11 abril 2015

Resenha Crítica: "Alemão"

 Num determinado momento de "Alemão", um filme realizado por José Eduardo Belmonte, encontramos uma parede manchada de sangue. Antes disso, presenciáramos um longo tiroteio, precedido de momentos de enorme tensão e claustrofobia onde cinco polícias infiltrados, cujas identidades foram descobertas, e uma mulher que é obrigada a permanecer no esconderijo, procuravam encontrar um meio de sair com vida deste cenário. Do outro lado, os elementos da favela do Morro do Alemão associados ao tráfico, em particular o traficante Playboy (Cauã Reymond), procuram capturar e eliminar os polícias. Não parece existir meio termo, nem espaço para grandes heroísmos: vida ou morte parece o destino destes homens. Quando encontramos Mariana (Mariana Nunes), a ex-namorada de Playboy, de quem este tem um filho, a observar a parede manchada de sangue ficamos diante de algumas das consequências mais devastadoras deste conflito, onde a morte parece o destino mais provável. Será possível falar em vencedores e vencidos? "Alemão" demonstra que é difícil, para não dizer praticamente impossível, responder a esta questão de forma paradigmática, com as vidas que se dissipam de ambas as partes a exporem a violência que rodeia o contexto e o espaço da narrativa. Os planos filmados em zonas superiores exibem o território na sua multitude e grandeza, embora seja quando a câmara se aventura pelas suas ruas labirínticas, onde parece difícil avançar ou confiar em quem quer que seja, que se tornam notórias as dificuldades de muitas das gentes que habitam o local, mas também a violência que rodeia o mesmo. Este é um território apresentado como um espaço claustrofóbico, mas José Eduardo Belmonte torna-o ainda mais opressivo quando coloca os cinco polícias fechados no interior da pizzaria pertencente a um dos elementos quando trabalhava infiltrado, com este espaço interior a ser palco dos melhores momentos de “Alemão”. A presença destes elementos do território remete para as políticas governamentais iniciadas em 2007 para a "pacificação" destas comunidades das favelas. O termo pacificação, não deixa de ser algo irónico se tivermos em conta a violência de parte a parte, numa medida cujas consequências vão fazer-se notar nos protagonistas de "Alemão". Como é anunciado no início do filme, em 2007: "Começa a retomada territorial das favelas cariocas através da acção militar do Estado. Segundo o Governo do Rio de Janeiro, o objetivo da missão é a pacificação das comunidades dominadas pelo tráfico, e a implementação da política de UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora)". É também neste momento inicial que, através destes intertítulos, nos é exposto que as dificuldades para avançar no Complexo do Alemão conduziram ao envio de agentes infiltrados.

O enredo avança para 2010, três anos após a entrada das UPPs no território. O cenário não parece brilhante, nem tão efusivo como aquele que fora apresentado aquando da notícia da organização do Mundial 2014, algo exposto nos momentos iniciais do filme. É salientado que "Devido à reação violenta do tráfico, o Governo resolve antecipar a invasão ao Morro do Alemão, fazendo uma das maiores operações militares da história do país". Ficamos ainda diante das imagens das gentes das favelas e o seu quotidiano, para além da forma aparentemente comum como Playboy anda acompanhado pelos seus "capangas" armados com metralhadoras. É este o contexto do filme, sendo ainda realçado que as vidas de cinco elementos infiltrados encontram-se em perigo, com "Alemão" a procurar entroncar o enredo num contexto histórico recente e verídico, mesclando em alguns momentos imagens de reportagens televisivas reais. As vidas dos agentes infiltrados sempre estiveram em risco, com estes a procurarem recolher informações sobre o território e as suas gentes de forma a fornecerem as mesmas aos seus superiores, tendo em vista a preparar a entrada das forças policiais no local. No entanto, a descoberta da identidade dos polícias infiltrados por parte de Playboy, um líder do tráfico local, piora e muito a situação. Este manda cortar a rede telefónica móvel e o acesso à internet, enviando os seus homens, incluindo Senegal (Jefferson Brasil), o seu braço direito, um indivíduo disposto a tudo para manter o seu estatuto de poder, para capturarem ou eliminarem rapidamente os agentes da autoridade. A verdadeira identidade de cada um destes elementos associados às forças policiais é descoberta devido à documentação contida no interior de uma pasta que Doca (Otávio Müller), um polícia infiltrado, dono da pizzaria, envia para o delegado Valadares (António Fagundes). A pasta contém informação sobre as operações de cada elemento, as suas identidades e respectivas localizações. O transportador seria Pixixo (Izak Dahora), um elemento que colabora com Valadares, ainda que de forma não oficial. No entanto, Pixixo é descoberto pelos elementos associados ao traficante que logo roubam a informação. Este ainda consegue fugir mas é tarde demais para recuperar a pasta e salvaguardar os documentos que se encontram na mesma. Playboy e os restantes criminosos sabem quem são os polícias e não vão descansar enquanto não encontrarem os mesmos. Seguem-se momentos intensos. A cinematografia de Alê Ramos destaca-se quer nestes momentos da perseguição, atribuindo uma enorme intensidade aos mesmos enquanto os polícias procuram fugir, quer nos momentos mais claustrofóbicos nos quais os elementos infiltrados se encontram confinados ao espaço fechado da pizzaria. Este é o ponto de encontro dos polícias, com o restaurante a contar com uma divisória, uma espécie de cave/porão que lhes permite ficarem abrigados. Entre os elementos que se reúnem no local encontram-se Doca, Danilo (Gabriel Braga Nunes), Branco (Milhem Cortaz) e Samuel (Caio Blat). Carlinhos (Marcello Melo Jr.) junta-se mais tarde ao grupo, algo que desperta a fúria de Branco que coloca a hipótese do último ter-se passado para o lado do inimigo. O personagem interpretado por Marcello Melo Jr. tem um caso com Leticia (Aisha Jambo), irmã de Senegal, uma situação que serve para aumentar as dúvidas dos colegas em relação ao lado em que este se encontra. Este fica possesso com as dúvidas em relação à sua pessoa e dedicação à causa, embora não tenha problemas em assumir que se apaixonou por Leticia. Algo parece certo, os vários anos a conviverem com criminosos e os elementos das favelas conduziu a que a personalidade destes homens se transfigurasse, uma situação que não justifica todos os seus comportamentos mas é relevante para compreendermos os seus mesmos. Diga-se que esta situação também é relevante para compreendermos a evolução de Playboy no mundo do crime e as suas motivações, com Cauã Reymond a interpretar um personagem que consegue escapar à representação do gangster unidimensional.

Playboy ainda se questiona em relação à possibilidade de fugir do local, sobretudo devido à aparente inevitabilidade das forças da polícia entrarem no morro. O criminoso tem um passado algo nebuloso com Mariana, parecendo ainda nutrir sentimentos por esta, algo que o leva a questionar, num curto momento, a sua decisão de ter optado pelo mundo do crime, uma situação que os levou a separarem-se. Inicia-se um jogo perigoso entre os cinco polícias e o grupo de Playboy, com o desenvolvimento do filme a ter alguns dos seus melhores momentos nas cenas em que os polícias se encontram fechados na pizzaria, enquanto esperam por uma salvação ou a perdição, ao mesmo tempo que os criminosos procuram fazê-los saírem da toca. A tensão é cortante, a falta de ideias é latente, enquanto a pouca iluminação domina o local e estes homens não sabem bem se esperam pela salvação ou pela morte. Playboy cortou as redes de ligação, pelo que é praticamente impossível contactarem com Valadares e conseguirem uma alternativa viável para a fuga. Têm cerca de quarenta e oito horas para sairem da favela mas os planos são poucos. As tensões aumentam, quer quando Senegal e alguns criminosos entram no local em busca dos quatro polícias (Duca não enviou a sua informação e da pizzaria), quer pelas próprias atitudes dos polícias entre si. Branco é o elemento que mais se destaca devido à sua personalidade algo intempestiva e violenta, com Milhem Cortaz a conseguir expor um lado mais negro da representação da polícia. Este representa um polícia mais violento na imposição dos seus ideais, que parece partilhar a ideia do Capitão Nascimento de que "bandido bom é bandido morto", surgindo implacável contra possíveis traições. O tempo na favela e o contacto com o mundo do crime parecem ter endurecido ainda mais a sua personalidade, desconfiando de praticamente tudo e todos, não tendo problemas em entrar em confrontos, considerando-se incorruptível. Este é o oposto de Samuel, um elemento calmo e ponderado, sendo interpretado de forma subtil por Caio Blat. Samuel mantém uma atitude algo idealista e naïve em relação à sua função, procurando manter a calma do grupo, embora essa situação pareça bastante difícil, sobretudo quando Carlinhos chega ao local. Este é, muito provavelmente, um dos personagens mais complexos entre os vários integrantes do grupo. Pouco pragmático, algo sentimental e realista em relação à solidão da sua actividade e ao tratamento dado a alguns elementos da favela, Carlinhos é dos poucos elementos que acaba por se envolver do ponto de vista amoroso com alguém deste espaço, em particular com a irmã de Senegal, algo que lhe promete trazer problemas, sobretudo quando esta é utilizada como "arma de arremesso" para os polícias saírem da "toca". O grupo conta ainda com Danilo e Doca. Danilo é o elemento mais apagado, com a presença nas favelas a parecer ter mudado o seu comportamento no plano oposto de Branco, procurando apresentar uma postura mais pacífica. Doca é aquele que coordena o grupo na ausência de Valadares, tendo de se relacionar com os elementos ligados ao tráfico para manter a pizzaria, protagonizando alguns momentos marcados por enorme nervosismo quando Senegal chega ao restaurante para questioná-lo sobre o possível paradeiro dos polícias em fuga. A entrada de Mariana, a empregada de limpezas, na pizzaria, destrancando a mesma devido a ter a chave, aumenta ainda mais a inquietação. Branco proíbe esta de sair, com Carlinhos a revelar que esta é a ex-namorada de Playboy. Tanto parecem temer o que esta pode falar ao ser solta, como parecem ter a consciência de que Mariana pode ser uma peça valiosa para utilizarem contra Playboy.

Mariana não parece ter más intenções, sendo defendida de forma amiúde por Danilo com quem inicia uma estranha relação de afinidade. Gradualmente vamos ficando a conhecer um pouco mais sobre a personalidade de cada personagem e as suas motivações, enquanto aguardamos o momento em que os polícias sejam descobertos e a violência irrompa. Saído de uma boa colheita de thrillers brasileiros, "Alemão" mescla com eficiência a procura de um grupo de polícias em sair da favela com as tensões no interior do grupo no espaço fechado da pizzaria, para além de exibir o jogo psicológico que se gera entre ambas as partes onde a morte parece ser o destino mais certo para a maioria dos elementos. A violência é sentida e latente. O quotidiano destes personagens é marcado pela mesma, sejam os polícias a combaterem o crime, sejam agentes da autoridade entre si, sejam criminosos contra a polícia ou entre os próprios traficantes, com o enredo a ancorar-se na realidade, em particular nas operações das "unidades de polícia pacificadora" no Complexo do Alemão. Longe de nos apresentar um retrato maniqueísta, onde os cinco polícias são exemplares e os traficantes uns tipos do pior, "Alemão" procura exibir que a questão é bem mais complexa, ao mesmo tempo que foge a falsos moralismos. Polícias tomam atitudes muitas das vezes próximas das dos criminosos, elementos infiltrados no local sentem dificuldades em manterem a frieza, traficantes como Playboy exibem algumas fragilidades emocionais, enquanto parece certo que o problema da criminalidade não se vai resolver tão cedo. Os próprios elementos como Carlinhos sentiram na pele a violência da polícia, com poucos elementos a saberem da sua verdadeira função, algo que o levou de forma amiúde a ser agredido pelas autoridades. A representação da violência da polícia fica bem visível na figura de Branco, com os próprios elementos das forças policiais a por vezes trocarem acusações mútuas de corrupção. O espaço do esconderijo onde se encontram praticamente presos, sem grandes contactos com o mundo exterior, é decorado de forma simples e eficaz, pronto a deixar sobressair os personagens e a opressão crescente em que se encontram. Parece certo que lhes faltam planos para conseguirem abandonar de forma bem sucedida o local, tal como se torna latente que a união entre ambos nem sempre é a mais forte. O último terço é marcado por uma explosão de violência e emoções, onde tiros são disparados (incluindo de bazuca), granadas são lançadas, conflitos são adensados, segredos descobertos e sentimentos expostos. A narrativa de "Alemão" acaba por remeter para filmes brasileiros recentes como "Tropa de Elite", com a acção das forças policiais no território a ser sentida. Não temos um personagem tão marcante e carismático como o Capitão Nascimento mas sim um grupo de cinco polícias com personalidades relativamente distintas entre si que se deparam com um contexto complicado de sair, com José Eduardo Belmonte a procurar explorar o lado pessoal e humano dos personagens que rodeiam o enredo.

O argumento consegue estabelecer com alguma eficácia as dinâmicas complicadas entre os cinco no esconderijo, tal como exibe no início do filme a forma como são surpreendidos pela descoberta da verdadeira identidade das suas pessoas. Estes sabem que estão a cumprir funções, embora alguns entrem em terrenos nebulosos. Branco é exemplo disso, representando o polícia violento, embora a certa altura do enredo a sua impetuosidade acabe por ser colocada ao serviço do grupo após um momento onde Mariana expõe algumas das contradições das acções dos polícias que estão em "missões pacificadoras". Não são heróis, nem são vilões. São indivíduos com qualidades e defeitos, que procuram cumprir o seu trabalho embora nem sempre consigam tomar as decisões mais acertadas ou agir de forma adequada à sua função. A entrada de Mariana no esconderijo traz uma presença feminina relevante para "Alemão". Esta não pretende estar ligada a Playboy, com o afastamento entre ambos a parecer estar ligado com a ascensão deste no mundo do crime, embora Mariana acabe por ter de lidar com as consequências do relacionamento que mantiveram no passado. Fora destes espaços labirínticos encontra-se o delegado Valadares, um indivíduo que tem uma relação complicada com Samuel, o seu filho, entrando em pânico quando descobre que a vida deste corre perigo. A presença de um flashback a exibir um momento deste com o filho pode ser questionável, embora sirva o propósito de realçar um dos últimos momentos de contacto entre Valadares e Samuel. Valadares representa um dos poucos elementos dos escritórios, ligados à burocracia, num filme que procura antes centrar-se nas pessoas que habitam e lidam com o espaço da favela. Não foge ao subgénero dos chamados "favela movies" elaborados no Brasil, embora não carregue consigo uma mensagem política e social tão forte como "Tropa de Elite" e a sua sequela. A própria banda sonora procura remeter para os ritmos da favela e da narrativa, não faltando músicas de cantores como MC Smith, um rapper e morador no Complexo do Alemão que ainda integra o elenco do filme como Mata Rindo, um elemento ao serviço de Playboy. "Alemão" surpreende ainda se tivermos em conta que foi filmado em apenas dezoito dias, em locais como as comunidades no Complexo do Alemão, de Rio das Pedras, Babilônia e Chapéu Mangueira, para além do cenário interior da pizzaria, decorado e elaborado num colégio de freiras inactivo, com José Eduardo Belmonte a revelar competência na realização de um filme do género. O cineasta consegue ainda aproveitar boa parte dos elementos do elenco principal, sobretudo os intérpretes dos cinco polícias, para além de actores como Jefferson Brasil, Cauã Reymond e António Fagundes. Os actores que interpretam os polícias sobressaem sobretudo nos momentos em que estão fechados na pizzaria, enquanto os sentimentos fervilham. É também aqui que ficamos diante da exposição das personalidades de cada um. Branco é mais violento no cumprimento do serviço, procurando voltar com vida para junto da sua filha; Carlinhos algo desencantado em relação à forma como os elementos inocentes por vezes são tratados e à sua profissão; Samuel é um indivíduo algo naïve e idealista; Danilo parece algo farto da sua profissão; Doca é muitas das vezes a voz da razão. São elementos que procuravam cumprir a sua missão na favela e acabam confinados a um espaço fechado onde a chegada da morte é mais do que provável. Capaz de cumprir com relativo sucesso aquilo a que se propõe, "Alemão" conta com uma realização eficaz e um elenco competente, surgindo como um thriller a espaços inquietante, capaz de explorar as relações humanas dos seus personagens principais, ao mesmo tempo que evita efectuar grandes julgamentos sobre os mesmos.

Título original: "Alemão". 
Realizador: José Eduardo Belmonte.
Argumento: Gabriel Martins.
Elenco: Caio Blat, Milhem Cortaz, Otávio Müller, Cauã Reymond, Gabriel Braga Nunes, Antônio Fagundes, Marcello Melo Jr.

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