22 abril 2015

Resenha Crítica: "The River" (He liu)

 Não existe muita volta a dar. Por muito que os textos sobre algumas obras realizadas por Tsai Ming-liang possam parecer repetitivos, é impossível não comentar a transversalidade de temáticas relacionadas com a alienação e solidão do ser humano no espaço urbano. Foi assim em "Rebels of the Neon God", em "Vive l'Amour", "The Hole", é assim em "The River" e continuará em obras como "What Time Is It There?", "Goodbye, Dragon Inn", entre outras. No caso de "The River" assistimos ainda ao recuperar do núcleo familiar de "Rebels of the Neon God", com os mesmos actores a interpretarem novamente uma família: Lee Kang-sheng é Hsiao-Kang, o filho; Lu Hsiao-ling interpreta a mãe; Miao Tien dá vida ao pai. O próprio espaço da habitação é o mesmo, não faltando a panela vermelha na cozinha, embora os personagens pareçam surgir em contextos distintos e serem diferentes ou pelo menos é isso que nos é dado a entender, com Tsai Ming-liang a não expor desde logo que estes elementos são familiares. Em "Rebels of the Neon God", o personagem interpretado por Lee Kang-sheng, um colaborador habitual de Tsai Ming-liang, tinha notórios problemas de relacionamento com os pais. Em "The River" assistimos a uma unidade familiar nuclear desfeita, onde os diálogos são poucos, os gestos de afecto são reduzidos e ainda existe pelo meio espaço para um episódio algo caricato e perturbador entre pai e filho que parece surgir numa tentativa de Tsai Ming-liang em procurar o humor negro através do grotesco, algo que não é propriamente novo. Diga-se que "The River" remete-nos imenso para vários elementos das obras do cineasta: personagens solitários e algo alienados da sociedade; longos silêncios; uma exímia exploração dos cenários interiores e exteriores; interpretações minimalistas; a presença da água, seja na chuva, seja numa banheira, seja a escorrer pelo tecto; personagens a ingerirem melancia; ausência de banda sonora; planos muitas das vezes fixos; um evitar dos close-ups, algo que adensa o papel do território e dos cenários no comportamento dos protagonistas, entre outros elementos. O trabalho a nível das imagens é exímio, sobressaindo os planos nos quais os personagens são enquadrados como se estivessem no interior de pequenas molduras, tais como no momento em que o pai do protagonista entra no quarto do mesmo e deixa a porta aberta, com a divisória da porta a ser a única ligação aberta entre as paredes, ou o momento em que estão juntos no curandeiro, entre outros exemplos. Nome de vulto da chamada "Segunda Geração da Nova Vaga de Taiwan", Tsai Ming-liang começa desde logo por nos apresentar a um reencontro entre Hsiao-kang e a antiga namorada (Chen Shiang-chyi). Ela ia a descer as escadas rolantes, ele ia a subir. Ambos dialogam um pouco até esta o convidar a assistir às filmagens de uma produção cinematográfica onde trabalha (aparentemente como assistente). O filme encontra-se a ser realizado por Ann Hui, com a realizadora a interpretar uma versão ficcional da própria, num dos vários momentos inspirados de "The River", com Tsai Ming-liang a colocar esta magnífica cineasta "em acção". 

Ann Hui encontra-se a filmar uma cena de um corpo morto a flutuar pelo rio, mas encontra-se pouco satisfeita com o resultado prático de ter um manequim a fazer de cadáver, algo que fica completamente irrealista. É então que Ann Hui convence Hsiao-kang a fazer de cadáver, com este a ter de flutuar no rio, algo que consegue com sucesso, embora inicialmente não pareça muito satisfeito por ter de ficar algum tempo pelas águas do Tamsui. Este é um rio deveras poluído, algo exposto desde logo na lama que se prende no manequim. Posteriormente, Hsiao-kang e a ex-namorada ainda vão para um quarto de hotel, onde fazem sexo, até este partir na sua moto de regresso a casa. É então que Hsiao-kang começa a ter uma dor no pescoço, algo que vai preocupar os seus pais, num episódio da narrativa que vai ocupar boa parte do enredo, com esta doença a afectar o protagonista a nível corporal e mental. Esta situação é notória nos gestos do personagem, geralmente com o pescoço curvado para um lado, indo ao ponto de se começar a agredir a si próprio perante o desconforto causado por esta maleita. O momento é no hospital, servindo sobretudo para exibir o sofrimento ao qual está sujeito o protagonista, enquanto nos surge a dúvida se esta doença terá sido provocada pelo facto de Hsiao-kang ter mergulhado no rio. A ideia das dores do pescoço sentidas pelo protagonista surgiu mais uma vez inspirada num episódio ocorrido na realidade que Tsai Ming-liang aproveitou para utilizar no enredo, em particular o facto do actor Lee Kang-sheng ter padecido de um problema semelhante ao do personagem que interpreta. A doença do protagonista começa a preocupar os seus familiares, a começar pelo seu pai quando vê o filho a cair da motorizada devido ao problema no pescoço. Quando chega a casa, a mãe ainda esfrega um spray no pescoço de Hsiao-kang, com a relação entre os elementos desta família a ser notoriamente distante (inicialmente até parece que os pais do protagonista vivem em casas separadas). O pai frequenta saunas onde tem casos com outros homens, algo que vai proporcionar um momento constrangedor e perturbador com o filho quando ambos perceberem que se estão a masturbar um ao outro no escuro. A mãe tem um amante, um elemento ligado à indústria pornográfica, com a própria a gostar de se satisfazer a ver filmes do género. Já Hsiao-kang não parece ter grande rumo, tal como não pareciam ter os protagonistas de "Rebels of the Neon God" e até de "Vive l'amour". Tsai Ming-liang, no seu estilo muito próprio, meio realista, meio poético, capaz de nos compelir a seguir a história com a mesma facilidade com que nos impele a quase largá-la, volta a explorar temáticas como a solidão, a falta de diálogos entre os seres humanos, a destruição da unidade familiar, num território onde a modernidade e a tradição ainda parecem muito presentes. Veja-se que elementos como a moto, as escadas rolantes, o McDonalds surgem em contraste com a procura dos pais do protagonista em levarem-no a um curandeiro. A ida de Hsiao-kang e o pai à província para visitarem um curandeiro vai terminar de maneira caricata, após este ter tentado toda uma espécie de tratamentos. Desde uma ida ao hospital, passando pelo endireita/massagista e pela acupunctura, este personagem procurou de tudo para curar as dores que atormentavam o seu pescoço. Diga-se que as viagens entre pai e filho ao médico e endireita chegam a ser deliciosamente cómicas, com o pai a segurar a cabeça e o pescoço do filho, enquanto este último conduz a moto (sem apoio lá iria ele de novo ao chão). 

Lee Kang-sheng volta a ser um elemento essencial para Tsai Ming-liang traduzir no grande ecrã algumas das suas ideias, com o actor a conseguir exibir como poucos um misto de desapego e sentimento, um olhar entre o vazio e a dúvida. Os próprios gestos e a forma exímia como gere os silêncios realçam paradigmaticamente uma interpretação digna de atenção por parte de Lee Kang-sheng, numa obra cinematográfica que conta ainda com a presença de outra cineasta de renome, Ann Hui. Esta tem algumas cenas marcantes numa obra que varia entre as temáticas habituais do cineasta e a sua procura em por vezes utilizar um humor bizarro, algo que pode explicar a cena na sauna onde por engano pai e filho masturbam-se um ao outro num momento completamente perturbador. É também um momento paradigmático do quão destrambelhada e destruída se encontra esta família cujo núcleo se encontra prestes a ruir. Em "Rebels of the Neon God", Lee Kang-sheng, Lu Hsiao-ling e Miao Tien já tinham interpretado uma família a conhecer diversos problemas, com as expectativas excessivas dos pais a gerarem uma reacção negativa por parte do filho. No caso de "The River" lidamos ainda com a bissexualidade do personagem interpretado por Miao Tien, com este a manter casos esporádicos nas saunas, algo que o seu filho vai descobrir da pior maneira. É um tema que exibe a procura de Tsai Ming-liang em explorar questões ligadas com a sociedade do seu tempo, embora aborde as temáticas de forma muito própria, por vezes de forma algo oblíqua e nem sempre fácil de seguir. O cineasta volta a contrastar os planos fixos, por vezes de longa duração, com os travellings, explorando com acerto a história destes estranhos personagens e o território que os envolve. Veja-se o rio poluído filmado com enorme acerto ou as ruas iluminadas pelos néones à noite, entre outros exemplos. A utilização dos cenários interiores também é exímia. A habitação destes personagens é exemplo disso, com o quarto azul de Hsiao-kang a simbolizar mais monotonia e depressão do que tranquilidade e serenidade. A água que entra pelo quarto do pai do protagonista a partir do tecto é algo de típico das obras cinematográficas de Tsai Ming-liang, expondo o desconforto que esta situação proporciona ao personagem. Não podem faltar as chuvadas, os alagamentos ou a falta de água, para além da melancia ser um fruto apreciado e o tabaco consumido em doses elevadas. São elementos algo transversais às obras do cineasta, tal como a composição meticulosa dos planos que permitem extrair o real para a ficção e vice-versa, exibindo-nos um universo narrativo cujos sentimentos expostos parecem bem verdadeiros. Os pais deste praticamente não se falam, com a estrutura familiar a parecer completamente destroçada com a passagem do tempo. O problema no pescoço por parte do protagonista parece simbolizar muito mais uma doença que afecta esta família e afasta os seus membros uns dos outros. Falta comunicação, falta compatibilidade, faltam sentimentos afectuosos, entre muitos outros elementos que não existem no interior desta família disfuncional. Diga-se que o facto de dialogarem pouco não é um problema latente. Nos filmes de Tsai Ming-liang é comum os diálogos estarem em minoria diante dos momentos de silêncio, com o cineasta a deixar as imagens comunicarem com o espectador.

 Tsai Ming-liang procura que as interpretemos, bem como aos personagens que habitam estas imagens, estas figuras meio espectrais cujos sentimentos que procuram exprimir ou reprimir nem sempre são claros. Veja-se o caso do pai do protagonista e a forma como procura esconder as suas opções sexuais, tal como a mãe de Hsiao-kang procura não expor o affair. A mãe do protagonista trabalha num elevador, a guiar os utilizadores do mesmo, tendo um caso com um elemento ligado à indústria pornográfica, numa relação extra-conjugal marcada por alguma estranheza. Já o jovem não parece saber bem o que decidir em relação à sua vida, procurando acima de tudo um meio para ficar sem as dores no pescoço, uma situação que parece impossível de resolver. Este protagoniza uma cena de sexo com a ex-namorada que é muito característica das obras de Tsai Ming-liang, onde o desejo se sobrepõe à notória falta de amor e sentimento colocado no acto sexual. Diga-se que as próprias relações extra-conjugais dos pais do protagonista estão longe de serem marcadas por enorme sentimento, uma temática que é latente em filmes como "Rebels of the Neon God" e "Vive l'Amour", sobretudo este último. Em "Vive l'Amour" já encontramos a homossexualidade do personagem interpretado por Lee Kang-sheng a ficar bem presente, quer quando veste roupas de mulher, quer quando beija Ah-jung, uma temática que volta a ser abordada em "The River" a partir do pai do protagonista. No caso de "The River", a frieza parece marcar a vida desta família, com a mãe e o pai do protagonista a dormirem em quartos separados, a mal comunicarem um com o outro, enquanto a doença no pescoço parece afectar de forma indelével os comportamentos e estado de espírito do protagonista. É um filme marcado por estranhos sentimentos e personagens nem sempre decifráveis, ou melhor, que aos poucos se dão a conhecer e exibem algumas das suas contradições numa obra cinematográfica que muito tem de Tsai Ming-liang. Este é magnífico na exposição do quotidiano dos personagens, em procurar explorar os seus gestos, sejam estes comer arroz, o desconforto a dormir devido a dores no pescoço, um elemento a tomar banho, com Tsai Ming-liang a voltar mais uma vez a voltar a dar atenção ao corpo. No caso, o corpo do protagonista encontra-se afectado por uma doença, tal como a sua alma, com este a parecer surgir como uma estranha figura sem grandes objectivos para além de perder as dores. Discordo em absoluto que "The River" seja a sua obra-prima, embora a marca que nos deixe seja notória. Diga-se que este comentário é válido para várias obras cinematográficas de Tsai Ming-liang, incluindo o mais recente "Stray Dogs", com os seus trabalhos a serem capazes de nos "atormentarem" e serem difíceis de se esquecer, tal a marca que deixam: quer pelos sentimentos que despertam, quer pelo desafio que nos proporcionam a procurar descobrir mais sobre os personagens e o meio que os rodeia, quer pelas suas imagens em movimento, quer pela procura de um cineasta em expor o seu talento e a sua vincada marca autoral.

Título em inglês: "The River". 
Título original: "He liu".
Título em Portugal: "O Rio". 
Realizador: Tsai Ming-liang. 
Argumento: Tsai Ming-liang, Tsai Yi-chun, Yang Pi-ying.
Elenco: Lee Kang-sheng, Miao Tien, Lu Yi-ching.

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