10 abril 2015

Entrevista a Maurício Eça sobre "Apneia"

 "Apneia" estreia em Portugal no dia 14 de Abril de 2015 na sexta edição do FESTin. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar (online) Maurício Eça, o realizador do filme. Na entrevista foram abordados assuntos como os trabalhos elaborados pelo realizador, as suas influências cinematográficas, o trabalho de Marisol Ribeiro, Thaila Ayala e Marjorie Estiano, entre outros temas. "Apneia" encontra-se inserido na competição de longas metragens da edição de 2015 do FESTin.

Rick's Cinema: O Maurício Eça realizou centenas de videoclipes, diversos anúncios televisivos, duas curtas, tendo ainda co-realizado o documentário "Universo Paralelo". "Apneia" marca a primeira longa-metragem a solo. Qual a relevância destas experiências profissionais para o seu trabalho em "Apneia"?

Maurício Eça: Sou formado em cinema e a minha experiência em publicidade, videoclipes e documentários sem dúvida alguma foram fundamentais para o processo de realizar Apneia. Estas experiências foram oportunas pois são linguagens e formas de se contar histórias de ângulos diferentes e isso me ajudou na maneira de primeiramente conceptualizar artisticamente e visualmente o Apneia.
 A publicidade me deu muita cancha em ser sucinto, em ser objetivo e claro no foco de uma ação, de uma imagem.Conto histórias em 30 segundos e tenho que com cada imagem expressar muita coisa e isso eu percebi que para a longa metragem funciona de uma maneira complementar pois às vezes uma cena de passagem ou um silêncio precisa exprimir muita coisa. O videoclipe foi uma escola incrível para minha carreira pois além de ter que lidar com criatividade, o videoclipe normalmente tem orçamentos menores o que sempre me fez lutar por soluções e formas diferentes de ver uma cena, me deu rapidez em interpretar a necessidade e importância de cada quadro.
 Mas independente de tudo isso fazer parte da minha história e da minha bagagem, Apneia foi algo totalmente novo pois pela primeira vez tive que fazer escolhas e lidar com o que tinha mais importante na cena que era regido pela narrativa cinematográfica. Descobri que as escolhas para um filme mostram que o que é mais importante mesmo é o próprio filme, a história e isso vamos descobrindo fazendo….

RC: A banda sonora é bastante sentida ao longo da narrativa. A influência dos videoclipes foi fundamental para esta situação ou procurou conjugar a banda sonora com a realidade destas jovens adultas que protagonizam o filme?

ME: As duas coisas. Quis criar musicas que tivessem ligação com os dois tempos do filme, o real que é a realidade destas meninas e o mundo da apneia que seria algo mais lúdico e incidental, climático, abstrato…todas as vozes do filme são femininas, e sim a minha experiência com videoclipes se faz presente na trilha sonora porque fundamentalmente eu trabalho com música o tempo todo. Música é fundamental para conduzir uma narrativa, um clima e eu consigo visualizar muito melhor uma imagem quando há um som nela, mesmo que este som seja respiração ou o silêncio. A música diz tudo de um clima. A maioria das canções são de parceiros e pessoas que eu já trabalhei, de artistas que já filmei seus vídeos e quando eu comecei o processo de pré-produção do filme procurei vários deles em busca de sons que tivessem intenções que estejam próximas das de apneia.

RC: No site de "Apneia", a série "Gossip Girl" e o livro "Hell" (de Lolita Pille) são mencionados como referências. O que o atraiu na série e no livro a ponto de tê-los como "fonte de inspiração" para o seu filme?

ME: Na verdade foram referências mais no sentido do contexto e no trato da geração em questão. De fato, o meu filme é mais existencial que estas referências, mas sim principalmente Hell me pareceu uma dramaturgia absolutamente real e aprofundada de um life style de uma classe social que quis retratar nesse filme.

RC: Contou ainda com alguma referência do ponto de vista cinematográfico, quer a nível de filmes, quer a nível de realizadores?

ME: Sem dúvida alguma minhas maiores influências são os clássicos como Lynch, Kubrick… mas Apneia foi bem influenciado por filmes que tinham uma crueza e uma verdade e que eu andei vendo nos últimos tempos como “Drive” e “Shame”...

RC: Como chegou à ideia da protagonista padecer de Apneia? Porquê esta doença?

ME: Buscava algo que tivesse sintonia e ligação com essa conduta da personagem, de viver no limite e sem entender a diferença entre as coisas que fazia e as suas escolhas, aí a metáfora se deu com apneia do sono, com o fato dela quando está na sua crise de apneia não respirar, não sentir, não julgar, não perceber o certo ou o errado. E aí o não respirar significa no filme que ela estava sempre no limite…e Chris não queria dormir para não lidar com a crise de apneia, de não ter que lidar com suas fragilidades e principalmente com seu passado, com a perda de sua mãe...

RC: Ao longo do filme parece notório que o título não remete apenas para a doença de Chris mas também para um tédio e faltas de perspectiva que parecem afectar a protagonista e as suas amigas. Efectuou alguma pesquisa sobre as jovens da idade de Chris, Julia e Giovanna para elaborar o argumento e explorar com maior realismo as temáticas? 

ME: Exacto, Apneia no caso deste filme remete a estas meninas tão semelhantes em muitos aspectos e ao mesmo tempo tão diferentes em outros, mas que têm em comum a necessidade de serem amadas, de quererem ser observadas, de terem alguma importância no mundo, querem chamar à atenção. Elas vivem tudo intensamente mas não sabem ao certo o que estão vivendo e porque estão agindo desta forma. Elas não têm limites impostos pela sociedade, pelos pais, elas simplesmente vivem…
Fiz uma pesquisa com diversas garotas deste perfil, inclusive no Facebook criei um perfil que dialogou com diversas meninas que me contaram histórias de dor, de medo, de vida…

RC: A Marisol Ribeiro tem um desempenho merecedor dos mais diversos elogios. Como se deu a chegada desta ao elenco de "Apneia"?

ME: Marisol é uma excelente atriz e além de tudo uma amiga especial que estava no projeto desde o início, me ajudando imensamente no processo de criação do personagem e do próprio roteiro. O processo de Apneia foi de quase 6 anos de muita luta, diversos tratamentos de roteiro até por fim podermos realizar ele.

RC: A dinâmica de Marisol Ribeiro com Thaila Ayala e Marjorie Estiano é muitas das vezes fundamental para o filme funcionar. Qual foi o trabalho que efectuou com estas na composição das personagens? 

ME: As 3 atrizes estão comigo desde o início do processo, e as três sem exceção entenderam o quanto era importante falar desta história e realizar este filme. Para elas, atrizes renomadas, principalmente na TV, era um desafio enorme interpretar personagens de mundos tão distantes do delas. Mas as três me ajudaram muito no roteiro e individualmente em cada personagem, em criar a dinâmica real e credível de cada uma. Antes do filme nos reunimos e fizemos leituras e ensaios de cenas para acharmos juntos o tom e a verdade de cada personagem. Para nós era essencial que os diálogos fossem orgânicos e saíssem certeiros de dentro delas para que pudesse na tela de cinema exprimir estas nuances das três personagens

RC: Li na sua conta do Twitter que "Apneia" esteve mais de dez semanas em cartaz. Como é que o filme tem vindo a ser recebido pelo público e a crítica?

ME: Apneia ficou cerca de doze semanas em cartaz por diversos estados e cidades brasileiras. Foi uma distribuição de guerrilha, em poucos cinemas, mas chegámos em locais diferentes: tanto grandes capitais quanto cidades menores. A recepção foi bem interessante pois tivemos um grande público jovem que se identificou com o filme, mas também adultos que entenderam que o assunto era relevante para ser discutido. Tivemos boas críticas, e o interessante das críticas foi o olhar diferente de cada crítico que acaba descobrindo nuances diferentes do filme. Uma das nossas preocupações no lançamento do filme foi trabalhar muito as mídias sociais e os blogs para divulgar o filme, bem como criar laços de semelhança entre este mundo virtual e o assunto do filme. Hoje em dia tenho levado o filme a faculdades e escolas para discutir com os jovens sua temática e abordagem do mundo deles. Está sendo uma interessante e desafiadora abordagem que o filme tem criado para eles e para mim um prazer imenso em poder continuar a discussão do filme.

RC: Já conta com projectos cinematográficos para o futuro?

ME: Acabo de dirigir um filme infanto-juvenil que estreará em meados deste ano ainda. “Carrossel o filme” que foi uma experiência maravilhosa de trabalhar com dezasseis crianças em cena. Estou trabalhando ao mesmo tempo no desenvolvimento de quatro novos projetos, até que um deles comece mais fortemente. Realmente agora quero fazer cinema mais do que tudo. Estou respirando dramaturgia e muito feliz por poder levar Apneia ao Festin e poder discutir este filme que tem uma problemática atual e universal.

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