07 abril 2015

Entrevista a Gustavo Galvão sobre "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa"

 "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" vai ser exibido pela primeira vez em Portugal na sexta edição do FESTin. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar (online) o realizador Gustavo Galvão. Na entrevista foram abordados temas como os elementos que influenciaram o realizador, a boa recepção que o filme teve, a banda sonora, entre outros assuntos. "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" vai ser exibido no dia 10 de Abril, às 18h30, na Sala Manoel de Oliveira (Cinema São Jorge). O filme encontra-se inserido na Competição de Longas-Metragens da edição de 2015 do FESTin.

Rick's Cinema: "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" foi exibido em dezassete cidades, tendo ficado cinco semanas em cartaz no Rio de Janeiro e São Paulo, para além de ter sido exibido na Mostra de Cinema de São Paulo e no Festival de Brasília, algo que ganha mais impacto se tivermos em conta que é uma produção distribuída de forma independente. Para além disso, ainda recebeu críticas maioritariamente positivas. Quais são para si as razões para a boa recepção que o filme tem recebido?

Gustavo Galvão: O que eu percebo é que Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa tem características que o diferenciam de grande parte das produções brasileiras atuais. É um filme provocante e independente, que não abre mão da experimentação, mas também dialoga com o público e faz pensar. Talvez isso justifique a recepção positiva. Ficar em cartaz por cinco semanas em Rio de Janeiro e São Paulo é algo marcante para um filme produzido e distribuído de forma independente! Isso comprova o que eu suspeitava: existe interesse do público por obras que procuram caminhos diferentes, só é preciso dar mais chances para esse tipo de cinema. Essa sempre foi a minha busca pessoal, por um cinema que fuja de regras de mercado.

RC: O título "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" veio da tradução de Claudio Willer de um trecho de “Uivo”, poema-manifesto de Allen Ginsberg. Porquê a escolha deste trecho e deste poema-manifesto?

GG: Jack Kerouac foi minha porta de entrada para o universo beatnik, mas Allen Ginsberg e outro poeta, Gregory Corso, me fizeram entender a profundidade da contracultura norte-americana. Ginsberg me inspirou uma busca pelo não-convencional com Uivo. Da mesma forma que esse poema-manifesto toca em feridas específicas da América, procurei ser bastante franco ao abordar temas como sexo, drogas, religião, vida normal, emprego. A inspiração para o título veio do início do poema, conforme traduzido pelo mestre Cláudio Willer. Ele traduziu o trecho que poderia ser resumido como "em busca de uma dose violenta" (só isso, mas o restante do poema dá a entender que seja uma dose de heroína ou outra droga pesada) para "em busca de uma dose violenta de qualquer coisa". Esse adendo ao original causou uma pequena revolução na minha cabeça. São muitas possibilidades de interpretação! Esse termo traduz bem o que eu mesmo vivi e o que tantos outros jovens e jovens adultos viveram, em algum momento entre os 20 e os 30 anos: a necessidade de uma transformação pessoal radical, normalmente não sabemos para qual lado nem mesmo o porquê. Essa expressão traduz a inquietação inerente ao processo de amadurecimento individual, que é justamente o que se passa com os personagens principais do filme.

RC: As influências do movimento Beat e do cinema marginal brasileiro são referidas no site do filme e notórias ao longo da obra cinematográfica. Quais foram as suas influências principais?

GG: Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa vem de influências como literatura beatnik, cinema marginal brasileiro dos anos 1960 e 1970, Jean-Luc Godard, road movies em geral, Jim Jarmusch, Les Valseuses (Bertrand Blier), a vivência pessoal, alguns tipos que conheci ao longo da vida... Dessas e muitas outras influências. Já os planos longos e a disposição em ver o que há de humor e de absurdo no banal foram muito inspirados por Roy Andersson e Aki Kaurismäki, além do próprio Jarmusch.

RC: A dinâmica entre o Marat Descartes e o Vinícius Ferreira é fundamental para o filme. Existiu espaço para os dois actores improvisarem ou boa parte dos acontecimentos já estavam planeados no argumento?

GG: Sim, existiu espaço para a improvisação, mas sempre dentro de uma base que foi construída ao longo de anos. O Vinícius vinha acompanhado a evolução do projeto desde a primeira leitura que fizemos juntos, em 2007. O papel de Pedro foi escrito para ele. O roteiro mudou muito até a filmagem, em 2012, mas, como ele tinha domínio do papel, foi mais fácil criar a partir das situações escritas. O Marat entrou no filme já em 2012, antes da pré-produção, mas discutimos cada detalhe do personagem vivido por ele, o Lucas.

RC: O argumento foi pensado tendo em vista o Marat Descartes e o Vínícius Ferreira ou a chegada dos actores dá-se depois da elaboração do mesmo?

GG: Escrevi o personagem Pedro pensando especificamente em Vinícius Ferreira, com quem já havia trabalhado em três curtas. Eu o considero um excelente ator, é muito intuitivo e sabe como eu gosto de trabalhar. Ele também está no elenco do meu primeiro longa-metragem, Nove Crônicas para um Coração aos Berros. Normalmente escrevo um personagem tendo o ator em mente. O Lucas foi uma exceção à regra: não saberia quem poderia interpretar um sujeito tão singular, ao mesmo tempo extrovertido e misterioso. Por indicação de uma amiga, conheci Marat Descartes, com quem também trabalhei no Nove Crônicas. E enquanto eu o dirigia num filme, comecei a imaginá-lo no outro. Ele se transforma quando a câmera é ligada. Também é muito intuitivo. E tem um repertório dramático extraordinário.

RC: O Gustavo Galvão participou na elaboração do argumento do filme. Existe algo de si no Lucas e no Pedro? Com qual dos personagens se identifica mais?

GG: Sim, deve ter algo meu em Pedro e Lucas. Principalmente em Pedro. Fui jornalista e larguei a profissão, como ele, mas eu não necessariamente me identifico com eles. Ao contrário de Pedro, por exemplo, não fui demitido do emprego de jornalista, eu que me demiti.

 RC: Para além do momento algo homoerótico da abordagem de Lucas a Pedro, ao longo do filme encontramos alguns comentários a questionarem a sexualidade da dupla. Procurou criar uma relação ambígua entre estes dois personagens ou já sou eu a extrapolar demasiado?

GG: Um personagem completa o outro. Ou seja, um projeta no outro o que gostaria de ser ou o que gostaria de experimentar. Assim são todas as relações, uma soma de carências e de demonstrações tortas de afeto e admiração. A sexualidade deles não é questionada isoladamente, o que o filme propõe é uma releitura de comportamentos e padrões sociais. Desse modo, a sexualidade é avaliada da mesma forma que a forma como se encara a vida profissional, as escolhas pessoais e assim por diante.

RC: O Pedro parece surgir como um representante de uma geração que não sabe bem o que fazer em relação ao seu futuro. Separou-se, foi demitido, não conseguiu concretizar o sonho de ser poeta, é um indivíduo solitário, tendo abandonado Brasília embora não pareça esquecer o território. Podemos interpretar que procurou abordar alguns temas do foro social do país e do território a partir deste personagem?

GG: Pedro e Lucas, em suas diferenças e contradições, representam o que eu percebo na minha geração como um todo. É normal que nos debates sobre o filme acabemos falando no tema "trabalho", pois esse tema mexe com todos os jovens adultos. O que acontece é que precisamos escolher muito cedo o que queremos fazer da vida. E ainda somos muito jovens quando nos entregamos ao ritmo da vida laboral. De repente, percebemos que tomamos um imenso desvio e que precisamos decidir se queremos retomar aquele caminho que idealizamos quando mais novos, ou se cedemos à vida que temos. Isso ocorreu comigo e com todos os meus amigos, quase sem exceção. Os protagonistas de Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa reagem a isso e vão para a estrada; eu fui para Madri, em 2002, aos 26 anos, quando larguei a profissão de jornalista para estudar Cinema. Se com tudo isso eu traduzi temas do foro social, não cabe a mim responder. O que posso dizer é que existia, sim, o desejo de entender esses personagens como representantes de uma geração frente a uma série de aspectos da realidade brasileira.

RC: Um dos vários elementos que despertou a minha atenção em "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" foi a banda sonora, sobretudo a inclusão de temas tão marcantes como "Demolición" da banda Los Saicos. A própria banda sonora original de Ivo Perelman tem um papel fundamental para o filme. Como foi a sua colaboração com o Ivo Perelman? Aproveito ainda para perguntar como chegou à decisão de incluir músicas como "Demolición".

GG: A trilha é a tradução direta do que se passa na mente confusa de Pedro. É, também, uma forma de enfatizar o choque de valores que a convivência com Lucas, Jesus e Virgínia provoca. A ideia sempre foi trabalhar principalmente com o jazz, que é um gênero imprevisível. A trilha original foi conduzida por um brasileiro, Ivo Perelman, que mora há mais de 20 anos nos EUA e é reconhecido como um dos grandes saxofonistas de jazz na atualidade. Mais que imprevisibilidade, ele proporcionou também energia e pulsação à trilha. O importante é que o Ivo não moldou seu estilo ao filme, o filme é que se alimentou do estilo dele: explosivo, espontâneo, puro. Depois de muitas conversas sobre o que seria o filme, decidimos juntos como poderia ser o estilo da trilha de modo geral, mas a partir daí ele fez exatamente como em todos os discos dele: reuniu os parceiros e eles começaram a tocar sem partitura nem direção definida. Foram duas sessões ao todo, uma com o quarteto de cordas Sirius Quartet, e outra com o violinista Mat Maneri. Em ambas sessões, Ivo foi acompanhado pelo genial pianista Matthew Shipp. Recebi mais de duas horas de material e eu escolhi o que julgava mais propício para determinadas situações. Não raro, o material entregue pelo Ivo me surpreendeu imensamente. Ele é um gênio. No caso dos Saicos, foi uma decisão consciente de jogar luz em um grupo sul-americano espetacular e efêmero, talvez por isso pouco conhecido fora de sua pátria, o Peru. E o melhor de tudo é que a inclusão de um proto-punk como Demolición quebra toda a lógica que construímos até então no filme. É exatamente o que eu precisava para demonstrar os pensamentos quebradiços de Pedro.

RC: "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa" foi filmado em treze cidades, ou pelo menos percorreu as mesmas. Como foi gerir as filmagens pelos diferentes espaços?

GG: Na verdade, não tivemos condições de fazer o percurso dos personagens, o que encareceria muito o filme. Como tínhamos pouco menos da metade do orçamento que considerávamos ideal (cerca de 200 mil Euros no lugar dos 450 mil Euros ideais), optamos por filmar as cenas de estrada nos arredores de duas cidades onde montamos nossa base de produção: Brasília (o Distrito Federal está encravado no estado de Goiás, o qual acessávamos em menos de uma hora) e Patrocínio (no estado de Minas Gerais). Já as cenas que se passam em Brasília e em Ouro Preto foram filmadas nessas cidades. Essa estratégia resultou numa economia imensa com combustível, hospedagem e afins. E não representa prejuízo algum para a trama em si, já que existe uma afinidade cultural e geográfica muito grande entre Goiás e a porção oeste e sudoeste de Minas Gerais. Não é à toa que usamos na divulgação do filme a expressão "road cerrado movie": o pano de fundo para as locações é um dos maiores diferenciais de Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa. E o pano de fundo é o Cerrado, região pouco explorada pelo cinema brasileiro.

RC: O Gustavo Galvão já se encontra a desenvolver novos trabalhos cinematográficos?

GG: No momento, desenvolvo dois projetos de longa-metragem. Um deles ainda está na fase de desenvolvimento de roteiro, enquanto o outro está na fase de captação de recursos.

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