlocutor que logo fica incomodado com o mesmo. Diga-se que Pedro tinha chegado num carro roubado, após um individuo tê-lo encontrado num posto de gasolina e ter pensado que este era um funcionário. Deu-lhe o dinheiro, deixou as chaves no carro e Pedro aproveitou o resto. No entanto, as maiores aventuras vão ser com Lucas, sobretudo nas estradas, com ambos a raramente parecerem ter um rumo certo. Depois do célebre diálogo na casa de banho, encontramos Pedro a conduzir o carro de Lucas, um veículo que também foi roubado, enquanto este último encontra-se no banco de trás muito bem acompanhado por Suely (Luma Le Roy) e Janaína (Klarah Lobato), duas belas mulheres. A sua conversa sobre seios logo conduz a que estranhamente convença Suely a exibi-los, com esta e a amiga a terem alguns momentos mais calorosos com o personagem interpretado por Marat Descartes. Estas querem ir para Cristalina, enquanto Pedro pretende ir para a Baía e posteriormente para o Recife. A diferença de destinos conduz a que estes as abandonem, algo que vão voltar a repetir com duas mulheres que conhecem num clube nocturno. Andam pela estrada, circulando por territórios desérticos ou marcados pelo mato, com Lucas a dominar muitas das vezes os diálogos e a parecer querer soltar um introvertido Pedro, ou melhor, pelo menos que este adira aos seus ideais. Pelo caminho encontram Jesus (Leonardo Medeiros), um traficante (ou como Lucas lhe chama é "contra-cultura") que lhes chega a oferecer transporte quando fogem da polícia após as autoridades terem recolhido o carro roubado. A entrada na carrinha de Jesus é a oportunidade para Lucas fazer muitos trocadilhos associados à religião, exibindo a sua vontade em quebrar mitos e a ironizar com tudo, a ponto de guardar charros no interior de uma Bíblia.

Na carrinha estes dialogam algumas tretas, peidam-se, até saírem e Lucas revelar o seu desejo em ir até ao Acre para ir buscar as sementes para produzir Ayahuasca, uma bebida psicadélica que é descrita pelo protagonista como a bebida dos "índios peruanos", os "xamãs de Jim Morrison", a "poção de Obélix", num dos muitos diálogos cheios de estilo deste elemento. Marat Descartes consegue mesclar a confiança e falta de rumo deste personagem que varia entre o sacana e o hippie. Jesus combina encontrar-se com estes em Varginha, entregando-lhes um estranho envelope, numa obra onde os episódios rocambolescos não se ficam por aqui. Não vão faltar peripécias a estes personagens, com Lucas muitas das vezes a parecer puxar pelos limites de Pedro ao máximo, enquanto este último encontra-se numa luta interior para se encontrar, um duelo interno no qual parece muitas das vezes sair derrotado. Estes viajam por uma série de cidades ao longo deste "road cerrado movie". Apesar de todas essas mudanças, Pedro não consegue deixar Brasília e os seus pensamentos completamente para trás, tal como nem sempre parece habituado a este estilo de vida. Está habituado a viver com regras e, de repente, depara-se com uma realidade onde as barreiras praticamente não parecem existir. Por um lado parece agradar-lhe, por outro não deixa de esboçar uma vontade de ligar de volta para a irmã, após os vários telefonemas desta. Ainda encontra uma mulher que procura pelo ex-marido e os dois filhos, em mais uma fase das suas peripécias, numa obra cinematográfica onde as estradas são o palco primordial de um enredo onde o interior dos carros pode ser cenário para os mais diversificados diálogos e momentos. A saída do protagonista de Brasília parece mais como um sintoma de uma época. Este é alguém que se encontrava isolado neste espaço urbano que tem vindo a mudar com o tempo. Até então estava preso a uma profissão e rotina aparentemente sem sentido, com o despedimento a deixá-lo ainda mais sem rumo, algo que o leva a fugir do local onde habitava, deixando quase tudo para trás, embora transporte consigo o telemóvel. Também não parece saber muito bem do que foge e aquilo que pretende com a fuga. É a avançar pelas estradas rodeadas pelos territórios desérticos que procura algum sentido, num filme a espaços existencialista, tanto contemplativo e recheado de silêncios como marcado por momentos emotivos e bem sonoros. Lucas e Pedro são duas figuras bastante peculiares. Pedro está quase sempre calado e nem sempre parece mostrar grande interesse nas falas dos seus interlocutores, embora forme um estranho elo de ligação com Lucas. O personagem interpretado por Vinícius Ferreira ainda se depara com uma estranha mulher em busca dos seus dois filhos, embora logo se procure livrar desta. Já o personagem interpretado por Marat Descartes procura exibir uma atitude solta e completamente livre, criando uma figura ficcional de si próprio para expor no exterior. Torna-se notório quando fala com as mulheres, mas também em diversas das suas histórias, que criou uma "capa" para se proteger, parecendo estar com tantas ou mais dúvidas do que Pedro. Um fala muito. O outro praticamente não fala. Ambos pensam sobretudo neles próprios, parecendo certo que não encontram grandes respostas para as suas inquietações, anseios e desejos, nem parece que o realizador Gustavo Galvão pretendesse dar as mesmas de forma cabal ao longo deste road movie muito pessoal.

Gustavo Galvão parece ter procurado inspiração no cinema marginal brasileiro mas também em escritores da Geração Beat, tais como Jack Kerouac, o autor de obras literárias como "On the Road". Tal como vem salientado no site do filme, a inspiração para o título "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" resultou da tradução de Claudio Willer para um trecho de "Uivo", um poema-manifesto de Allen Ginsberg. Como é salientado "O original, de 1956, começa assim: 'I saw the best minds of my generation, destroyed by madness, starving hysterical naked, dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix'. A versão de Willer, publicada pela LPM, em 1984, é assim: 'Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa'". Os dois protagonistas do filme fazem jus ao título e procuram "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa", ou melhor, avançam num bólide qualquer que encontrem ou de alguém que lhes dê boleia, numa jornada completamente livre de barreiras pelo Brasil Central. É quase sempre em Lucas e Pedro que se centra a narrativa de "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa". O primeiro encontro entre os dois, na casa de banho, meio homoerótica, marca desde logo a ambiguidade da relação de ambos. Lucas parece ser mais impulsivo e extrovertido, com Marat Descartes a interpretar com enorme energia, vigor e empenho um personagem nem sempre capaz de tomar as melhores decisões. Este procura conquistar belas mulheres e, se possível, livrar-se delas com a mesma facilidade, beber, fumar e fugir das responsabilidades, incluindo a de ser traficante. Vinícius Ferreira surge mais contido a interpretar eficazmente um personagem sem rumo, aparentemente sem grandes ideias em relação à vida, que inicialmente é um mistério para o espectador. Estes são os motores que fazem "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" carburar, enquanto cabe ao argumento dar-lhes a gasolina para o enredo manter-se bem vivo, com Gustavo Galvão a ter nesta sua segunda longa-metragem como realizador um road movie bastante recomendável que demonstra a diversidade e a força que o cinema brasileiro exibe nos dias de hoje (se soubermos procurar para além das "comédias da Globo", embora também importe aqui deixar a ressalva que nem todas são "de fugir"). O próprio filme, curiosamente, também efectuou um percurso muito interessante nas salas de cinema brasileiras, tendo sido exibido em dezassete cidades, tendo ficado cinco semanas em cartaz no Rio de Janeiro e São Paulo, para além de ter sido exibido na Mostra de Cinema de São Paulo e no Festival de Brasília, algo que ganha mais impacto se tivermos em conta que é uma produção distribuída de forma independente. Mérito para Gustavo Galvão que realiza um road cerrado movie marcado por momentos que variam entre o marcante e a aparente banalidade, diálogos existencialistas com falas puramente vulgares, ou não estivéssemos diante de uma peculiar dupla de protagonistas que envereda por uma jornada pelas estradas que está longe de proporcionar grandes respostas. A banda sonora é fulcral para a narrativa, com o trabalho composto por Ivo Perelman, a fazer-se sentir e a dar o tom para este road movie onde os sentimentos são muitas das vezes intensos. Não faltam sons de saxofone, mas também o tema sonoro "Demolición" da banda Los Saicos, para além de "Condom Black" de Otto, entre outros, com a música a ter um papel importante ao longo do filme.

"Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" deixa-nos assim diante de dois personagens pelas estradas, sem rumo, ou sem saberem aquilo que pretendem. Um parece confiante. Outro não sabe bem ao que vai. Deambulam por diferentes locais do Brasil, tais como Ouro Preto, embora o território de Brasília nunca saia da memória de Pedro, seja pelo hábito de lá habitar, seja pelo medicamento que necessita de tomar. A certa altura de "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa", Lucas salienta que todos somos "dependentes químicos do capital". Ao longo do filme parece certo que estes personagens procuram afastar-se dessa dependência, bem como da família, considerada pelo personagem interpretado por Marat Descartes como "uma droga pesada". Esta expressão serve paradigmaticamente para deixar em aberto que Lucas pode ter contado com problemas no passado com a família, numa obra que sobressai sobretudo nos momentos em que os personagens interpretados por Vinícius Ferreira e Marat Descartes encontram-se em conjunto. Pedro chega a chatear-se devido ao seu interlocutor não levar nada a sério, a ponto de combinar afastar-se do mesmo quando chegarem a Ouro Preto, mas o quotidiano destes dois parece demasiado próximo para não se voltarem a encontrar. Lucas quer ir para Machu Pichu, América, África, para o infinito, parecendo tão sem rumo como o seu interlocutor, embora apresente uma falsa confiança exposta nos diálogos. A masculinidade e heterossexualidade de ambos é muitas das vezes colocada em causa pelos seus interlocutores, com Gustavo Galvão a destruir em alguns momentos as figuras aparentemente machistas destes indivíduos sem problemas de largarem as mulheres onde lhes apetece, num road movie a espaços delirante e intenso que facilmente nos envolve para a jornada sem grande rumo desta dupla improvável. No fundo parecem dois tipos completamente solitários que, por acaso, se reúnem, formando uma dupla algo improvável ao longo das diversas deambulações pelas estradas. Os próprios diálogos contribuem para esta atmosfera algo delirante, com o apurado argumento de "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" a não poupar a religião, a família, o capitalismo, entre outros elementos, sobretudo a partir das falas do personagem interpretado por Marat Descartes. "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" estreia em Portugal na sexta edição do Festin, um dos poucos festivais de cinema nacionais a dar a devida atenção ao cinema brasileiro. Podemos não gostar de todos os filmes exibidos no certame, nem seria possível apreciarmos todos de igual maneira, mas a sua importância no panorama dos festivais nacionais é inegável, algo que a exibição de obras cinematográficas como "A Despedida", "O Rio nos Pertence", "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" e "Entre Nós", entre outras, demonstra de forma paradigmática. Road movie que procura abraçar e fugir a algumas convenções do género, "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" tenta recuperar elementos do cinema marginal brasileiro e da Geração Beat, deixando-nos à deriva pelas estradas brasileiras com a sua complexa dupla de protagonistas, enquanto estes deparam-se com o deserto, belas mulheres, restaurantes, clubes nocturnos e vivem um conjunto de episódios que permitem a Marat Descartes e Vinícius Ferreira explorarem as personalidades peculiares destes indivíduos a quem dão vida.

Título original: "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa". 
Realizador: Gustavo Galvão. 
Argumento: Gustavo Galvão, Bernardo Scartezini e Cristiane Oliveira.
Elenco: Vinícius Ferreira, Marat Descartes, Leonardo Medeiros, Catarina Accioly.

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