27 abril 2015

Resenha Crítica: "Crouching Tiger, Hidden Dragon" (O Tigre e o Dragão)

 Wuxia que conhece o legado que o antecedeu, "Crouching Tiger, Hidden Dragon" recupera a presença de personagens femininas fortes nos filmes do género, ao mesmo tempo que nos deixa diante de uma obra cinematográfica onde alianças e traições são formadas, os corpos desafiam a gravidade e a realidade, os combates são coreografados com ritmo e poesia, enquanto Ang Lee desenvolve uma película que nos conquista a cada momento. Seja o entusiasmo provocado pelos combates coreografados com uma habilidade notória nos quais as espadas embatem e os sentimentos são exprimidos, seja a apresentar uma história de amor que parece destinada a não se concretizar, seja a expor as personalidades dos personagens que envolvem o enredo, seja o deleite provocado pela cinematografia de Peter Pau, seja o cuidado colocado no guarda-roupa para se adequar ao ideal do período histórico representado, seja na poesia que vários momentos parecem conter, seja uma banda sonora capaz de se adaptar às cenas mais melancólicas ou de maior intensidade, "Crouching Tiger, Hidden Dragon" é um triunfo cinematográfico e de Ang Lee, com o cineasta a conseguir cumprir na maioria dos objectivos a que se propõe nesta adaptação cinematográfica do quarto volume da saga literária "Crane Iron Pentalogy". As temáticas remetem para outros wuxia, tais como "One-Armed Swordsman" e "Come Drink With Me", sobretudo este último onde encontrávamos uma forte protagonista feminina (interpretada por Cheng Pei-pei, a intérprete da Raposa de Jade em "O Tigre e o Dragão"). Não faltam os combates com espadas coreografados com engenho, as relações entre mestre/discípulo, mortes relevantes, mas também o regressar a um passado algo ficcional da China, onde o mito, o rito, a lenda e a realidade se unem. Existe algo também de esotérico e religioso no filme, com os próprios personagens a parecerem acreditar nos estritos ideais com que foram educados. Como salienta Shu Lien (Michelle Yeoh), "Os guerreiros também têm regras. Amizade, confiança, integridade. Sem regras, não sobreviveríamos por muito tempo". Nem todos cumprem essas regras, embora Shu Lien, bem como Li Mu Bai (Chow Yun-fat), um guerreiro wudan, taoista, exímio na arte de manejar a espada, cumpram as mesmas. Estes dois sempre mantiveram uma relação de relativa proximidade, reprimindo um amor que cresceu com o decorrer dos anos. Ambos parecem nutrir uma cumplicidade latente, quer a nível de sentimentos, quer a nível de valores defendidos, embora tenham alguma dificuldade em expor aquilo que realmente sentem um pelo outro, uma situação que vai ficando mais saliente com o avançar da narrativa. No início do filme, que se desenrola durante a Dinastia Qing, no quadragésimo terceiro ano (1779) da Governação do Imperador Qianlong, encontramos Li a regressar do treino nas Montanhas Wudang, onde aproveitou ainda para meditar, embora esta situação não lhe tenha trazido paz interior. É então que Li decide aproveitar o facto de Shu ir a Tóquio para lhe incumbir a missão de entregar a espada do Destino Verde ao Sr. Te (Sihung Lung), o maior protector destes, algo que surpreende a personagem interpretada por Michelle Yeoh. Esta é uma espada ancestral, destinada aos mais bravos e fiéis guerreiros, uma situação que pode significar a possibilidade de Li estar a pensar em abandonar de vez este estilo de vida onde os combates têm alguma relevância. O próprio Te assim o entende, chegando a salientar que já seria tempo de Li e Shu assumirem de vez os sentimentos que nutrem um pelo outro. Outrora Shu estivera noiva do irmão de Li. No entanto, o irmão de Li foi assassinado, uma situação que marcou os dois protagonistas, com ambos a unirem-se cada vez mais com o passar do tempo embora procurem respeitar a alma do falecido. Li ainda pondera vingar o seu mestre, eliminado às mãos da Raposa de Jade (Cheng Pei-pei), uma mulher traiçoeira que aprendeu alguns das habilidades wudan, apesar de também colocar a hipótese de abandonar este desiderato e assim poder ter a desejada acalmia na sua vida, provavelmente ao lado da amada.

 A entrega da espada poderia significar uma acalmia no estilo de vida de Li e Shi mas não é isso que vai acontecer. No território de Pequim encontra-se ainda Jen (Zhang Ziyi), a filha do Governador Yu (Li Fazeng), uma jovem que está destinada a casar-se com um noivo escolhido pelos familiares, algo que não lhe agrada. Jen sente-se fascinada pelo estilo de vida de Shi e Li, aparentando ser uma jovem algo naïve e frágil. Shi ainda dialoga com esta jovem mas aos poucos descobre alguns segredos pouco agradáveis sobre a mesma, sobretudo quando a espada do Destino Verde é roubada. Assistimos a um intenso combate nocturno entre Shi e a assaltante mascarada, com ambas a circularem por paredes, telhados, pelos ares e a procurarem expor as suas habilidades para as artes marciais, embora a criminosa consiga os seus intentos. Desconfia-se que a Raposa de Jade esteja infiltrada no séquito de Yu, algo que conduz Tsai (Wang Deming), um investigador da polícia, bem como May (Li Li), a sua filha, a deslocarem-se ao local, tendo em vista a enfrentarem a antagonista. Estes chegam a enfrentar-se mas a chegada de Li inverte o domínio da criminosa, até aparecer a mulher que roubou a espada. O combate termina com a morte de Tsai e a certeza que Jen é uma discípula da Raposa de Jade (a criminosa é a aia de Jen), iniciando-se não só uma disputa pela espada que promete trazer vários confrontos entre estes personagens mas também uma procura do protagonista em vingar-se da antagonista interpretada por Cheng Pei-pei. Se a Raposa de Jade é uma personagem de notórias más intenções, já Jen surge como uma das figuras mais complexas. É aliada de Jade mas também a trai, parecendo manter uma relação de rivalidade e respeito com Li e Shi, com esta última a inicialmente até a surgir como sua amiga, procurando proteger o segredo desta para não envergonhar a sua família e dar-lhe uma oportunidade para se redimir. Para completar o ramalhete, Lo (Chang Chen), um indivíduo que conhecera Jen no passado, tendo mantido um caso com esta após um confronto iniciado quando este lhe roubara um pente, chega ao local disposto a demonstrar os sentimentos que nutre pela personagem interpretada por Zhang Ziyi. Lo é conhecido pelas suas actividades criminosas, assaltando elementos que viajam pelo deserto, embora seja notório que é bem intencionado em relação a Jen. As cenas entre estes dois no passado, exibidas em flashback, mostram-nos um lado mais frágil desta jovem interpretada por Zhang Ziyi, com a actriz a confirmar o seu talento naquela que fora a terceira longa-metragem que protagonizara. Diga-se que Ang Lee contou não só com elevados valores de produção (e um orçamento chorudo) mas também com um elenco de primeira linha, reunindo uma (na altura) jovem talentosa como Zhang Ziyi e nomes de estatuto e talento inegáveis como Michelle Yeoh e Chow Yun-fat. Qualquer um destes elementos citados interpreta um (ou uma) personagem relativamente complexo (ou complexa), capaz de gerar o nosso interesse e criar empatia, com o argumento de Hui-Ling Wang, James Schamus e Tsai Kuo-Jung a contribuir para o desenvolvimento dos mesmos, algo que permite a "Crouching Tiger, Hidden Dragon" destacar-se não só pela suas cenas de acção, cenários e guarda-roupa vistosos, mas também pelos personagens que povoam o enredo. Veja-se desde logo o caso de Jen, com Zhang Ziyi a atribuir uma graciosidade latente a esta jovem que aparenta ser frágil mas é hábil para a arte do combate, num estilo de personagem que a actriz viria posteriormente a interpretar em obras como "House of Flying Daggers" e "The Grandmaster". O rosto desta é um enigma nem sempre decifrável, algo que permite enganar alguns elementos ao longo do enredo, incluindo a sua mestre, com Ang Lee a saber aproveitar com sagacidade a mais-valia proporcionada por ter Zhang Ziyi no elenco. Os momentos da luta de Jen num restaurante são paradigmáticos do misto de alguma fragilidade e ferocidade que Ziyi atribui à personagem que interpreta ao mesmo tempo que esta desanca nos diversos adversários.

 A relação entre mestre e pupilo é uma temática utilizada com frequência nos wuxia. Veja-se o já citado "One-Armed Swordsman", com o pai do protagonista a sacrificar-se para defender o mestre. No caso de "Crouching Tiger, Hidden Dragon" temos os casos distintos de Li e Jen. Li é um exemplo de lealdade para com o seu mestre, continuando ainda a sua demanda em busca da Raposa de Jade para vingar o mesmo. Este procura ainda tornar Jen como sua pupila considerando que esta ainda se pode redimir dos seus actos e utilizar o seu potencial para as artes marciais em defesa dos bons princípios. Jen mantém uma relação ambígua com Jade Fox, quer fingindo ajudá-la ao ler o livro com os truques de artes marciais da escola de Li, quer a defendê-la, quer em alguns momentos onde parece pender para o lado dos personagens interpretados por Chow Yun-fat e Michelle Yeoh. A personagem interpretada por Zhang Ziyi mente, luta, expõe os seus sentimentos e dúvidas parecendo quase sempre que está num limbo entre seguir o caminho errado e tornar-se uma criminosa ou mudar de rumo, com Li a pretender que esta jovem seja integrada como uma discípula em Wudan, esperando que abram uma excepção em relação à política de não aceitarem mulheres. Yun-fat volta a emprestar a sua credibilidade a um personagem, com Li a mesclar a calma e perseverança de um monge com a habilidade para o combate de um guerreiro letal, reprimindo os sentimentos em relação à amada, algo que pode ser revelado numa fase já demasiado tardia da vida de um destes elementos. Existe algo de espiritual no personagem que Yun-fat interpreta, com o actor a conseguir transmitir uma calma latente a este indivíduo de boas intenções, que durante boa parte da sua vida tentou conter os seus sentimentos e desejos em relação a Shu. De Michelle Yeoh, uma actriz conhecida não só pela dimensão que atribui às personagens que interpreta, mas também por protagonizar as cenas de acção, não é propriamente uma surpresa encontrarmos num filme deste cariz, tal como não nos surpreende o seu desempenho notável. Esta já protagonizara obras como "The Heroic Trio", entre várias outras obras de acção, tendo em "Crouching Tiger, Hidden Dragon" um filme onde se destaca não só pela habilidade para o combate mas também pela personalidade forte desta figura feminina. Shu Lien é uma mulher fiel aos seus ideais, mesmo que isso implique reprimir os seus sentimentos, parecendo ser a calma em pessoa, com excepção quando está em combate. Diga-se que não vão faltar combates em "O Tigre e o Dragão", com as cenas de acção a terem contado com o apoio de Yuen Wo Ping, um elemento que teve um trabalho importante neste capítulo em obras como "The Matrix", "The Grandmaster", entre outras. Sobressai desde logo a cena de acção nocturna entre Shu e Jen, bem como o confronto que estas vão ter num recinto fechado, algo que termina com esta última a combater com Li nas árvores. O combate no topo das árvores é um exemplo paradigmático dos momentos de enorme brilhantismo deste filme, com os próprios combates a servirem para expor os estados de espírito e até as personalidades dos personagens. Temos ainda os ansiados combates entre Li e Jade Fox, mas também as cenas mais leves entre Jen e Lo num flashback onde ainda protagonizam alguns momentos sentimentalmente mais quentes. Estes dois ainda têm a oportunidade de exteriorizar aquilo que sentem embora a relação entre ambos esteja em risco devido ao papel da mulher ser considerado secundário na sociedade da época, incluindo no que respeitava às decisões nas escolhas para esposo. O enredo desenvolve-se a um ritmo fluído, com Ang Lee a conseguir conciliar na justa medida as cenas de acção mais emotivas com os momentos de desenvolvimento dos personagens e até de alguma contemplação. Os cenários que rodeiam o filme são maioritariamente marcados por uma grande beleza. Veja-se a já citada luta entre Jen e Li nas árvores, com as tonalidades verdes das mesmas a sobressaírem numa cena onde a realidade e a gravidade são desafiadas, já para não falar dos momentos de "Crouching Tiger, Hidden Dragon" onde uma montanha não parece ser limite para a crença.

Se a gravidade é desafiada ao longo de "Crouching Tiger, Hidden Dragon", já os sentimentos que nos são apresentados parecem verosímeis. Veja-se a relação entre os personagens interpretados por Michelle Yeoh e Chow Yun-fat, com o actor e a actriz a exporem habilmente a repressão que estes elementos procuram apresentar a nível de sentimentos mas também a química notória entre ambos. Li e Shu ainda se encontram muito ligados aos valores ancestrais e da sua sociedade, com "Crouching Tiger, Hidden Dragon" a expor em determinados momentos alguns pormenores sobre o contexto que envolvia estes personagens numa obra cinematográfica que, na época, pareceu reavivar o interesse em relação aos wuxia por parte do público ocidental. A própria obra presta reverência a este género ao contar com a presença de Cheng Pei-pei como uma das antagonistas principais, ou não fosse ela uma referência ao ter protagonizado o incontornável "Come Drink With Me". "Crouching Tiger, Hidden Dragon" atingiu uma enorme popularidade junto do público, algo que permitiu a uma maior abertura em relação a obras cinematográficas deste género durante um determinado período. A própria carreira de Ang Lee voltou a ganhar popularidade, após o fracasso de "Ride with the Devil" nas bilheteiras, uma situação que fragilizou a sua posição em Hollywood onde se estava a conseguir afirmar. Curiosamente, o seu regresso aos blockbusters após "Crouching Tiger, Hidden Dragon" também não foi propriamente feliz, com "Hulk" a dividir o público e a crítica. Regressou com "Brokeback Mountain" e uma das obras mais recomendáveis da sua carreira, e diríamos que da primeira década do Século XXI, "Lust, Caution", tendo recentemente vencido o Oscar de Melhor Realizador por  "A Vida de Pi". "Crouching Tiger, Hidden Dragon" ajudou também a popularizar Zhang Ziyi junto do público ocidental, uma actriz que já tinha dado provas de algum do seu talento no magnífico "The Road Home" de Zhang Yimou. A actriz viria ainda a trabalhar com cineastas como Zhang Yimou em "Hero" e "House of the Flying Daggers", dois filmes que beneficiaram imenso da popularidade reconquistada pelos wuxia, algo que não parece ter perdurado no tempo. Diga-se que hoje em dia é algo de complicado assistirmos a "cinema asiático" (já mais de uma vez salientámos as limitações desta expressão) em circuito comercial em Portugal, com excepção de uma ou outra obra de um cineasta mais conhecido ou de algum filme que tenha efectuado um circuito interessante a nível de festivais. No caso de "Crouching Tiger, Hidden Dragon" assistiu-se a um fenómeno de popularidade, pelo menos no circuito de pessoas próximas a quem escreve este texto. O revisitar de "Crouching Tiger, Hidden Dragon" é sempre um deleite. As cenas de acção são marcantes, emotivas e envolventes, a banda sonora adequa-se a cada momento e adensa a experiência magnífica que é assistir a este filme, as interpretações são de bom plano, o argumento é coeso o suficiente para os diálogos não ficarem em segundo plano em relação à pancadaria, enquanto Ang Lee realiza aquela que é merecidamente uma das obras mais populares da sua carreira.

Título original: "Wo hu cang long".
Título em inglês: "Crouching Tiger, Hidden Dragon".
Título em Portugal: "O Tigre e o Dragão".
Realizador: Ang Lee. 
Argumento: Hui-Ling Wang, James Schamus, Tsai Kuo-Jung.
Elenco: Chow Yun-fat, Michelle Yeoh, Zhang Ziyi, Chang Chen.

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