06 abril 2015

Resenha Crítica: "A Despedida"

 A certa altura de "A Despedida", o Almirante (Nelson Xavier), o protagonista do filme, salienta algo como "o problema não é ter ficado velho, o problema é ter sido jovem". Esta frase resume praticamente na perfeição aquilo que sente este personagem, um indivíduo de noventa e dois anos, fisicamente debilitado, que mantém uma mente ainda jovem e uma lucidez impressionante. É uma frase que nos fica na memória, tal como vão ficar vários dos momentos de "A Despedida" com Marcelo Galvão a realizar uma obra cinematográfica que facilmente nos conquista. Existem filmes que são capazes de nos envolver e arrasar emocionalmente a um ponto que muitas das vezes não esperamos. Muito menos quando já fomos avisados por críticos que respeitamos como Pablo Villaça, quando este salienta que "Em 90 minutos, esta obra-prima de Marcelo Galvão me destruiu. Mas também me reconstruiu como uma pessoa melhor". "A Despedida" é um filme que está na minha whishlist desde que li o texto citado. Por vezes quando vou com expectativas relativamente elevadas para um filme acabo por me desiludir em relação ao mesmo. Em outras ocasiões sou agradavelmente surpreendido quando menos espero. No caso de "A Despedida" todas as boas expectativas em relação a este sublime e tocante pedaço de cinema foram ultrapassadas, com Marcelo Galvão a realizar uma obra cinematográfica profundamente humana e sensível, onde facilmente nos comovemos com a sua história, deleitamo-nos com as suas imagens em movimento e aplaudimos a interpretação de Nelson Xavier. Existem actores que ganham Oscars e prémios por muito menos do que aquilo que Nelson Xavier foi capaz de fazer em "A Despedida". A interpretação de Nelson Xavier é sublime e delicada, com este a demonstrar mais uma vez o seu enorme talento, a ponto de nos fazer esquecer que aquilo que estamos a ver é um actor a representar. O Almirante facilmente escapa do campo da ficção para se tornar real junto de nós, tal a humanidade e realismo incutidos na criação deste personagem. Este é um indivíduo com um sentido de humor ainda apurado, lúcido, já sem todas as faculdades físicas, que sente os seus últimos dias a chegar. Ouve mal, a sua locomoção é feita de forma lenta com cada passo a parecer uma vitória, uma noite sem urinar a fralda é algo que o deixa satisfeito, com os momentos iniciais a deixarem-nos perante a intimidade deste homem que facilmente desperta a nossa simpatia e enorme respeito. Não sabemos o seu nome, com todos, incluindo o seu filho (Ithamar Lembo), a tratarem-no por Almirante, algo que remete para a sua antiga profissão. Nos primeiros momentos do filme encontramos o Almirante a levantar-se de forma vagarosa da cama, a tirar a sua fralda, a procurar fazer a barba, a tomar banho e tomar os medicamentos, embora trema muito e tudo pareça difícil de efectuar. O som surge completamente desfocado, pelo menos até este colocar o aparelho no ouvido. É então que surpreende tudo e todos. Veste o seu fato em tons acastanhados, coloca o seu chapéu branco e decide ir tomar café, ou melhor, é isso que diz ao seu filho embora as suas pretensões sejam bem mais ambiciosas. Já na casa dos seus trinta ou quarenta e poucos anos de idade, o filho do Almirante procura dissuadi-lo, tratando-o quase como um inútil, até se oferecer para acompanhar o mesmo demonstrando alguma preocupação. No entanto, o Almirante recusa a presença do filho pois esta iria deitar por água abaixo todo o sentido desta inesperada saída de casa.

O Almirante tem outros planos para além de tomar um café, ao decidir lutar contra as suas limitações e resolver situações antigas antes de partir deste Mundo. A sua saída da casa é lenta. Os solavancos das ondas do tempo em alto mar são trocados pela dificuldade em se movimentar, mesmo com a ajuda de uma arrastadeira com rodas. Os passos que este dá são lentos, expostos de forma realista, ao mesmo tempo que Nelson Xavier consegue expressar uma certa felicidade por parte do personagem que interpreta em conseguir superar barreiras que provavelmente o próprio duvidava conseguir ultrapassar. Veja-se quando o encontramos a atravessar a passagem de peões, lentamente, em contraste com os ritmos rápidos de uma sociedade onde este ainda tem lugar. Os carros buzinam mas o que interessa isso quando vemos no rosto do Almirante a felicidade de alguém que está a enfrentar o destino de frente e a dizer ao seu corpo que ainda tem energia suficiente para fazer aquilo que a sua mente deseja. Tememos sempre que possa acontecer algo ao Almirante. Em algumas situações o próprio coloca-se a jeito, tal como no momento em que pede a uma estranha (Luma Vidal) para lhe levantar dinheiro. Empresta o seu cartão e o código do mesmo. Aguarda por esta, ainda que de forma demorada, enquanto ficamos na dúvida se a personagem interpretada por Luma Vidal irá devolver o dinheiro e o cartão ou não. A confiança que este deposita nesta mulher de cabelos loiros é justificada, com a personagem interpretada por Luma Vidal a trazer o dinheiro e a não aceitar nada em troca. Com dinheiro disponível, a primeira medida que o Almirante toma é ir ao café. O empregado (Nill Marcondes) salienta que já se comentava que este tinha falecido, tal a longa ausência do protagonista. O Almirante dirige-se ao local para saldar uma dívida antiga, algo que o empregado inicialmente rejeita mas é praticamente obrigado a aceitar. O protagonista aproveita ainda para tomar um café, até se dirigir a casa da sua outra nora para visitar o neto. Perante a ausência do mesmo, decide ir até ao parque, onde encontra três jovens (Rafael Souza, Bruno dos Santos e Rafael Valente) a cantarem rap e a fumarem um charro. O que este faz? Pede para dar um pequeno trago no charro. Os jovens ficam meio surpresos mas acedem ao desejo do idoso, com este a tossir convulsivamente até adormecer um pouco, já sob o efeito do charro, surpreendendo-nos mais uma vez o gosto que apresenta pela vida e a forma como mantém vivas as recordações do passado. Decide então apanhar um táxi, onde fala afavelmente sobre as figuras femininas com o condutor (Deto Montenegro), salientando que "na vida você pode ter muitas mulheres mas só uma pode ter você". O taxista leva-o até casa de Agenor (Oswaldo Mendes), um antigo amigo do Almirante que parece ressentido devido a uma traição cometida pelo protagonista no passado. O diálogo que têm é sincero, com o Almirante a salientar que perdeu tudo, até a sua dignidade, procurando nesta visita ganhar a paz necessária para saber que ficou bem com um amigo de outrora. Todos estes momentos têm algum impacto, mas nada se pode comparar com as cenas do Almirante na casa de Morena (Juliana Paes), a sua amante, uma mulher de trinta e sete anos de idade. A intimidade entre os dois é latente, bem como o amor e carinho que os une, com a diferença de idade e de condição física a nunca parecerem problema. Juliana Paes e Nelson Xavier são convincentes o suficiente para nos fazerem acreditar dos fortes laços entre estes dois personagens, bem como dos bons momentos que estes viveram. Ela sabe tudo aquilo que ele gosta. Ele ainda a deseja e ama. Dançam, beijam-se, tomam banho juntos numa banheira com água quente, dormem na mesma cama, em momentos de enorme intimidade e sentimento, enquanto aguardamos o momento em que mais tarde ou mais cedo estes vão ter de se despedir. O momento em que estes dançam é tocante, belo e marcante. Os dois corpos juntam-se, enquanto a música toca. Memórias do passado regressam ao presente, com o Almirante a apresentar uma lucidez e jovialidade notáveis a nível de ideias e diálogos.

A relação entre o Almirante e Morena é apresentada de forma credível, tocante e cheia de sentimento, com a própria iluminação a dar por vezes o tom certo para uma atmosfera mais intimista. As próprias tonalidades utilizadas (muitas das vezes o tom vermelho permeia o quarto de Morena) permitem criar uma atmosfera inebriante em volta do casal, mas também entre estes e o espectador, quase como se estivéssemos a partilhar os momentos com a dupla de protagonistas no interior da habitação de Morena. Diga-se que a câmara de filmar contribui muitas das vezes para a sensação de proximidade que criamos com o Almirante, enquanto Marcelo Galvão tem o mérito de nos apresentar a um personagem fisicamente debilitado de forma bastante realista, humana, sensível e digna. Não existem momentos gratuitos para o espectador ter "pena" do protagonista, com Marcelo Galvão a respeitar o Almirante e o público. É certo que em alguns momentos o Almirante nos comove mas é representado como uma figura capaz de apresentar uma jovialidade e humor que muitas das vezes nos desarmam. Continua a apresentar desejo sexual, a apreciar os prazeres da vida, surpreendendo tudo e todos com a sua mente jovem num corpo que já não possibilita todos os movimentos que este pretende fazer. Não se pense que o protagonista lamenta a idade. Como este salienta "o meu problema foi ter sido jovem". "A Despedida" é também um filme sobre um homem que sabe estar nas últimas horas da sua vida, lúcido em relação à sua existência, que procura estar bem com o seu passado e os seus actos. Deixa-nos a pensar sobre os nossos pais, mas também sobre nós próprios e a nossa condição como seres humanos. Como reagiremos nós quando chegarmos à idade do Almirante? O que fazer quando vermos os nossos pais a perderem as suas faculdades físicas? É tocante ver como este homem encara cada passo como uma conquista, tal como nos desarma o momento de enorme humanidade no qual este tira a fralda e descobre que está limpa. Marcelo Galvão não utiliza este momento de forma gratuita. Diga-se que raro é o momento no filme em que nos parece manipulador, com "A Despedida" a apresentar sempre um tom bastante humano e realista, procurando exacerbar e exaltar a dignidade deste personagem. Nelson Xavier é essencial para muito do filme funcionar. Seja a forma desgastada que apresenta nos seus gestos corporais, seja o seu tom algo malandro quando fala de mulheres, seja a intimidade com Morena, seja o arrasador momento em que pergunta se "existe idade para tomar café?" de forma a ironizar com o facto do filho não pretender que este saia de casa, seja a andar de forma vagarosa, seja a tirar uma fralda, seja a expor as suas falas com uma assertividade notável. Nelson Xavier merece todos os elogios que lhe possamos fazer. No entanto, é algo injusto não realçar o trabalho sublime de Juliana Paes, com a actriz a apresentar um delicadeza e candura que permitem apresentar uma faceta distinta da actriz.

Juliana Paes interpreta uma mulher bem mais jovem do que o Almirante que parece amar realmente o mesmo, com a actriz a ter nos momentos de diálogo com Nelson Xavier alguns dos pontos altos do filme. Diga-se que "A Despedida" não é um filme de muitos diálogos, embora estes sejam certeiros e revelem a qualidade acima da média do seu argumento. Por vezes até temos mais silêncios do que falas, com Marcelo Galvão a parecer procurar em alguns momentos emular os ritmos lentos da locomoção do protagonista, ao mesmo tempo que nos dá espaço para contemplar o quotidiano desta figura. A composição deste personagem e o desenvolvimento da sua história e personalidade são sublimes, com Marcelo Galvão a ter-se inspirado no seu avô ao mesmo tempo que nos deixa diante de uma tocante história de vida. É um filme tocante, emocionalmente intenso, capaz de mexer com os nossos sentimentos e de nos apresentar com enorme dignidade e humanidade a história de um indivíduo de idade avançada que desafia as suas limitações para cumprir os seus objectivos. A cinematografia e o trabalho a nível de cenários interiores atingem um ponto alto nos momentos na casa de Morena, onde esta se encontra com o Almirante. Os dois partilham momentos de amor, carinho, respeito e intimidade, numa obra cinematográfica emocionalmente poderosa, sensível e envolvente na qual as palavras de Pablo Villaça sobre o filme ajustam-se na perfeição: é uma obra-prima. É, também, um filme sobre a condição humana, sobre o isolamento a que estão sujeitos os elementos de mais idade, com o Almirante a parecer ter estado confinado até então ao seu quarto. A sua saída da casa traz-lhe novas sensações e velhas recordações, episódios que o marcam e a aqueles que o rodeiam, incluindo a nós, meros espectadores que apenas podemos observar de forma sentida o quotidiano deste personagem num curto período de tempo. É um personagem complexo, capaz de nos despertar um sorriso ou comover diante das suas dificuldades e esforço para superar as limitações inerentes ao seu corpo envelhecido. Existem alguns momentos de leveza, mas também de enorme dramatismo e sedução, com as cenas entre Juliana Paes e Nelson Xavier a prometerem ficar marcadas na nossa memória durante muito tempo. Esta ainda tem uma longa vida pela frente. O Almirante parece estar a fazer as suas despedidas deste mundo. Vale ainda a pena realçar os três objectos deixados pelo protagonista na casa de Morena, com Marcelo Galvão a deixar-nos com a certeza que tudo foi pensado ao pormenor. "A Despedida" vai ser exibido pela primeira vez em Portugal na Sexta edição do Festin, um festival que reforça mais uma vez a sua importância na divulgação e exibição do cinema brasileiro em Portugal. Curiosamente, "A Despedida" continua sem distribuidora em Portugal. Num mercado onde existe espaço para a exibição de muita trampa, o ignorar de um filme como "A Despedida" torna-se vergonhoso e inexplicável. Estamos diante de uma obra cinematográfica belíssima, emocionalmente devastadora, sensível e profundamente humana, onde Marcelo Galvão nos deixa diante de um filme que promete não sair tão depressa da memória e marcar o seu lugar na Sétima Arte.

Título original: "A Despedida".
Realizador: Marcelo Galvão.
Argumento: Marcelo Galvão.
Elenco: Nelson Xavier, Juliana Paes, Nill Marcondes, Luma Vidal.

1 comentário:

Alexandre Marcello de Figueiredo disse...

Um irretocável retrato da velhice. Nelson Xavier está esplêndido!