14 abril 2015

Resenha Crítica: "Confia em Mim"

 Ancorado nas interpretações acima da média de Mateus Solano e Fernanda Machado, "Confia em Mim" começa como um filme sobre culinária, passa para o romance, vagueia pelo melodrama e o suspense, exibindo alguma ambição mas um argumento demasiado mediano para elevar a obra cinematográfica para além dos lugares-comuns, dependendo imenso das excessivas coincidências para fazer a trama avançar. Fernanda Machado interpreta Mari, uma sub-chef com enorme talento para a culinária que tem o desejo de abrir o seu próprio restaurante, embora não tenha a coragem e os fundos para cumprir esse desiderato. Esta trabalha para Edgar (Fábio Herford), um indivíduo relativamente unidimensional, o chef que procura cercear toda a criatividade da mesma, aparecendo na cozinha apenas para dar algumas ordens, já que passa a maior parte do tempo a socializar com os clientes ou no escritório, colhendo apenas os louros do trabalho dos seus funcionários. Os momentos iniciais expõem-nos desde logo ao gosto de Mari pela cozinha, a sua velocidade a cortar alimentos e o pormenor na apresentação dos pratos, bem como a sua grande amizade com Teresa (Fernanda D'Umbra), a responsável pela confecção das sobremesas do restaurante. Durante uma saída para uma degustação de vinhos na companhia de Teresa, a protagonista é abordada por Caio (Mateus Solano), um indivíduo bem falante, aparentemente afável e simpático, divorciado, pai de uma jovem de seis anos de idade que facilmente inicia um romance com Mari. Os dois parecem viver momentos de enorme felicidade, com a química entre Mateus Solano e Fernanda Machado a revelar-se fundamental para a construção da dinâmica entre os dois personagens (curiosamente, ambos participaram na novela "Amor à Vida" na qual o actor interpretou o icónico Félix). Vão a um concerto de piano, beijam-se, fazem sexo, invadem um restaurante fechado para esta cozinhar, com Caio a ficar com uma chave da casa de Mari e a aproveitar ainda para tentar convencer a protagonista a lutar por ter um restaurante seu. Este é um indivíduo que supostamente trabalha no negócio de import/export, tendo uma boa rede de ligações, algo que o conduz a exibir o espaço que parece ser o ideal para a protagonista adquirir. Mari parece relutar inicialmente mas acaba por pedir dinheiro emprestado a Beatriz (Clarisse Abujamra), a sua mãe, uma mulher com quem não tem uma boa relação, tendo em vista a adquirir o espaço aconselhado por Caio. Os sentimentos de Mari por Caio parecem inegáveis, a ponto desta fazer um mil-folhas, algo que anteriormente tinha salientado que apenas faria para o homem da sua vida. Algo ingénua, Mari confia a Caio o acto de trocar os duzentos mil reais em dólares, com o desaparecimento deste a deixá-la em pânico, sobretudo quando descobre algumas das mentiras deste personagem. Parece ter caído no conto do vigário, algo que a destrói do ponto de vista emocional e a envergonha, ficando na dúvida se esta terá bases legais para processar Caio tendo em conta que não existem provas físicas contra o mesmo. Da falta de confiança inicial em relação ao seu talento, passando pela alegria de um romance que aparentemente tinha tudo para dar certo, Mari entra em depressão, até contar com a ajuda de Vicente (Bruno Giordano), um agente da polícia que a vai ajudar no caso, surgindo como o único elemento das forças policiais a parecer interessar-se pela situação rocambolesca na qual esta se encontra envolvida. 

Mari conta ainda com o apoio de Teresa que a ajuda no regresso ao trabalho, com Fernanda Machado a conseguir sair-se relativamente bem a explorar os variados estados de espírito da personagem que interpreta, enquanto o argumento apela ao máximo às estranhas coincidências para avançar com o enredo, com o seu final a surgir como uma catarse moralmente questionável para a protagonista. Se Fernanda Machado sobressai nestas diferentes vertentes, já Mateus Solano não se fica atrás da sua colega, deixando-nos inicialmente na dúvida em relação aos objectivos do personagem que interpreta, com o seu desaparecimento e posterior regresso a adensarem essa dubiedade embora "Confie em Mim" rapidamente desfaça as dúvidas em relação ao carácter do protagonista, algo que tira impacto e densidade ao enredo. O regresso de Caio e a facilidade com que os seus verdadeiros objectivos são expostos, sem que a possibilidade de Mari poder estar enganada em relação ao mesmo seja desenvolvida na justa medida, é um exemplo paradigmático da incapacidade do argumento em explorar algo que traria maior suspense e impacto ao enredo. Diga-se que o argumento é muitas das vezes desleixado. A protagonista sai do restaurante do nada para ir a uma esquadra como se não existisse problema nenhum em largar o trabalho (para além de que a sua capacidade como sub-chef não deve chegar para esta conseguir cozinhar e atender por duas vezes o telemóvel enquanto se encontra com o cozinhado ao lume), as coincidências são mais do que muitas e algo forçadas (veja-se a cena da colocação do rastreador no telemóvel de Caio, marcada por alguma tensão mas também demasiadas coincidências, já para não falar do facto da protagonista não ter mudado a fechadura da porta de casa algo que permite quase um "livre-trânsito" para o personagem interpretado por Mateus Solano poder entrar no local), a relação entre Mari e a mãe e a irmã pouco é explorada, o chefe desta raramente sai do lugar-comum do tipo odioso que cerceia a liberdade criativa da personagem interpretada por Fernanda Machado, entre outros exemplos. No entanto, apesar de não ser um primor a nível de argumento, "Confia em Mim" consegue agarrar-nos muitas das vezes devido ao notório esforço da dupla de protagonistas, bem como à capacidade de Michel Tikhomiroff em criar alguns momentos de tensão e suspense que podem nem sempre ser plausíveis mas conseguem inquietar-nos. Estreante na realização de longas-metragens cinematográficas (após ter estado envolvido em séries como "Julie e os Fantasmas" e "O Negócio"), Michel Tikhomiroff consegue potenciar o talento da dupla de protagonistas e gerar alguma tensão em volta dos acontecimentos da narrativa, sobretudo nos momentos finais, mesmo quando os eventos requerem uma enorme capacidade de nos abstrairmos das excessivas coincidências, já para não falar na imoralidade da medida final utilizada para resolver a questão de forma praticamente definitiva. O final tanto pode servir para abrir o debate se os fins justificam os meios para deter um criminoso ou se é preferível deixar o mesmo ficar em liberdade embora, mais uma vez, essa situação fique para o espectador questionar. O cineasta consegue ainda gerir a narrativa a ponto de ambos os personagens principais gerarem o nosso interesse, com Mateus Solano a criar um vilão por vezes com alguns traços hitchcockianos, capaz de inicialmente despertar a nossa simpatia, algo polido a nível dos gestos e bem falante, até revelar a sua verdadeira faceta. As comparações com os trabalhos de Alfred Hitchcock acabam aqui, com "Confia em Mim" a exibir uma faceta de suspense a partir da sua segunda metade ou, para sermos mais precisos, sobretudo a partir do regresso de Caio. O trabalho a nível de câmara sobressai em alguns momentos, com a cinematografia a contribuir para o adensar da tensão, enquanto a banda sonora surge como o paradigma de "Confia em Mim": não é brilhante mas também está longe de ser medíocre.

"Confia em Mim" procura deambular entre os vários géneros cinematográficos, algo nem sempre conjugado de forma orgânica embora exiba a ambição de Michel Tikhomiroff. O romance entre Caio e Mari convence-nos, bem como a dinâmica entre os seus intérpretes, com Fernanda Machado a conseguir ainda que acreditemos na paixão da personagem que interpreta pela cozinha. Nos últimos tempos não têm faltado filmes que abordam a culinária ou protagonistas com uma profissão associada à mesma. Veja-se o caso de "Le Chef" de Daniel Cohen, "Chef" de Jon Favreau, "The Hundred-Foot Journey" de Lasse Hallström, entre outros, embora em "Confie em Mim" a culinária esteja longe de ser o centro do enredo. Também está longe de nos despertar o apetite como em "Chef", embora tenha sido notório o empenho de Fernanda Machado para interpretar Mari, com a actriz a frequentar workshops de culinária tendo admitido em entrevistas que a própria aprecia cozinhar para os amigos e descobrir restaurantes. Esse empenho é fulcral para a credibilidade da protagonista, com Fernanda Machado e Mateus Solano a comporem dois personagens que se destacam mesmo diante dos possíveis momentos pouco plausíveis em que são colocados. Do elenco secundário vale ainda a pena realçar Bruno Giordano e Fernanda D'Umbra. Giordano como o polícia que procura a todo o custo investigar o caso relacionado com as burlas de Caio, mesmo quando os seus colegas de profissão parecem ignorar a situação, num dos vários momentos do filme onde os diálogos dos interlocutores servem acima de tudo para aumentar a espiral descendente da protagonista (embora levante a questão de na prática esta ter dado o dinheiro de livre e espontânea vontade a Caio, algo que praticamente o iliba em tribunal). Essa situação é notória quando ouvimos a mãe de Mari e a irmã a confidenciarem a pouca confiança no sucesso da mesma e a praticamente ridicularizarem o facto desta ter sido enganada, com a protagonista a ouvir tudo quando se encontrava perto da janela da sala a jogar à bola com os sobrinhos. O relacionamento de Mari com a mãe e a irmã pouco é desenvolvido, ao contrário da amizade desta com a personagem interpretada por Fernanda D'Umbra. Teresa surge muitas das vezes como o apoio da personagem interpretada por Fernanda Machado, algo que permite a Fernanda D'Umbra ter algum espaço no enredo e surgir em alguns momentos como "a voz da razão". Mari é muitas das vezes apresentada como uma personagem frágil e pouco confiante, algo que piora com o acto de Caio, embora a transformação da personagem seja efectuada de forma relativamente convincente, com esta a responder aos estímulos e desafios que lhe são colocados. Pronto a deambular entre os géneros, "Confia em Mim" compensa os vários tropeços do seu argumento com os desempenhos de Fernanda Machado e Mateus Solano embora raramente consiga sair da mediania. Está longe de ser um mau filme, tal como está distante de ser uma obra cinematográfica bastante recomendável ou marcada por uma enorme originalidade, ficando naquele meio termo onde é notório que depende imenso do talento do elenco principal e da capacidade de aceitarmos algumas das suas coincidências para que o seu enredo se torne minimamente interessante de seguir. Com muitas coincidências, um argumento algo esburacado e boas interpretações da dupla de protagonistas, "Confia em Mim" em alguns momentos consegue ser bem sucedido em criar a tensão necessária junto do espectador, embora seja uma obra cinematográfica demasiado limitada para conseguirmos abraçar totalmente aquilo que tem para nos oferecer.

Título original: "Confia em Mim".
Realizador: Michel Tikhomiroff.
Argumento: Fábio Danesi.
Elenco: Fernanda Machado, Mateus Solano, Fernanda D'Umbra, Bruno Giordano.

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