23 abril 2015

Entrevista a Juliana Terra e Patrícia Niedermeier sobre "Um Filme Francês"

 O Rick's Cinema (Aníbal Santiago) e o C7nema (Hugo Gomes) conversaram com Patrícia Niedermeier e Juliana Terra, duas das protagonistas de “Um Filme Francês”, uma obra cinematográfica realizada por Cavi Borges, através do argumento do próprio. Na entrevista foram abordados assuntos como a entrada de Patrícia Niedermeier e Juliana Terra no filme, o trabalho com Cavi Borges, a importância dos festivais de cinema, entre outros assuntos. A entrevista segue já de seguida. Transcrição inicial: Hugo Gomes. Revisão e acrescentos à transcrição inicial: Aníbal Santiago. Edição final: Hugo Barcelos.

Rick's Cinema: Como surgiu o vosso envolvimento em “Um Filme Francês”?

Juliana Terra: Já tinha feito um trabalho com o Cavi Borges, uma curta-metragem que se chamava “Uma História de Borboletas”. Nós estávamos próximos nessa época e ele falou que tinha escrito uma longa-metragem sobre a Nouvelle Vague. Eu fiquei encantada com a ideia, logo de caras. Ele salientou que tinha pensado noutros actores mas que tinha sido há muito tempo, que agora seria com a Paty [Patrícia Niedermeier], e ia chamar o Erom (Cordeiro), que já era um amigo antigo e então eu aceitei imediatamente. O formato, a ideia de fazer o conforme fosse possível na nossa agenda, de irmos colaborando, um formato aberto de criação, isso tudo interessou-me muito.

Patrícia Niedermeier: O Cavi foi assistir a uma peça que eu fiz, chamada de “Orlando”, ele conhecia-me do teatro. Ele falou que estava com um projecto, que tinha escrito um argumento há algum tempo e estava a pensar em ressuscitar esse projecto. O Cavi falou que ia trabalhar com a Juliana, com quem tinha feito um filme, para além de ir trabalhar com o Erom. Fomos logo ler o argumento e na hora pensámos: "nossa, isto é óptimo, é uma delícia, vamos lá fazer isto, vai ser um mergulho, vai ser uma viagem". Tem poesia, tem referências à Nouvelle Vague, à França, procurámos apropriar essas referências de uma forma autoral. Começámos a pensar em como se pode adaptar essa realidade francesa à carioca, de maneira a que não fosse copiar. Então nós os três começámos a pensar, a ensaiar, a mergulhar nesse universo, a Juliana e o Erom são actores magníficos. O Cavi foi conduzindo o barco. Convidou-nos para entrar no barco e nós pulámos dentro. Depois temos a Andrea [Aguilera], a nossa maravilhosa produtora, o Vinícius [Brum], um excelente director de fotografia e parceiro da Cavideo, e enfim, os outros também entraram no "barquinho".


RC: Qual foi o trabalho de pesquisa para se preparem para interpretarem as personagens? O Cavi Borges pediu-vos para ver alguns filmes referentes à Nouvelle Vague? Se sim, quais foram?

JT: Os filmes do Jean-Luc Godard, do François Truffaut, do John Cassavetes também, apesar de não ser exactamente Nouvelle Vague. Nós elaborámos um trabalho de criação, de comentarmos aquilo que víamos, de experimentar o que pudesse surgir e guardávamos, porque tudo era geralmente feito num só take. Dois takes no máximo.

PN: Nós assistimos a muitos filmes. A personagem dela [Juliana Terra] é mais inspirada na Anna Karina, o meu caso era um pouco mais o "À Bout de Souffle" e o espírito livre da linguagem, da liberdade, no caso do Erom tínhamos mais o estilo do [Jean-Paul] Belmondo. Fora disso, nós também nos encontrávamos para improvisar, para experimentar, para podermos dialogar com os imprevistos, visto que estávamos a filmar na rua. Você tem que estar muito preparado. Então nós preparámo-nos, experimentámos, criámos cumplicidade e intimidade, porque na verdade tudo se resume a um triângulo amoroso, e isso tem que estar na pele, tem que estar no corpo, tem que estar na cena, e eu acho que é uma coisa bonita, o trabalho de toda a gente, essa cumplicidade directa. Então nós fomos fazendo esse jogo, ou seja tudo foi uma grande brincadeira, um grande mergulho. Existiu preparação de fundo, eu e o Erom criámos uma intimidade para na hora da cena existir essa coragem de propor e o outro ir junto.



RC: Como surgiu a escolha dos nomes dos seus personagens? Visto que a personagem da Patrícia possui o nome de Cléo Borges, uma referência ao realizador Cavi Borges?

PN: A Cléo é uma referência ao filme "Cléo de 5 à 7" de Agnès Varda e Borges devido a ser um filme muito autoral dele [Cavi Borges]. Ele fez o guião, ele foi à Cinemateca ver os filmes, de certa forma eu acho que a Cléo é uma persona da sua vida.

JT: Toda a jornada de desenvolvimento do filme foi crescendo com os afectos, sejam dos amigos, dos familiares e desconhecidos.

PN: Eu também inspirei-me no Cavi. É um filme sobre o Cavi, trata-se de um filme autoral, ou seja ele fez o primeiro gesto e a partir desse primeiro gesto nós fizemos uma coreografia, mas foi ele que propôs. Por isso, eu acho que o personagem tem um sentido muito estético da Nouvelle Vague, dessa manifestação artística, mas ao mesmo tempo possui a euforia dele "vamos ensaiar, vamos", ou seja, a preparação, tem muito a essência de correr atrás. É bem inspirado nele, Borges é propositado. Sou um alter-ego, em conjunto com as minhas influências assim como as da Nouvelle Vague.


RC: A Juliana Terra interpreta uma actriz que trabalha no teatro. A Juliana efectua trabalhos cinematográficos, televisivos e teatrais. Qual é o meio que a desafia mais como actriz?

JT: São linguagens bem diferentes. Cada uma tem o seu desafio. O teatro para mim é a minha casa, é o meio onde eu criei o meu alargamento da minha actividade como actriz. Por outro lado, ontem ao sairmos da sessão [projecção no FESTin], ao conversar com a Patrícia e outra amiga que também é actriz, falei de como é difícil fazer cinema. A televisão é um lugar em que é preciso manter a energia.

RC: A peça de teatro do filme é a mesma na qual a Juliana Terra participou?

Cavi Borges: O que passa no filme é a peça de teatro. Nós estávamos lá a filmar. Não é encenado para o filme, estava a acontecer em tempo real.

JT: A peça existe mesmo. É muito engraçado, porque na cena que eu estou com o Erom, e ele está do lado de fora, o encenador da peça encontrava-se atrás dele, sem saber estava a passar por figurante.



RC: Como conseguimos diferenciar o que é verdade e ficção ao longo de “Um Filme Francês”?

PN: Não sabemos! Boa pergunta.

JT: Eu acho que não tem fronteira delimitada.


RC: Tinham um argumento para seguir ou era praticamente tudo improvisado?

PN: Nós preparámo-nos e ensaiámos muito antes. Criámos essa cumplicidade. Quando alguém falava algo diferente, surgia outra proposta.

JT: Há uma cena perto da Cinemateca do Man em que ela esqueceu-se da fala mas outro logo ajuda e complementa. Isso não foi um problema. Existiu uma cena em que as duas personagens fazem as pazes no carro em que nós demorámos horas para filmar: abraçávamo-nos, chorávamos, demorámos imenso tempo. O Cavi até disse: “não porra, isso não é para novela, dei carta branca a duas actrizes e dá nisso” (risos).

PN: O que nos une é essa paixão pela arte, essa coragem. Existe esse percurso de criação. Se um dia está solarengo, o outro dia está nublado, se você se perde ou se encontra. Você está sempre caminhando num terreno instável.


RC: Mas voltando à fronteira do real e ao improvisado, quanto aquela cena na sala de montagem? O homem que estava consigo [Patrícia Niedermeier] é mesmo o editor do filme?

PN: O homem que está atrás de mim na cena da sala de edição, é mesmo o editor [André Sampaio]. O filme é feito de camadas sobre camadas.

JT: É uma delícia, quer dizer, eu faço de actriz. Uma actriz que vai fazer um filme e ao mesmo tempo está fazendo uma peça de teatro, ou seja, estão milhões de camadas ali. Uma coisa que eu gosto no filme é a sua metalinguagem. É essa brincadeira.

PN: Aliás todo os personagens o dominam, até porque o André é um "super-editor" munido com essa poesia da "moviola" [aparelho utilizado para visualização de um filme enquanto se edita o mesmo] para editar o filme dela. O Macalé era realmente o vizinho de baixo. O personagem que estava na casa dela era literalmente o vizinho de baixo.

CB: O Macalé morava no andar de baixo onde estávamos a filmar. Dissemos: “Macalé estamos a gravar um filme” e ele “tem mulher?” e subiu e aceitou participar no filme (risos).

PN: Quando ela pergunta o que ele achou do filme e ele diz que “eu sou apenas o vizinho de baixo”. Isso realmente aconteceu (risos).

JT: E quem faz o mestre da Cléo Borges é realmente um cineasta brasileiro, e aí o Macalé fala "ele sabe mais de cinema do que eu de música". Por que realmente esse indivíduo sabe muito de cinema.


RC: Ou seja, boa parte dos elementos secundários fazem parte do meio cultural local?

JT: Sim, existiu muito diálogo com essa cultura carioca.

PN: O Macalé, o Azulay, o Jorge Ben Jor, entre outros. São figuras relevantes da cultura carioca que estão no filme e a dialogar com o enredo.


RC: Como foi trabalhar com o actor Erom Cordeiro?

JT: Maravilhoso! Ele é um actor muito profundo, propõe coisas muito inusitadas. Lembro-me durante a rodagem ele começar a cantar uma música da infância dele muito louca…

PN: Pois, como fosse uma valsa! Foi uma delícia, foi óptimo... Eu ri muito dele, porque ele no filme está muito canalha. Ele compôs com poucos recursos, mas com uma clareza e uma linha muito rica. E ele é muito generoso.


RC: Já contam com novos projectos para o futuro?

JT: No ano passado estive em cartaz com uma peça que era um monólogo, mas um monólogo sem a voz, em que a personagem voltava para a casa de infância e tinha memórias vivas daquele lugar, interpretadas por outras personagens. Mas agora tenho algumas reuniões para fazer uma peça aqui em Lisboa, a “Quem Sabe Aqui”.

PN: Quando regressar ao Rio de Janeiro, vou protagonizar outro filme que vai ser realizado pelo Cavi. Para além desse trabalho, ainda vou integrar o elenco da nova obra cinematográfica de Luiz Rosemberg Filho, que é um realizador tão inconfundível, tão importante, tão autoral e marcante do cinema marginal brasileiro. Ele esteve trinta anos sem fazer uma longa-metragem e fizemos o ano passado o “Dois Casamentos”, produzido pelo Cavi.


RC: O Luiz Rosemberg Filho esteve muito tempo parado e regressou às longas-metragens com a produção do Cavi Borges...

PN: Sim, ele filmou “Dois Casamentos” que está agora em circuito nos Festivais e eu vou integrar a sua nova longa-metragem, que se chama a “Guerra do Paraguai”. Mas também tenho outros filmes, com outros cineastas.

JT: Esqueci-me de falar, mas vou também estrear como directora [risos] de teatro. É infantil. O meu marido é actor e professor de ioga. Ele vai lançar um livro e a peça vai ser uma adaptação. A peça estreia a 30 de Maio.

PN: Atenção que quero um papel. Depois chamamos o Erom e fazemos um filme dentro do filme, dentro do filme [risos].


RC: Qual é a vossa opinião sobre a importância dos Festivais de Cinema?

PN: A importância? É total, é oxigénio, é arte, é comunhão.

JT: São encontros e a oportunidade de ver muitos filmes que não entram em cartaz, mas que só se consegue assistir em festivais.

PN: E não só, é o contacto com outras pessoas, e ao mesmo tempo você mostra o seu filme para outras plateias. Como artista podemos construir uma ponte, uma linguagem que toque as pessoas.

JT: Quando você vai ao cinema, quer sozinho ou acompanhado, acaba de ver o filme e vai embora. No festival não, você tem essa troca que surge depois, de conhecer pessoas e conversar.


RC: Sentiram-se como musas de Godard?

JT: A Nouvelle Vague encanta-me muito e a maneira como eles elaboravam os filmes, e principalmente o Godard, que foi a grande inspiração do Cavi. Ele foi casado com a Anna Karina, enquanto que o Cavi é casado com a Patty. Aí tem essa brincadeira, já que ele é casado com a Patty, mas Anna Karina é a minha referência [risos]. Mas mesmo assim nós somos muito diferentes uma da outra, sendo que eu tenho uma identidade clara que dá para ter lugar da musa, da Diva.

PN: Eu também sou actriz de teatro, aprendi dança contemporânea, mas é agora com esse encontro com Cavi que me tenho dedicado ao Cinema. E, descobri, tal como a Juliana falou, uma outra linguagem com as suas especificidades, mas ainda tenho muito para descobrir. É um universo gigantesco, muito rico, aquele em que eu estou a entrar.

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