01 abril 2015

Resenha Crítica: "Furious 7" (Velocidade Furiosa 7)

 "Furious 7" não engana o espectador nos seus propósitos, nem isso seria possível ou não estivéssemos no sétimo filme de uma saga conhecida pelas suas corridas de carros, cenas de acção, momentos de escapismo e capacidade de nos envolver na maioria das vezes no espírito de grupo apresentado pela "família" de Dominic Toretto (Vin Diesel). Quem não morre de amores pela saga provavelmente vai continuar a não gostar da mesma. Quem gosta da franquia provavelmente vai apreciar, pelo menos de forma moderada, o filme. Quem reprime os sentimentos em relação ao filme, mas vai ao visionamento de imprensa de forma não remunerada, pode continuar a fingir que é um pastor a guiar os cordeirinhos cinéfilos, com a conversa de treta a perder fulgor quando estamos a abordar o sétimo filme da franquia, ou seja, pouco se pode dizer que alguém vai "ao engano". Não é o primeiro, não é o segundo, não é o terceiro, não é o quarto filme... ok, acho que perceberam a ideia. Não gostar do filme é um direito. No entanto, não deixa de ser interessante verificar que alguns críticos profissionais abominam os filmes do género mas, muitas das vezes, não metem os pés nos festivais de cinema, ou não abordam outras obras cinematográficas mais merecedoras de algum tempo despendido, tal como bloggers e elementos de sites por vezes enchem os visionamentos como o de “Furious 7” e deixam outros às moscas. Não critico a atitude (eu próprio estou longe de não cometer as minhas incoerências) mas, por vezes, parece algo hipócrita, sobretudo quando alguns meios profissionais (e todos os não profissionais) têm a liberdade para efectuar alguma filtragem em relação aos filmes que cobrem. Já pensei mais sobre as visitas, tal como já acompanhei com muito mais regularidade as estreias, deixando de lado filmes que realmente me interessavam como cinéfilo. Se é verdade que é um regalo poder ver filmes de Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi, Alfred Hitchcock, Yasujiro Ozu, Paul Thomas Anderson, Stanley Kubrick, Ann Hui, entre tantos(as) outro(as) cineastas, também não deixo de ter os meus guilty pleasures, ou seja, aqueles momentos em que sei que aprecio um filme que apenas com excesso de boa vontade é que se pode dizer que é mediano. Confesso que cada vez tenho menos paciência para ver este tipo de filmes em visionamentos e ainda menos pachorra para escrever sobre os mesmos. Por vezes apetece-me apenas desfrutar de um pedaço meio idiota de cinema que me diverte e entretém durante algum tempo, faz-me esboçar alguns sorrisos com as suas extravagâncias e capacidade de ter a noção de que quase tudo aquilo que nos está a apresentar é irreal e completamente exagerado. Veja-se o momento completamente idiota em que Hobbs (Dwayne Johnson) parte o gesso de um braço praticamente com a força dos seus músculos, ou quando este personagem desata aos tiros de metralhadora. Em "Velocidade Furiosa 7" assistimos a tudo aquilo que podemos esperar de um filme da saga (se tivermos em linha de conta a forma como esta tem evoluído): corridas de carros a alta velocidade marcadas por enorme emotividade; cenas de acção coreografadas com engenho; malabarismos aparentemente impossíveis com os bólides onde a gravidade e a lógica são muitas das vezes desafiadas; frases de efeito; um argumento frágil; o sentido de família de Dominic Toretto (Vin Diesel); uma banda sonora estilosa que é o paradigma de um filme onde o estilo se sobrepõe sempre à substância e, claro está, cerveja Corona. Não pode faltar cerveja Corona num filme da saga "Velocidade Furiosa", o "sumo de cevada" com que Dominic Toretto desfruta nalguns dos momentos com a sua "família", ou seja, o grupo de amigos com quem foi formando fortes laços de amizade ao longo dos filmes da saga nos quais Vin Diesel esteve presente, com "Furious 7" a ter diversos momentos de fan service que apenas quem viu as obras cinematográficas anteriores vai perceber. 

 Uma das novidades em relação aos filmes anteriores da saga centra-se na entrada de James Wan para o cargo de realizador. É certo que o seu estilo se dilui diante de uma franquia estabelecida mas nota-se elementos como um adensar do suspense em alguns momentos, mas também mais lutas corpo a corpo, na maioria coreografadas de forma exímia, com "Furious 7" a tirar partido dos "tanques de músculos" que povoam a saga. Existe muita acção, mas também alguma nostalgia, não só em relação a Paul Walker, exposta nos momentos finais de "Furious 7", em momentos que provavelmente vão emocionar os fãs que viram todos os filmes da saga, mas também em relação a outros personagens que se foram perdendo pelo caminho ao longo da franquia, tais como Gisele (Gal Gadot), Han-Seoul-Oh (Sung Kang), entre outros. Surpreende o desfecho adequado dado ao personagem interpretado por Paul Walker. Por vezes notamos que não é o actor a interpretar as cenas (devido a ter falecido durante um trágico acidente quando ainda faltavam terminar algumas filmagens) e temos a noção que este nunca foi um fora de série, mas o personagem que interpreta, associado ao facto de ser sempre penoso uma vida perder-se, conduzem a que o final, apesar de deixar abertura para mais um filme, preste a devida homenagem ao actor. Em "Furious 7", Brian é um pai de família que se procura habituar a conduzir de forma segura para não colocar a vida do filho em risco, mantendo uma forte relação com a esposa e o cunhado, Dominic Toretto, com ambos a considerarem-se praticamente irmãos. Dom salienta desde cedo que não tem amigos mas sim família, algo sempre muito presente no personagem, um líder nato, com uma voz forte, capaz de colocar a sua vida em perigo para defender aqueles que dele são próximos, com Vin Diesel a compensar em carisma aquilo que não tem em versatilidade e talento. É para defender a sua "família" que Dominic vai embater de frente com Deckard Shaw (Jason Statham), um indivíduo que procura vingar o mau estado em que o personagem interpretado por Vin Diesel e o seu grupo deixaram o seu irmão no filme anterior. Nesse sentido, começa a ameaçar estes elementos um a um. Primeiro a roubar a informação sobre o grupo de Dom no escritório da DSS (Serviço de Segurança Diplomática) no qual Hobbs trabalha, onde logo enfrenta este último de frente. Hobbs foi um elemento activo nos eventos contra Owen Shaw, o irmão de Deckard, procurando proteger a identidade dos membros do grupo de Dom. É um dos primeiros combates corpo a corpo de "Furious 7", com Dwayne Johnson e Jason Statham a exibirem a sua perícia para este tipo de cenas de acção, até um aparelho explosivo deixar Hobbs em muito mau estado. Com Han morto por Shaw, Dom, Brian e Mia (Jordana Brewster) logo percebem que as suas vidas se encontram mesmo em perigo ao receberem um dispositivo explosivo que destrói por completo a habitação dos dois últimos. Estes reúnem-se com Hobbs em busca de informação sobre o antagonista. Dom e o grupo são contactados por Mr. Nobody (Kurt Russell), um agente de uma divisão secreta de segurança que pretende resgatar o "God's Eye", uma pequena máquina com um programa capaz de rastrear qualquer ser humano. Nesse sentido, incumbe Dom e o grupo de recuperarem este aparelho, para além de terem de resgatar Megan Ramsey (Nathalie Emanuel), a bela programadora informática que elaborou o mesmo. Nobody revela ainda que Deckard Shaw é um assassino treinado pelas forças especiais que se evadiu e encontra-se desaparecido das autoridades, procurando ajudar o grupo a encontrá-lo com o "God's Eye" (o MacGuffin) se recuperarem o mesmo. A demanda para encontrar o objecto e Megan conduz a que o grupo de Dom embata de frente com elementos como Jakande (Djimon Honsou), Kiet (Tony Jaa), entre outras figuras unidimensionais que sobressaem pela sua capacidade para dar pancada. A busca por Shaw e pelo aparelho tecnológico conduz o grupo de Dominic Toretto, composto por Brian, Letty, Roman, Tej, entre outros, a locais tão distintos como Tóquio, República Dominicana, Abu Dhabi, Los Angeles, enquanto procuram salvar as suas vidas e vingarem-se do antagonista. 

 A procura pelo aparelho tecnológico é um meio de James Wan conseguir alicerçar o enredo a algo mais do que à simples perseguição e fuga a Shaw, uma situação que em alguns momentos chega a secundarizar a figura deste temido antagonista. Jason Statham interpreta o típico vilão impiedoso, enquanto Dom surge como um indivíduo duro mas sentimental. Em Abu Dhabi, estes procuraram recuperar o aparelho, intrometendo-se numa festa de luxo onde Dom e Brian logo roubam um bólide topo de gama, Letty anda à pancada contra Kara (Ronda Rousey), a segurança de um bilionário de Abu Dhabi que tinha comprado a peça onde se encontrava o aparelho pretendido pelo grupo, Roman (Tyrese Gibson) procura semear a confusão. Já Tej (Ludacris) e Megan surgem como os elementos que procuram penetrar pelo sistema informático, com a segunda ainda a ser alvo dos mais variados comentários de cariz sexual devido ao interesse que desperta no primeiro e em Roman, com os personagens interpretados por Tyrese Gibson e Ludacris a apresentarem uma dinâmica assinalável e um excelente timing para o humor. Não vão faltar ainda algumas reviravoltas pelo meio, com Shaw a parecer estar quase sempre em todo o lado, enquanto "Furious 7" brinda-nos com um conjunto elevado de cenas de acção, muito humor, nostalgia e um argumento nem sempre coerente como sempre foi a prata da casa. A saga "Velocidade Furiosa" nunca primou pela qualidade dos diálogos, nem seria no sétimo filme que essa situação iria acontecer, com "Furious 7" a conter vários elementos que mantiveram a saga bem viva ao longo dos anos, sobressaindo sobretudo a dinâmica entre o grupo de Dom, com cada personagem a parecer saber o seu papel: Dom é o líder da equipa, um elemento fiel aos seus princípios e à sua "família", tendo em Letty o seu interesse amoroso; Letty procura recuperar as memórias do passado embora ainda apresente uma enorme habilidade para as corridas de carros; Brian procura lidar com a paternidade e a vida de casado com Mia, embora sinta saudades da adrenalina e das "balas"; Tej e Roman são o alívio cómico, sobretudo este último. Temos ainda a adição de Kurt Russell como um personagem cheio de estilo, apreciador de uma cerveja distinta de Dom, inicialmente algo ambíguo que facilmente demonstra estar do lado do protagonista e admira a sua eficiência, mesmo que o elemento interpretado por Vin Diesel e a sua equipa destruam tudo à sua volta. Diga-se que não vão faltar cenas de acção mirabolantes e corridas de carro frenéticas. Dom e Shaw digladiam-se de vontades nos respectivos automóveis, Megan Ramsey salta de carro em carro, Brian passa por baixo de camiões, entre toda uma série de acrobacias que incluem ainda carros a saírem de aviões em voo ou a atravessarem prédios gigantescos em Abu Dhabi. Temos ainda tiros de metralhadoras, drones em acção, para além dos emotivos combates corpo a corpo, com o filme a abrir hostilidades com Hobbs a enfrentar Shaw, mas também Letty contra Kara. 

Não falta ainda o confronto entre os personagens interpretados por Vin Diesel e Jason Statham, com "Furious 7" a conseguir ser praticamente tudo aquilo que "The Expendables 3" não conseguiu ser. Abraça a puerilidade do seu argumento com os próprios personagens a comentarem sobre as situações exageradas em que se envolvem, apresenta cenas de acção emotivas, efectua fan service ao colocar elementos que remetem para os filmes anteriores da saga, ao mesmo tempo que apresenta um tom leve que deixa sempre clara a procura de "Furious 7" em não ser mais do que uma obra de puro escapismo. Temos ainda algumas temáticas secundárias, tais como Brian a lidar com a paternidade, Dom a tentar reconquistar Letty, numa obra onde os momentos de acalmia são raros. Ao sétimo filme da saga é difícil ficar surpreendido com aquilo que ela tem para nos dar, apesar de não faltarem perseguições de helicóptero, drones, carros a descerem pelos céus e montanhas, deslocações a diversas cidades, entre toda uma dose de episódios onde o delírio e a estupidez se juntam (estamos longe dos tempos em que Brian era um polícia que se procurava infiltrar no mundo das corridas ilegais em "The Fast and the Furious"). O argumento é simples, as cenas de acção são competentes, as corridas de carros surgem em doses q.b. para aquilo que se espera da saga, numa obra que nem sempre controla os ritmos da melhor maneira, algo latente no último terço onde James Wan parece procurar estender em demasia o enredo quando o argumento já não dá para mais. "Furious 7" não é o melhor filme da saga. Não é uma obra-prima. Não conta com um argumento elaborado, nem é realista, surgindo como a típica sequela que procura engrandecer ainda mais os eventos e as cenas de acção em relação aos filmes anteriores. Esses excessos em doses acima da média por vezes tiram ritmo à obra, ao mesmo tempo que parece cada vez mais notório que este seria o desfecho preferível para uma saga que se procura renovar de filme para filme, mantendo algumas das suas características essenciais embora já não tenha muito de novo para dar. Procura apenas proporcionar algum escapismo ao espectador ao longo da sua duração, algo que muitas das vezes consegue num filme onde o estilo se sobrepõe à substância. Tem imensos problemas, por vezes tem momentos completamente irrealistas e idiotas, um pouco como esta pessoa que escreve o texto, talvez por isso me tenha divertido a ver de novo a "família" em acção, com "Furious 7" a cumprir de forma relativamente eficaz com aquilo a que se propõe, proporcionando momentos que podem ser nulos do ponto de vista crítico mas tão épicos como ver Vin Diesel à pancada com Jason Statham ou este último em confronto com Dwayne Johnson, com os actores a convencerem nos respectivos papéis. Ou seja, esta pessoa tem a perfeita consciência que "Furious 7" não é uma obra-prima, se calhar até dizer que é mediana pode ser excesso de boa vontade, mas seria um enorme hipocrisia se ignorasse o facto de me ter divertido imenso a ver o filme e ainda me ter comovido nos momentos finais. Lá para o final do ano, se me perguntarem por um guilty pleasure, é provável que assuma sem rodeios que foi "Furious 7".

Título original: "Furious 7".
Título em Portugal: "Velocidade Furiosa 7". 
Realizador: James Wan.
Argumento: Chris Morgan.
Elenco: Vin Diesel, Paul Walker, Dwayne Johnson, Michelle Rodriguez, Jordana Brewster, Tyrese Gibson, Chris Bridges, Lucas Black, Jason Statham.

Sem comentários: