20 abril 2015

Resenha Crítica: "Rebels of the Neon God" (Qing shao nian nuo zha)

 Os elementos relativamente à margem da sociedade, algo solitários e isolados da mesma surgem como figuras transversais a várias das obras de Tsai Ming-liang. Não é preciso fazer muito esforço. Basta compararmos "Rebels of the Neon God" com "Stray Dogs", a sua mais recente longa-metragem, embora nesta última não sejam apenas as gentes das margens que nos são apresentadas mas também o território. Em “Vive l’Amour”, a segunda longa-metragem realizada por Tsai Ming-liang, o cineasta também abordava temáticas semelhantes, tais como a alienação do ser humano no espaço urbano, a falta de perspectivas futuras, a solidão e uma aparente incapacidade em saber como lidar com o tédio. Em "Goodbye, Dragon Inn" tínhamos as diferentes experiências de um conjunto de espectadores na última sessão de uma sala de cinema prestes a fechar, para além de outros episódios que gradualmente despertavam a nossa atenção. No caso de "Rebels of the Neon God" encontramos um conjunto de jovens adultos sem grande rumo para dar às suas vida que se encontra numa encruzilhada muito própria de quem ainda não definiu bem os objectivos para o futuro. Por vezes remete-nos para "As Tears Go By", a primeira longa-metragem de Wong Kar-wai, onde também tínhamos um estranho romance, bem como dois protagonistas que cometem alguns crimes e partilham uma enorme amizade. Estes dois elementos que partilham uma amizade aparentemente à prova de quase tudo são Ah Tze (Chen Chao-jung) e Ah Bing (Chang-bin Jen). Andam de mota, fumam, bebem, passam os dias a jogar nas arcadas, vivem de forma algo desleixada, com um assalto à loja onde jogam a poder terminar mal para ambos. A casa de Ah Tze é marcada pela desarrumação, revistas de mulheres nuas e um espaço relativamente suficiente para um indivíduo solteiro, mas também por estranhos alagamentos devido ao escoamento do apartamento estar com problemas. Diga-se que a água em excesso ou em falta é algo de comum nas obras de Tsai Ming-liang. Veja-se as chuvadas em excesso em "Goodbye, Dragon Inn" e "Stray Dogs" ou a falta de água em "The Wayward Cloud", entre outros exemplos que povoam as obras cinematográficas do realizador. Ah Tze forma ainda um estranho romance com Ah Kuei (Yu-Wen Wang), uma jovem empregada de um ringue de patinagem que parece acumular ainda funções a trabalhar a atender telefonemas para fazer companhia aos clientes. Os dois iniciam uma estranha ligação, com esta a parecer nutrir muitos mais sentimentos em relação a Ah-Tze do que o contrário. Esta é uma jovem cheia de vida, aparentemente algo ingénua, que gosta de fazer compras, fumar, divertir-se, aparecendo quase sempre de calções curtos, despertando a atenção das figuras masculinas que rodeiam o enredo de "The Rebels of Neon God", aparecendo no início do filme aparentemente com o irmão de Ah Tze. O título original do filme remete para Nezha, uma poderosa divindade ainda criança, presente na mitologia clássica chinesa, que foi criada por uma família humana. Esta divindade é conhecida pela sua desobediência, mas também por ter tentado eliminar o seu pai, algo que preocupa a mãe (Lu Yi-Ching) de Hsiao Kang (Lee Kang-sheng), após uma sacerdotisa do templo Fénix ter salientado que o filho é uma reencarnação de Nezha. Hsiao Kang é uma fonte de preocupação para os seus pais. É um jovem que pouco dialoga, ainda menos sentimentos parece conseguir expor, decidindo extemporaneamente cancelar os estudos e reaver o dinheiro da matrícula. Utiliza o mesmo para jogar nas arcadas e perambular por este espaço urbano representado com enorme realismo. A certa altura do filme, quando se encontra no interior do táxi do pai (Tien Miao), Hsiao Kang depara-se com Ah Tze, com este último a destruir o espelho do retrovisor do automóvel, após o personagem interpretado por Tien Mao ter buzinado para este se desviar, um episódio que vai ter repercussões.

Se o progenitor de Hsiao Kang esqueceu-se do rosto de Ah Tze, já Hsiao Kang parece ter guardado o mesmo na memória, preparando uma vingança que promete despoletar toda uma série de episódios que vão colocar a vida do personagem interpretado por Chen Chao-jung em perigo. Hsiao Kang passa aparentemente a seguir Ah Tze e Ah Bing para vários locais (ou existe muita coincidência para estarem nos mesmos espaços), até conseguir vandalizar por completo o veículo do personagem interpretado por Chen Chao-jung. O acto é cometido com requintes de humor negro, malvadez e preparação, enquanto a chuva cai forte pelo corpo de Hsiao. Sem dinheiro para arranjar a mota, Ah Tze procura, em conjunto com Ah Bing, apressar a venda dos produtos roubados na loja de jogos, algo que promete trazer graves consequências para os mesmos. É um universo narrativo onde ficamos diante de figuras algo à margem da sociedade neste espaço urbano de Taipé, com Tsai Ming-liang a abordar esta temática ao mesmo tempo que nos deixa perante um conjunto de figuras peculiares. Veja-se desde logo Hsiao Kang, interpretado por Lee Kang-sheng, actor-fetiche de Tsai Ming-liang, com este a surgir como um elemento com problemas com os pais e aparentemente com quase todos os que o rodeiam apresentando um raro momento de felicidade quando observa Ah Tze escandalizado e horrorizado pelo estado em que ficou a sua moto. Os festejos proporcionam alguns dos estranhos momentos de humor que por vezes povoam as obras de Tsai Ming-liang, com Hsiao Kang a saltar imenso na cama do hotel, a lançar longos risos até bater com a cabeça no tecto. Diga-se que já tinha cometido actos relativamente estranhos que, devido ao grotesco da situação, proporcionam alguns risos, tais como fingir que se encontra possuído por Nezha ao ouvir a conversa da mãe com o pai relacionada com a previsão da sacerdotisa do templo. É um jovem aparentemente isolado que parece preocupar os pais devido à falta de rumo e objectivos em relação à vida, chegando a desaparecer da casa dos mesmos durante vários dias sem avisar nada nem ninguém. Os pais parecem ter objectivos para Hsiao, mas este não parece partilhar os desejos dos progenitores  (diga-se que Lee Kang-sheng, Tien Miao e Lu Yi-Ching vão voltar a interpretar uma família em "The River" e "What Time is it There?"). Nos momentos iniciais assistimos ao seu tédio perante os estudos ao furar uma barata com um compasso e a partir uma janela com a mão, algo que o deixa ferido da mesma. Demonstra que estamos diante de um estranho ser humano que reprime em si um conjunto de sentimentos que nem o próprio parece saber quais são e como exprimi-los. Sobre a família de Ah Tze e Ah Bing pouco sabemos. Parecem mais unidos do que muitos irmãos, partilhando um enorme sentido de lealdade. Encontramos estes dois por salões de jogos, pelas estradas com as suas motorizadas, com Ah Kuei a entrar nas suas vidas. Ah Kuei é uma das poucas personagens femininas de relevo do filme, demonstrando desde cedo interesse em Ah Tze, embora os actos deste em relação à jovem sejam sempre ambíguos. Diga-se que estes jovens não parecem saber muito bem o que querer da vida, desfrutando dos prazeres efémeros cuja satisfação acaba por se diluir com uma enorme facilidade. O poster de James Dean, na loja de jogos, simboliza paradigmaticamente a rebeldia destes jovens que povoam a narrativa, figuras solitárias, algo revoltadas com o mundo, que procuram combater o tédio, parecem viver para o momento e esquecem-se facilmente das possíveis consequências dos seus actos. Este é também um território onde elementos como os jogos de arcadas, a televisão e afins parecem contribuir para alienação destes jovens, algo caracterizado ainda nos encontros por telefone, onde se paga para conversar com acompanhantes e para potencialmente marcar um encontro com as mesmas. Existem inovações supostamente para melhorarem a vida dos seus utilizadores, embora os protagonistas estejam longe de parecerem figuras felizes no interior deste espaço urbano exposto de forma realista e marcante. A cinematografia de Pen-Jung Liao contribui para esse realismo, com Tsai Ming-liang a recorrer por vezes à câmara na mão, embora os planos fixos estejam muito presentes ao longo do enredo.

A própria banda sonora contribui para esta atmosfera meio sonhadora, meio desencantada que rodeia os personagens do filme, com Tsai Ming-liang a contrastar por completo com "Stray Dogs" onde não recorre à primeira. "Rebels of the Neon God" marca ainda a estreia de Tsai Ming-liang nas longas-metragens, com o cineasta a deixar-nos diante de vários elementos que vão ser transversais às suas obras cinematográficas: a alienação no espaço urbano; os personagens solitários e das margens/franjas da sociedade; os personagens que fumam em excesso; o humor em situações algo inesperadas ou grotescas; as relações familiares intrincadas ou a destruição da unidade familiar nuclear; a água em destaque; a presença de Lee Kang-sheng (um actor que consegue transmitir imenso nos momentos de silêncio), entre outros elementos. A narrativa é mais fácil de acompanhar do que obras posteriores como "Journey to the West", "Stray Dogs", entre outras, mas já exibe qualidades de um cineasta que viria a construir uma carreira de relevo, embora nem sempre tenha a devida a atenção. Em "Rebels of the Neon God" assistimos a uma obra onde lidamos de perto com uma juventude sem rumo, num território que parece propiciador desta alienação. Tanto temos a história de um jovem com problemas com os pais, tal como encontramos três elementos em busca de desfrutar a vida que parecem nem sempre bem saber o que fazer. Veja-se quando encontramos Ah Tze deitado na cama durante um longo tempo, entre o adormecer e o queimar tempo, com o seu quotidiano a ser marcado por algum vazio. O envolvimento deste personagem com Ah Kuei vem trazer um ingrediente novo à sua vida, com Chen Chao-jung e Yu-Wen Wang a surgirem convincentes como esta estranha dupla. Ela pede para se encontrar sozinha com este. Ele falha o encontro inicial com Ah Kuei para ir roubar as máquinas de jogos com o amigo. É um pequeno criminoso, embora isso não desculpe os seus actos ilegais num filme onde ficamos diante destas estranhas figuras que facilmente despertam a nossa atenção. Curiosamente, o próprio Lee Kang-sheng, o intérprete de Hsiao Kang, trabalhara numa loja de jogos de arcadas, onde existia jogo ilegal, tendo de avisar quando se aproximava a polícia ou não, um emprego que teve de aceitar após falhar a entrada na universidade. O personagem que interpreta também se encontra a estudar para os exames, lidando com uma família com ideias muito próprias para o seu futuro, com Tsai Ming-liang a ter revelado que se inspirou na história do actor para incluir alguns elementos no argumento. Essa inspiração parece ser visível na representação da família de Hsiao Kang, com o casal a ter as expectativas que a maioria das famílias da época tinha para os rebentos, algo que o oprime e leva a revoltar-se. Os próprios cenários onde "Rebels of Neon God" foi filmado foram muitas das vezes reais, com o cineasta a filmar a obra cinematográfica em Ximending. Veja-se o caso do poster de James Dean, já presente no local das filmagens antes de Tsai Ming-liang decidir filmar na sala de jogos mas que, estranhamente ou talvez não, ganha um enorme significado, com estes personagens ficcionais a povoarem cenários bem reais e a viverem emoções que facilmente são sentidas. Entre jovens rebeldes, uma cidade recheada de néones que iluminam os cenários escuros da noite, muitos sentimentos a serem expostos e um enorme realismo na exposição dos locais onde se desenrola o enredo, "Rebels of the Neon God" é uma estreia digna de muita atenção na realização cinematográfica por parte de Tsai Ming-liang.

Título original: "Qing shao nian nuo zha"
Título em inglês: "Rebels of the Neon God".
Título em Portugal: "Os Rebeldes do Deus Neon". 
Realizador: Tsai Ming-liang.
Argumento: Tsai Ming-liang.
Elenco: Lee Kang-sheng, Chen Chao-jung, Jen Chang-bin, Lu Yi-Ching.

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