30 abril 2015

Resenha Crítica: "O Uivo da Gaita"

 Filme de uniões e separações, de romances que se iniciam, dilaceram, reformulam e atomizam, de pequenos barcos contrastados com embarcações de dimensões elevadas, de poucos diálogos e sentimentos nem sempre decifráveis, de planos fixos e movimentados, de peixes que são cortados ao meio e bebidas distintas que são reunidas num copo, "O Uivo da Gaita" surge pronto a estimular sensações e emoções, com uma narrativa por vezes oblíqua mas hipnotizante. Este é mais um dos "frutos" da chamada "Operação Sonia Silk", "uma pro­dução da DAZA, TB Pro­duções e Alum­bra­mento, em co-pro­dução com o Canal Brasil e a Teleim­age, da qual resultaram os filmes “O Rio nos Per­tence”, “O Uivo da Gaita” e “O Fim de Uma Era", um colectivo que "se inspira no gesto e no imag­inário dos fimes real­iza­dos nos anos 1970 pela pro­du­tora Belair, de Julio Bres­sane e Rogério Sganz­erla". Diga-se que Bruno Safadi, o realizador de "O Uivo da Gaita", chegou a trabalhar como assistente de cineastas como Júlio Bressane, tendo ainda realizado "Meu nome é Dindi", "Belair", entre outras películas, tendo nesta longa-metragem que faz parte da Operação Sonia Silk uma obra cinematográfica que nos deixa com a certeza de estarmos diante de algo que procura estimular as sensações do público e desafiar o mesmo. Tal como "O Rio nos Pertence", também "O Uivo da Gaita" surge diante de nós como uma obra muito marcada por dualidades e fragmentos, mas também pela presença do mesmo elenco, formado por Mariana Ximenes, Leandra Leal e Jiddu Pinheiro, para além de contar com alguns cenários semelhantes (a casa e a praia), embora a atmosfera do primeiro fosse muito mais sombria. Os personagens interpretados pelo trio pouco falam ao longo da narrativa. Os sentimentos são expressos na maioria das vezes pelos gestos, seja uma espécie de movimentos de dança, seja num jogo de cartas marcado por uma atmosfera de enorme sensualidade, seja numa refeição de sushi, seja numa despedida, seja numa cena mais calorosa na praia. Este momento mais quente é apresentado logo nos momentos iniciais do filme, quando Antônia (Mariana Ximenes) e Luana (Leandra Leal) chegam num barco a remos a uma praia paradisíaca, marcada por um Sol abrasador, em Niterói. A areia prende-se nos seus corpos, enquanto ficamos diante de momentos de alguma sensualidade entre as duas mulheres que parecem apaixonadas. A cena é filmada com algum erotismo e enorme delicadeza, surgindo paradigmática do envolvimento destas mulheres. Esta relação vem afectar o casamento de Antônia com Pedro (Jiddu Pinheiro), com estes três elementos a viverem estranhos momentos e sentimentos ao longo desta narrativa fragmentada que tanto nos deixa diante de uma praia paradisíaca em Niterói como do Porto do Rio de Janeiro, onde barcos chegam e partem, tal como estes personagens parecem prontos a unirem-se e separarem-se. É um filme de sentimentos e temperaturas elevadas, que o digam os copos e os pratos onde é colocado o sushi de uma refeição confeccionada por Pedro, um elemento que parece prestável e simpático, para a amada. O derretimento dos copos e dos pratos onde foram colocados os pedaços de sushi e o acto de Pedro cortar delicadamente um salmão ao meio, surgem praticamente como pequenos (grandes) símbolos para os acontecimentos que se seguem entre o personagem interpretado por Jiddu Pinheiro e Antônia, ou não assistíssemos ao casamento a desfazer-se gradualmente, com os sentimentos desta a dividirem-se entre o esposo e Luana.

Ao longo do filme ficamos diante dos sentimentos destes elementos, com poucos diálogos a serem expostos enquanto muitos são os sons a serem exacerbados, com a música a ter um papel de relevo em "O Uivo da Gaita". Isso não implica que os personagens não dialoguem. Veja-se quando assistimos a Antônia a dialogar em off com Pedro, salientando a sua vontade em sair do Rio de Janeiro e ir para um local mais pequeno como Mauá, uma situação que este duvida que seja possível. Pedro vê a sua relação com Antônia ser afectada pela presença de Luana, com o próprio a também ser algo seduzido pela presença desta mulher, enquanto Bruno Safadi procura captar os gestos e emoções destes personagens. Veja-se quando Antônia prepara uma bebida alcoólica, reunindo três líquidos de cores diferentes em cada copo, enquanto assistimos estas substâncias a diluírem-se e a unificarem-se, em mais um momento metafórico, que simboliza a procura da personagem interpretada por Mariana Ximenes em reunir-se em simultâneo com os outros dois elementos, parecendo ter algum receio em ter de se separar de Pedro ou Luana. Antônia alcooliza-se e aos dois companheiros, a banda sonora transmite sentimentos de inquietação e ao mesmo tempo de sedução, enquanto os corpos e a câmara bailam, os personagens unem-se e afastam-se, ficando sempre presente uma atmosfera algo erótica onde o álcool parece permitir libertar os sentimentos mais reprimidos. É também um momento onde sentimos mais uma vez a enorme dificuldade de Antônia em decidir-se em relação ao futuro com Luana ou Pedro. Antônia trai Pedro com Luana, mas parece amar ambos de maneira semelhante, com "O Uivo da Gaita" a procurar explorar as relações amorosas contemporâneas a partir destes personagens. O desejo está presente, bem como a intimidade e o erotismo, ao mesmo tempo que estes se expressam de forma muito própria. Mais do que nos dar diálogos longos e eloquentes ou uma narrativa certinha que nos facilita a vida, "O Uivo da Gaita" procura instigar as nossas sensações, com as emoções, sentimentos e desejos dos personagens que habitam a história a surgirem como um dos fios condutores de uma narrativa que nos coloca diante de um estranho triângulo amoroso, que pouco fala mas muito transmite. Estes reúnem-se para pequenos momentos aparentemente banais, expõem os seus sentimentos, enquanto a cinematografia de Ivo Lopes Araújo volta a sobressair pela capacidade em explorar estas contradições que envolvem constantemente "O Uivo da Gaita". Diga-se que Ivo Lopes Araújo é um dos elementos em comum entre "O Uivo da Gaita" e "O Rio nos Pertence", para além do elenco, com estes filmes a procurarem jogar com as barreiras e linguagem cinematográfica, surgindo como trabalhos meio experimentais, cujo baixo orçamento e método de laborar permitiu uma maior liberdade a nível da fruição artística por parte dos envolvidos. É certo que por vezes a obra cinematográfica poderia ficar enriquecida com um contexto adicional em relação ao passado dos protagonistas, mas também não deixa de parecer notório que aquilo que interessa a Bruno Safadi é o momento que os personagens estão a viver neste contexto em que se encontram. Acima de tudo são os relacionamentos deste trio que vão ser expostos ao longo do filme, com o trabalho dos actores a ser fundamental para "O Uivo da Gata", com "simples" gestos e olhares de Mariana Ximenes, Leandra Leal e Jiddu Pinheiro a conseguirem transmitir-nos algo para interpretarmos em relação aos personagens a quem dão vida.

Leandra Leal e Mariana Ximenes sobressaem como estas duas mulheres misteriosas, com a presença da personagem interpretada pela primeira a destabilizar uma relação afectiva que parecia sólida, contribuindo para o nascimento de algo mais complexo no seio destes elementos. Jiddu Pinheiro interpreta eficazmente o marido traído, impotente em relação ao destino da mulher, cuja delicadeza para com a mesma parece ser exposta em pequenos gestos como a preparação da comida ou a escolha da música ambiente. Tal como em "O Rio nos Pertence", cabe ao personagem interpretado por Jiddu Pinheiro citar obras de outros autores, neste caso um trecho de "Os 6 Minutos Mais Belos da História do Cinema", presente no livro "Profanaciones", de Giorgio Agamben. É um momento que nos faz lembrar obras de Júlio Bressane como "A Erva do Rato" e "Educação Sentimental", com a influência do cineasta a também se fazer parecer sentir nesta "Operação Sonia Silk", para além de cineastas como Godard que procuravam jogar com os sons, as imagens e as palavras. A certa altura do filme encontramos os barcos a circularem relativamente ao longe no Porto do Rio de Janeiro. Aos poucos a câmara deixa essa distância e aproxima-se deste trio. Primeiro através dos momentos entre Luana e Antônia, posteriormente nas cenas entre esta última e Pedro, para além das sequências dos três personagens em conjunto. Diga-se que, em alguns momentos, os cenários que permeiam o enredo e envolvem os protagonistas são expostos de forma solitária, surgindo quase desgarrados da narrativa, com várias imagens a poderem remeter para a relevância deste espaço para os comportamentos dos personagens. A própria junção entre os personagens e os cenários remete para a influência que estes apresentam no trio, algo desde logo visível nas cenas da praia entre Antônia e Luana, com o calor a rodear o cenário e os corpos. Sons e imagens são trabalhados para proporcionar ao espectador uma experiência sensorial marcante, ao longo de uma obra cinematográfica onde se forma um estranho triângulo amoroso cujos elementos - vale a pena repetir - exibem os seus sentimentos mais pelos gestos do que pelas palavras. Esta situação exige que Leandra Leal, Mariana Ximenes e Jiddu Pinheiro transmitam muitos dos sentimentos dos personagens através do seu olhar, dos seus gestos, com o trio a ser competente neste capítulo e a convencer-nos do intrincado relacionamento entre as figuras que interpretam. Leandra Leal, tal como foi dito no texto sobre "O Rio nos Pertence", é uma das actrizes brasileiras mais interessantes da actualidade, com Mariana Ximenes a não se ficar atrás neste filme onde tem mais espaço para sobressair do que na obra cinematográfica realizada por Ricardo Pretti. Quando a câmara se foca nos rostos das duas muito é dito, com os diálogos a quase nem serem necessários para decifrarmos alguns dos sentimentos das mesmas. Ou melhor, talvez os diálogos nos facilitassem mais a vida, mas provavelmente não dariam tanto espaço para a interpretação ou divagações que se arriscam a aproximar da estupidez, tais como aquela que eu estou a fazer. As duas interpretam personagens que se envolvem e nos envolvem num enredo nem sempre coerente (sobretudo a nível temporal), que poderia facilmente ser um sonho, ao mesmo tempo que nos compelem a seguir os acontecimentos que ocorrem ao longo do filme. "O Uivo da Gaita" vem mais uma vez expor a fruição criativa nascida da "Operação Sonia Silk", surgindo como uma obra cinematográfica estimulante para os sentidos, pronta a desafiar e envolver o espectador, ao mesmo tempo que o deixa diante das complexas e instáveis relações sentimentais humanas através de um trio de personagens tão comum mas ao mesmo tempo tão peculiar.

Título original: "O Uivo da Gata". 
Realizador: Bruno Safadi.
Argumento: Bruno Safadi.
Elenco: Leandra Leal, Mariana Ximenes e Jiddu Pinheiro.

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