09 abril 2015

Resenha Crítica: "O Rio nos Pertence"

 Provavelmente uma das obras cinematográficas brasileiras mais desafiadoras e estimulantes entre aquelas que vão ser exibidas na sexta edição do FESTin, "O Rio nos Pertence" é um filme de dicotomias onde o próprio território do Rio de Janeiro aparece representado de forma dual. Entre o sonho e o pesadelo, a realidade de um enigmático cartão-postal e a memória de duas mortes traumatizantes, um Rio de Janeiro poético e ao mesmo tempo assustador, uma possível perseguição e reencontros inesperados, "O Rio nos Pertence" surge como um filme algo surreal, estimulante e envolvente, capaz de despertar a nossa curiosidade e atenção. A história é marcada por fragmentos de memórias do passado que assolam o presente, de figuras que parecem espectros que vagueiam sem rumo aparente, a começar pela protagonista, uma mulher misteriosa cujos actos nem sempre são inteligíveis que se sente a ser alvo de uma perseguição. O próprio "O Rio nos Pertence" apresenta uma narrativa que exige do espectador algum comprometimento e atenção, surgindo sempre pronta a estimular os sentidos do mesmo e a deixá-lo na dúvida sobre os próximos acontecimentos. A banda sonora adequa-se na perfeição ao tom do filme, por vezes calma, em alguns momentos agressiva, com longos trechos de silêncio a serem contrastados com gritos inesperados. Medo, dúvida, incerteza, vários são os sentimentos que parecem atravessar Marina (Leandra Leal), a protagonista de “O Rio nos Pertence”. No início do filme encontramos esta mulher a citar um trecho da Bíblia, retirado do livro "Éden, um tríptico bíblico" de Haroldo de Campos, onde fala sobre a costela que resultou na criação da mulher, apresentando um tom de voz doce e aparentemente calmo, encontrando-se acompanhada pelo namorado. O início de "O Rio nos Pertence" é marcado por estas falas retiradas da Bíblia, expostas num tom teatral, quase a fazer recordar alguns trabalhos de Júlio Bressane como "A Erva do Rato", "Cléopatra" e "Educação Sentimental", onde o cineasta procurou desafiar as barreiras da Sétima Arte. Diga-se que esta não será a única citação literária que vamos encontrar ao longo do filme, com "O Rio nos Pertence" a deixar-nos ainda com trechos da obra "A Morte de Empédocles" de Friedrich Holderlin, bem como o poema "A Cidade" de Konstantinos Kaváfis, com estas a integrarem-se de forma eficaz no enredo, surgindo cheias de significado. Veja-se o exemplo do poema de Friedrich Holderlin, um artista que chegou a ser considerado mentalmente instável, que apresentava um enorme optimismo em relação às gerações futuras. Os momentos aparentemente felizes de Marina com o namorado terminam quando esta recebe um estranho cartão-postal acompanhado pelos dizeres "O Rio nos Pertence". Inicialmente não sabemos o seu conteúdo, até esta dirigir-se ao Rio de Janeiro, uma cidade de onde partira sem dar explicações há dez anos. O realizador Ricardo Pretti transporta Marina para o Rio de Janeiro mas raramente a retira dos espaços fechados de uma habitação. Tal como esta parece estar presa às suas memórias, pressentimentos e medo do futuro, também o realizador a parece confinar a espaços fechados, com os próprios planos a emoldurarem-na muitas das vezes diante de elementos dos cenários. Os planos são muitas das vezes fixos (sobretudo nas cenas interiores, embora "O Rio nos Pertença" seja um filme de contrastes até no trabalho com a câmara, com esta a tanto poder surgir imóvel como apresentar movimento), compostos com algum cuidado, enquanto assistimos a Leandra Leal a destacar-se como esta mulher algo perturbada em relação ao seu passado e ao seu presente, que viu o seu quotidiano mudar com a chegada de um cartão-postal que a deixa perante uma paranoia latente. A chegada à casa que outrora fora dos seus pais começa desde logo a trazer-lhe recordações de falas dos progenitores e suas em momentos marcantes de outrora, com a pouca iluminação deste espaço a contrastar com o turbilhão de memórias que invade os pensamentos de Marina.

A habitação encontra-se com as janelas tapadas por jornais, com esta a retirar os mesmos. É belissimamente enquadrada no espaço da janela, já sem os jornais, com a protagonista a surgir quase emoldurada no interior deste plano, onde olha para a cidade que parece temer e odiar. Grita lá para fora, quase em jeito de revolta para com esta cidade que a "obrigou" a regressar. Os seus sonhos por vezes parecem mesclar-se com a realidade, com a sua alma a poder flutuar do corpo e a espaços deixar-nos diante de momentos onde nos questionamos sobre aquilo que estamos a ver. No retorno ao Rio de Janeiro, Marina reencontra Mauro (Jiddú Pinheiro), o ex-namorado, um indivíduo que sofreu imenso com o desaparecimento da amada, hoje professor, tendo formado família. Os dois reencontram-se na casa que parece pertencer a Marina. O espaço encontra-se coberto por cortinas, marcado muitas das vezes por uma iluminação ambiente ou natural, com Marina a falar finalmente com o antigo namorado. Os diálogos entre os personagens são paradigmáticos do tom por vezes experimental do filme, com Ricardo Pretti a não poupar-nos a elementos a falarem fora do campo, a protagonista de perfil lateral, Mauro de costas a ouvir as falas da ex-namorada, entre tantos outros recursos que exibem a procura do cineasta em mexer com o espectador. O reencontro com Mauro não é o único convívio com personagens inerentes ao seu passado com que Marina se depara. A irmã (Mariana Ximenes) não demonstra grande entusiasmo pelo regresso de Marina, com Mariana Ximenes a expor com eficácia a atitude inicialmente marcada por alguma animosidade desta mulher em relação à familiar. De muletas devido a uma queda das escadas, a irmã logo agride Marina questionando a sua longa ausência sem ter dito nada a ninguém sobre o seu paradeiro. As cortinas estão fechadas, mas os sentimentos bem abertos, enquanto episódios do passado são recordados no presente e trazem consigo algumas verdades nem sempre agradáveis de relembrar. O espaço da casa aos poucos torna-se opressivo, com a cinematografia a mesclar uma certa atmosfera de intimismo em alguns momentos com um ambiente algo pesado onde os personagens parecem presos ao passado e desprendidos em relação a um presente ao qual por vezes parecem não pertencer. Esta situação é notória nas falas de Mauro quando salienta que vive tudo pela metade: sente-se "meio-morto", sente o ódio pela metade, sente o amor pela metade, algo que advém dos resquícios da profunda depressão que sofreu aquando do desaparecimento da protagonista. Jiddú Pinheiro é outro dos elementos deste curto elenco que se destaca, interpretando um personagem que encara a vida num misto de desencanto e optimismo, ou não fosse este quem cita Friedrich Holderlin. No entanto, é em Marina que se centra boa parte do enredo, com todos os personagens a praticamente apenas surgirem quando esta se encontra presente. Marina é um enigma. Leandra Leal consegue transmitir as características enigmáticas desta personagem, com a actriz a comprovar ser um dos nomes mais interessantes do cinema contemporâneo brasileiro. Esta não só protagoniza o filme como produz o mesmo (através da Daza, uma empresa de produção que possui ao lado de Carolina Benjamin e Rita Toledo), com "O Rio nos Pertence" a fazer parte da "Operação Sonia Silk", uma série de três filmes em formato de longa-metragem para salas de cin­ema, pro­duzi­dos de forma coop­er­a­tiva, com equipa e elenco comuns, fil­ma­dos em 4K no mês de Janeiro de 2012.

A "Operação Sonia Silk" é uma pro­dução da DAZA, TB Pro­duções e Alum­bra­mento, em co-pro­dução com o Canal Brasil e a Teleim­age, da qual resultaram os filmes de ficção “O Rio nos Per­tence” e “O Uivo da Gaita”, com a terceira obra cinematográfica a ser “O Fim de Uma Era". Nesse sentido, é interessante recordar que a carreira de Leandra Leal é marcada não só por obras cinematográficas experimentais e desafiantes como "O Rio nos Pertence", como filmes do género (veja-se o recomendável "O Lobo Atrás da Porta" cuja distribuidora em Portugal tem mantido num estranho cativeiro), películas mais comerciais como "Mato Sem Cachorro", para além de telenovelas e peças de teatro. O talento da actriz é notório e fica bem expresso em "O Rio nos Pertence" com esta a conseguir agarrar o filme, surgindo exímia a colocar-nos em dúvida em relação ao estado mental e motivações de Marina, ao mesmo tempo que nos convence, quer nos momentos de maior acalmia, quer nos acessos de maior fúria, quer quando tememos que exista mesmo uma conspiração a rodear esta mulher. A própria banda sonora contrasta ritmos mais melódicos com tonalidades agressivas, capazes de adensar a atmosfera por vezes opressora que envolve o enredo do filme. Veja-se quando temos a cena de uma saída da protagonista (onde encontramos a câmara pronta a seguir a protagonista), quase a remeter para a atmosfera de um pesadelo, onde a personagem interpretada por Leandra Leal se depara com a frase "O Rio nos Pertence", com esta a surgir enigmática no meio deste filme que consegue disfarçar as suas limitações orçamentais com uma realização e um argumento engenhosos. A própria cinematografia contribui para elevar "O Rio nos Pertence". Os planos são muitas das vezes fixos (o que não implica uma falta de movimentos de câmara ao longo do filme) mas os sentimentos e modo de agir da protagonista são imprevisíveis. Regressa ao Rio de Janeiro, um local que tinha abandonado, mas rapidamente as memórias do passado aparentemente esquecidas durante o tempo em fuga acabam por regressar à tona. Existe uma mescla de pânico, medo, terror, curiosidade e insanidade a rodear o quotidiano da protagonista. Por vezes sonha, por vezes parece viver episódios bem reais, embora a linha entre o sonho e a ilusão seja bastante ténue. Esta pondera o suicídio embora pareça temer a morte, sentindo-se compelida a regressar ao Rio de Janeiro embora as motivações nem sempre pareçam inicialmente claras. O destino de Marina parece fadado à desgraça, com este seu regresso ao Rio de Janeiro a ser marcado por uma mescla de sentimentos que se adequa na perfeição às dicotomias do território que nos é apresentado. Como é salientado na descrição do filme no site da Daza: "Em O RIO NOS PERTENCE, as belas pais­agens do Rio de Janeiro, com suas mon­tan­has, rochas e flo­restas, transformam-se em ima­gens ameaçado­ras ou mesmo ater­ror­izantes para a per­son­agem de Marina, que tenta encon­trar sen­tido para o que acon­tece na cidade". O território torna-se simultaneamente sedutor e ameaçador, com o cartão-postal que Marina recebe a entroncar ainda num ambiente de conspiração e paranoia, com o pai da protagonista a ter recebido uma carta semelhante antes de falecer ou ter cometido suicídio. A juntar a tudo isto, temos as notícias de um crescente número de suicídios no Rio de Janeiro, algo que torna tudo ainda mais nebuloso, sobretudo essa possível conspiração, numa obra cinematográfica que não tem problemas em tomar riscos e seguir por caminhos nem sempre esperados, ao mesmo tempo que está longe de apresentar esta cidade como se fosse um "cartão-postal", embora a atracção e desapego que desperta em Marina seja notório. O título remete para "Paris nous appartient" de Jacques Rivette, com o próprio "O Rio Nos Pertence" a ter procurado beber inspiração nesta obra cinematográfica do prestigiado cineasta francês.

"O Rio Nos Pertence" procura também fugir de quaisquer convenções telenovelescas, surgindo como um filme ambicioso, por vezes a parecer ter bebido inspiração em obras cinematográficas de cineastas como Júlio Bressane, sem medo de arriscar, de desafiar as barreiras dos géneros, com baixos orçamentos e grande criatividade. Muito do enredo do filme desenrola-se em espaços fechados, em quartos que tanto transmitem intimidade como opressão, calma e medo, com a cinematografia e a banda sonora a contribuírem para esta situação. A iluminação surge muitas das vezes discreta, com a escuridão a tomar em alguns momentos conta do enredo, tal como a poesia, a literatura, o desencanto e os sentimentos mais díspares. Por vezes fazemos questões a nós próprios sobre a protagonista. Será que está louca? Será que está mesmo a ser perseguida? Quem enviou a carta? Estará a viver realmente estes episódios ou a sonhar? Entre outras questões que podemos colocar mas que poderiam servir ainda mais como spoilers para quem não viu o filme. Marina sente-se a ser perseguida, com a carta que recebeu a dar conta disso, algo que parece conduzir a um certo fatalismo por parte desta personagem que fica entre enfrentar e questionar o passado ou simplesmente aceitar aquilo que o destino tem para lhe dar. O regresso ao Rio de Janeiro parece estar longe de acalmar a alma da protagonista, enquanto imagens do passado do território são expostas e existe mais uma vez este contraste no enredo. Passado e presente confrontam-se, quer no território através das fotos e as imagens em movimento do presente, quer devido à protagonista, com esta a reencontrar o ex-namorado e a irmã, ao mesmo tempo que se recorda dos episódios de outrora. A certa altura quase que nos lembramos dos protagonistas de "Repulsion" e "The Tenant" e a paranoia que desenvolvem, com o espaço das suas casas a surgir muitas das vezes como potenciador das suas inquietações. A própria paleta cromática parece contribuir para adensar diversos episódios mais inquietantes da narrativa. Veja-se a presença dos tons azulados e frios quando Marina recebe a carta-postal, ou quando está sozinha na casa a recordar-se de memórias antigas, com a sua voz a surgir em off a reproduzir falas ditas no passado. Inquietante, enigmático e desafiador, "O Rio nos Pertence" agarra-nos sem contemplações até nos soltar e deixar com uma enorme vontade de ver a obra cinematográfica por mais do que uma vez, com Ricardo Pretti a realizar um filme que parece ganhar imenso com múltiplas visualizações. Não tanto por ser inteligível mas sim devido a estimular esse nosso regressar ao filme, com "O Rio nos Pertence" a conseguir que queiramos apreciar mais os pequenos pormenores de uma obra cinematográfica cujo diminuto orçamento não limitou as suas ambições, com Ricardo Pretti a demonstrar uma competência notória.

Título original: "O Rio nos Pertence".
Realizador: Ricardo Pretti.
Argumento: Ricardo Pretti.
Elenco: Leandra Leal, Mariana Ximenes, Jiddú Pinheiro.

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