24 abril 2015

Resenha Crítica: "Stray Dogs" (Cães Errantes)

 Letargia e emoções fortes. Sons sufocantes e silêncios gritantes. Gentes que vivem sem rumo e massas anónimas que não parecem prestar atenção a tudo aquilo que as rodeia. Supermercados cheios de gente, onde tanto encontramos ávidos compradores como duas crianças que dependem das amostras oferecidas para terem alguma alimentação até o pai regressar do emprego. Paredes pintadas que geram estranhas atracções e espaços mal iluminados que pouco conforto parecem trazer. Momentos meio alucinados que despertam um inesperado sorriso que surgem em contraste com o enorme realismo incutido ao longo do enredo. Este é o universo narrativo que envolve "Stray Dogs", uma obra cinematográfica onde Tsai Ming-liang exibe mais uma vez as suas enormes qualidades para a realização cinematográfica, ao mesmo tempo que parece procurar contrariar toda uma lógica de velocidade inexorável que percorre o nosso quotidiano e alguns dos filmes actuais contrastando-os com os seus planos de longa duração, na maioria fixos e cheios de significado, mesclados com longos silêncios. A alienação do ser humano diante do espaço urbano que o envolve ou a sua inadaptação/rejeição ao mesmo é algo presente em várias obras do cineasta, algo notório em filmes como "Rebels of the Neon God", "The River", "Vive l'amour", "Goodbye, Dragon Inn", entre outros. Em "Stray Dogs" temos um pai (Lee Kang-sheng), o seu filho e a sua filha, e uma mulher que a certa altura surge na narrativa e presta algum conforto aos jovens, sobretudo a esta última. Não é um filme cujo enredo decorre a alta velocidade. É um filme para ser apreciado com tempo, alguma disposição e capacidade de procurar ver alguns pequenos pormenores que Tsai Ming-liang nos dá, num enredo que aos poucos praticamente nos transporta para o interior dos seus cenários desprovidos de grande cor e vida, onde uma parede com um mural se pode tornar algo de fascinante e um edifício recheado de fissuras parece simbolizar na perfeição os elementos que habitam temporariamente o local. Estes personagens parecem estar longe de serem felizes. Parecem longe de apresentar sinais de optimismo. Vivem aquilo que a vida lhes dá, com "Stray Dogs" a apresentar-nos aos actos destes personagens com algum realismo, num filme que nos assombra e seduz ao mesmo tempo que nos deixa diante das gentes que vivem nas margens e à margem da moderna cidade de Taipé (vale a pena realçar que o cineasta comentou que a cidade específica do enredo não é Taipé, embora o filme pareça remeter para esse espaço citadino). O elemento em maior destaque é o personagem interpretado por Lee Kang-sheng, um colaborador habitual de Tsai Ming-liang, que parece compreender como poucos aquilo que o cineasta pretende que este expresse (Tsai Ming-liang presta uma enorme atenção ao rosto do actor/personagem). As suas expressões e aparente passividade ou estranhos gestos são essenciais para procurarmos compreender os actos do personagem que o actor interpreta, um elemento que trabalha como sinaleiro publicitário. Pode estar a chover fortemente ou a avistar-se uma tempestade, podemos ouvir ventos poderosos a soltarem-se por entre os silêncios que percorrem a narrativa mas o protagonista mantém-se no seu posto até receber o seu pagamento diário. Os filhos, até lá, ou andam pela escola, onde nunca os vemos, ou pelos supermercados onde comem as amostras, ou deambulam sem aparente rumo. O mais velho guarda parte do ordenado diário do pai. A mais nova ainda é algo ingénua e não parece compreender muito bem que a vida por vezes pode ser uma valente merda. 

É um retrato algo desencantado das margens de Taipé, num tom muito próprio de Tsai Ming-liang, com o protagonista a efectuar publicidade aos edifícios modernos e bem aparentados que nunca poderá possuir. Não deixa de ser simultaneamente triste e irónico que este promova algo que não pode ter. Diga-se que ainda é mais irónico o protagonista promover as casas de uma empresa imobiliária chamada "Glória Distante" cujas habitações se encontram desabitadas, algo que se torna mais dramático se pensarmos que o personagem interpretado por Lee Kang-sheng se encontra sem casa (uma situação mais irónica que não é exclusiva a Taipé). O facto de encontrarmos um homem sem casa a divulgar habitações para venda remete para uma hipocrisia de uma sociedade que se continua a modernizar mas a esquecer-se muitas das vezes das suas gentes, com este "novo bem estar" a ignorar praticamente outros que se encontram em condições precárias, tal como o protagonista e a sua família. Tsai Ming-liang exibe-nos a forma como este e a sua família são ignorados pelo mundo que os rodeia, quais cães errantes e abandonados que habitam onde puderem e são obrigados a desenrascarem-se como conseguirem. "Stray Dogs" atormenta-nos com esta realidade, enquanto as suas imagens e os seus sons ficam gravados na memória. Os diálogos são poucos, algo típico dos filmes deste cineasta que prefere muitas das vezes deixar as imagens a "dialogar" com o espectador. As demonstrações de afecto nem sempre são exibidas, embora o quotidiano e os gestos que acompanham o mesmo sejam expostos com enorme realismo. Veja-se quando encontramos o protagonista a procurar retirar ao máximo todos os pedaços de carne e gordura que puder do frango que está a almoçar, ou momentos tão banais como ter de urinar no meio da mata devido a não ter uma casa própria, ou o quotidiano deste no pequeno espaço onde habitam. Este e os filhos lavam-se numa casa de banho aparentemente pública, habitando num edifício que se encontra abandonado, um pouco como estes personagens que povoam a narrativa de "Stray Dogs". As condições do espaço onde o trio habita são precárias, a iluminação é pouca (à luz das velas) e os sentimentos expostos com enorme sobriedade. Tsai Ming-liang não pretende puxar ao sentimento, não cria cenas para termos pena ou passarmos a nutrir mais simpatia ou antipatia pelos personagens, procurando antes deixá-los como figuras quase espectrais que deambulam à margem da outra realidade de Taipé, aquela que não figura nos cartões postais. São as "gentes invisíveis", aquelas que merecem pouca atenção de boa parte da sociedade, embora estejam bem vivos mas longe de integrados no espaço que as rodeia, que interessam ao cineasta, algo latente quando exibe um longo close-up do rosto do protagonista. É um dos raros momentos onde a face e individualidade do protagonista se sobrepõem ao espaço que o rodeia durante as cenas em que se encontra a trabalhar, enquanto este elemento entoa um poema num tom sentido, com as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto. Não é um homem de demonstrar muitos sentimentos, mas quando os exibe estes causam impacto. A juntar-se a estes elementos encontra-se uma mulher que trabalha num supermercado, prestando apoio aos jovens nos momentos em que se encontram sozinhos. Estes personagens parecem presos a um muro que os impede de avançarem na vida, de melhorarem as condições ou atingirem a felicidade, surgindo como enigmas que muitas das vezes não conseguimos decifrar. É muitas das vezes esta procura em conhecermos estas gentes, em acompanharmos os seus actos e tentarmos decifrar quem são, que nos prende a uma obra cujas maiores qualidades estão no poder que Tsai Ming-liang atribui às imagens e nas várias questões que nos coloca através das mesmas. 

Os diálogos são poucos e apresentam algum relevo, mas é nos silêncios que mais sentimos o filme, com Tsai Ming-liang a trabalhar as imagens com enorme acerto, numa obra dominada por planos fixos e de longa duração. Veja-se quando deixa a câmara nos rostos da dupla de protagonistas, enquanto estes observam atentamente o desenho da paisagem na parede. O desenho não é exposto durante um largo tempo. Tsai Ming-liang foca-se durante mais de dez minutos nos rostos dos personagens, enquanto os actores expressam uma vastidão de sentimentos que nos invadem a alma (quase a fazer recordar o plano onde assistimos à personagem interpretada por Yang Kuei-mei a desatar num choro convulsivo em “Vive l'Amour”). Por vezes parece óbvio que o cineasta usa e abusa da contemplação, por vezes parece que não existia volta a dar para este nos deixar diante de um filme onde a alienação humana diante da sociedade está muito presente. O título do filme é literalmente exposto num conjunto de cães abandonados alimentados pela gerente do supermercado, embora seja latente que os cães errantes sejam os protagonistas, figuras solitárias de um mundo moderno que parece adensar esta alienação. A entrada da estranha mulher ou de três estranhas mulheres (nunca fica claro se estamos diante de uma personagem ou de três) interpretada(s) por Yang Kuei-mei, Lu Yu-ching e Chen Shiang-chyi, vem (ou vêm) trazer um (ou vários) novo(s) elemento(s) ao enredo, com esta a procurar ajudar a pequena filha do protagonista. Esta hipótese de estarmos diante de três figuras femininas distintas é exposta de forma sublime no site Film Comment, com a primeira mulher a surgir no início do filme a observar as duas crianças a dormir, a segunda a ser a gerente do supermercado e a outra a ser uma figura feminina que ajuda a família. No entanto, após ter visto o filme duas vezes, continuo a acreditar que ambas formam uma única personagem feminina. Um dos encontros entre esta mulher e a filha do protagonista ocorre no supermercado, com a simpática gerente a ensinar a jovem a lavar correctamente as mãos, aproveitando ainda para lavar a cabeça da mesma, para além de lhe dar a conhecer parte do espaço. Esta ainda ajuda a petiz nos trabalhos da escola, participando no momento em que cantam os parabéns ao protagonista no dia de aniversário do mesmo. O facto desta gerente de um supermercado ser interpretada por três actrizes vem trazer uma dose de algum surrealismo ao enredo e ao modo como esta é vista pelos personagens, com Tsai Ming-liang a aproveitar a situação ao serviço do enredo, sempre de forma subtil. A pintura mural do edifício perto do espaço onde esta habita desperta uma estranha atenção no protagonista, bem como desta mulher, com ambos a protagonizarem um momento emocionalmente poderoso onde nunca chegamos a perceber totalmente se ambos tiveram um passado em comum. Também esta mulher habita num local obscuro, recheado de fissuras, pouco brilhante e memorável, com Tsai Ming-liang a parecer interessar-se pelos elementos à parte da sociedade, aqueles que ganham espaço para sobressair ao longo de "Stray Dogs". Essa atenção do cineasta aos elementos das margens é desde logo visível na forma como nos expõe ao quotidiano do protagonista no trabalho. De capa impermeável, anúncio preso pelas mãos, rosto algo cansado e vazio, o protagonista encontra-se parado, numa zona da estrada que permite aos carros que circulam, quer numa direcção, quer na outra, observar os escritos publicitários. Os carros em constante movimento contrastam com os trabalhadores praticamente imóveis independentemente das condições climatéricas. Fora do trabalho, este homem bebe, fuma, por vezes mais do que deveria, enquanto parece claro que não consegue dar as condições necessárias aos seus filhos, descurando muitas das vezes a educação dos mesmos. 

Vivem pelas margens, numa rotina nem sempre aprazível, por vezes até algo aborrecida para os mesmos. Os momentos em que talvez encontremos mais gente centram-se nas cenas dos jovens no supermercado. Gente e mais gente anda a fazer compras. Os jovens pretendem as amostras de comida grátis. É um universo narrativo algo desencantado este que Tsai Ming-liang nos apresenta num filme que apresenta um ritmo claramente contemplativo, pronto a deixar-nos diante dos pensamentos dos personagens e dos nossos, de apreciarmos cada plano, de observarmos com atenção as características de cada elemento que rodeia a narrativa. Se não incorro em erro não existem momentos com banda sonora não diegética, algo comum a filmes do cineasta como "The River", "What Time is it There?", "Vive l'Amour", entre outros. Já os sons que preenchem os cenários habitados pelos personagens são bem audíveis. Veja-se quando os dois jovens se encontram no supermercado, envoltos num cenário preenchido por largas gentes mas também por uma cacofonia de sons e diálogos nem sempre perceptíveis, típicos de um espaço do género em dia de muita clientela, para além de podermos salientar ainda os momentos onde os sons do vento e da chuva são sentidos. Os dois irmãos parecem apresentar uma relativa união. Não falam muito, mas essa é uma característica de quase todos os personagens que envolvem a obra, bem como da maioria dos protagonistas dos filmes de Tsai Ming-liang, com o cineasta a preferir deixar-nos muitas das vezes a tarefa de avaliarmos os seus sentimentos e estados de espírito. É tarefa assaz complicada avaliar o ser humano, tal como nem sempre é fácil deixarmos de ser assombrados por este universo narrativo criado por Tsai Ming-liang onde as fronteiras entre a realidade e a ficção se esbatem a um ponto onde avaliamos o nosso próprio papel na sociedade. As próprias interpretações dos actores e actrizes contribuem para o realismo incutido na narrativa, com estes a praticamente parecerem que estão a viver episódios reais, que são figuras que pertencem ao plano da realidade e não da ficção. Por vezes envolvem-se em momentos meio surreais, tais como o protagonista em estado alcoolizado a comer um repolho que fez parte de um boneco que os filhos colocaram na sua cama, após fingir que o sufoca, numa cena onde não percebemos se este é um desejo meio reprimido do personagem em relação aos petizes, ou se é só uma cena de pura parvoíce que a espaços quase nos faz esboçar um sorriso devido à forma ávida como se alimenta do mesmo. A narrativa é apresentada de forma nem sempre linear, não sendo sempre fácil de seguir e ainda mais difícil de largar ou tentar interpretar, sendo praticamente impossível percebermos tudo sobre estes personagens e os espaços que os rodeiam. As opiniões sobre filmes são sempre subjectivas. No caso de "Stray Dogs", Tsai Ming-liang cria uma obra que pode ser visionada dez vezes de seguida e muito provavelmente ainda andaremos em busca de algo novo para encontrar, redescobrir, interpretar e reinterpretar. Veja-se a cena na qual o protagonista decide entrar numa das casas modernas que se encontra a promover no trabalho, com a modernidade da mesma a contrastar com a precariedade das habitações deste e da mulher que tem um papel activo a partir da segunda metade do filme. Tsai Ming-liang já nos tinha apresentado quase um manifesto contra o cinema e a sociedade actual em obras como "Journey to the West", onde nos deixava perante um monge que andava de forma vagarosa, enquanto se encontrava num estado meditativo. Em "Stray Dogs", o cineasta volta a exigir que assistamos ao que tem para nos dar com um misto de enorme atenção e capacidade de contemplarmos as imagens, os sons, os gestos, mas também de pensarmos sobre o que estamos a ver. 

Os episódios que envolvem os protagonistas entroncam em problemas contemporâneos, não só de Taipé, mas também de outros locais, com Tsai Ming-liang a conseguir elaborar um retrato marcante destas gentes das margens onde os silêncios por vezes podem consumir mais a nossa atenção do que as palavras. Os próprios espaços algo degradados por onde estes habitam apresentam um papel fundamental, com o cineasta a parecer sobretudo ter em atenção os elementos que estão à parte, sejam estes as gentes, sejam as habitações e as pinturas. No caso da pintura da parede, o desenho foi elaborado na vida real por Kao Jun-Honn, um elemento que costuma desenhar em ruínas, tendo-se inspirado numa fotografia tirada em 1871 por John Thomson, um fotógrafo britânico, com Tsai Ming-liang a só saber do autor da obra de arte durante a pós-produção. Diga-se que o cineasta é exímio a aproveitar os cenários por onde filma as suas obras e as suas características. Recuemos a “Rebels of the Neon God” onde um poster de James Dean numa loja de jogos é utilizado para o cineasta efectuar um paralelismo entre os personagens e a persona do actor. Em “Rebels of the Neon God”, bem como em obras como “The River”, encontramos ainda temáticas como a unidade familiar dilacerada, bem como a alienação no espaço urbano, com “Stray Dogs” a remeter também para “Vive l'amour”, uma obra cinematográfica onde o mercado imobiliário parece estar bastante estrangulado, algo visível na incapacidade da protagonista em vender habitações. Diga-se que a cena na qual o protagonista entra numa das casas modernas às quais faz publicidade a espaços quase que nos faz recordar os estranhos personagens de “Vive l'Amour” a utilizarem uma casa que a protagonista ainda não conseguira vender. Em “Stray Dogs”, o protagonista faz publicidade a estas habitações que se encontram sem compradores, enquanto o próprio não consegue ter um local próprio ao qual possa chamar de lar. Tsai Ming-liang já nos tinha habituado a personagens algo à margem da sociedade, algo desde logo presente em "Rebels of the Neon God" e vai atravessar boa parte das obras do cineasta, com este a brindar-nos em "Stray Dogs" com vários dos elementos transversais às mesmas: Não faltam os momentos marcados por fortes chuvadas (a água ou falta dela tem de estar sempre muito presente nas obras de Tsai Ming-liang); o protagonista a fumar em excesso; os planos maioritariamente fixos; poucos diálogos; o espaço urbano como alienador do ser humano e capaz de adensar a sua solidão; uma sociedade de consumo que apresenta os bens mas não consegue trazer bem estar aos cidadãos; os personagens solitários; a atenção aos pequenos pormenores do quotidiano, entre vários elementos já assinalados que surgem transversais ao trabalho de um realizador magnífico. No final ficam os sentimentos, as imagens que nos marcam, as gentes das margens que povoam a narrativa, os gestos que não esquecemos e a certeza que no futuro iremos querer revisitar "Stray Dogs" e continuar a descobrir tudo aquilo que este filme tem para nos dar. 

Título original: "Jiao you".
Título em inglês: "Stray Dogs".
Título em Portugal: "Cães Errantes".
Realizador: Tsai Ming-liang.
Argumento: Tsai Ming-liang.
Elenco: Lee Kang-sheng, Lu Yi-ching, Chen Shiang-chyi, Chen Chao-rong.

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