08 abril 2015

Resenha Crítica: "Entre Nós"

 As memórias do passado podem nem sempre ser agradáveis de desenterrar, sobretudo quando confrontadas com a realidade do presente e a noção de que muitas das expectativas foram defraudadas ou mesmo as que foram alcançadas não parecem invadir a alma num assomo de felicidade como se esperaria. Esta longa frase poderia praticamente descrever o contexto dos protagonistas de "Entre Nós", um drama humano capaz de despertar as mais diferentes emoções, quando se encontram, dez anos depois de terem escrito cartas que guardam no jardim da casa de campo de Silvana (Maria Ribeiro), uma das integrantes do grupo. É um filme onde os relacionamentos entre os personagens são explorados de forma segura, homogénea e bastante humana, com Paulo e Pedro Morelli a realizarem uma obra cinematográfica que nos surpreende pela forma como nos arrebata para o interior do espaço fechado da casa onde os protagonistas encontram-se temporariamente instalados e as imediações da mesma. A narrativa começa em 2002, mas rapidamente recua para 1992, com o cenário a ser a casa de campo de Silvana e as imediações da mesma, onde a jovem troca momentos de grande cumplicidade com Felipe (Caio Blat) e Rafa (Lee Taylor). Rafa é o melhor amigo e o maior cúmplice de Felipe, enquanto Silvana mantém uma forte relação com os dois, sobretudo com o primeiro. A amizade entre Rafa e Felipe é coesa ao ponto do primeiro mostrar o final do manuscrito do seu livro ao segundo. Rafa é um aspirante a escritor no qual todos depositam enormes esperanças, tal o talento que apresenta para a escrita, com a forma como interpreta o mundo que o envolve a parecer arrebatar todos os que o rodeiam. O trio aspira a ter sucesso no mundo literário, tal como Drica (Martha Nowill), Gus (Paulo Vilhena), Lúcia (Carolina Dieckmann), enquanto Cazé (Júlio Andrade) pretende ser crítico literário. Gus e Lúcia têm um caso amoroso, tal como Drica e Cazé. São jovens, cheios de sonhos e ilusões, a viverem o momento de forma feliz, com esta casa de campo a ser palco de alguns episódios aparentemente radiantes entre todos. Decidem escrever uma carta para cada um ler, dez anos depois, onde apontam objectivos para as suas vidas, deixando por escrito aquilo que esperam alcançar. Divertem-se e bebem muito mas a desgraça abata-se sobre estes quando Rafa, já notoriamente embriagado, decide conduzir. Felipe acompanha-o para o amigo não ir sozinho. Um acidente conduz à trágica morte de Rafa, com este a surgir como uma espécie de figura mítica para os amigos que o encaravam como a maior esperança literária do grupo. Dez anos se passam entre estes episódios. Estes elementos amadureceram, parecendo notório que a maioria já não se encontrava há muito tempo, embora rapidamente pareçam reavivar as memórias antigas, algo que nem sempre vai ser positivo.

A reunião destes personagens vai ser marcada por uma mescla variada de emoções, com "Entre Nós" a fazer justiça ao título e a deixar praticamente tudo entre Felipe, Drica, Gus, Lúcia, Cazé e Silvana. O argumento é hábil o suficiente a expor e desenvolver a personalidade de cada personagem, bem como a abordar os relacionamentos que cada um mantém entre si, ao mesmo tempo que exibe que as transformações que ocorreram nestes elementos não foram apenas físicas. O grupo de amigos e amigas reúne-se para retirar as cartas, mas também para conviver durante algum tempo e expor o estado da situação em que se encontram as suas vidas. Felipe encontra-se casado com Lúcia, de quem tem um filho, tendo alcançado um enorme sucesso literário, embora nem sempre aprecie as críticas de Cazé aos seus trabalhos. Cazé é casado com Drica, uma mulher aparentemente extrovertida, bastante aberta a falar de temas relacionados com o sexo que seguiu uma carreira como agente imobiliária, embora esta também conte com os seus problemas. Os dois têm as suas desavenças mas parecem o casal mais sólido que povoa o enredo. Gus teve de lidar com o insucesso a nível profissional e amoroso, procurando ainda reprimir os sentimentos em relação a Lúcia. Silvana assumiu uma profissão como executiva, longe dos delírios literários e do mundo de sonhos que partilhava com Rafa, com Maria Ribeiro a interpretar uma personagem viajada, com mente aberta e alguma mágoa em relação à perda do personagem interpretado por Lee Taylor. Um dos maiores méritos de "Entre Nós" centra-se no facto de deixar a morte de Rafa como um elemento relevante, embora este episódio nunca consiga retirar o protagonismo dos diversos momentos vividos entre os vários personagens ao longo do enredo. Cazé conseguiu tudo aquilo que queria, descobrindo até uma faceta como culinário, embora tenha de lidar com a procura da esposa em ter um filho, uma ideia que o desagrada. O sucesso de Felipe traz um peso na sua alma que aos poucos vai dilacerando cada vez mais o seu âmago, ao ter de lidar com a verdade sobre um episódio pouco dignificante sobre a sua chegada ao sucesso. É confrontado por Lúcia, com a relação entre ambos a ser representada como algo fria e cada vez mais distante após esta revelação que coloca a personalidade de Felipe em causa. Tudo piora quando Drica tem a ideia de publicar os escritos de Rafa num blog de forma a honrar a memória do mesmo, com Felipe a ser inexplicavelmente um dos poucos opositores em relação a este acto. Caio Blat tem uma interpretação de um nível elevado de um actor de quem esperamos exactamente o melhor. Este interpreta um personagem ambicioso e complexo, que sempre quis alcançar o sucesso e ambicionava ser escritor, com o actor a conseguir atribuir a densidade necessária a Felipe. A própria representação de Felipe no passado e no presente exibem bem as suas diferenças. No passado surge descontraído. No presente utiliza uma barba carregada, roupas inicialmente mais escuras e óculos de sol, reprimindo uma verdade que pouco abona em seu favor. Existe tensão entre Felipe e a esposa, mas também entre este e a sua própria consciência, embora esta apenas pareça ter sido "activada" devido ao segredo ter sido descoberto. Se o sucesso de Felipe vem carregado de um enorme drama, já o insucesso de Gus não parece ser aquilo que mais o preocupa. Gus era e é o elemento mais romântico do grupo. Este teme que o conteúdo da sua carta seja descoberto, sobretudo a sua destinatária, um receio que partilha com Drica num dos vários momentos de "Entre Nós" nos quais Paulo e Pedro Morelli deixam dois personagens isolados a dialogarem e exporem a sua intimidade.

 É no desenvolvimento e exposição destes relacionamentos intrincados que "Entre Nós" se concentra e sobressai, conseguindo envolver-nos nas histórias pessoais de cada um destes elementos, com cada um a contar com traços de personalidades, ansiedades, desejos e frustrações com os quais nos conseguimos em algum momento identificar. A perícia da dupla de realizadores é notória no momento das revelações do conteúdo das cartas. Existe algo que emociona os personagens e que passa para nós, com estes a terem de lidar com uma situação que pode ser bem mais difícil do que julgavam: as expectativas que criaram para si próprios há dez anos, com as memórias a avivarem-se de forma latente. Quantos de nós não criámos expectativas para as nossas vidas? Este momento da revelação do conteúdo das cartas tem tanto de intenso como de emocionante, com alguns salpicos de humor e dramatismo. Veja-se o caso da carta de Drica, marcada por algum humor, embora seja a de Gus aquela que provavelmente mais nos toca, enquanto o texto de Rafa vem reacender episódios antigos e expor um segredo bem guardado no âmago de um homem. Felipe parece completamente destruído, procurando exibir as suas motivações, ao mesmo tempo que nos deixa a ambígua questão do que faríamos na sua situação. Lúcia não parece encarar o marido com os mesmos olhos, enquanto a própria lida com uma situação mal resolvida há dez anos com Gus. É nesta intrincada teia de relacionamentos que somos envolvidos. A casa de campo de Silvana é espaçosa, com direito a sauna, piscina, um enorme espaço verdejante à sua volta, com estes elementos a parecerem ficar temporariamente presos a um local que quase os faz "regressar atrás no tempo". As memórias do passado estão bem vivas, quer nas suas pessoas, quer nas cartas que deixaram, enquanto têm de lidar com aquilo que fizeram ao longo destes dez anos. Os momentos iniciais destes elementos parece de alguma felicidade. Não faltam momentos na piscina, jogatana de futebol entre os homens, diálogos sobre sexo e maternidade entre as mulheres, uma dança ao som de "Total Eclipse of the Heart" de Bonnie Tyler mas, aos poucos, a atmosfera que envolve estes personagens torna-se mais carregada. O argumento não procura dar demasiadas explicações sobre o quotidiano destes personagens durante os dez anos que decorreram, uma decisão acertada para evitar carregar a narrativa de informação desnecessária, já que o foco do enredo centra-se maioritariamente nos relacionamentos destes personagens entre si neste curto período de tempo. No caso de Lúcia e Felipe, tal como Cazé e Drica, devido a formarem dois casais, continuaram a lidar com as respectivas caras-metades, mas é todo um contexto de redescoberta este que encontramos em "Entre Nós". Os elementos do elenco apresentam interpretações praticamente imaculadas, embora Caio Blat seja o actor em maior destaque devido à complexidade do personagem que interpreta. Paulo Vilhena interpreta o personagem aparentemente mais frágil do ponto de vista emocional, com o actor a conseguir transmitir as inseguranças do mesmo.

A própria realização é eficaz a utilizar o episódio em que Gus queima a carne para expor o quão perturbado este fica diante de mais um insucesso, embora o maior fracasso pareça ter sido do ponto de vista sentimental. Por sua vez, Júlio Andrade interpreta o personagem aparentemente mais inflexível, com o seu espírito crítico a não ficar apenas no campo literário, apesar de também ter os seus momentos de fragilidade, apresentando uma química convincente com Martha Nowill. Temos ainda Carolina Dieckmann como Lúcia, com a actriz a conseguir com um simples olhar expressar o estado de espírito da personagem que interpreta. Essa situação é notória na cena nocturna em que descobre a verdade sobre o esposo, mas também quando fita Felipe com o olhar e percebemos a desilusão que percorre a sua alma. Os próprios momentos de Lúcia e Gus beneficiam imenso do que a dupla consegue transmitir com o olhar. No final, expectativas passadas e feitos concretizados são colocados lado a lado, com uns a lidarem com o sucesso, outros com o insucesso, embora pareça certo que este encontro poderá deixar marcas nas suas vidas. Provavelmente não se voltarão a encontrar tão cedo, com este reencontro a ser apresentado de forma bem viva e sentida por Paulo e Pedro Morelli. "Entre Nós" foge ao melodrama excessivo, mesclando com sucesso elementos de drama, algum humor e tensão, onde uma morte é recordada, um segredo do passado pode trazer graves repercussões e a leitura das cartas momentos emocionalmente mais fortes. É um filme com o qual é fácil nos conseguirmos rever, com o grupo a ser bastante heterogéneo, uma situação que permite apresentar uma multitude de personagens em estados distintos da sua carreira profissional e vida pessoal, permitindo uma maior identificação com os seus problemas. Não é só com os problemas que nos identificamos, mas também no optimismo que estes personagens apresentam em relação à vida no início do filme, reflectindo algo relativamente comum a diversos jovens, algo que remete para a nostalgia sentida nas cenas que se desenrolam em 2002, com as motivações e relações destes elementos a serem exploradas de forma sublime. A coesão do argumento e a realização assertiva de Paulo e Pedro Morelli, aliadas a um elenco muito competente e uma banda sonora adequada, elevam este filme cuja história aos poucos deixa de ser apenas dos personagens, mas também começa a fazer parte do espectador e a ficar "Entre Nós". A percorrer a narrativa no passado e no presente encontra-se um escaravelho, não sabemos se o mesmo ou outro, na maioria do tempo virado ao contrário. A certa altura de "Entre Nós", o escaravelho é colocado na direcção certa por Gus. Neste momento não é só o escaravelho que parece pronto a andar em frente, também os protagonistas parecem dispostos a saírem do local e seguirem adiante, embora pareça impossível que o passado consiga ser totalmente reprimido das suas memórias.

Título original: "Entre Nós".
Realizador: Paulo Morelli e Pedro Morelli.
Argumento: Paulo Morelli e Pedro Morelli.
Elenco: Caio Blat, Carolina Dieckmann, Paulo Vilhena, Maria Ribeiro, Júlio Andrade, Martha Nowill, Lee Taylor.

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