10 abril 2015

Resenha Crítica: "Quando Eu Era Vivo"

 Os indícios de que o regresso de José Matos Júnior (Marat Descartes) a casa do pai (António Fagundes) pode não trazer nada de bom a ambos são parcialmente expostos logo no início do filme quando encontramos um indivíduo louco a gritar pela rua durante a noite e um certo cepticismo da parte do progenitor em relação ao rebento. Júnior encontra-se desempregado, a divorciar-se da esposa e provavelmente perto de perder a guarda do filho que preferiu ficar a viver com a mãe. José Matos Sénior pretende que o filho encontre rapidamente um emprego e saia de casa, nem que seja para ir viver num pequeno hotel. Inicialmente não sabemos, nem percebemos bem, o porquê destas atitudes algo bruscas por parte do personagem interpretado por António Fagundes mas aos poucos estas vão sendo reveladas. Este é um indivíduo viúvo que se encontra a procurar reconstruir a vida com Lurdinhas, a vizinha do oitavo andar. A habitar a casa encontra-se ainda a bela Bruna (Sandy Leah), uma aspirante a cantora e estudante de música que alugou o quarto que outrora pertencera a Pedro (Kiko Bertholini), o irmão de Júnior. A mãe de ambos faleceu, com o pai a arrumar boa parte do material pertencente a esta no interior de um quarto que procura não abrir. Existe algo de assustador e perigoso para esta divisória ser praticamente de entrada proibida, para além da simples menção à mesma parecer perturbar José Matos Sénior. Júnior fica inicialmente na sala, onde é acordado de forma amiúde com o seu pai a fazer exercício na passadeira. António Fagundes interpreta um homem jovial, que procura cuidar do seu físico e da sua saúde, embora seja notório que esconde diversos segredos relacionados com o passado. Diga-se que este indivíduo na casa dos sessenta anos de idade pretende evitar a todo o custo falar do passado, seja da morte da esposa, uma mulher dedicada ao espiritismo e ocultismo, seja a falar do internamento de Pedro, um elemento que perdeu o controlo do ponto de vista psicológico. O regresso de Júnior a casa traz de regresso memórias que tinham sido fechadas num quarto físico e mental. Marco Dutra, o realizador, exibe desde logo que esta chegada de Júnior promete resgatar memórias da infância. Veja-se desde logo quando procura ligar a um antigo amigo e na televisão encontra-se a ser exibido um programa infantil. Os próprios sonhos do protagonista são marcados pela presença do irmão e episódios que envolveram os dois na infância. Este aos poucos entra em contacto com Bruna, uma jovem aparentemente afável, que gradualmente se parece deixar consumir pela curiosidade do protagonista em relação ao oculto. Um dos vários momentos estranhos de Júnior ocorre quando oferece um presente a Bruna e ao pai. A personagem interpretada por Sandy Leah recebe uma caixa de música. O pai recebe por engano uma santa com a face negra, algo que causa um impacto negativo. Diga-se que não vão faltar elementos associados aos filmes de suspense e terror como livros com imagens associadas ao demónio, velas em salas pouco iluminadas, a banda sonora a rigor, o misticismo, gavetas a abrirem-se sozinhas, portas a rangerem, cortinados a esvoaçarem, vozes sibilinas, com Marco Dutra a conseguir criar uma atmosfera gradualmente opressiva, sufocante e assustadora onde percebemos que nada está bem, algo visível na descida do protagonista a um abismo do ponto de vista mental onde a sua sanidade facilmente pode ser colocada em causa.

 Estamos diante de um filme de suspense que, ao invés dos sustos avulsos, procura envolver o espectador numa atmosfera que a espaços inquieta e intriga. Marat Descartes é competente a interpretar este personagem desempregado, sem grandes perspectivas futuras, que encontra na sala com material pertencente à mãe e ao irmão elementos associados ao passado que vão trazer dramas antigos para o presente. Veja-se quando retira uma cassete de vídeo, escondida no "quarto proibido", na qual está uma filmagem caseira onde a mãe efectua um molde da face de ambos em gesso. Existe um culto associado a esta situação com a mãe de Pedro e Júnior a ser muito associada ao ocultismo e aos elementos satânicos. Júnior gera uma obsessão pelo passado, pela mãe e pelo irmão, começando aos poucos a resgatar os elementos de outrora. Aos poucos, a casa que, tal como o próprio prédio, tinha sido remodelada, começa a ser redecorada pelo protagonista, com este a retirar o material escondido da divisória (incluindo desenhos que trazem mais uma vez recordações da infância com Pedro e a mãe). Coloca um quadro pertence ao passado, um retrato da mãe, com o pai a temer o pior. Percebemos que o temor do personagem interpretado por António Fagundes em relação ao quarto e ao material presente no mesmo tinham a sua razão de ser. Júnior aos poucos fica cada vez mais perturbado, algo visível quando encontra uma partitura acompanhada por umas estranhas palavras que apenas Pedro compreende. Bruna entoa a melodia e estranhamente vemos uma mão a entrar em cena, provavelmente do espírito da falecida mãe de Junior, até o protagonista vomitar. O pai do protagonista ainda convida Miranda (Gilda Nomacce), uma manicura e espírita, para tentar ver o que se passa com Junior. Loucura ou possessão? Aos poucos os segredos vão sendo revelados, com "Quando Eu Era Vivo" a revelar-se um filme exímio a criar dúvidas no espectador, a atormentá-lo e perturbá-lo ao longo de uma narrativa onde as recordações do passado podem nem sempre trazer memórias e consequências positivas. A própria entrada do personagem interpretado por Marat Descartes no "quarto proibido" remete para um mau augúrio quando este se corta a partir um vidro da porta para forçar a fechadura e o sangue escorre pelos dedos. Descartes consegue explorar as diferentes vertentes do seu personagem, um homem que aos poucos começa a ficar cada vez mais consumido pelo seu passado, pelos motivos que levaram o irmão à loucura e aos elementos associados à sua mãe. Esta espiral descendente do ponto de vista mental é exposto ainda a nível físico e da caracterização do personagem, com Júnior a parecer cada vez mais pálido e doente, acompanhado por vezes por uma manta e uma estranha obsessão. Se Descartes é um elemento fundamental, o desempenho de Sandy Leah é aquele que mais nos surpreende. Conhecida mais pelos seus dotes para a cantoria, alguns trabalhos televisivos e filmes que merecem ser esquecidos como "Acquaria", Sandy convence como esta jovem estudante, também com alguns problemas familiares, apresentando uma personalidade afável, conseguindo muitas das vezes convencer-nos da aderência da personagem a certos episódios quando o argumento peca em não construir as motivações desta. Esta ainda tem tempo para exibir alguns dos seus dotes vocais, embora a maior surpresa seja o seu trabalho como actriz, com a sua presença algo surpreendente na obra cinematográfica a revelar-se certeira, com Marco Dutra a ter efectuado mais uma decisão inspirada que contribuiu para elevar o filme. Os momentos do último terço são paradigmáticos do quão bem resultou esta escolha, com a voz melodiosa de Sandy a contrastar com os ritmos mais desafinados de Descartes, numa das cenas mais intensas de "Quando Eu Era Vivo".

O elenco de "Quando Eu Era Vivo" eleva e muito o filme, algo ainda notório na presença de António Fagundes, um actor carismático que facilmente atribui algum mistério e ambiguidade ao personagem que interpreta. O pai do protagonista apresenta inicialmente um conjunto de atitudes enigmáticas que aos poucos vamos compreendendo. Não quer que o filho permaneça muito tempo em casa, não quer o quarto com a tralha pertencente ao passado a ser aberto, temendo que Júnior fique no mesmo estado a nível de sanidade mental do irmão. Ainda tenta que Bruna ajude Júnior a efectuar um currículo, tendo em vista a que este arranje trabalho, mas o filho parece mais preocupado em desvendar enigmas do passado que prometem trazer consequências imprevisíveis. A própria obsessão deste por reencontrar o irmão, quando pareciam afastados há muito, é reveladora do estado em que este chegou, procurando não só saber o que está escrito na partitura mas também encontrar as cabeças de gesso, com este último desejo a ser partilhado com Pedro. O personagem interpretado por Kiko Bertholini apenas é exposto no último terço, com Marco Dutra a saber temporizar os momentos das revelações, surgindo exímio a gerar a dúvida e o receio no espectador, ao longo de uma obra que se destaca acima de tudo pela atmosfera inquietante que oprime os personagens e o público. "Quando Eu Era Vivo" destaca-se não só como um filme de suspense e terror brasileiro acima da média, mas também como uma obra cinematográfica bem sucedida no género a nível global. É raro uma obra deste estilo chegar-nos assim do Brasil e causar tanto impacto, mas Marco Dutra consegue sobressair num género onde a quantidade de obras produzidas raramente é consonante com a qualidade. Algumas situações desafiam a credibilidade mas, regra geral, "Quando Eu Era Vivo" surge como uma obra capaz de dar os passos certos até um final onde os elementos sobrenaturais do filme ficam latentes. "Quando Eu Era Vivo" também é um filme sobre a relação complicada entre um pai e um filho, uma história sombria onde ambos parecem apresentar alguns ressentimentos em relação ao passado. Veja-se a procura constante do personagem interpretado por António Fagundes para que o filho não fique em casa, ou a forma como ignora a sua presença na sala e acorda-o para poder correr na passadeira, entre todo um conjunto de episódios. Este pretende que o filho trabalhe. Júnior surge quase como um representante de uma geração sem grandes perspectivas que está sem emprego, sem casa e um casamento arruinado. A complicada relação entre os dois é paradigmaticamente exposta num plano onde ambos se encontram a falar de costas um para o outro, após Júnior inicialmente ainda se encontrar a dialogar frontalmente com o pai a questionar onde se encontram as cabeças de gesso elaboradas pela mãe. Sénior logo reclama desse episódio e da falecida esposa, algo que conduz a um virar de costas por parte de Júnior. O personagem interpretado por António Fagundes procura antes relembrar como o filho outrora costumava adormecer no carro ao som das notícias, ao mesmo tempo que expõe o seu desgosto pelos estranhos actos da esposa e a condição pouco recomendável de Pedro. Os dois parecem ter percepções distintas do passado e planos diferentes para o presente, formando laços algo estranhos numa história que consegue mesclar o drama familiar com o suspense e o terror sobrenatural, ao mesmo tempo que vagueia pelas malhas de uma possível loucura do personagem interpretado por Marat Descartes.

O argumento, baseado livremente no livro "A Arte de Produzir Efeito Sem Causa" de Lourenço Mutarelli, é eficaz a construir a dinâmica entre o trio, bem como a realização de Marco Dutra, embora deva ainda ser realçada a cinematografia de Ivo Lopes Araújo. Assistimos a uma opressão e tensão gradual, com a cinematografia a contribuir para o tom sombrio que "Quando Eu Era Vivo" apresenta. Veja-se a cena da sala rodeada de velas, meio gótica, a contar apenas com a iluminação das mesmas, ou o momento em que Júnior abre a gaveta da cozinha e as tonalidades adensam o tom sombrio do mesmo. A própria casa do personagem interpretado por António Fagundes é decorada a preceito para adensar a atmosfera negra que envolve a narrativa. Inicialmente sobressai o material de ginásio, entre o qual a passadeira, o trampolim, a máquina elíptica e até um frasco com proteína, algo revelador das mudanças efectuadas na habitação. Posteriormente assistimos ao retrato da falecida mãe, colocado por Júnior, a um antigo quadro a ser disposto na parede da sala, um espelho antigo a aparecer, ou seja, assistimos não só a um regressar dos "fantasmas do passado" mas também a uma decoração que remete para os episódios de outrora. A própria cama onde se encontra Bruna contém no colchão material que outrora pertencera a Pedro, com o filme a deixar-nos pistas de como o passado pode a qualquer momento acercar-se do presente destes personagens e trazer de volta os problemas que os assolaram. Os problemas sempre estiveram lá, escondidos naquele quarto, bem como no hospital psiquiátrico onde Pedro se encontra internado, mas apenas voltam ao de cima com a crescente obsessão do protagonista. Loucura e sobrenatural juntam-se na figura de Júnior, com este a parecer mesclar um desequilíbrio mental com a crença de algo oculto ligado à mãe e ao irmão. O próprio pai parece acreditar em alguns desses conceitos, uma situação notória no amuleto que traz ao peito e supostamente nunca poderá ser retirado. O avançar da narrativa significa também o aumentar da tensão e a certeza que a casa de José Matos Sénior se prepara para ser alvo de um conjunto de episódios negros, dos quais ninguém sairá como antes. Todo este tom negro não implica que não tenhamos alguns momentos de leveza, seja quando o protagonista espreita Bruna no banho e parece dar uso às mãos para se satisfazer, seja quando pede a esta para tocar piano quando a personagem interpretada por Sandy pretende sair à pressa de casa com o namorado, entre outros momentos que contrastam com a tensão que envolve a narrativa. O enredo beneficia ainda do dinâmico trabalho de montagem de Juliana Rojas (co-realizadora de "Trabalhar Cansa", a longa-metragem anterior de Marco Dutra), enquanto nos remete muitas das vezes para a trilogia do apartamento de Roman Polanski (também citada no blog no texto a "Hungry Hearts"), onde o espaço da casa parece contribuir para a paranoia crescente do protagonista, com a barreira entre a realidade e a ilusão a esbaterem-se de forma amiúde. Sem procurar os sustos avulsos, "Quando Eu Era Vivo" procura apostar no terror psicológico e na criação de uma atmosfera negra e inquietante em volta dos acontecimentos da narrativa, onde a loucura e o misticismo por vezes parecem andar lado a lado, enquanto o realizador Marco Dutra demonstra uma maturidade assinalável na realização, exibindo mais uma vez que existem bons filmes brasileiros do género.

Título original: "Quando Eu Era Vivo".
Realizador: Marco Dutra.
Argumento: Marco Dutra e Gabriela Amaral Almeida.
Elenco: António Fagundes, Marat Descartes, Sandy Leah, Kiko Bertholini, Gilda Nomacce.

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