07 abril 2015

Resenha Crítica: "O Vendedor de Passados"

 Vicente (Lázaro Ramos) é um indivíduo que ganha a vida a forjar passados para os seus clientes. Já se envergonharam de algum acto do vosso passado? Consideram-no demasiado desinteressante para ser tema de conversa? Querem um conjunto de falsas memórias para subir a vossa auto-estima? Vicente resolve esse problema ao construir histórias relativamente credíveis para os seus clientes, contando com uma pequena equipa que o ajuda nas suas funções. Um dos seus clientes é Ernani (Anderson Muller), um elemento que outrora fora obeso, nunca tivera uma relação séria com uma mulher, que fez uma operação para emagrecer e várias plásticas. Ernani procura ter um passado onde conta com uma ex-mulher e viveu em França, tendo em vista a atrair outras figuras femininas, demonstrando uma enorme pressa em ver o trabalho de Vicente dar frutos. Vicente é um indivíduo que facilmente desperta a nossa simpatia, embora saibamos que mais cedo ou mais tarde vai ter de lidar com as consequências desta sua actividade profissional. Em alguns casos ajuda imenso os outros a recuperar a auto-estima ou a criar algumas histórias interessantes, noutros parece que a situação pode ser perigosa e trazer graves problemas para o próprio. Este é um indivíduo simpático, adoptado por um jornalista, entretanto falecido, e uma psicóloga, utilizando alguns dos seus vídeos falsos para convencer mulheres a terem pena de si, procurando nunca revelar muito do seu passado. O próprio Vicente procura saber quem são os seus pais biológicos, embora a sua mãe tente evitar falar sobre o passado, algo que o parece deixar com um sentimento de vazio em relação ao mesmo. Quem o conhece relativamente bem é Jairo (Odilon Wagner), um cirurgião plástico que foi amigo do pai adoptivo do protagonista, mantendo ainda uma relação de grande proximidade com Vicente, com este último a fornecer-lhe fotografias falsas para este poder utilizar em entrevistas de forma a parecer uma pessoa que viaja muito ao lado de Stella (Mayana Neiva), a sua noiva. A vida profissional e pessoal de Vicente conhece uma mudança com a entrada em cena de uma estranha que não lhe revela o nome, algo que o leva a chamá-la de Clara (Alinne Moraes). Esta é uma mulher misteriosa, enigmática, pouco reveladora dos seus sentimentos, que facilmente desperta a atenção do protagonista devido a estes atributos mencionados e à enorme beleza que apresenta. Clara pede algo aparentemente estranho a Vicente: que crie uma história sua a partir do zero de forma a que contenha um crime cometido no passado. Não revela o seu nome verdadeiro, procura não expor a sua personalidade, embora pareça óbvio que alguém que pretende uma história assim tem um passado com problemas. Vicente não sabe o que fazer, mas aos poucos tem a ideia de criar um passado onde Clara foi filha de um jornalista brasileiro e de uma fotógrafa argentina, ambos participantes da luta contra a ditadura no "país das pampas", tendo ficado retida no território onde a mãe e esta foram torturadas. A mãe teria sido assassinada, enquanto Clara teria sido adoptada por um militar argentino e a sua esposa durante o tempo da ditadura no território. O pai biológico e a avó materna encontraram-na e assim está explicado o regresso de Clara ao Brasil, aos onze de idade, tendo ido viver para Coritiba. Já em idade adulta, a personagem interpretada por Alinne Moraes é chamada pelo seu pai argentino, um indivíduo que se encontra a poucos dias de morrer, que revela a identidade do torturador e assassino da mãe de Clara, com esta a cometer o assassinato, embora o familiar assuma a culpa do crime. Esta gosta do passado criado por Vicente, enquanto o protagonista parece começar a intrigar-se cada vez mais com esta misteriosa mulher. 

A história que o personagem interpretado por Lázaro Ramos criou parece ter sido feita a partir de ideais do próprio como o protótipo da figura feminina pela qual provavelmente se apaixonaria. Vicente ainda chega a apresentá-la a Jairo e à noiva deste, num jantar a quatro, onde Clara revela um enorme à vontade para mentir, colocando em prática a história criada pelo protagonista a ponto de quase acreditarmos que este acertou na invenção. O que Vicente não esperaria é que Clara tomasse um passo inesperado com a sua história e utilizasse todo o material, incluindo fotografias, para colocar em prática algo que pode colocar em risco a actividade do protagonista de "O Vendedor de Passados", uma obra cinematográfica que teve como base o livro homónimo de José Eduardo Agualusa. Se o livro de José Eduardo Agualusa tem como pano de fundo o território de Angola, já o filme realizado por Lula Buarque de Hollanda desenrola-se no Brasil, com o cineasta a abordar temáticas ligadas com a identidade e a memória, a dicotomia entre o ser e o parecer, uma sociedade que vive de aparências e o desejo que por vezes podemos ter em alterar o nosso passado, numa obra cinematográfica marcada por uma enorme leveza e algumas reviravoltas. É um filme que sabe utilizar a simplicidade a seu favor, embora também nunca tente ir muito a fundo na exploração das temáticas e até das consequências do acto de Clara, com Lula Buarque de Hollanda a parecer procurar nunca ferir possíveis susceptibilidades do espectador, mesmo que isso implique deixar o argumento pela rama. Não tem propósitos de crítica social, mas sim entreter o público durante cerca de hora e meia, algo que consegue com alguma competência ancorando-se na sua interessante premissa e na simpatia que o protagonista consegue despertar junto do espectador. Existe muito mérito de Lázaro Ramos, com o actor a emprestar algum do seu carisma a Vicente, um indivíduo moralmente ambíguo, hábil na arte de forjar passados, que acaba por se deixar envolver em demasia com uma cliente, quase a fazer recordar os detectives noir que se deparam com uma femme fatale enigmática que apresenta um enorme poder de sedução e uma capacidade latente de colocar os protagonistas em problemas. Vicente colecciona vídeos de reportagens, fotografias e objectos, entrevista os seus clientes tendo em vista a criar um passado credível que permita ser utilizado sem grandes brechas por parte dos seus clientes. Embora pareça que o enredo ficaria a ganhar ao apresentar mais um ou dois clientes de Vicente, tendo em vista a expor de forma mais completa o seu modus operandi e a personalidade dos mesmos, "O Vendedor de Passados" nem por isso deixa de evidenciar e expor as características e propósitos dos elementos que contratam os serviços do personagem interpretado por Lázaro Ramos: Jairo pretende transmitir para fora a ideia que é um homem viajado; Ernani é um homem que conta com uma mãe "castradora" e um pai violento, pretendendo fazer-se passar por um indivíduo divorciado com um passado a viver em França de forma a atrair mulheres; Clara tem objectivos que podem ser lucrativos para esta mas perigosos para o protagonista. O próprio Vicente também utiliza vídeos falsos de reportagens para forjar o modo como os seus pais adoptivos o encontraram, embora este episódio, na realidade, também esteja longe de ter sido aprazível. Se Vicente é um indivíduo que parece ser afável, que tem nas escaladas o seu maior hobbie e na procura de descobrir a identidade dos seus pais biológicos um desejo, já Clara é um enigma difícil de decifrar. Procura que o seu passado contenha um crime, tenta não revelar muito sobre a sua vida, apresentando umas estranhas cicatrizes nas costas que vão intrigar e muito o protagonista. Vicente procura desde logo saber mais sobre Clara e as suas intenções, embora esta mulher dificulte e muito a sua missão. 

Ainda chegam a jantar juntos e a ter uma saída onde visitam uma amiga de Vicente que reúne nas suas estantes diversos álbuns fotográficos que adquire. Por vezes parece que assistimos a um iniciar de um possível romance entre os dois personagens, mas Clara rapidamente toma uma decisão que promete atomizar as possibilidades de sucesso da mesma. Alinne Moraes, apesar do argumento raramente dar a conhecer muito sobre a sua personagem, pelo menos até ao último terço, consegue conceder algum mistério a Clara, uma mulher que facilmente desperta a nossa atenção. Veja-se a sua procura em ter um passado no qual cometeu um crime, chegando com o mistério quase típico de algumas das femme fatales dos noir, mas o argumento desperdiça várias das oportunidades que cria, sobretudo ao não explorar as consequências dos actos de Clara e a forma infantil como utilizou material que não era seu. Pedia-se um pouco mais de densidade ao argumento, numa obra que consegue despertar a nossa simpatia, em grande parte devido ao trabalho do seu elenco e da sua interessante premissa. Clara quer mudar o seu passado, enquanto Vicente procura descobrir o seu e o desta mulher (existe uma boa dinâmica entre Lázaro Ramos e Alinne Moraes). É um filme sobre pessoas relativamente comuns que outrora contaram com os seus problemas, algo que os conduz a procurarem reformular partes da história das suas vidas para "começarem de novo", com "O Vendedor de Passados" a abordar ainda questões ligadas com a memória ou a reconstrução de memórias. Se em "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" foi criada uma tecnologia que permitia apagar elementos do passado que eram considerados desagradáveis, já em "O Vendedor de Passados" o que assistimos é ao recriar destes elementos tendo em vista a transmitir uma ideia distinta do "eu" para o exterior. Os clientes de Vicente procuram um novo passado, não só para exibirem junto daqueles que os rodeiam mas também para aumentarem a auto-estima e conseguirem ter a confiança para assumirem uma postura distinta daquela que contavam até então. É relativamente óbvio que temos de aceitar a possibilidade de existir alguém capaz de criar um passado falso credível a ponto dos clientes conseguirem mentir com enorme à vontade a tudo e a todos, mas "O Vendedor de Passados" consegue transmitir esta "realidade" com alguma eficácia, uma situação que permite que compremos muitas das vezes a ideia e desfrutemos do filme. Como salienta Vicente, "O passado é tudo aquilo que você lembra, imagina que se lembra, se convence que se lembra ou finge que se lembra". Nesse sentido, o passado recriado por Vicente permite aos clientes formarem ou imaginarem novas sensações e emoções, com este a repercutir-se nestes personagens durante o presente a ponto de alterar as suas vidas. Não apagam o seu passado, mas criam uma ideia para o exterior e para si próprios de que são diferentes, algo que lhes permite mudarem alguns aspectos da sua personalidade, uma situação paradigmaticamente notória em Ernani. Este é interpretado de forma eficaz por Anderson Muller, com o actor a conseguir expor as paranoias e receios que afectam Ernani. Também Odilon Wagner, um actor de talento inegável, consegue atribuir alguma personalidade ao personagem que interpreta, um médico afável que mantém uma relação de forte amizade com o protagonista desde que este era jovem. Com uma cinematografia regular, um protagonista capaz de agarrar o enredo, uma premissa interessante que procura abordar questões ligadas à identidade, passado e memória, "O Vendedor de Passados" não vende a banha da cobra ao espectador, exibindo-se como um filme simples que procura proporcionar alguns momentos de escapismo, algo que consegue com alguma competência.

Título original: "O Vendedor de Passados". 
Realizador: Lula Buarque de Hollanda. 
Argumento: Isabel Muniz.
Elenco: Lázaro Ramos, Alinne Moraes, Odilon Wagner, Mayana Neiva, Anderson Muller.

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