14 abril 2015

Resenha Crítica: "Apneia"

 Os actos trazem muitas das vezes consequências associados aos mesmos, que o digam as protagonistas de "Apneia", um filme que procura colocar-nos diante de um conjunto de temáticas associadas a um grupo de jovens mulheres financeiramente abonadas mas incrivelmente entediadas em relação ao seu quotidiano. Por vezes descai para o melodrama, nem sempre é verosímil mas é uma longa-metragem relativamente eficaz a abordar algumas das temáticas que nos apresenta ao mesmo tempo que procura atribuir o devido destaque às figuras femininas, independentemente de simpatizarmos com as personalidades e comportamentos das mesmas ou não. Desde diálogos sobre sexo e a forma como preferem ver o seu parceiro a agir, passando pela relação complicada com a família, bem como pela utilização de drogas (fumam-se muitos charros, mas também tabaco ao longo do filme), um aborto inesperado, várias saídas nocturnas, traições, até ao futuro profissional incerto, prostituição, várias são as temáticas que "Apneia" procura abordar através das suas protagonistas. É um filme centrado em figuras femininas aparentemente vazias que não procura traçar um retrato maniqueísta dos homens, expondo-nos às virtudes e defeitos de parte a parte numa obra cinematográfica que está longe de ser considerada única e exclusivamente para o público feminino. Diga-se que podemos queixar-nos da falta de evolução e desenvolvimento das figuras masculinas mas não podemos falar numa representação única das mesmas, com "Apneia" a tanto nos deixar como um namorado que gosta da namorada e é traído pela mesma como diante de um elemento que trai a sua cara-metade com uma das melhores amigas. Os elementos masculinos surgem muitas das vezes como personagens-cliché que não são desenvolvidos, mas servem um propósito estabelecido na evolução das personagens femininas e na abordagem aos temas relacionados com estas. Várias são as temáticas abordadas e os sentimentos evidenciados ao longo deste filme onde a música tem uma relevância saliente, com a influência do trabalho em videoclips a parecer ser sentida nesta longa-metragem realizada por Maurício Eça. Com uma carreira marcada pela realização de mais de cento e vinte videoclips, vários anúncios televisivos, duas curtas e a co-direcção de "Universo Paralelo", Maurício Eça tem em "Apneia" a sua primeira longa-metragem a solo. Em "Apneia", Maurício Eça deixa-nos diante de três jovens adultas sem grande rumo para as suas vidas que gradualmente vão ter de começar a lidar com as consequências dos seus actos e as decisões que tomaram para fugirem ao tédio que sentiam. Chris (Marisol Ribeiro) é provavelmente a personagem que mais se destaca ao longo de "Apneia", algo que permite à sua intérprete sobressair em relação aos restantes elementos do elenco. Com uma carreira entre o cinema e a televisão, Marisol Ribeiro tem em "Apneia" um papel digno de alguma atenção, com a actriz a conseguir compor uma personagem complexa, sem grande rumo em relação à vida, algo rebelde e sarcástica que nem sempre parece ter noção dos seus actos. Marisol Ribeiro consegue que mantenhamos sempre o nosso interesse em seguir Chris, mesmo quando esta toma atitudes incompreensíveis e desagradáveis, embora mais tarde acabemos por perceber a sua revolta e incapacidade para superar o tédio. Esta é uma jovem que procura desafiar os seus limites e afirmar-se em relação aos outros, que conta com um pai sem problemas financeiros, embora pouco queira estar com este e a madrasta, encontrando-se ainda a sofrer com a morte da mãe. A figura da mãe surge por vezes em alguns dos momentos dos sonhos de Chris, com esta a muitas das vezes ter algumas paragens onde fica entre o sonho e a realidade, ou não padecesse da doença do título (que surge presente no sentido literal e metafórico, com esta jovem a parecer encontrar-se sufocada diante da realidade que a rodeia, algo que a leva a cometer actos nem sempre recomendáveis para chamar à atenção). Como vem salientado no site do filme, a Apneia do Sono ou Apneia Nocturna é "a suspensão da respiração durante o sono", com o principal sintoma a ser a "sonolência intensa durante o dia".

No caso das protagonistas de "Apneia", o dia aparece sempre secundarizado em relação à noite, com Chris, Julia (Thaila Ayala) e Giovanna (Marjorie Estiano) a fazerem das horas nocturnas as suas grandes companheiras, surgindo entediadas em relação ao quotidiano. Júlia e Giovanna já se conheciam, enquanto Chris envolve-se na vida da primeira no início do filme quando a conhece na casa de banho da universidade. Chris compara a maquilhagem de Júlia à de Lady Gaga, com a personagem interpretada por Thaila Ayala a comparar a sua interlocutora ao Joker. Ficamos diante de um dos célebres diálogos entre mulheres quando estão na casa de banho, longe do olhar masculino, com ambas a revelarem um sarcasmo e espírito de encaixe em relação às piadas bastante assinaláveis. Está quebrado o gelo entre ambas, com estas a meterem conversa sobre o curso que frequentam e a dinâmica entre Marisol Ribeiro e Thaila Ayala a compensar o pouco tempo que existe para o argumento explorar como ambas ficaram desde logo tão cúmplices. Chris encontra-se a tirar artes plásticas, enquanto Julia está a frequentar o curso de design. A primeira não quer prostituir o seu ideal de arte, a segunda parece mais pragmática. Ambas contam com relações familiares conturbadas e pais com contas bancárias acima da média, embora essa situação não lhes traga propriamente felicidade. Chris é quem mais sobressai devido à sua personalidade expansiva, encontrando-se quase sempre pronta para uma festa, fumar charros e andar pedrada, embora essa situação pareça muitas das vezes servir como uma máscara para esconder os seus problemas e medos pessoais, para além da tentativa óbvia de quebrar com o tédio crónico que a aparece assolar. De noite tem dificuldades em dormir, roncando imenso devido à apneia, ou acordando do nada. Desenha imenso durante a noite ou vai para "a balada", tendo algumas pequenas paragens que a afectam durante o dia devido a não dormir. Veja-se quando praticamente é atropelada, ou deixa as cinzas do cigarro caírem na sua perna devido a ter um adormecimento repentino, para além de ter o despertador do telemóvel preparado para as seis da tarde, a "hora em que costuma ter sono". A amizade crescente entre Chris e Júlia conduz a que a primeira fique a viver temporariamente na casa da segunda. Júlia tem uma relação com Marcos (Gustavo Duque), um indivíduo aparentemente pacato, sendo ainda cortejada por Max, o namorado de Giovanna. Esta é a mais ingénua e pacata do grupo, tal como parece ser a mais dependente da figura masculina a ponto de se procurar tornar semelhante à falecida noiva deste. A noiva de Max foi assassinada pelo amante, com o primeiro a pouco se preocupar com os sentimentos de Giovanna, mantendo ainda um estranho caso com Júlia. Por vezes o enredo de "Apneia" descai para o melodrama e a inspiração em séries como "Gossip Girl", assinalada pelo próprio cineasta, às quais acrescentamos "Malhação" e diversos trabalhos televisivos que abordem assuntos relativos a adolescentes, torna-se mais notória. É mais ácido e intenso na representação destas figuras femininas sem grande rumo e sem grandes ideias, com Júlia e Chris a formarem uma amizade muito à base de saídas nocturnas e aventuras que podem terminar mal. Dormem com estranhos, frequentam um "putedo", bebem, fumam charros, frequentam discotecas até começarem a lidar com as consequências de alguns dos seus actos, algo que vai colocar a relação entre ambas em perigo. As idas à discoteca onde trabalha Max, um DJ, parecem frequentes, com a cinematografia a sobressair nestes momentos, não só a captar o ambiente deste local nocturno mas também a inserção ou dispersão das protagonistas no mesmo. Veja-se que na segunda saída Júlia e Chris deixam Giovanna entrar sozinha, enquanto decidem ir a outro local, em particular um putedo, onde despertam a fúria de uma prostituta devido a estas poderem roubarem-lhes potenciais clientes.

 Estamos diante de um retrato das figuras femininas que pode nem sempre despertar a simpatia do público, com o trio, em particular Chris, a ser o centro das atenções de "Apneia". O filme apresenta um retrato aberto e a espaços interessante sobre o quotidiano de três jovens mulheres, sobressaindo sobretudo a interacção entre as mesmas e os diálogos que mantêm quando estão em conjunto. As falas vão desde assuntos como o futuro profissional ao pequeno tamanho do pénis de um estudante da faculdade, ou à forma como preferem ter relações sexuais, com Chris a salientar o seu gosto pelo sexo ao ar livre enquanto Júlia prefere ser insultada. Parece certo que estas pouco pensam para além disto, com a liberdade e conforto financeiro que têm, aliados ao tédio e muitas das vezes ao vazio a nível de ideias, a conduzirem a um estilo de vida nem sempre compreensível. Destas três, Giovanna parece ser a mais apagada, embora Marjorie Estiano consiga sobressair, sobretudo nos momentos finais, quando a personagem que interpreta finalmente parece fartar-se de procurar representar algo para agradar ao namorado. Já Chris e Júlia tomam riscos e aproveitam as suas contas bancárias mais abonadas, sobretudo a da segunda que não tem problemas em utilizar o cartão multibanco do pai. São duas jovens sem rumo aparente na vida, ainda a formarem as suas personalidades, que vivem acima da média e a desafiarem constantemente as regras, algo que poderia contribuir para uma representação destas mulheres nem sempre simpática ou que pelo menos gerasse alguma indiferença da nossa parte. O argumento, apesar de nunca apresentar um golpe de asa que eleve o filme muito acima da mediania, permite evitar essa situação, bem como o trabalho de Marisol Ribeiro e Thaila Ayala. Marisol Ribeiro pela forma como é capaz de transmitir a vivacidade e aparente "pancada" da personagem que interpreta, uma jovem que tem uma visão muito própria da arte e da vida, ou se preferirmos uma falta de visão já que não sabe o que fazer em relação ao seu futuro. É nos seus sonhos, onde fica quase sempre perto de se afogar ou se recorda da sua mãe, que encontramos algumas das suas fragilidades. Estas cenas são marcadas por uma luz mais intensa, com as imagens a aparecerem por vezes desfocadas nos sonhos, tal como a vida desta mulher parece fora de foco. Temos ainda um flashback num momento das suas "paragens", onde percebemos que algo correu mal numa relação do passado. Frequenta um curso de artes plásticas mas dificilmente a licenciatura servirá para conseguir um emprego, para além de que a própria não parece estar muito preocupada em concluir a mesma. Por vezes chega a falar de prostituição, curiosa em relação ao estilo de vida de uma conhecida de Júlia, mas cedo irá perceber dos perigos que a podem rodear, com a sua aparente abertura diante dos homens a poder dar mau resultado sobretudo quando lida com elementos mal intencionados. Maurício Eça não pretende "pregar" contra os homens, nem os representa a todos como figuras monstruosas. É certo que também não faz os personagens masculinos evoluírem no enredo para além do básico, mas o enfoque do filme está nas mulheres, nos seus diálogos, perspectivas, na forma como encaram a vida, a amizade entre ambas e o sexo.

A amizade destas três mulheres parece estar sempre no limbo ou não envolvesse vários riscos mas também traições. Thaila Ayala e Marisol Ribeiro convencem-nos da dinâmica entre as personagens que interpretam, duas jovens adultas algo rebeldes em relação ao destino e à vida, que tomam atitudes nem sempre reflectidas mas vão ter de aprender a lidar com os seus actos. É sobretudo na personagem interpretada por Marisol Ribeiro que se concentra o enredo de "Apneia", uma obra que sobressai pela procura de apresentar de forma bem viva várias temáticas relacionadas com um grupo de jovens que vivem financeiramente acima da média. Existem alguns exageros no melodrama inerente às relações humanas apresentadas ao longo do enredo, por vezes quase a desviar para o registo das séries citadas, embora Maurício Eça controle relativamente bem a narrativa. As temáticas do filme não são propriamente desconhecidas do público, nem as personagens são sempre as mais fáceis e agradáveis de acompanhar. Estas são ricas, vazias e entediadas em relação à vida, algo que conduz Chris e Júlia a levarem uma rotina completamente louca, muitas das vezes para chamarem à atenção. Fazem sexo com estranhos, desleixam os estudos, passam as noites em discotecas, consomem drogas, com o retrato destas jovens a não estar assim tão distante de algumas pessoas que conhecemos no passado. Maurício Eça não efectua o elogio da "cultura do vazio" tal como não apresenta uma crítica feroz à mesma, deixando-nos diante de um conjunto de jovens em formação da personalidade que acabam por perceber da pior maneira que os seus actos podem nem sempre trazer as consequências pretendidas. Pode-se dizer que o último terço é algo moralista mas este nem parece ser o maior problema colocado a "Apneia". Um dos maiores desafios colocados a Maurício Eça é como tornar estas personagens minimamente interessantes ao ponto dos espectadores se preocuparem com o quotidiano das mesmas, algo que consegue cumprir com alguma eficácia. No entanto, ficam a faltar elementos como um maior desenvolvimento das relações familiares das três personagens femininas principais, tal como o filme ficaria a ganhar com um maior desenvolvimento dos elementos masculinos. No final, "Apneia" revela-se um drama humano relativamente competente, onde a música surge como uma componente bastante importante, com Maurício Eça a ser capaz de explorar o quotidiano e a relação destas jovens que procuram afirmar-se de uma forma estranha diante daqueles que as rodeiam. Acima de tudo é isso que parece estar saliente no comportamento de elementos como Chris: a procura de afirmar-se e sobressair junto dos outros. Já "Apneia" exibe a procura de Maurício Eça em afirmar-se como realizador de longas-metragens num filme que consegue quase sempre prender a nossa atenção ao mesmo tempo que explora a história destas jovens que se encontram longe de terem um rumo, enquanto Marisol Ribeiro surpreende-nos com uma interpretação acima da média que eleva a obra cinematográfica e a personagem a quem dá vida.

Título original: "Apneia".
Realizador: Maurício Eça. 
Argumento: Maurício Eça e Mariana Zatz.
Elenco: Marisol Ribeiro, Thaila Ayala, Marjorie Estiano.

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