15 abril 2015

Resenha Crítica: "El crítico" (O Crítico)

 Víctor Tellez (Rafael Spregelburd) é um crítico cinematográfico conhecido por ser impiedoso a avaliar os filmes, sobretudo se estes forem comédias românticas recheadas de clichés. Este encara o mundo como se fosse um grande filme que é cada vez mais vulgar e menos original, passando os seus dias em visionamentos de imprensa onde tira apontamentos de forma regular apesar do enfado em ver várias das obras cinematográficas ou não considerasse que "o cinema está morto". Tellez é o protagonista de "El crítico", uma obra cinematográfica que aproveita esta figura peculiar, que vive a maior parte do seu tempo na sala escura do cinema, para subverter e aproveitar os elementos associados às comédias românticas. Rafael Spregelburd é relativamente eficaz a interpretar este crítico recém-divorciado, pragmático e corrosivo, pronto a pegar em comédias românticas como "Notting Hill" e "Love Actually" para expor a previsibilidade das mesmas. Na saída dos visionamentos de imprensa, este costuma reunir-se no café com um conjunto de colegas de profissão, onde ficam a falar sobre os filmes, com "El Crítico" a expor uma visão meio cínica, meio exagerada mas também com uma dose de realismo do crítico de cinema. É certo que existem muitos exageros na representação das suas figuras mas, falando um pouco por experiência própria de frequentar diversos visionamentos, o que não falta são elementos que detestam certo tipo de filmes mas vão assistir aos mesmos, apesar de na maioria dos casos a sala ter mais críticos online não remunerados do que profissionais muitas das vezes obrigados a irem a determinada sessão. Já a descrição que Víctor efectua do papel do crítico, como alguém que ensina ao espectador o que é arte e não é, distanciando-se do facto de uma crítica representar uma leitura pessoal sobre a obra cinematográfica, não é assim tão distinta do papel quase "evangelizador" que alguns elementos por vezes parecem pretender efectuar. De forma subtil, "El crítico" dá umas quantas bicadas aos críticos de cinema, sem desrespeitar o papel dos mesmos, ao mesmo tempo que aproveita para jogar com os lugares-comuns dos romances e colocar-nos diante de uma comédia romântica. A vida de Tellez muda quando conhece Sofia (Dolores Fonzi), uma mulher que considera recheada de clichés, incluindo o sotaque (como este salienta, quase a parecer fazer justificar uma co-produção entre dois países), que aluga o apartamento pretendido por este. Casualmente volta a reencontrar esta mulher, procurando convencê-la a abandonar o apartamento mas aos poucos deixa-se apaixonar por Sofia e acaba por envolver-se inesperadamente num imbróglio típico de uma comédia romântica. O próprio protagonista tem consciência desta situação, algo que o transtorna e expõe durante as narrações em off nas quais "El Crítico" nos deixa diante dos pensamentos de Tellez. A narração tanto permite proporcionar alguns momentos de humor, com o protagonista a ter consciência dos clichés que o rodeiam, como o pragmatismo de Tellez em relação ao cinema e à vida. Por vezes chega a pensar em francês, provavelmente pronto a pensar como alguns elementos dos Cahiers du Cinéma ou a respeitar o seu gosto por Godard, mas nem por isso deixa de se envolver em situações que parecem saídas dos filmes que os seus ídolos e o próprio desprezam, algo que o coloca em contradição. Estamos diante do estereótipo de um crítico que ataca ferozmente a previsibilidade dos filmes do género e acaba por ver a sua vida dar uma reviravolta que contradiz os seus textos.

O fascínio que Tellez desenvolve por Sofia nasce de forma inesperada, tal como em muitas comédias românticas, com "El crítico" a não poupar-nos à célebre descoberta de uma situação que faz quebrar a confiança de um elemento em relação ao outro, correrias, diálogos propositadamente lamechas, momentos à chuva, uma ida ao aeroporto, ou seja, muitos clichés ao mesmo tempo que joga com os lugares-comuns e brinca com a situação de um profissional da crítica que detesta os filmes do subgénero viver episódios muito semelhantes àqueles que crítica. Este recurso de colocar o protagonista a tomar consciência que está a viver um conjunto de lugares-comuns aos quais não consegue escapar permite a Hernán Gerschuny utilizar os mesmos ao serviço do enredo e desenvolver uma comédia romântica com alguns salpicos de inteligência, embora também não fuja imenso ao subgénero. É certo que permite abordar questões relacionadas com o papel do crítico, a forma como este encara a sua profissão e é visto por alguns realizadores, para além da solidão muitas das vezes inerente a este trabalho, mas muitas das subtramas acabam por ser abordadas pela superfície. Veja-se o pedido do editor para que o protagonista tenha mais contenção a dar notas aos filmes de uma distribuidora, algo que poderia ser importante de abordar, em particular as pressões a que os críticos podem ou não estar sujeitos. No entanto, o filme procura acima de tudo explorar a situação caricata de um crítico a viver situações de obras cinematográficas que odeia. Diga-se que toda esta situação rocambolesca vai afectar e muito a vida de Tellez, sobretudo a nível profissional, a ponto deste atribuir quatro cadeiras (a avaliação do filme é feita de zero a cinco cadeiras) a uma comédia romântica, com tudo e todos a pensarem que foi o editor deste que alterou o texto. Tellez era visto como uma figura implacável perante os filmes que desprezava ou considerava não acrescentarem nada ao cinema, surgindo como um elemento que vive sozinho, dedica a sua vida à Sétima Arte, embora o destino traia os seus ideais e coloque-o diante de um conjunto de episódios caricatos. Hernán Gerschuny, o realizador e argumentista, povoa ainda a narrativa de subtramas para explorar um pouco mais o quotidiano deste indivíduo, ainda que nem todas sejam abordadas de forma satisfatória. Uma dessas subtramas encontra-se relacionada com o facto do crítico ter sido contratado para escrever o argumento de um filme, algo que o deixa num imbróglio difícil, aproveitando os rocambolescos episódios que vive para incluir no enredo. Tellez tem ainda de lidar com Arce (Ignacio Rogers), um cineasta que se encontra fulo com a violenta crítica escrita pelo personagem interpretado por Rafael Spregelburd, para além de ter em alguns momentos de fazer companhia a Agatha (Telma Crisanti), a sobrinha, uma jovem apreciadora de comédias românticas que perdeu recentemente a companhia de Aníbal, um elemento que faleceu. A relação do protagonista com a sobrinha nem sempre é explorada, embora fiquem latentes as diferenças a nível de gosto cinematográfico entre um e outro.

Os gostos cinematográficos de Tellez vão ainda conduzir a algumas divergências entre o crítico e Sofia. Ele quer dar-lhe a conhecer os filmes de Godard, considerando os gostos dela banais e convencionais. Ela aborrece-se com estas obras cinematográficas, preferindo filmes actuais. Ele só vê clichés nesta mulher que considera uma personagem unidimensional. Ela é uma judia que regressou recentemente ao território da Argentina devido ao falecimento do pai, preparando-se para partir brevemente para Madrid. A interacção entre o casal varia entre o cómico, o romântico e o dramático, com Hernán Gerschuny a não poupar na procura de satirizar esta situação de um crítico de cinema envolver-se no interior de uma história que parece saída dos filmes que mais odeia. Este é um recurso para Hernán Gerschuny efectuar uma comédia romântica que sobressaia um pouco mais do que a maioria, explorando o factor inusitado do protagonista parecer saber quase sempre analisar os lugares-comuns das situações nas quais se encontra, numa história onde o cineasta aproveita ainda para dar umas "facadinhas" nos críticos e nos próprios filmes do subgénero, embora esteja longe de representar Tellez como uma figura que cause antipatia. Hernán Gerschuny é relativamente inteligente a utilizar os lugares-comuns associados ao género, ao mesmo tempo que se diverte a jogar com as nossas expectativas em relação ao enredo, com o próprio final do filme a surpreender-nos. Claro que não vão faltar elementos que fazem partes das comédias românticas, tais como aqueles que foram citados anteriormente, com "El crítico" a não poupar nos clichés do subgénero, por vezes para abraçá-los, por vezes para subvertê-los, ao mesmo tempo que explora um lado mais dramático da vida deste personagem solitário. O argumento é relativamente inteligente a jogar com as convenções, embora por vezes se note alguma incapacidade em explorar subtramas tais como a relação profissional do Tellez com o seu editor, o relacionamento deste com a irmã, o luto de Sofia, a ex-mulher do crítico, já para não esquecer um episódio relacionado com a sobrinha do protagonista que nem sempre funciona embora seja numa fase demasiado tardia da narrativa para podermos revelar. Diga-se que a própria personagem interpretada por Dolores Fonzi poderia e deveria ter sido mais desenvolvida, com a descrição de unidimensional por parte de Tellez a parecer adequar-se a esta mulher. Já a reflexão ao papel do crítico para a Sétima Arte parece ser deixada para cada elemento que assistir à obra cinematográfica, embora seja de notar que num clip para expor todos os clichés das comédias românticas, "El crítico" nos coloque diante de obras fabulosas do género como "Green Card" e "Notting Hill" que demonstram a valia de alguns dos filmes deste subgénero. A representação de um visionamento de imprensa exibe o conhecimento que Hernán Gerschuny tem do mundo da crítica, expondo o ambiente de forma verosímil ao mesmo tempo que deixa este blogger feliz ao ver que não é o único que não abdica de levar um caderno e uma caneta para tirar apontamentos durante os filmes, com Tellez a procurar não deixar escapar nada do que está a ver. "El crítico" fica entre a comédia romântica e a tragicomédia com Hernán Gerschuny a procurar jogar e subverter as convenções destes subgéneros, revelando alguma inteligência embora não saia muitas das vezes dos lugares-comuns associados aos mesmos.

Título original: "El crítico". 
Título no Brasil: "O Crítica". 
Realizador: Hernán Gerschuny.
Argumento: Hernán Gerschuny.
Elenco: Rafael Spregelburd, Dolores Fonzi, Blanca Lewin.

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