03 abril 2015

Resenha Crítica: "Sanjuro" (Tsubaki Sanjûrô)

 O sucesso de "Yojimbo" conduziu a que o argumento de "Sanjuro" fosse adaptado, a pedido da Toho, de forma a funcionar praticamente como uma sequela, com Akira Kurosawa a ceder e fazer regressar o famoso Sanjuro, um ronin interpretado por Toshiro Mifune. O actor é essencial para que este personagem pragmático e algo rude funcione junto do espectador, incutindo muito do seu carisma e expressividade ao mesmo. Sanjuro é um estratega nato, hábil na utilização da espada, por vezes meio sardónico e disponível para participar em missões adversas, colocando-se regularmente do lado dos mais fracos, desde que isso implique estar a fazer justiça. Pouco sabemos do seu passado, para além de que em "Yojimbo" procurara dividir dois clãs criminosos, lucrar com a situação, limpar a cidade do crime e salvar um casal cuja mulher tinha sido mantida em cativeiro. Em "Sanjuro", apesar da violência ser mais contida, este volta a participar numa disputa de poder quando se envolve na procura de Kikui (Masao Shimizu), o Superintendente, em usurpar o poder de Mutsuta (Yūnosuke Itō), o Lorde Camareiro. Kikui procura transmitir uma falsa imagem de Mutsuta, em particular de que este pode ser corrupto, algo que conduz Iori Izaka (Yuzo Kayama), o sobrinho deste último, a aliar-se a oito samurais para discutirem a possibilidade de apoiarem o primeiro. No entanto, Izaka e os restantes samurais logo são interrompidos pela presença de Sanjuro, com este a procurar salientar que o traidor no interior do território é Kikui. Todos desconfiam de Sanjuro mas logo acabam por lhe ter de dar razão quando são atacados pelos homens de Kikui, liderados por Hanbei Muroto (Tatsuya Nakadai), um elemento que fica impressionado com a habilidade do protagonista para o combate, a ponto de convidá-lo para integrar o seu grupo. Izaka e os restantes samurais descobrem ainda que Mutsuta foi raptado pelos elementos ao serviço de Kikui, para além de que a filha (Reiko Dan) e a esposa (Takako Irie) deste último encontram-se em cativeiro. Escusado será dizer que Sanjuro vai traçar um plano para libertar estas mulheres e Mutsuta, procurando mais uma vez enganar o lado inimigo. Muito do enredo do filme desenrola-se nos esconderijos onde se encontram Sanjuro, Izaka e os restantes samurais, com o primeiro a nem sempre ser compreendido mas a ser capaz de recuperar as personagens interpretadas por Reiko Dan e Takako Irie. A esposa de Mutsuta é avessa à violência, mas Sanjuro tem de utilizar a mesma para ultrapassar os homens de Kikui, embora pareça muito mais consciente das consequências dos seus actos do que em "Yojimbo". A influência desta mulher poderá estar ligada a esta atitude, embora saibamos que mais tarde ou mais cedo Sanjuro terá de utilizar a sua espada e mostrar as habilidades que o tornam num indivíduo letal. Inicia-se um jogo de parte a parte, no qual Sanjuro procura que os elementos ligados a Kikui não saibam que os defensores de Mutsuta estão em menor número, com o protagonista a infiltrar-se no interior do grupo de Hanbei Muroto, um dos homens de confiança do líder inimigo, fingindo lealdade ao mesmo, de forma a descobrir informações sobre o paradeiro do Camareiro e os próximos passos dos antagonistas. 

É um jogo que este anti-herói nem sempre parece gostar de jogar mas também não se mostra avesso a essa ideia, surgindo exímio a conseguir desenvencilhar-se de situações adversas, algo que promete surgir como uma vantagem para Izaka e companhia. A perícia e habilidade de Sanjuro não implicam que um elemento no interior do grupo de Izaka desconfie do protagonista, mas aos poucos parece certo que, apesar de toda a sua arrogância e prosa abrutalhada, Sanjuro procura ajudar o lado do Camareiro. Diga-se que o filme procura de forma amiúde transmitir que as aparências enganam. Tal como muitos desconfiam do Camareiro devido à sua aparência e falas serem menos refinadas do que as do Superintendente, também assistimos a um desconfiar por parte dos elementos ligados a Izaka em relação ao protagonista. Este está longe de ser um elemento que segue as regras ou polido a nível de comportamentos, parecendo até muitas das vezes ser o personagem que rompe com o status quo que rodeia ambos os lados da contenda, ao mesmo tempo que exibe as suas habilidades estratégicas e gosto pelo saqué. Os elementos ligados ao Superintendente procuram que o Camareiro assine uma confissão de culpa por corrupção, algo que este recusa, procurando dificultar a vida aos seus raptores. Diga-se que raramente encontramos o Camareiro apesar de percebermos que este tem uma forte personalidade, uma situação visível na sua procura em não ceder diante dos inimigos, incluindo quando estes procuram que o mesmo cometa seppuku. Preparam-se alguns momentos violentos até à libertação do Camareiro, mas a Akira Kurosawa parece interessar sobretudo a estratégia preparada pelo anti-herói, os momentos em que procura expor os seus planos, convencer os aliados, enganar os adversários, até o embate final onde ficamos mais uma vez diante da habilidade do protagonista, onde o sangue jorra mas este pouco se mostra orgulhoso do seu acto. Este foi também um dos primeiros filmes de samurais onde o sangue aparece a jorrar de forma explícita no grande ecrã, num dos poucos momentos de violência brutal de "Sanjuro", com Akira Kurosawa a não poupar nas consequências do golpe final do protagonista. "Sanjuro" tinha inicialmente sido planeado como uma adaptação livre do conto "Hibi Heian" de Shūgorō Yamamoto, mas o sucesso de "Yojimbo" junto do público conduziu a que este personagem fosse introduzido na narrativa desta espécie de sequela, protagonizada pelo ronin que inspirou o "Homem Sem Nome" interpretado por Clint Eastwood. Diga-se que Akira Kurosawa também parece ter retirado mais uma vez muita inspiração dos westerns, em particular da figura do cowboy solitário, bem como das cidades marcadas por alguma insegurança, ao mesmo tempo que realiza uma obra marcada por uma maturidade latente na composição dos planos, contando com um bom trabalho de Takao Saitô e Fukuzô Koizumi na cinematografia. É notório todo um cuidado na composição dos planos quando os personagens se encontram no interior dos respectivos esconderijos, incluindo na disposição destes elementos nos cenários, com Akira Kurosawa a revelar-se mais uma vez exímio no aproveitamento dos espaços que povoam o enredo. 

A própria banda sonora de Masaru Sato contribui para alguma da tensão que rodeia o enredo, algo visível desde logo no primeiro terço do filme quando os elementos do Superintendente cercam o espaço onde se encontram Iori Izaki, os restantes samurais e Sanjuro. Estes parecem presos no interior de uma ratoeira na qual caíram, enquanto lá fora assistimos a um conjunto de homens a surgirem do interior da floresta, prontos a eliminarem estes personagens que confiaram no Superintendente. Como é óbvio, Sanjuro vai resolver o problema, após ter alertado inicialmente o grupo que o traidor era o Superintendente e não o Camareiro, algo que expõe desde logo o pragmatismo do protagonista a avaliar as personalidades e estes "jogos de poder". É a disputa pelo poder que está em jogo na procura do Superintendente em minar o trabalho do Camareiro, algo revelador de um poder central fraco (típico na representação deste período histórico), com o próprio sobrinho deste último a cair num ardil. No entanto, aquilo que mais sobressai ao longo do filme é mesmo a personalidade deste peculiar ronin numa narrativa que, tal como "Yojimbo", se deve situar no final do Xogunato Tokugawa. As contingências deste período conduzem a que muitos samurais tenham perdido a notabilidade de outrora e o seu senhor, com Sanjuro a exercer as suas funções praticamente a troco de comida, tal como é notório que existe um poder central fraco, incapaz de controlar estes focos de instabilidade na governação local. É óbvio que também existe um sentido de justiça por parte deste samurai, com Toshiro Mifune a ser dos elementos que mais sobressai no interior do elenco, sobretudo por conseguir que o humor inerente a alguns actos do personagem que interpreta nunca caia em exageros. Vale ainda a pena realçar as interpretações de Tatsuya Nakadai e Yuzo Kayama. Nakadai como um elemento orgulhoso e traiçoeiro, que conta com um conjunto de elementos fiéis às suas ordens, enquanto o próprio encontra-se ao serviço de Kikui. Já Yuzo Kayama sobressai como este elemento que se engana em relação aos objectivos do tio, acabando por envolver-se no plano para o resgatar. O plano ganha contornos complicados, sobretudo devido ao elevado contingente que apoia Kikui e aos ardis preparados pelo mesmo, enquanto vamos assistindo à forma hábil como Sanjuro consegue ultrapassar as adversidades. Seja a fingir que foi atado, seja a procurar convencer Hanbei que está do seu lado, seja a combater com a espada, seja a troçar daqueles que considera estarem errados, Sanjuro é o elemento fulcral para boa parte do enredo funcionar. Não é das obras mais complexas de Akira Kurosawa, mas conta com a classe que esperamos de um filme do cineasta. Os planos são bem compostos, a narrativa conta com algumas doses de tensão e emoção, o protagonista é interessante o suficiente para prender a nossa atenção e até provocar alguns momentos de humor, enquanto Toshiro Mifune parece divertir-se imenso a interpretar este ronin de gestos exagerados. Existe ainda espaço para Akira Kurosawa criar algumas imagens que ficam na memória, tais como o momento final, ou as camélias brancas a vaguearem pelo rio como um sinal para o grupo ligado ao protagonista atacar. Akira Kurosawa recupera um dos seus personagens mais populares para deixar-nos diante de um filme de época onde um ronin procura fazer justiça num território onde reina a desconfiança e o medo, numa obra mais acessível e leve do cineasta, mas nem por isso menos entusiasmante e recheada de traços de algum brilhantismo, onde Toshiro Mifune volta a expor um enorme à vontade a interpretar Sanjuro.

Título original: "Tsubaki Sanjûrô".
Título em inglês: "Sanjuro".
Realizador: Akira Kurosawa. 
Argumento: Ryuzo Kikushima e Akira Kurosawa.
Elenco: Toshiro Mifune, Tatsuya Nakadai, Keiju Kobayashi, Yuzo Kayama.

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