29 abril 2015

Resenha Crítica: "Out of the Past" (1947)

 Robert Mitchum é a par de Humphrey Bogart e Dana Andrews um dos actores que melhor personificou o típico protagonista dos filmes noir, atribuindo um cinismo, dureza e carisma latentes aos seus personagens. "Out of the Past", um dos mais elogiados filmes deste subgénero, comprova a capacidade de Mitchum para protagonizar estas obras cinematográficas, interpretando Jeff Bailey, um indivíduo algo cínico, fumador e pronto a disparar falas sardónicas, com um passado conturbado, que se estabeleceu com uma gasolineira em Bridgeport, na Califórnia. Tem um caso com Ann Miller (Virginia Huston), uma jovem algo inocente com quem costuma pescar, algo que desperta o desagrado de Jim (Richard Webb), um indivíduo interessado na personagem interpretada por Virginia Huston. Estamos num filme noir, já sabemos que o romance não vai durar muito tempo, com Joe Stefanos (Paul Valentine) a chegar a Bridgeport em busca do protagonista, procurando que este se reúna com Whit Sterling (Kirk Douglas), um influente indivíduo de poucos escrúpulos, em Lake Taohe. Jeff é obrigado a contar a história do seu passado a Ann, revelando chamar-se Jeff Markham, tendo outrora trabalhado como detective privado com Jack Fisher (Steve Brodie). Num longo flashback, Jeff conta-nos a sua história desde o momento em que foi contratado por Whit, tendo em vista a encontrar Kathie Moffat (Jane Greer), a namorada do personagem interpretado por Kirk Douglas, uma mulher que supostamente deu um tiro no mesmo e roubou-lhe quarenta mil dólares. Whit assegura que não pretende vingar-se da namorada, procurando apenas que esta regresse e devolva o dinheiro, embora o seu carácter vingativo fique bem presente ao longo do filme. Jeff viaja até Acapulco, onde se acredita que esteja Kathie, uma informação que se comprova verdadeira. O que não estava previsto era que Jeff se apaixonasse pela femme fatale, iniciando um romance com esta, algo que traz problemas quando Joe e Whit viajam para o local. São momentos de pura tensão, embora Jeff os consiga despistar temporariamente. Jeff e Kathie saem de Acapulco, escondendo-se de possíveis elementos ligados a Whit que os pudessem perseguir. Tudo se complica quando são descobertos por Jack, com este último a protagonizar um violento combate com o protagonista e antigo sócio, enquanto Kathie observa a cena num misto de medo, orgulho e prazer, vendo dois homens a digladiarem-se devido à sua pessoa. A cena é das mais conhecidas do filme, expondo desde logo o carácter imprevisível e dúbio desta mulher cujas lealdades deambulam consoante os interesses.

Kathie é a típica femme fatale, bela e sedutora, aparentemente frágil mas mortífera, capaz de seduzir os homens embora não consiga enganar o protagonista durante todo o filme, com Jane Greer a criar uma personagem forte e venenosa. Um veneno que se entranha nas almas daqueles que esta seduz, embora gradualmente percebamos que esta não é tão frágil como aparenta inicialmente. A relação entre Jeff e Kathie é marcada nestes flashbacks por alguns momentos de sedução mútua, com esta a convencê-lo da sua inocência em relação ao roubo, pelo menos até a femme fatale eliminar Jack, fugir e deixar um comprovativo da transferência bancária que a coloca como culpada do furto. No presente, Jeff procura reunir-se com Whit e resolver a contenda de uma vez por todas. Escusado será dizer que Kathie já se encontra novamente envolvida com Whit, algo que deixa o protagonista surpreendido e desiludido. Whit procura que Jeff salde a sua dívida ao roubar os registos fiscais que se encontram na posse de Leonard Eels (Ken Niles), o seu advogado, um indivíduo que supostamente o anda a chantagear. Escusado será dizer que a missão é uma armadilha, com Jeff a ver-se envolvido num caso de assassinato, com a sua vida a ficar em perigo, tendo de procurar a todo o custo resolver a situação. Longe vão os momentos iniciais idílicos a pescar com a bela Ann, num espaço quase rural, distante da atmosfera de malaise que rodeia os territórios citadinos deste marcante filme noir. Não faltam traições, várias reviravoltas, espaços citadinos contaminados pelo crime e corrupção, clubes nocturnos, algum pessimismo e um protagonista cínico que se prepara para lidar com um conjunto de situações adversas difíceis de ultrapassar. Estamos perante um universo narrativo típico dos filmes noir, com Jacques Tourneur a criar uma das obras mais memoráveis deste subgénero. Voltamos a ter o protagonista a narrar-nos alguns momentos do enredo, bem como a utilização paradigmática do jogo de luz e sombras, com estas últimas a consumirem os cenários e as almas, que o diga Jeff. Este até procura seguir uma vida correcta ao lado de Ann, mas o seu passado logo o atormenta, quer na figura de Whit, quer na de Kathie. Kirk Douglas é um secundário de peso neste filme, com o personagem que interpreta a contribuir e muito para adensar a atmosfera negra que rodeia "Out of the Past". Whit é um indivíduo vingativo que não difere assim tanto do protagonista em termos de comportamentos, apresentando um enorme cinismo e aparente frieza, gerando-se várias disputas de poderes entre ambos. Disputam a sua independência e autoridade, mas também Kathie, embora esta pareça deambular consoante os interesses. A cena protagonizada por Kirk Douglas, Robert Mitchum e Paul Valentine enquanto se encontram a dialogar à mesa é de pura tensão, com o protagonista a procurar que Whit e Joe não reparem que Kathie está pelo local, enquanto estes parecem desconfiados de Jeff.

O passado de Jacques Tourneur, associado aos filmes de terror, tais como "Cat People", "I Walked With a Zombie", "The Leopard Man" certamente terão influenciado a execução das cenas de maior tensão, com o cineasta a conseguir criar alguns momentos de ansiedade no espectador em relação aos destinos do protagonista. A cinematografia de Nicholas Musuraca é praticamente imaculada, contribuindo para esta atmosfera inebriante e negra, incrementando uma obra bastante recomendável, onde o fumo dos cigarros exala de forma intensa e permite expressar os estados de espírito dos personagens (algo salientado por Roger Ebert). Temos ainda alguns personagens secundários de relevo. Veja-se Rhonda Fleming como Meta Carson, um contacto de Whit que finge ser secretária de Jeff para enganar Eel, mas também Paul Valentine como o violento Joe Stefanos, para além de Dickie Moore como The Kid, um surdo-mudo que é amigo do protagonista. Vale ainda a pena realçar Virginia Huston como Ann, uma jovem que apresenta uma enorme doçura e confiança no protagonista, com quem este passa inicialmente alguns momentos românticos, embora este não seja um filme para sentimentos mais doces. É uma obra marcada por almas inquietas, onde o passado parece influenciar em demasia o seu presente, na qual Robert Mitchum e Kirk Douglas exibem o seu enorme talento e carisma, debitando algumas falas típicas destes filmes. O argumento teve como base o livro "Build My Gallows High" de Daniel Mainwaring, remetendo mais uma vez para a tradição dos filmes deste subgénero de surgirem como adaptações de obras literárias, com "Out of the Past" a ser uma das mais recomendáveis. Recheado de traições e reviravoltas, personagens cínicos e sombras salientes, "Out of the Past" coloca-nos perante um filme noir de excepção, onde as traições surgem quando menos se espera e a felicidade parece muito improvável de ser obtida.

Título original: "Out of the Past".
Título em Portugal: "O Arrependido".
Realizador: Jacques Tourneur.
Argumento: Daniel Mainwaring.
Elenco: Robert Mitchum, Jane Greer, Kirk Douglas, Rhonda Fleming.

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