10 abril 2015

Resenha Crítica: "Um Filme Francês"

 A entrada de Cavi Borges no mundo da sétima arte é assaz interessante e por si só merecedora de diversos filmes. Uma lesão conduziu Cavi Borges a terminar a carreira no judo, até a decisão de abrir um clube de vídeo ou se preferirem "uma locadora" ter mudado a sua vida cinéfila, com este a ter procurado cultivar ao máximo o seu conhecimento. Produz uma imensidão de filmes e agora chega se não estou em erro pela primeira vez a Portugal com "Uma Filme Francês", uma obra cinematográfica onde as influências da Nouvelle Vague e dos filmes de Jean-Luc Godard parecem notórias. Não faltam as citações literárias e cinematográficas, um conjunto de protagonistas meio à parte da sociedade, por acaso um trio, um "Bando à Parte" que se une para fazer um filme. Esse trio é formado por Cléo Borges (Patricia Niedermeier), Michel (Erom Cordeiro) e Patrícia (Juliana Terra). Num determinado momento de "Um Filme Francês", Cléo observa e fala sobre a Cinemateca do Mam com um enorme fascínio tendo uma enorme consciência do legado cinematográfico que a antecedeu. Esta é uma cineasta que se encontra a realizar o seu primeiro filme, apresentando um notório fascínio em extrair os sentimentos mais verosímeis da parte da sua dupla de protagonistas enquanto deambula pelo território do Rio de Janeiro. Exibe uma enorme paixão pela arte, sobretudo pelo cinema, apresentando uma multitude de ideias que pretende colocar em prática que facilmente nos convencem da vontade que tem em fazer com que o seu primeiro filme resulte. De câmara na mão, criatividade à solta, alguma ingenuidade e muitas ideias, Cléo conta com o apoio de Michel e Patrícia. Ele é um actor que é fã de poesia, mulherengo e apreciador de cinema. Patrícia é uma actriz de teatro que participa ainda na peça Sarau das Putas. Diga-se que este é uma particularidade partilhada entre a personagem e a actriz Juliana Terra, com Cavi Borges a efectuar um jogo metalinguístico inteligente entre elementos da realidade que se mesclam com a ficção. Veja-se a própria presença da Cavídeo, a protagonista chamar-se Cléo Borges (numa alusão a Cavi Borges), entre outros elementos de uma obra cinematográfica que parece claramente influenciada pelos trabalhos de Jean-Luc Godard. Tal como Cavi Borges parece ser um claro admirador de Godard, também Cléo é apreciadora dos trabalhos deste cineasta, para além de outros cineastas associados à Nouvelle Vague. Essa situação é visível quando vai a um clube de vídeo alugar uma série de DVD's para expor a Patrícia e Michel aquilo que pretende para os personagens destes, com esta a seleccionar obras cinematográficas como "Une Femme Mariée" e "Vivre sa Vie", para além de ser fã de "Jules et Jim" de François Truffaut. Também "Jules et Jim" parece ter sido uma inspiração notória para Cavi Borges, tal como as obras citadas de Jean-Luc Godard e John Cassavetes. Veja-se a título de exemplo o momento mais caloroso entre Patrícia e Michel, com Cavi Borges a claramente inspirar-se numa cena muito semelhante de "Une Femme Mariée", onde era dada muita atenção às partes do corpo do casal infiel, bem como às suas falas ditas num modo algo poético. É uma clara homenagem a Godard e ao cinema esta que Cavi Borges nos apresenta, ao mesmo tempo que nos deixa diante dos bastidores da elaboração de uma obra cinematográfica, das inquietações que envolvem o trabalho do(a) realizador(a), bem como a forma como este(a) influencia os seus actores.

No momento mais quente entre Patrícia e Michel, já assistimos a um afastamento deste de Cléo, após ter mantido também um caso com esta, algo notório quando se encontram na praia e na casa de ambos ou trocam falas relacionadas com poesia. Cléo admira Charles Bukowski, William Shakespeare, ou melhor, esta ama a arte em geral, procurando efectuar o melhor filme possível. Por vezes é certo que ficamos a querer saber mais sobre as filmagens e o resultado final do filme realizado por Cléo, enquanto Cavi Borges nos envolve pelo processo criativo desta mulher, bem como a sua estranha e relativamente cúmplice relação com a dupla de protagonistas. É também na personalidade destes personagens algo deslocados da sociedade que se foca parte da narrativa, bem como nos relacionamentos que formam entre si. Cléo é uma apaixonada pela arte que se deixa consumir pelo seu trabalho e teme ter efectuado algo de convencional, iniciando um curto affair com Michel, para além de parecer ter formado amizade com Patrícia, a protagonista do seu filme. Patrícia é uma actriz com talento para o seu ofício que gosta de filmes americanos (mais uma fala a fazer recordar as obras de Godard), tendo no teatro outra das suas actividades profissionais. Michel é um indivíduo algo misterioso, meio sacana na sua relação com as mulheres, nem sempre capaz de expressar os seus sentimentos de forma aberta, que é capaz de conquistar Cléo e Patrícia. No início do filme encontramos o trio numa espécie de cascata, com pouca roupa e a exibir as suas emoções, num momento que serve também para Cléo ponderar uma cena do seu filme. Esta procura que os seus actores vivam os personagens, enquanto Cavi Borges consegue que o seu trio de protagonistas sobressaia ao longo do enredo, como este grupo pronto a desenvolver um filme acima da média. A personagem interpretada por Patricia Niedermeier parece não só partilhar o apelido de Cavi Borges mas também alguns dos seus anseios em relação ao trabalho final, com "Um Filme Francês" a ser a primeira longa-metragem que o cineasta realiza a solo com argumento do próprio (parece notório que a personagem interpretada por Patrícia Niedermeier conta com elementos inspirados em Cavi Borges). Surpreende pela sua capacidade de jogar com as referências de alguns dos mestres do cinema francês, pela sua eficácia em utilizar algumas técnicas que os mesmos empregavam nos seus filmes, criando uma obra cinematográfica que ainda tem o condão de nos apresentar às dificuldades da fruição criativa e da elaboração de um filme. É certo que Cavi Borges ainda não consegue jogar com as imagens e as palavras como Godard, nem desconstruir muitas das vezes a narrativa e apresentar a genialidade deste maravilhoso cineasta, mas não deixa de ser latente e impressionante que com poucos recursos "Um Filme Francês" surja diante de nós como uma obra cinematográfica que supera e muito a simples "piada" de encontrar as diversas referências. Veja-se o momento em que o trio dança, muito à "Band à Part", com Cavi Borges a expor a sua cinefilia ao mesmo tempo que homenageia Godard e cria algo de próprio. Temos ainda referência a "Blue Velvet" (o poster no quarto de Cléo), o nome de Cléo ter sido inspirado em "Cléo de 5 à 7", Patrícia inspirar-se em Anna Karina, Eron Cordeiro assumir uma faceta quase de Jean-Paul Belmondo, a Jim Morrison (na camisola de Michel), a cinemateca, entre tantos outros elementos. No entanto, apesar do texto poder parecer encaminhar nesse sentido, "Um Filme Francês" é muito mais do que um mero filme de homenagens, com Cavi Borges a procurar também criar algo de seu, um pouco como a sua protagonista numa obra cinematográfica filmada a preto e branco que se não tem elementos auto-biográficos deve andar lá perto.

 "Um Filme Francês" sobressai ainda pela sua cinematografia, sobretudo nos cenários exteriores e na já referenciada cena entre Michel e Patrícia, para além da utilização exímia dos close-ups, prontos a fazerem sobressair a expressividade dos elementos do elenco, para além dos planos detalhe que se destacam na homenagem a "Une Femme Mariée". Temos ainda planos gerais e de conjunto, com o cineasta a afastar muitas das vezes os personagens do espectador e a deixar os cenários sobressaírem, algo notório em momentos como a cena perto da Cinemateca ou a exposição da casa de Cléo, com o design a nível do cenário interior a parecer conjugar-se com a personalidade da protagonista (veja-se o gira-discos para ouvir a música em vinil, algo que mais uma vez indica o gosto desta mulher pelo passado). Se Cléo é a realizadora que pretende efectuar o melhor filme possível, já Michel e Patrícia interpretam um ex-casal de namorados que se reencontra passados quatro anos desde a separação. Ele era do interior e partiu para o Rio de Janeiro para seguir a carreira de actor. Ela é pianista e ganhou uma bolsa de estudos na Alemanha, tendo de fazer escala no Rio de Janeiro onde vai permanecer durante doze horas. O filme que Cléo se encontra a ser gravado centra-se no reencontro do casal, no reavivar de velhas memórias, tal como Cavi Borges procura recuperar diversas referências dos grandes filmes de outrora. Com uma banda sonora a preceito, diversas referências a mestres como Jean-Luc Godard e François Truffaut, Cavi Borges revela-se eficaz a fazer muito com os poucos recursos que tem à sua disposição numa obra cinematográfica que procura homenagear o cinema e os seus grandes mestres ao mesmo tempo que surge como um trabalho de um realizador a procurar vincar a sua voz no mercado brasileiro. Dizer que Cavi Borges não é Jean-Luc Godard nem François Truffaut é óbvio e o próprio deve estar completamente consciente disso. No entanto não deixa de ser um caso curioso de um cineasta que aos poucos tem procurado refinar as suas qualidades, tendo um trabalho profícuo como produtor e realizador, conseguindo colocar em "Um Filme Francês" algo de muito interessante. Veja-se desde logo o jogo entre a realidade e a ficção, com elementos da primeira a impregnarem a segunda, quer nos nomes dos personagens, quer nos espaços que os rodeiam, quer a própria História do Cinema. A realidade influencia imenso a ficção e vice-versa, algo já citado nos nomes dos personagens e na presença da Cavídeo mas também na própria apresentação do filme por parte de Cléo, com a sua casa a contar com elementos a interpretarem versões ficcionais dos próprios, a estreia pública do trabalho da protagonista ter sido filmada numa sessão de curtas onde o cineasta aproveitou um evento real para gravar uma situação deste filme de ficção. Os momentos em que encontramos Patrícia na peça de teatro foram realmente filmados durante a representação de Juliana Terra no local, entre outros exemplos que exibem mais uma vez o engenho de Cavi Borges em utilizar as limitações orçamentais para transformá-las em forças e criar algo de muito positivo que em nada envergonha o legado cinematográfico que este homenageia. Cléo está consciente do legado de grandes obras cinematográficas que a antecederam. Cavi Borges também. No final, fica a certeza que temos mais um nome interessante para acompanhar, apesar das enormes dificuldades que o cinema brasileiro tem em chegar a Portugal. Não é "Um Filme Francês" mas é um filme brasileiro, com os cenários e a cultura local a claramente influenciarem os personagens e o enredo, embora a influência francesa seja notória, com o clube de vídeo, hoje praticamente em desuso, a ter um papel fundamental na cinefilia dos mesmos. "Um Filme Francês" surge assim como uma agradável surpresa que facilmente nos transporta para o interior destes personagens bem vivos que não saíram de um filme de Jean-Luc Godard e François Truffaut, mas sim de Cavi Borges, um cineasta que revela uma competência notória em utilizar as referências a seu favor e criar algo que é seu.

Título original: "Um Filme Francês".
Realizador: Cavi Borges. 
Argumento: Cavi Borges.
Elenco: Patrícia Niedermeier, Erom Cordeiro, Juliana Terra.

1 comentário:

Luiz Carlos disse...
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