06 abril 2015

Entrevista a Roni Nunes sobre a programação da edição de 2015 do FESTin

 A sexta edição do FESTin decorre entre os dias 8 e 15 de Abril de 2015. Tendo em vista a abordarmos a programação da edição de 2015 deste certame, tivemos a oportunidade de entrevistar (online) Roni Nunes, um dos programadores do FESTin. Na entrevista abordamos alguns dos destaques da programação, as dificuldades em encontrar filmes portugueses que se enquadrem na competição de longas-metragens, eventos paralelos como a mesa-redonda "Culturas digitais e consumos alternativos do Audiovisual: oportunidades e desafios para o Cinema em Português", entre outros assuntos. Aproveitámos ainda o facto do Roni escrever para o C7nema para questioná-lo sobre as diferenças entre avaliar um filme como crítico e apreciar o mesmo como programador, o papel da imprensa online e escrita na cobertura de festivais. A entrevista pode ser lida já de seguida.

Rick's Cinema: Quais são os principais objectivos para a sexta edição do Festin? 

Roni Nunes: O ano passado o FESTin contou com uma boa programação e a sua melhor acolhida de sempre por parte do público. Por tudo aquilo que movimenta, o festival hoje é um evento grande, com uma estrutura complexa e já distante da sua primeira edição, que era muito pequena. Neste sentido, ao organizarmos o nosso evento pensamos nele como algo que já conquistou o seu espaço em Lisboa e que agora precisa gerir a responsabilidade daí decorrente. Ao mesmo tempo, ainda existe um caminho importante a percorrer – como o de convencer cada vez mais público da qualidade da produção lusófona. Daí resultou, por exemplo, num cuidado redobrado com a programação de filmes.

RC: O Festin conta na sua ficha técnica com Léa Teixeira, Adriana Niemeyer, Victor Serra e Roni Nunes como elementos responsáveis pela selecção de filmes. Como articularam o trabalho em conjunto na escolha da programação? 

RN: O sucesso de um trabalho de equipa funciona, em primeiro lugar, pela confiança mútua que os membros depositam uns nos outros – o que é fundamental para divergências que são inevitáveis. Mas, no caso do FESTin, o processo foi bastante pacífico e, de uma maneira geral, existe uma sintonia no entendimento daquilo que é o objetivo do festival. Não houve defesas agressivas de um determinado filme, as concessões que uns e outros fizeram foram sem maiores dificuldades. Pessoalmente deixei de fora um ou dois projetos que gostaria de ver no FESTin, mas também votei contra um ou outro que também ficou de fora. E também escolhi vários que tiveram apoio geral – por isso dá para dizer que a grande parte dos filmes chegou à seleção final gozando de unanimidade.

RC: A sexta edição do Festin abre com "O Vendedor de Passados" e encerra com "Não Pare na Pista: A melhor História de Paulo Coelho". Porquê a escolha destes filmes para abrir e fechar o festival?

RN: Para ser um filme de abertura um filme precisa ter certas prerrogativas. Como é óbvio, tem que ser bom – mas não só: tem que ser acessível. Certamente isso é bastante questionável no caso de festivais mais alternativos, mas penso que para o FESTin o ideal era ser um filme mais leve. “O Vendedor de Passados” tem uma história muito original, do escritor angolano José Eduardo Agualusa, tem excelentes atores, um bom conflito central, reviravoltas e romance. É um filme muito agradável. “Não Pare na Pista” é uma abordagem de parte da história do Paulo Coelho, que é sensacional – goste-se ou não dele como escritor. O filme, neste caso, ganha interesse pela própria figura do biografado.

RC: Um dos grandes destaques da programação é "A Despedida", um filme realizado por Marcelo Galvão que tem vindo a receber largos elogios, tendo sido descrito como uma "obra-prima" por parte de Pablo Villaça, um dos críticos brasileiros mais respeitados. O que podemos esperar desta obra cinematográfica? 

RN: “A Despedida” é uma abordagem muito singular da 3ª idade, com um trabalho notável de Nélson Xavier. Ele vive um idoso que, num belo dia, consegue sair de casa sozinho e decide fazer um périplo que é uma espécie de requiem pontuado por toda a sua dificuldade de mobilidade.
 Marcelo Galvão faz uma gestão muito interessante dos tempos e das elipses, não deixando a vida fácil ao espetador que, ao mesmo tempo, facilmente consegue reconhecer-se (“todo mundo vai chegar lá um dia”, diz alguém no filme). Seu personagem principal tampouco é um herói unidimensional bondoso: é uma pessoa imperfeita, realista – tal como todos os outros personagens, que são facilmente reconhecíveis mesmo com pouquíssimo tempo de antena, como o motorista de táxi. Por fim, há uma longa sequência que vai buscar a questão da sexualidade – definitivamente um tema que pouco se encontra em obras sobre o assunto.

RC: Pegando ainda nos textos de Pablo Villaça. Na "Festinha", vão contar com a exibição de "O Menino no Espelho" e "O Segredo dos Diamantes", dois filmes elogiados por Pablo Villaça no Cinema em Cena. São os grandes destaques desta secção?

RN: Esta é uma seção que este ano está muito rica, o que considero particularmente importante para as novas gerações habituarem-se a filmes falados em português e a retratar situações familiares a todos – para além de facilitar a vida aos mais pequenos que não precisam de legendas ou dobragens para usufruir dos filmes.
 “O Menino no Espelho” tem uma história inventiva e cheia de humor baseada num grande escritor brasileiro, Fernando Sabino. Já “O Segredo dos Diamantes”, que é do mesmo realizador de “O Menino Maluquinho”, traz a típica aventura, com três meninos a decifrar enigmas e enfrentar vilões em busca de um tesouro. Além destes dois há uma animação muito boa para uma faixa etária mais baixa – caso das “Aventuras do Avião Vermelho”, que é baseado numa história do Érico Veríssimo. Quanto à “Amazónia” é uma produção grandiosa que faz um mergulho visual incrível no interior da grande floresta.

RC: Os únicos representantes portugueses na competição de longas-metragens são "Lura" e "Porta 21". Tendo em conta as dificuldades em que se encontra o cinema português foi difícil encontrar obras cinematográficas nacionais que encaixassem nos critérios pretendidos? O que podemos esperar destas duas longas-metragens?

RN: De facto, é muito difícil encontrar obras de cinema português que se adequem, por um lado, às suas próprias estratégias de distribuição e divulgação e, por outro, dos nossos critérios para selecionar um filme – que, para além da qualidade, pressupõe que não possam ser incluídas no festival obras que já tenham circulado em Lisboa.
 Mas, mais importante que tudo isso, é a própria fragilidade da produção cinematográfica em Portugal. Como se sabe, houve um “ano zero” em 2013 e seria muito otimismo achar que o cinema português já conseguiu sair desta espécie de “coma induzido”. De qualquer forma, a produção independente continua a apostar no cinema de autor e, de formas muito diferentes, é neste contexto que estes dois filmes se situam. “Lura” é mais contemplativo, um processo intimista e melancólico de um personagem que tenta reconstruir sua vida ao mesmo tempo que vai sendo consumido pelo passado. “A Porta 21” é diferente – aposta nas variações da história e em algum surrealismo para abordar o processo criativo.

RC: A ausência de longas-metragens oriundas dos PALOP é total a nível da secção competitiva. A que se deveu esta ausência?

RC: Bom, neste caso tenho que dizer a culpa foi deles próprios: houve três casos de longas-metragens, um de Moçambique e dois de Angola, que simplesmente não nos foram enviados! Isso foi letal para a uma produção que já é, em si, muito reduzida. Também há países que não produzem longa-metragens de ficção – portanto a maior parte dos filmes africanos está nas seções de documentários ou curtas-metragens.

RC: Outra das pedras basilares da vossa programação é a secção Globo Filmes. Qual é a relevância que esta parceria com a Globo tem para o Festin? 

RN: A Globo Filmes sempre teve uma boa relação como FESTin, o que é importante pela relevância da empresa na área da produção privada de cinema no Brasil. Mas, este ano, há uma mostra pelo facto da Rede Globo estar a comemorar 50 anos e achamos que seria interessante reunir tudo num debate, intitulado “Cinema x Televisão”.  

RC: Um dos elementos que sobressai nesta secção de filmes da Globo é a variedade. Tanto temos algumas das comédias que nem sempre colhem a simpatia da crítica, como vamos ter dramas como "Entre Nós" e a adaptação do popular "Confissões de Adolescente". Podes falar-nos um pouco dos destaques desta secção? 

RC: Essa seção tem de tudo um pouco – desde as comédias que você cita (“SOS Mulheres ao Mar”, “Loucos para Casar”) até tipos de registos completamente diferentes. É o caso de documentários, como “Setenta”, que trata de um período negro da história do Brasil (a década referida no título), “Tim Lopes”, uma abordagem sobre um grande jornalista que se dedicou durante muitos anos a descobrir os meandros do crime nas favelas do Brasil. Esse filme tem um caráter particularmente emocional por ter sido corealizado pelo filho dele. “Entre Nós” é um drama muito bom, que também reúne uma dose de mistério e que reveste-se de um caráter igualmente existencial. Também destacaria “Confia em Mim”, um filme de suspense, e “Tim Maia”, uma biografia polémica do grande cantor brasileiro.

RC: Na Mostra de Cinema Brasileiro vão contar com a exibição de "Um Filme Francês", realizado pelo prolífico Cavi Borges. O filme é tão interessante como a história e carreira do seu realizador?

RN: Cavi Borges é mais um daqueles desbravadores que vai à luta em vez de ficar à espera de um dinheiro que pode nunca vir. “Um Filme Francês” é a prova de que, quando se tem algo a dizer, não são necessários recursos astronómicos. O filme é simples na sua proposta e bastante eficaz no resultado.

RC: O ano passado contaram com uma Mostra de Cinema Francês. Este ano contam com uma Mostra de Cinema da Argentina, com a Sétima Arte a unir uma rivalidade fervorosa a nível futebolístico. Como surgiu a escolha da Argentina? 

RN: As rivalidades futebolísticas nunca deveriam ser levadas muito a sério, embora há muita gente no Brasil que o faça. Especialmente no sul do Brasil isso não faz sentido, pois a identificação cultural é enorme – até por ter tido o mesmo tipo de colonização e os mesmos povos que para lá emigraram – como italianos e alemães. A diferença é que os portugueses ficaram de um lado e os espanhóis do outro.
 No caso do cinema, é uma escolha mais do que justa: o cinema argentino vive uma excelente fase – não há uma edição da Berlinale ou do Festival de Cannes que não traga pelo menos um filme argentino nos últimos anos. Em 2015, em Berlim, não foi diferente e até nos Oscars chegaram com “Relatos Salvajes”. Infelizmente muito pouco dessa produção chega a Portugal – na verdade em tempos recentes só lembro deste último e o do “Matraquilhos”, no ano passado, terem tido estreia comercial. De resto, só em festivais. Por isso trouxemos alguns destes filmes e onde o destaque é “El Crítico”.

 RC: Tendo em conta a elevada comunidade brasileira no Japão e os filmes interessantes que se fazem em solo nipónico, poderemos esperar uma mostra dedicada a este país numa edição futura?

RN: Ora, aí está uma excelente ideia. Quem sabe para o ano se consiga concretizar algo assim. O cinema asiático é outro que raramente chega por cá.

RC: A Argentina tem direito a uma mostra e Timor-Leste a uma homenagem, contando não só com a exibição de "Fraternuras - Domin Maun-Alin" mas também com uma mesa-redonda intitulada "Timor, Janela Aberta". O que os potenciais interessados no Festin podem esperar desta homenagem? 

RN: A questão de Timor no FESTin é sempre complexa, pois um dos compromissos do festival é, justamente, com a língua portuguesa. Por isso também esse será o principal tema do debate “Janela Aberta”, antecedido pelo filme “Fraternuras”, que vai decorrer no São Jorge. O português é uma das línguas oficiais do país, mas sobrevive com enorme dificuldade uma vez que, durante os 30 anos de domínio indonésio, esteve proibido. Para o debate estarão pessoas relevantes ligadas à história do país.

RC: Um dos eventos paralelos que decorrem no âmbito do festival que mais despertam a atenção é o debate: "Culturas digitais e consumos alternativos do Audiovisual: oportunidades e desafios para o Cinema em Português". Poderemos ter aqui um debate interessante sobre o quão relevantes podem ser os festivais e os meios de consumo alternativos para satisfazerem o público cinéfilo?

RN: Esse debate será de enorme interesse para qualquer pessoa interessada em cinema. Nele investigadores da Universidade de Lisboa e da Universidade Nova de Lisboa vão debater questões mais do que relevantes, como as enormes alterações ocorridas no consumo de filmes com a chegada da cultura digital. Para além do próprio ato de usufruir o cinema ter mudado drasticamente, em termos de mercado a pirataria e o vídeo-on-demand também estão a ocasionar enormes transformações. Algumas das questões que se vão lançar são: assistimos ao fim do audiovisual, das salas de exibição e dos festivais de cinema? A pirataria deverá ser uma prática combatida? Além disto, abre-se a questão de o quanto as novas tecnologias podem ser interessantes para a produção lusófona – na medida em que possibilitam contornar o monopólio norte-americano na distribuição de filmes.

RC: O cinema português ainda conta com alguns festivais ao redor do país que lhe dão alguma relevância. Já no que diz respeito ao cinema brasileiro aquilo que assistimos é cada vez mais a um convidar aos "consumos alternativos", sobretudo no circuito comercial, algo que atribui uma importância acrescida ao Festin. Quais os principais desafios que encontraram a programar o festival?

RN: Sim, o cinema brasileiro não tem muita sorte no circuito comercial português, pois as maiores distribuidoras praticamente só lançam filmes norte-americanos e uma pequena parcela de obras francesas, enquanto algumas pequenas o fazem com lançamentos em salas fora dos grandes centros ou então exibem numa sala em Lisboa sem qualquer espécie de divulgação. Há exceções pontuais, mas são raras.


RC: Conseguiram todos os filmes que pretendiam para o Festin ou tiveram alguma obra que não conseguiram obter? A situação deveu-se aos próprios responsáveis dos filmes ou às distribuidoras nacionais? 

RN: Este ano não tivemos um único problema com produtoras brasileiras. Tudo aquilo que pedimos nos foi enviado e sem a criação de qualquer obstáculo. Já com as distribuidoras em Portugal alguns filmes, por diferentes razões, não foram cedidos. É mau porque algumas destas obras, com passagem por festivais internacionais, dificilmente serão exibidas em Lisboa ou então o serão nas condições que mencionei. Posso dizer que perderam mais os filmes do que o FESTin.

RC: Qual é a mais-valia que uma distribuidora tem ao lançar o filme no Festin?

RN: A mesma que tem em fazer antestreias em qualquer outro festival, são sempre sessões concorridas que ajudam bastante na divulgação do filme com um custo reduzido.

RC: A presença dos(as) convidados(as) é sempre uma mais-valia para os festivais e mostras de cinema. Já contam com nomes confirmados? 

RN: Em termos mediáticos o nome mais sonante é o de Lázaro Ramos, o protagonista do filme de abertura. Será excelente contarmos com ele, que já ganhou o prémio de Melhor Ator na edição do festival há dois anos com “O Grande Kilapy”. Do “Vendedor de Passados” estarão ainda presentes o realizador, Lula Buarque de Hollanda, e o escritor José Eduardo Agualusa, cujo livro inspirou o filme. A atriz Taís Araújo, apesar de não estar nenhum filme, também virá como convidada especial.
 O FESTin tem sempre muitos convidados, o que cria um ambiente único no São Jorge durante o evento. Até agora estão confirmados ainda a atriz de “Um Filme Francês”, Patrícia Biedermeyer, mais o seu realizador, Cavi Borges, além dos cineastas Maurício Eça (de “Apneia”), Luís António.Pereira. (“Jogo de Xadrez”) e Mónica Monteiro (“Esse Viver ninguém me Tira”), entre outros.

RC: Estás habituado a avaliar filmes para escrever críticas e artigos de cinema. Quais as principais diferenças ao avaliares as obras cinematográficas como programador?

RN: São atividades completamente diferentes. A crítica é um exercício livre e solitário. Podes escrever o que bem entender sem ligar ao que vão dizer. Dependendo do estilo que adotares podes ignorar completamente o contexto à tua volta e, em certa medida, acho que é fundamental que isso seja feito. Há uma escola de crítica norte-americana que tenta interpretar o que o público vai gostar e determinar se um filme é “fun”. Este é um tipo de exercício mental que não me interessa de todo para além de, de um modo geral, preferir o cinema alternativo, que desafia muito mais a imaginação e permite transformar a crítica num ato de criação – não apenas de interpretação.
Já como programador tens uma relação quase direta com o público, pois tens de pensar que uma pessoa saiu de casa e decidiu dedicar um tempo da sua vida para ver o filme que estás a oferecer-lhe. Também tem que se ter em contar o perfil do festival. No caso daqueles que são mais alternativos, por exemplo, podes escolher à vontade propostas estéticas mais radicais ou experimentais. No caso do FESTin tentamos conciliar o melhor dos dois mundos – ou seja, de um lado trazer algumas propostas que desafiem o público (e talvez o chateiem!) mas, ao mesmo tempo, selecionar filmes que sejam bons mas acessíveis.

RC: Tu escreves para o C7nema, aquele que é um dos sites mais relevantes a nível nacional, sobretudo se pensarmos que conseguem muitas das vezes cobrir mais estreias e festivais do que a própria imprensa escrita. Qual tem sido o papel da imprensa online e escrita na divulgação do Festival?

RN: A grande diferença é que a imprensa online, como um todo, tem mais interesse e disponibilidade de espaço para coberturas exaustivas dos festivais em Portugal do que a imprensa escrita – que só em casos pontuais dá um destaque de vários dias a um evento desta natureza. Normalmente apenas fazem um artigo de abertura. Quem tem o gosto em cobrir um festival filme por filme é, por norma, o pessoal online e o C7nema é um destes veículos. Estamos hoje bastante especializados e conseguimos incluir os festivais internacionais também. Pessoalmente, cubro festivais de cinema há quatro anos e interesso-me por todos os que ocorrem em Lisboa.

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