16 abril 2015

Entrevista a Lula Buarque de Hollanda sobre "O Vendedor de Passados"

 "O Vendedor de Passados" estreou mundialmente na sexta edição do FESTin. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar Lula Buarque de Hollanda, o realizador do filme. A entrevista segue já de seguida. 

Rick's Cinema: "O Vendedor de Passados" foi bastante bem recebido pelo público na sessão de abertura. Como foi para si ter visto o filme a ser bastante aplaudido? Aproveito ainda para perguntar quais foram para si as razões para esta boa recepção por parte do público?

Lula Buarque de Hollanda: Para mim foi muito emocionante. Eu ainda não tinha visto o filme na companhia do público. A reacção surpreendeu-me. As pessoas riram-se, emocionavam-se, podíamos sentir que as pessoas entraram dentro da história dos personagens, compraram a ideia de "O Vendedor de Passados". Eu fiquei muito contente. Isso é o que eu posso dizer. Agora o porquê? Acho que a história funcionou. Como falei na abertura do filme, a ideia do José Eduardo Agualusa de fazer "O Vendedor de Passados" pode ser adaptada a qualquer país. Qualquer país pode fazer "O Vendedor de Passados". Então quando tive a ideia de adaptar o livro, eu propus-lhe transpor a história para o Brasil. Do corpo da história do filme sobrou a essência da obra que ele criou.

RC: O enredo do livro desenrola-se em Angola, enquanto a história do filme tem como pano de fundo o Brasil. Quais foram as principais adaptações que tiveram de efectuar?

LB: A principal diferença é a mudança da zona territorial onde se desenrola o enredo. O livro tem uma questão política muito presente, até da construção de uma nova aristocracia em Angola. A Guerra Civil ter destruído todo o passado das pessoas. Quando eu transporto esta questão para o Brasil, a discussão do passado torna-se uma outra questão. Outra diferença são questões pessoais minhas como a discussão do amor contemporâneo na sociedade brasileira. Porque é que um indivíduo de trinta anos, bem parecido se vai apaixonar? Então vem essa personagem misteriosa que é a Clara, que lhe pede para criar um passado sem lhe dar qualquer informação. Isso desequilibra o protagonista e a partir daí a trama do filme avança.

RC: A Alinne Moraes interpreta uma mulher misteriosa que por vezes nos faz recordar as mulheres fatais dos filmes noir que envolvem o protagonista numa série de problemas. Existiu alguma inspiração nas mulheres fatais dos filmes noir? Aproveito ainda para perguntar como foi trabalhar com a Alinne Moraes?

LB: Na verdade não foi directamente inspirado nos filmes noir. Nós procurámos elaborar uma personagem que não revelasse nada. Não sabemos quem é esta mulher. Não sabemos como ela é. Trabalhar com a Alinne Moraes foi muito bom. Ela entregou-se à personagem, comprou e abraçou a ideia. Ela fez poucos filmes. Ficámos um mês a ensaiar. Ela esteve muito disponível nos ensaios, nos exercícios. Rescrevemos muitos diálogos nos ensaios, muitas das ideias do argumento vieram dos ensaios. O ensaio é o local onde sei exactamente que diálogo vai entrar no personagem e caber na boca do actor. 

RC: Existiu ainda espaço para a improvisação?

LB: A improvisação foi efectuada na hora do ensaio. Na hora do set já não foi o caso. Já estávamos a dominar bem aquilo que queríamos.  

RC: O protagonista é interpretado pelo Lázaro Ramos, um actor de talento reconhecido. Como foi o processo de construir o personagem com o Lázaro e trabalhar com o actor?

LB: O desafio foi construir um personagem que não tinha uma referência. Como é este indivíduo? O que é que ele pensava? O que é que ele gostava? Que música ele escutava? Quais são os hábitos dele? O Lázaro, assim como a Alinne, participou nos ensaios abertamente, entregou-se ao personagem e contribuiu para que este se tornasse mais denso. 

RC: O filme lida com questões ligadas com o passado e a memória, bem como a forma como estes afectam o quotidiano dos personagens por vezes quase a remeter para o "Eternal Sunshine of the Spotless Mind". O filme de Michel Gondry teve alguma influência na abordagem que procurou efectuar em "O Vendedor de Passados"?

LB: Na verdade foi uma das referências. É um filme incrível, pelo qual eu sou totalmente apaixonado. O processo de tratar o passado é diferente do nosso. Eu procurei fazer um filme muito realista, onde fosse possível acreditar que alguém pode mesmo mudar a sua vida ao fazer um passado novo. O filme do Michel Gondry entra no campo da fantasia. A certa altura nós até acreditamos e entramos na narrativa. Ambos os filmes lidam com questões paralelas mas de formas diferentes.

RC: O Lula Buarque de Hollanda para além de obras cinematográficas também conta com alguns trabalhos televisivos. Quais são as principais diferenças que encontrou a trabalhar nestes dois meios? 

LB: Na verdade eu também fiz dois documentários. O primeiro foi "Pierre Verger: Mensageiro entre Dois Mundos" que é sobre um indivíduo que fez um trabalho muito interessante. Ele fez uma ponte entre a parte religiosa da Baía e a África. Na verdade, ele estava a resgatar o passado da Baía em África. O documentário conta com o Gilberto Gil que percorreu a mesma trajectória do fotógrafo. Outro documentário também é um resgate de memória que é o "O Mistério do Samba". O filme passou na edição de 2008 do Doclisboa. É a história dos guardiões do samba, que são os sambistas antigos, a maneira como estes fazem o samba. O documentário conta com a presença da Marisa Monte, que desde o primeiro dia foi minha parceira. É um resgate de memória. O "Cassete e Planeta: A Taça do Mundo é Nossa" é um filme histórico que se passa nos anos setenta, é um grupo de guerrilheiros que quer roubar a Taça do Mundo para efectuar um protesto. É uma brincadeira, é uma tentativa minha de fazer uma obra cinematográfica comercial. A comédia começou a ganhar um potencial de mercado no Brasil em 2007 e 2008. Hoje em dia temos muitas comédias, virou um mercado próprio. 

RC: São geralmente os filmes mal recebidos pela crítica e bem recebidos pelo público...

LB: São filmes sem uma grande profundidade dramática. Eu queria que o meu filme nem fosse um cinema de autor muito fechado, nem que fosse uma comédia. Eu acho que o cinema argentino conseguiu ocupar muito bem esse espaço, fazer algo que tivesse uma densidade dramática e ao mesmo tempo criasse empatia com o público.

RC: O filme estreou no FESTin. Qual é para si a importância dos festivais de cinema para a divulgação dos filmes?

LB: Eu acho que o festival é sempre um formador de opinião. A Globo Filmes também estava aqui. Para mim foi muito positivo estar aqui. "O Vendedor de Passado" não é um filme de autor muito acentuado, num sentido muito fechado e hermético, não é para um festival como Cannes.

RC: Já conta com novos trabalhos cinematográficos para o futuro?

LB: Eu estou a desenvolver uma adaptação cinematográfica do livro "Leite Derramado", escrito pelo Chico Buarque. É um livro muito bom. É sobre um personagem que atravessa cem anos da História do Brasil.

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