16 abril 2015

Resenha Crítica: "Boa Sorte" (2014)

 Num determinado momento de "Boa Sorte" encontramos João (João Pedro Zappa) e Judite (Deborah Secco) a preparem-se para fazer sexo. Despem as suas roupas e acima de tudo as suas almas. Não falam. Apenas ouvimos em off os diálogos que imaginam nas suas mentes e parecem conseguir transmitir um ao outro apenas com gestos e olhares. Ela é uma seropositiva na casa dos trinta anos que padece ainda de Hepatite C e sabe que conta com pouco tempo de vida. Ele é um jovem adulto que sofre de perturbações mentais e é viciado em Frontal, um medicamento para a ansiedade, algo que conduz os seus pais a internarem-no na clínica psiquiátrica dirigida pela Drª Lorena (Cássia Kis). Existe algo que os une: uma imensa solidão. É essa solidão que conduz João a pensar muitas das vezes que ao tomar Frontal com Fanta de laranja se torna invisível aos olhos dos outros, algo que lhe vai trazer vários problemas. Esta situação é apresentada num flashback onde percebemos que os pais dão pouca atenção a João, o irmão só se lembra deste quando é para ajustar contas por um apalpão no traseiro da namorada dado pelo protagonista quando pensava estar invisível. Fora de casa também parece ter poucos amigos, com a sua relação com as raparigas a ser marcada pela estranheza de uma lambidela quando estava "invisível", uma situação que revela um misto de solidão, distúrbios e ingenuidade. Quando agride uma mulher, novamente quando pensava estar invisível, João acaba de vez por chamar à atenção dos pais que o decidem internar na clínica. O internamento de João faz parte dos momentos iniciais de "Boa Sorte", com João Pedro Zappa a conseguir expressar de forma sublime a solidão à qual estava sujeito o personagem que interpreta. João Pedro Zappa tem uma interpretação praticamente imaculada, sobressaindo quer nos momentos de solidão do personagem a quem dá vida onde este parece apresentar um enorme afastamento em relação ao mundo que o rodeia, quer nos momentos que partilha com Judite. É esta mulher que inicia o diálogo com o jovem, procurando saber se João é toxicodependente, esquizofrénico ou algo parecido. A descontracção desta mulher surpreende, sobretudo se tivermos em conta a sua condição de saúde embora aos poucos percebamos que as suas atitudes expansivas são muitas das vezes uma capa para esconder as suas inquietações. Magra, pálida, de vestes simples e pouco cuidadas, Judite aos poucos gera uma relação de enorme cumplicidade com João que gradualmente se transforma em algo mais com o jovem a apaixonar-se por esta. O momento descrito no início do texto é um dos mais belos do filme, já revelador de uma enorme proximidade emocional e física por parte dos protagonistas, com Judite a ser a primeira parceira sexual de João. 

Judite só aceita iniciar uma relação sexual se este utilizar preservativo, algo repetido ao longo do filme, numa mensagem que está longe de ser apresentada de forma vincadamente didáctica, embora fique exposto que existe uma procura de consciencializar ainda mais o público em relação à necessidade de utilizar protecção nas relações sexuais. Diga-se que através de Judite é ainda possível consciencializar mais uma vez que o vírus HIV não se transmite se existirem precauções mútuas, com esta personagem a procurar proteger João de ficar contaminado. Aquilo que Judite não consegue evitar é que João fique contaminado do ponto de vista emocional, a ponto de pretender tomar medida extremas para aumentar o tempo da sua estadia na clínica. Esta situação é visível em momentos como o jovem a resolver tomar uma refeição nu, algo que termina com o mesmo a ser preso numa maca, tratado como o louco que não é ou, pelo menos, que percebemos não ser. Diga-se que a clínica parece ser um local para curar tudo menos as doenças dos personagens, existindo todo um cuidado para representar este espaço como degradado e pouco aprazível, algo que não muda assim tanto com os momentos em que os "doentes" recebem as visitas. A única visita que Judite recebe é da sua avó (Fernanda Montenegro), também ela uma consumidora de drogas, com quem a neta parece ter uma relação complicada. A mãe de Judite faleceu quando a protagonista era bastante jovem, enquanto o pai desapareceu de vista ainda antes desta nascer. João e Judite são duas figuras solitárias. A clínica psiquiátrica, mais do que os curar, parece apenas aumentar ainda mais a solidão. Podem sair temporariamente para o jardim da clínica mas boa parte do quotidiano é passado em salas fechadas, onde estão sujeitos a um conjunto de regras que cerceiam as suas liberdades e a uma dose de comprimidos elevada. João gosta de tocar viola mas não pode devido a temerem que se possa suicidar com as cordas, tal como não pode sair do local embora transgrida as regras com Judite. Esta gosta de pintar, apresenta um maior conhecimento em relação à vida e ao mundo que a rodeia, tendo consciência dos erros e excessos que cometeu no passado. Judite era viciada em drogas, tendo pelo meio contraído HIV, algo que aliado à Hepatite C conduz a que não consiga aguentar parte da medicação. Na clínica encontramos ainda elementos como Felipe (Pablo Sanábio), um indivíduo expansivo, algo desequilibrado do ponto de vista emocional, que protagoniza um momento memorável com Judite e João. O personagem interpretado por João Pedro Zappa segura o rádio, enquanto Judite e Felipe saem da sala, em euforia, algo pedrados, a dançar e a libertarem-se das amarras a que estão sujeitos, enquanto a câmara de filmar segue estes elementos num plano-sequência que surge como um dos momentos mais memoráveis do filme. A música utilizada é "Talk to Me" da banda "Peaches", com o tema sonoro a adaptar-se na perfeição ao momento de "libertação" dos sentimentos que estes protagonizam. Deborah Secco, uma actriz de enorme talento, exibe em "Boa Sorte" a sua versatilidade com a sua interpretação a não poder, nem dever ficar apenas reduzida à perda de peso a que esta se sujeitou para interpretar Judite. Os seus gestos permitem expressar as fragilidades físicas mas também emocionais da personagem que interpreta, com a dinâmica entre Deborah Secco e João Pedro Zappa a ser sublime. 

Carolina Jabor, na sua segunda longa-metragem como realizadora, a primeira de ficção, surpreende-nos com um drama humano que aborda de forma delicada a relação entre duas pessoas solitárias que padecem de graves problemas. Mais do que expor a degradação mental dos restantes doentes da clínica, Jabor foca a narrativa nesta peculiar e envolvente dupla de protagonistas que parecem encontrar no convívio de um com o outro uma oportunidade para colherem alguns dos cacos em que se encontram as suas almas. João e Judite jogam pingue-pongue, falam sobre assuntos aparentemente banais mas também sobre momentos que foram relevantes para a chegada de ambos ao local. Ela sabe que tem um tempo de vida limitado, embora procure desafiar as limitações do seu corpo, contando com uma mente irrequieta e uma personalidade que rapidamente nos fascina. Ele é algo ingénuo em relação ao mundo que o rodeia e definitivamente não parece saber o que fazer com a sua vida. O momento em que tomam Fanta com laranja com Frontal e escapam temporariamente da clínica devido a "serem invisíveis" é recheado de cenas marcantes entre Judite e João, tais como na loja de música onde roubam as cordas para a guitarra do protagonista, ou na praia onde despem a roupa e soltam as emoções. Racionalmente sabem ou deveriam saber que a relação desenvolvida é temporária, embora o excessivo envolvimento de João conduza a que Judite tome uma medida drástica para resolver algo que poderia destruir a vida deste jovem. Não é propriamente inovador encontrar no grande ecrã alguém que procura afastar a pessoa amada para a proteger, num acto em que demonstra que consegue sobrepor os sentimentos do outro em relação aos seus. No caso de Judite esta parece ser uma necessidade, com a personagem interpretada por Deborah Secco a procurar acima de tudo proteger o jovem, enquanto se torna claro que a maior cura que este pode ter encontrado para os seus problemas é esta mulher. João pode padecer de problemas do foro mental mas também parece inegável que foi sujeito a um enorme desprezo por parte da sua família, com os seus pais a pouco lhe ligarem. Os flashbacks exemplificam isso, mas também as cenas do presente onde Judite e João tomam Frontal, bebem Fanta e agem como se fossem invisíveis, entrando na casa deste jovem, um espaço onde impera os silêncios, a falta de comunicação e escasseiam sentimentos calorosos. Na clínica, dão-lhe comprimidos, amarram-no quando se comporta mal e parece certo que também não é o espaço onde este pode recuperar, ou melhor, não seria se não tivesse conhecido Judite. Esta muda o seu mundo, a sua forma de pensar e encarar a vida, com Carolina Jabor a desenvolver a relação improvável entre estes dois de forma sublime, recheada de enorme humanidade e alguma delicadeza. 

A cena inicialmente descrita é belíssima, adquirindo alguma poesia com o momento onde parece que a dupla lê os pensamentos, tal a intimidade que geraram. O corpo consumido de Judite junta-se ao do inexperiente João, com ambos a demonstrarem uma união que não ajuda a ultrapassar tudo mas esconde muitos dos problemas que assolam as suas almas. O que seria de ambos se a morte não fosse o destino de Judite? Provavelmente seriam felizes, ou talvez não, mas é de elogiar a forma sublime como Carolina Jabor aborda as temáticas que envolvem "Boa Sorte". Não faltam temáticas como a alienação no espaço urbano, a solidão, a depressão, com o espaço da clínica a ser marcado por gentes muitas das vezes solitárias, com o filme a abordar pelo meio a necessidade de protecção nas relações sexuais, ao mesmo tempo que nos deixa a questionar se este confinamento a que são sujeitos elementos como João e Judite é o ideal para o tratamento. Carolina Jabor explora com uma relativa eficácia o recurso aos flashbacks para nos deixar diante de alguns elementos relevantes sobre os protagonistas, tal como nos brinda com uma tocante cena de animação, para além de conseguir extrair o que de melhor a sua dupla de protagonistas tem para dar. Veja-se o próprio modo de andar que Deborah Secco incute à personagem que interpreta, bem como a sua capacidade em elevar muitas das falas, com o excesso de movimento de Judite a contrastar muitas das vezes com a aparente passividade de João. Esta dicotomia não aparece ao acaso. Ela sabe que lhe resta pouco tempo para aproveitar a vida. Ele tem ainda um longo tempo pela frente. São figuras distintas que facilmente geram uma enorme cumplicidade e nos convencem da importância que um tem para o outro. O argumento do filme teve como base o conto "Frontal com Fanta" de Jorge Furtado, com este a ter colaborado na escrita do primeiro ao lado de Pedro Furtado, algo que resultou num trabalho coeso que é elevado pelas interpretações de Deborah Secco e João Pedro Zappa, bem como pela sobriedade e eficácia com que Carolina Jabor explora as temáticas. No final, João teve a "Boa Sorte" de ter conhecido Judite, uma mulher que alterou a sua vida para melhor numa obra cinematográfica que pode não mudar a nossa existência mas também não passa despercebida após visualizarmos a mesma.

Título original: "Boa Sorte".
Realizadora: Carolina Jabor.
Argumento: Jorge Furtado e Pedro Furtado.
Elenco: Deborah Secco, João Pedro Zappa, Fernanda Montenegro, Felipe Camargo, Cássia Kis Magro.

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