28 abril 2015

Resenha Crítica: "Cássia Eller" (2015)

 A velocidade com que Cássia Eller passou por este Mundo é apenas igualada pela marca que deixou na música brasileira. Magnética, intensa, irreverente, sensível, pronta a desafiar-se e a exibir a sua versatilidade, bem como a alargar os horizontes daqueles que a seguiam, Cássia Eller uniu gerações em volta das suas canções, tendo no documentário "Cássia Eller" de Paulo Henrique Fontenelle uma obra cinematográfica capaz de nos transmitir a grandeza desta figura, quer na sua dimensão artística, quer na sua dimensão humana, com ambas a estarem intrinsecamente ligadas. Paulo Henrique Fontenelle cria um documentário pulsante de vida, capaz de nos envolver, emocionar, vibrar com as canções desta cantora genial, intensa e marcante. Sem esconder o consumo de droga por parte de Cássia Eller, a identidade do pai de Francisco, o filho desta, a homossexualidade da mesma e as relações extra-conjugais que esta tinha apesar de manter uma relação de longa data com Maria Eugênia Vieira Martins, guardiã do legado da cantora, "Cássia Eller" não procura efectuar uma hagiografia sobre a figura do título, mas sim exibir a complexidade da mesma, o seu enorme talento e manter vivo o seu legado, conseguindo pelo caminho chamar à atenção de fãs e não seguidores da cantora. Tal como Cássia Eller se procurou reinventar constantemente e esbater possíveis catalogações que pudessem fazer da mesma, também Paulo Henrique Fontenelle afasta-se do típico documentário que parece uma reportagem televisiva ao elaborar uma obra cinematográfica dinâmica, capaz de mesclar com enorme assertividade material de arquivo como concertos, entrevistas, vídeos caseiros e fotografias (excelente trabalho com as fotos) da cantora com depoimentos de diversos elementos, ao mesmo tempo que nos deixa com uma ideia de quem foi na essência Cássia Eller. A certa altura somos contagiados pela música desta mulher, pela sua personalidade recheada de contradições, mas também comovidos com episódios relacionados com a sua morte, a batalha legal protagonizada por Maria Eugênia Vieira Martins para ficar com a guarda de Francisco, o papel sensacionalista de alguns meios de comunicação social que fizeram capas a associar a morte da cantora ao consumo de drogas, algo que não se confirmou, com as várias testemunhas a salientarem isso mesmo. Existe um comentário efectuado por Zélia Duncan sobre o destaque dado por um meio de comunicação ao facto da morte de Élis Regina se encontrar ligada ao consumo excessivo de drogas, com a primeira a salientar se uma cantora com uma carreira notável merece ter como primeiro destaque após a sua morte a overdose. O sensacionalismo sobrepôs-se à informação e àquilo que deveria ser relembrado, recordado e reverenciado, em particular os grandes feitos alcançados, com estes a serem relegados para segundo plano para dar destaque ao material sensacionalista que, infelizmente, é consumido por uma parte do público. No caso de Cássia Eller, o papel da imprensa em relação aos relatos sobre o seu falecimento não parece ter sido o melhor, sobretudo se tivermos em conta que a morte desta se deveu a um enfarto do miocárdio. A morte ocorreu a 29 de Dezembro de 2001, tinha Cássia Eller apenas trinta e nove anos, uma carreira a rondar os vinte anos de duração mas a deixar marca de forma inquestionável. "Cássia Eller" apresenta-nos a vários elementos da vida da cantora, desde o início da carreira, na companhia teatral de Oswaldo Montenegro, passando pelos seus trabalhos a cantar em bares até ir ascendendo gradualmente no mundo da música, com esta a nem sempre parecer estar preparada para o sucesso que granjearia. O seu estilo foi mudando ao longo do tempo, com esta a mesclar a irreverência rockeira no palco com uma timidez fora do mesmo, algo exposto ao longo do documentário por vários intervenientes que conviveram com a mesma e salientaram o seu pouco à vontade com a imprensa e lidar com o excessivo assédio dos fãs.

Cássia Eller mudou de penteados, apresentou estilos musicais distintos, mesclando uma ferocidade e fragilidade que a tornavam única, algo que era transmitido para as suas músicas. Mais do que se concentrar em polémicas, embora não fuja das mesmas, "Cássia Eller" procura apresentar a artista do título na sua intimidade, a forma como a imprensa e o público a receberam de forma positiva, a mudança de estilo com o nascimento do filho e a posterior colaboração com artistas como Nando Reis, um dos vários elementos que prestam interessantes depoimentos ao longo do documentário. Um dos álbuns da cantora a efectuar um grande sucesso de público, intitulado "Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo", surgiu já depois do nascimento do filho, com esta a procurar seguir em parte os gostos do mesmo, apreciador de Marisa Monte. Este disco foi produzido por Nando Reis, um dos colaboradores marcantes da cantora, com esta a exibir mais uma vez a sua versatilidade, conquistando novamente o público e a crítica. A mudança deveu-se em parte ao facto do filho dizer que esta gritava e Marisa Monte cantava, algo com que a cantora brincou, expondo essa preferência do rebento em diversos momentos, incluindo numa presença no programa de Jô Soares, num momento de humor que marca o documentário. Diga-se que "Cássia Eller" surge diante de nós como uma obra muitíssimo recomendável em grande parte devido às escolhas inteligentes de Paulo Henrique Fontenelle que, associadas ao magnífico material que tinha à disposição, resultaram num documentário sublime na forma delicada e bem viva como nos apresenta a esta cantora. Tanto aparece de cabelo cortado em formato de moicano e pintado, a coçar a dita cuja, a exibir os seios nos concertos, como nos aparece numa versão mais frágil durante a gravidez ou nos momentos em família, para além da sua inaptidão para entrevistas ou para contactar abertamente com o público fora do concerto devido à timidez. É esta complexidade de Cássia Eller e a eficácia a representar a mesma que permitem e muito ao filme sobressair, com Paulo Henrique Fontenelle a ancorar-se em depoimentos de figuras como Nando Reis, Zélia Duncan, Oswaldo Montenegro, Rúbia Eller (irmã de Cássia), Maria Eugênia Vieira Martins, Lan Lan (percussionista da banda de Cássia), Nancy Ribeiro Eller (mãe de Cássia), entre vários outros elementos que foram importantes na carreira desta cantora ou privaram com a mesma. O filme exibe-nos ainda a procura de Cássia em criar um grupo restrito em sua volta, com a sua banda a ter um papel de relevo no trabalho, enquanto esta muitas das vezes colocava a cabeça em água ao seu agente com a marcação de concertos imprevistos, com a sua enorme disponibilidade em participar nos mesmos a nem sempre se coadunar com a capacidade real de poder estar em todo o lado ao mesmo tempo. O seu concerto no Rock in Rio, em 2001, onde sobressaiu num dia onde constavam bandas como os R.E.M. e Foo Fighters, é surpreendente, sobretudo para pessoas como eu que nunca tinham visto esta cantora em palco. Aparece inicialmente de violão na mão, num estilo aparentemente distinto daquele que o público e a organização esperariam, até passar por temas como "Smells Like Teen Spirit" dos Nirvana e exibir a sua enorme capacidade de envolver os espectadores. A própria já tinha apresentado alguma polémica ao comentar que o cachet dado pela organização serviria apenas para pagar os custos do concerto, com esta a tocar acima de tudo pela oportunidade. Agarrou o público com o seu estilo magnético, dominando os palcos como poucos elementos conseguiram, com a sua inteligência e talento a permitirem adaptar-se tanto a grandes espaços como este, como a locais dedicados ao samba e a pequenos espaços, com esta a preferir sempre tocar onde pudesse ver e interagir directamente com o público. Existe algo de apaixonante na figura de Cássia Eller que Paulo Henrique Fontenelle consegue transmitir, com o cineasta a criar um documentário capaz de expor as diversas "camadas" que fizeram com que esta cantora deixasse poucas pessoas indiferentes.

Confesso que dei por mim a viver intensamente os trechos dos concertos da cantora (o momento em que canta "Non, Je ne regrette rien" de Édith Piaf é simplesmente arrepiante), a deixar-me levar pela história de alguns dos "pedaços" da sua vida, a comover-me com alguns episódios relacionados com a sua morte, com "Cássia Eller" a manter um tom por vezes algo nostálgico mas também de enorme amor a uma figura simplesmente apaixonante. Não era conhecida pelas suas capacidades como compositora, mas sim pela forma como se apropriava das letras que outros escreviam para si atribuindo-lhes uma alma muito própria, algo visível em temas como "Malandragem", escrito pelo não menos marcante Cazuza, um compositor brilhante que falecera precocemente aos trinta e dois anos de idade. Para representar uma figura tão especial, Paulo Henrique Fontenelle providencia-nos um documentário brilhante, capaz de retratar a intimidade, o talento e complexidade de Cássia Eller, mesclando material de arquivo que varia entre fotografias, vídeos privados, de concertos e entrevistas, depoimentos que acrescentam algo, elaborando um magnífico trabalho com as imagens, beneficiando ainda de uma montagem que imprime um ritmo fluído a este documentário especial. Diga-se que, devido a não contar com uma biografia oficial sobre Cássia Eller para seguir, Fontenelle recorreu a "Acervos de jornais, TVs e lembranças de amigos (...) como principal matéria-prima para o roteiro, que não teve interferência da família". Nesse sentido, não vão faltar ainda recortes de jornais, onde somos colocados diante das críticas à cantora, na maioria positivas, incluindo a estrondosa recepção à sua performance no Rock in Rio de 2001, um momento que marcou um pico de popularidade da cantora. Vão ainda ser utilizados depoimentos de alguns críticos e jornalistas, com o trabalho da cantora a ser mesclado na justa medida com a vida privada da mesma, com ambos a influenciarem-se um ao outro. Veja-se quando é salientado que tiveram de ir para uma espécie de retiro com a banda devido a uma terceira pessoa na vida de Cássia e Maria Eugênia Vieira Martins, que veio em certa parte mexer com o status quo, embora a prioridade da cantora sempre fosse a parceira de longa data. Na visualização de um documentário devemos ter sempre em consideração que estamos diante de um ponto de vista sobre os elementos retratados. O caso de "Cássia Eller" não é diferente embora se note uma procura de Paulo Henrique Fontenelle em ser fiel ao elemento que retrata, elaborando uma obra cinematográfica sem grandes tabus que aborda de forma simultaneamente delicada e intensa a história da vida de uma mulher que passou por este planeta pronta a deixar marca, embora muitas das vezes não parecesse estar consciente disso. Acima de tudo parecia querer cantar, interagir com o público, tendo na música uma forma primordial de se exprimir e soltar-se da sua timidez, exibindo um lado mais doce quando se encontrava a cuidar do filho. É uma mulher marcante, com Paulo Henrique Fontenelle a procurar explorar essa complexidade da cantora, mesclando o lado mais selvagem e sensível da mesma, bem como o seu amor pela música e a sua capacidade de surpreender aqueles que a acompanhavam. Marcante e apaixonante, "Cássia Eller" surge como um documentário arrebatador que nos expõe a uma mulher talentosa, que deixou a sua marca no mundo da música, naqueles que a rodearam e nos seus fãs. Sem mais rodeios: "Cássia Eller" é um documentário simplesmente brilhante e apaixonante.

Título original: "Cássia Eller". 
Realizador: Paulo Henrique Fontenelle. 
Argumento: Paulo Henrique Fontenelle.

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