13 abril 2015

Resenha Crítica: "Jogo de Xadrez"

 Primeira longa-metragem realizada por Luis Antonio Pereira, "Jogo de Xadrez" procura recuperar o drama prisional protagonizado por mulheres, ao mesmo tempo que esboça uma tentativa de denunciar a violência nas prisões femininas (e não só), a corrupção e as injustiças sociais, mas aborda as temáticas de forma demasiado simplista e insípida para conseguir deixar marca. Na teoria existe alguma ambição mas, na prática, esta nunca se concretiza, com "Jogo de Xadrez" a surgir como uma pálida amostra de um drama prisional mesclado com elementos de fuga da prisão e história de vingança, em grande parte devido a nunca encontrar o seu tom e contar com um argumento demasiado raso que se fica pelos arquétipos, numa narrativa onde raramente a tensão e a violência são sentidas. "Jogo de Xadrez" tinha tudo para ser mais do que um filme banal, mas a falta de habilidade para utilizar as peças certas no tabuleiro conduzem a que fiquemos diante de um filme marcado por personagens-cliché, uma banda sonora muitas das vezes intrusiva e uma narrativa pouco desafiadora. Não falta a prisioneira durona, a injustiçada, a traiçoeira, o director da prisão e um político corruptos, polícias violentos, entre toda uma série de personagens que raramente saem dos lugares-comuns que servem para adornar uma narrativa bem intencionada mas pouco conseguida. É uma oportunidade perdida, com o cineasta a contar com uma protagonista com algum talento como Priscila Fantin e nomes com algum currículo como Carla Marins e Antonio Calloni, mas poucos têm oportunidade de brilhar. Priscila Fantin interpreta a protagonista do filme, Guilhermina, mais conhecida como Mina, uma mulher que se encontra em prisão preventiva devido ao envolvimento num escândalo de corrupção. O caso envolve ainda o Senador Franco (Antonio Calloni), um elemento que procura a todo o custo que Mina se mantenha na prisão ou seja eliminada de forma a que a presença deste seja abafada. Mina procura controlar as várias mulheres e os negócios obscuros entre presidiárias, contando com o apoio de Martona (Luana Xavier), o seu braço direito, que é como quem diz, a mulher que serve quase como sua segurança. A personagem interpretada por Priscilla Fantin procura sair da prisão e provar o envolvimento de Franco no caso, algo que vai contra a ideia de Geraldo (Tuca Andrada), o corrupto director da prisão, um elemento ao serviço do político que pretende descobrir as provas que esta tem contra o senador tendo em vista a silenciar a reclusa. O espaço prisional recebe ainda a presença de Beth (Carla Marins), uma mulher agressiva e algo abrutalhada, pronta para a pancadaria e para ofender aqueles que dela se aproximam. A personagem interpretada por Carla Marins logo desperta a atenção de Geraldo, com este a procurar seduzi-la embora logo veja os seus testículos serem fortemente apertados pela presidiária. Beth vai parar à solitária, tal como fora a certa altura Mina, com ambas a serem fortemente agredidas. Existe um plano que envolve a agressão e possível assassinato de Mina, mas logo é gorado, até esta, em conjunto com Martona e Beth, fugirem da prisão, algo que promete colocá-las em perigo, existindo pelo meio algumas mentiras, violência, traições e variadas coincidências na narrativa que revelam a enorme preguiça do argumento num filme que tinha potencial para muito mais. Veja-se desde logo o drama na prisão. A violência cometida sobre as presidiárias ou entre estas pouco efeito provoca no espectador, na maioria exibida através da maquilhagem utilizada pelas actrizes (ou a ouvirmos os gritos oriundos do fora de campo), as interpretações, tais como a de Carla Marins, parecem nunca sair da caricatura, enquanto a denúncia social perde-se pela forma rasa como o argumento aborda as situações. Esta situação fica desde logo visível no personagem interpretado por Tuca Andrade, um director prisional corrupto, pronto a ter casos com as presidiárias e a entrar em esquemas menos claros, com o actor a dar vida a um elemento completamente unidimensional que é tão caricato como o seu destino.

 Priscila Fantin ainda tenta agarrar o filme, com a sua interpretação a espaços a conseguir elevar um argumento pueril que muitas das vezes parece não saber em que direcção pretende ir. Esta interpreta uma personagem que teve um caso com um político corrupto, participando num golpe com este, embora fique como a única culpada. Mina tem na irmã um dos apoios fora da prisão, uma mulher que inicia um caso com o filho de Franco tendo em vista a participar no esquema da familiar. Esta trama secundária só é aproveitada na segunda metade da narrativa, embora o destino do filho do político pouco nos interesse devido ao personagem nunca ter sido desenvolvido. O próprio Franco é um personagem quase figurativo, que representa um político corrupto que pretende encobrir o seu nome mas para isso não precisavam de chamar Antonio Calloni, um actor com algum talento que merecia um argumento melhor à disposição. A própria realização não parece apresentar grande rumo e inspiração, com a fuga da prisão a parecer desde o princípio "cheirar a esturro" devido à facilidade com que ocorre e com o facto das fugitivas praticamente nem precisarem de se esconder. O relacionamento entre o trio é dos poucos elementos que sobressai pela positiva em "Jogo de Xadrez", com Mina, Martona e Beth a apresentarem uma dinâmica convincente, com a primeira a surgir como a aparente líder destas presidiárias. Como é óbvio vai existir uma traição no interior do grupo, mas também um plano recheado de falhas preparado por estas mulheres. O possível jogo entre "o gato e o rato" entre Mina e Franco nunca consegue apresentar níveis de tensão, nem de emoção, em parte devido ao segundo raramente ser desenvolvido. O facto do filme utilizar personagens-cliché não seria problemático se esses lugares-comuns fossem bem desenvolvidos e aproveitados, algo que não acontece ao longo de um filme onde o jogo que decorre no tabuleiro de xadrez cinematográfico raramente chega para sustentar a duração de um filme que mesmo que fosse de série b teria obrigação de dar algo mais ao espectador. Falta emoção, intensidade, ritmo, coerência narrativa, um argumento capaz de atribuir maior densidade aos personagens, salvando-se Priscila Fantin mais pelo carisma e capacidade para a representação do que propriamente pelo material que tem em mãos. O que não deixa de ser uma oportunidade falhada para denunciar a violência nas prisões, a corrupção política, bem como explorar a história de vingança, mas para isso era necessário que Luis Antonio Pereira soubesse movimentar as peças de xadrez que tem à disposição. A própria cinematografia está longe de se conseguir destacar e transmitir uma possível claustrofobia no interior do espaço da prisão, tal como o cenário está longe de ser aproveitado na sua plenitude. Os momentos posteriores à fuga desafiam qualquer boa vontade que tenhamos em baixar a guarda e deixar de lado o nosso lado mais pragmático, com o elenco feminino a fazer o que pode mas a raramente ver as personagens interpretadas evoluírem ao longo da obra cinematográfica. Mina continua a sua procura em vingar-se. Martona continua a ser a "segurança" do grupo. Já Beth apresenta algumas mudanças mas a interpretação de Carla Marins é demasiado caricatural para conseguirmos levar a personagem a sério. Pueril, incapaz de gerar tensão ou emoção, "Jogo de Xadrez" exibe o óbvio: não basta um tabuleiro para entrar em jogo, é preciso ter uma estratégia, saber a próxima jogada a tomar e conhecer minimamente as regras. Entre drama prisional, filme de fuga da prisão e de vingança, "Jogo de Xadrez" fica-se pelas boas intenções e pela procura de efectuar uma denúncia social, numa obra cinematográfica que perde o seu pouco fulgor perante a puerilidade do argumento e uma realização insípida e sem rumo.

Título original: "Jogo de Xadrez".
Realizador: Luis Antonio Pereira.
Argumento: Luis Antonio Pereira.
Elenco: Priscila Fantin, Carla Marins, Antonio Calloni.

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