08 abril 2015

Entrevista a Ricardo Pretti sobre "O Rio nos Pertence"

 "O Rio nos Pertence" vai estrear em Portugal na sexta edição do FESTin. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar (online) Ricardo Pretti, o realizador do filme. Na entrevista foram abordados temas como a génese de "O Rio nos Pertence", a representação do território do Rio de Janeiro, o desempenho de Leandra Leal, o trabalho de Ivo Lopes Araújo, entre outros assuntos. "O Rio nos Pertence" vai ser ser exibido no dia 14 de Abril, às 18h30, na Sala Manoel de Oliveira (Cinema São Jorge). O filme encontra-se inserido na secção competitiva de longas-metragens.

Rick's Cinema: Como surgiu a ideia para desenvolver "O Rio nos Pertence"?

Ricardo Pretti: A ideia do filme surge dentro e para o projeto Operação Sonia Silk. O que mais me norteou num 1o momento foi a vontade de fazer um filme sombrio no Rio de Janeiro e um filme com uma personagem feminina que fosse muito forte e complexa, que carregasse uma grande ambiguidade. A partir desses dois elementos, que para mim representavam um desafio e novidade no meu cinema, seguiu-se uma série de tratamentos e reescrituras até chegar em um equilíbrio ideal entre meu desejo puramente artístico e as condições da produção que eram totalmente novas para mim (há muitos anos não filmava no Rio e a operação já era em si algo inédito na experiência de todos. Alguns produtores não acreditaram que era possível fazer 03 filmes em duas semanas.).

RC: "O Rio nos Pertence" foi lançado no âmbito da "Operação Sonia Silk", uma série de três filmes de longa-metragem para salas de cin­ema, pro­duzi­dos de forma coop­er­a­tiva, com equipa e elenco comuns. Pode falar-nos um pouco da experiência de realizar um filme nestes moldes?

RP: Tanto eu quanto o Bruno Safadi, somos acostumados a usar táticas bem radicais de sobrevivência do fazer cinematográfico. Nós dois entendemos muito bem a importância de se continuar filmando e exercitando o olhar de diretor. Para isso ser possível deve-se reinventar a roda a cada filme, pois do jeito que as coisas são hoje, o normal é fazer um filme a cada 04 anos. Por isso realizar essa experiência sempre nos pareceu possível e desejável. Adoraria que mais pessoas pelo mundo afora sentisse a urgência de fazer filmes desse modo, pois daria uma boa oxigenada nos rígidos padrões de produção. Para mim teve um lado muito positivo no que se refere à realização do roteiro, pois como sabia que não teria muito tempo de filmagem precisava ter certeza que o que foi filmado poderia ser usado. Nada poderia ser jogado fora, pois tínhamos um contrato para entregar longas-metragens e teríamos pouco tempo de montagem também (apenas 03 semanas para os dois primeiros filmes). No final das contas foi um ótimo desafio, e de fato o que se vê na tela é o que se via no roteiro/decupagem (não usei apenas dois planos que filmei).

RC: O título do filme é uma hom­e­nagem ao "Paris nous appar­tient" de Jacques Riv­ette. Qual a influência do filme de Jacques Rivette em "O Rio nos Pertence"? Contou com outras influências a nível da realização cinematográfica?

RC: A influência existiu na gênese. O filme do Rivette é um filme de mistério e complô com uma personagem feminina na cidade de Paris, o meu é um filme de mistério e complô com uma personagem feminina na cidade do Rio. Mas ao longo dos tratamentos dos roteiros o meu filme foi indo para outros caminhos também. Os dois filmes são de encontros, com a diferença que o meu filme é de câmara, tem um elenco mínimo e muito se passa em interiores, enquanto o do Rivette é mais sinfônico e feito de exteriores.

RC: "O Rio nos Pertence" parece surgir como um filme de dicotomias onde o próprio território do Rio de Janeiro aparece representado de forma dual. Entre a realidade de um enigmático cartão-postal e as memórias de um passado traumático, um Rio de Janeiro poético e ao mesmo tempo assustador, entre outros exemplos. Foi algo propositado ou não passa de uma interpretação da minha parte?

RP: Foi algo propositado. Em muitos níveis esse filme é extremamente pessoal. Como a personagem eu passei longos períodos fora do Rio. A última vez que saí estava com bastante ódio da cidade. Então o filme tem um tom confessional, uma entrega aos cacos da memória. Ao mesmo tempo eu queria fazer um filme de atmosfera onírica, e aí entra o enigma do cartão e as incoerências narrativas que só são possíveis dentro de um sonho. Ou seja, dá para dizer que o filme é memória e sonho ao mesmo tempo.

RC: A Leandra Leal é o elemento do elenco que mais se destaca ao longo de "O Rio nos Pertence". Como foi o processo de composição da personagem com a actriz?

RP: Leandra é uma atriz muito intensa! Tudo que conseguimos construir foi no meio do set. Mas ao mesmo tempo já tinha passado mais de dois anos me encontrando com ela e lendo os roteiros, então ela sabia muito bem onde estava entrando. A única coisa que me arrependo de não ter tido na Operação Sonia Silk, foi a de ter mais tempo com a Leandra e a Mariana. Elas são incríveis e se tivéssemos passado mais tempo ensaiando e filmando provavelmente teríamos chegados em lugares ainda mais maravilhosos e inusitados.

RC: O trabalho de cinematografia de Ivo Lopes Araújo, um dos nomes mais interessantes nesta função no cinema brasileiro contemporâneo, é muitas das vezes essencial para a atmosfera estimulante e envolvente de "O Rio nos Pertence". Esta não é a primeira vez que colabora com o Ivo Lopes Araújo. Pode falar-nos um pouco da vossa colaboração em "O Rio nos Pertence"?

RP: Ivo é meu parceiro a mais de dez anos. Temos uma produtora juntos que se chama Alumbramento (eu, Ivo, Luiz Pretti, Guto Parente, Pedro Diógenes e Carol Louise). Já trabalhamos de muitas maneiras, já dirigimos juntos, já montei os seus filmes e ele já fotografou os meus. Não sei o que seria hoje sem a nossa parceria, ela foi essencial para muito além da função de fotógrafo. Em relação ao Rio Nos Pertence dei apenas uma referência: os quadros monocromáticos do Maliévitch, principalmente o Branco sobre Branco (que no filme deveria ser com o preto). O resto fomos levando na intuição. Intuição é uma forma muito inteligente de pensamento e Ivo é um dos caras mais intuitivos que conheço.

RC: "O Rio nos Pertence" vai ser exibido no FESTin, tendo a sua estreia sido no Festival de Rotterdam. Qual a importância do circuito dos festivais para a divulgação do filme?

RP: É imprescindível a existência dos festivais. Filmes como os que eu faço precisam de todas as plataformas possíveis para escoar. Ao mesmo tempo os nossos filmes trabalham com o tempo, não são filmes da moda, são filmes que crescem ao longo dos anos.

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