24 março 2015

Resenha Crítica: "Throne of Blood" (Kumonosu-jô)

 Não faltam traições, vinganças, mortes, superstições, forte nevoeiro e jogos de poder a invadirem a narrativa de "Throne of Blood", uma adaptação livre de "Macbeth", realizada por Akira Kurosawa. O cineasta transporta-nos para o Japão feudal numa história marcada por elementos sobrenaturais que remetem para os filmes de fantasmas japoneses, mas também para o teatro noh, existindo todo um elevado conjunto de elevados valores de produção que contribuem para elevar esta obra cinematográfica. Veja-se o guarda-roupa dos militares e dos seus líderes, o cenário do castelo a nível de interiores e exteriores, com estes últimos a terem sido construídos no Monte Fuji de forma a aproveitar o nevoeiro que a espaços rodeia o local, já para não falar na cuidadosa composição dos planos e da magnífica interpretação de Toshiro Mifune como Taketoki Washizu, o equivalente a Macbeth na história de William Shakespeare. No início do filme ficamos perante os regressos de Washizu e Yoshiaki Miki (Minoru Chiaki), dois generais ao serviço de Lorde Tsuzuki (Takamaru Sasaki), o seu senhor, após terem travado as investidas de Fujimaki, um indivíduo que reuniu as suas tropas para usurpar o trono deste último ao lado dos elementos de Inui. O sucesso destes homens a rechaçarem as investidas inimigas foi surpreendente, mas o mais intrigante para Washizu e Miki ainda está para acontecer. Quando atravessam o Bosque das Teias de Aranha, marcado por um nevoeiro acirrado, deparam-se com o espírito de uma mulher envelhecida (Chieko Naniwa) que salienta o facto de Washizu vir a ser nomeado Senhor da Mansão do Norte, indo posteriormente tornar-se no líder do Castelo das Teias de Aranha no lugar de Tsuzuki. O espírito salientou ainda que Miki, por sua vez, iria passar a tomar conta do Forte I, sendo que o seu filho irá tornar-se no sucessor de Washizu como Senhor do Castelo das Teias de Aranha. Miki e Washizu ainda discutem esta profecia, aparentemente sem grandes fundamentos, ou pelo menos é o que estes pensam. Quando regressam ao castelo, Miki e Washizu são nomeados para os cargos que foram previstos pelo espírito, algo que os deixa com uma surpresa latente no rosto. O espírito surge como uma figura feminina envelhecida e pálida, a fiar, enquanto prevê o futuro de forma confidente, num bosque que parece saído de um filme de terror. Washizu inicialmente procura manter-se fiel ao seu líder, embora a sede de poder não esteja completamente fora da sua pessoa, algo que é adensado pelos desejos de Asaji, a sua esposa, em elaborar um plano para eliminar Tsuzuki e assim chegarem ao poder. Este reluta, mas Asaji (Isuzu Yamada) logo começa a plantar na cabeça deste a ideia que o assassinato de Tsuzuki será inevitável do ponto de vista estratégico já que, se o personagem interpretado por Talamaru Sazaki souber da profecia, certamente irá eliminar o protagonista para evitar um possível rival. Washizu acredita que Miki não vai traí-lo e revelar a profecia, algo que a sua esposa duvida, procurando gerar a paranoia junto do primeiro e despertar os medos mais recônditos do mesmo.

Quando Tsuzuki decide atacar Inui, para se vingar do ataque perpetrado por este último com Fujinaki, logo utiliza a Mansão do Norte como ponto estratégico, pretendendo que Washizu comande a ofensiva e Miki defenda o castelo, um plano que a esposa do personagem interpretado por Toshiro Mifune entende como uma medida para proteger o suposto amigo do marido. A própria presença de Noriyasu (Takashi Shimura) e dos seus homens, para colaborarem na guarda de Tsuzuki e no ataque ao inimigo, são expostos por Asaji como uma prova da falta de confiança do líder em Washizu. Asaji tem tudo planeado para eliminar Tsuzuki, considerando o som dos corvos um bom presságio, algo que não parece assim tão linear como esta faz parecer. Esta decide colocar um produto soporífero nas bebidas soldados de Noriyasu, responsáveis por defenderem o Lorde Tsuzuki, tendo em vista a que o marido elimine este último e culpe os homens do primeiro, um plano que começa a causar ressonância junto de Washizu. Entre a tentação pelo poder e a sua lealdade para com Tsuzuki, não demorará muito até que Washizu caia no canto da sereia da sua esposa e elimine o líder, colocando a culpa num dos homens de Noriyasu, para além de responsabilizar o personagem interpretado por Takashi Shimura pelo acto criminoso. Os momentos de silêncio entre Washizu e a esposa acontecem com alguma regularidade, mas fica particularmente na memória quando este surge com as mãos manchadas de sangue e a arma na mão, sem falar, algo ofegante, enquanto a sua esposa coloca a lança nas mãos de um soldado de Noriyasu. A morte de Tsuzuki não traz paz interior a Washizu, com este a preparar-se para assumir o poder do Castelo das Teias de Aranha, contando inicialmente com o apoio de Miki, embora gradualmente entre numa espiral descendente que roça a loucura, tendo ainda de lidar com um grupo de opositores que não se acreditam na sua história. Os momentos finais são exímios a expor o abismo em que Washizu se colocou, com Toshiro Mifune a conseguir mais uma vez atribuir uma enorme intensidade a um personagem que interpreta. A expressividade do actor é latente, sobretudo quando arregala os olhos, mas também nos seus gestos corporais, com este a destacar-se ainda nos momentos de maior silêncio do elemento a quem dá vida. Washizu é um homem que procura inicialmente manter as suas relações de lealdade para com Tsuzuki e Miki mas, gradualmente, a sede de poder e o medo, instigados ainda mais pela sua esposa, conduzem a que este comece a trair aqueles que confiaram inicialmente em si. Isuzu Yamada, uma actriz que trabalhou ainda com cineastas como Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu, sobressai como esta mulher pragmática, sedenta de poder, pronta a instigar o esposo, naquela que é o equivalente à Lady MacBeth da clássica obra de William Shakespeare. Esta surge fria, praticamente impassível perante os passos a tomar, procurando que o esposo assuma o poder, embora tente tornear a possibilidade do filho de Miki suceder a Washizu. É uma obra onde Akira Kurosawa nos deixa perante uma representação do Japão feudal, em particular do instável período Sengoku, na qual o cineasta explora os intrincados jogos de poder entre estes indivíduos ansiosos por terem maior prosperidade e preponderância nas decisões a tomar, com a liderança do Castelo das Teias de Aranha a ser um objectivo claro de alguns elementos. Essa situação é notória logo no início do filme, quando se temia a possibilidade de Fujimaki e Inui invadirem o castelo, com a chegada do primeiro mensageiro, um elemento ao serviço de Tsuzuki, a trazer notícias pouco promissoras. No entanto, Miki e Washizu conseguem travar as investidas acabando por se envolverem numa profecia que toma proporções dramáticas e shakespearianas quando o segundo decide eliminar Tsuzuki. A cena em questão não é exibida, tal como a vitória destes dois elementos nos momentos iniciais, com Kurosawa a utilizar paradigmaticamente as elipses, contando ainda com um dinâmico trabalho de montagem que contribui para atribuir uma enorme fluidez ao enredo.

A cinematografia de Asakazu Nakai, um colaborador habitual de Akira Kurosawa, permite ainda incutir uma atmosfera meio mística e misteriosa ao filme, explorando com assertividade a presença do nevoeiro e os cenários. Existiu todo um cuidado na elaboração dos cenários interiores e no aproveitamento dos cenários exteriores, sobressaindo sobretudo o momento de um banquete, onde Washizu começa a alucinar por completo quando se depara com a ausência de Miki. É mais um momento em que Toshiro Mifune sobressai, dando largas à loucura momentânea do seu personagem, após muito álcool ingerido, com a esposa a procurar desculpar-se junto dos convidados. Washizu parece sempre mais afectado pelo acto criminoso que cometeu do que Asaji, embora esta também venha a conhecer momentos menos positivos, sobretudo quando descobre que o filho que dá à luz encontra-se morto. Poucos são aqueles que estão livres de perigo ao longo do filme, com os planos de cada personagem a variarem consoante as relações de lealdade e objectivos, algo que resulta também da falta de um poder central forte. Veja-se que Washizu pretende inicialmente anunciar Yoshiteru, o filho de Miki, como herdeiro mas logo abandona a ideia quando sabe que a esposa se encontra grávida, para além de ficar altamente desagradado com a ausência do amigo no banquete. Diga-se que o destino de Miki não será agradável, com Washizu e a esposa a envolverem-se numa série de atitudes que em nada abonam a favor dos mesmos. Nem é o primeiro acto desleal do personagem interpretado por Toshiro Mifune, um indivíduo que fica sempre entre a possibilidade de manter a sua integridade moral ou deixar-se seduzir pelos anseios de poder, acabando quase sempre por ceder a estes últimos (é o típico personagem a lidar com dilemas de ordem moral que encontramos em diversos trabalhos de Akira Kurosawa). É um personagem complexo, talvez aquele com mais densidade de "Throne of Blood", com Toshiro Mifune a ter mais uma parceria de sucesso com Akira Kurosawa. O cineasta mostra-se exímio a elaborar um filme de época, algo que já tinha demonstrado em "Seven Samurai" e voltaria a exibir em obras cinematográficas como "Yojimbo", "Kagemusha", "Sanjuro", "Ran", entre outras. Em "Throne of Blood", Akira Kurosawa remete-nos para o período Sengoku, algo realçado no texto "Throne of Blood: Shakespeare Transposed" de Stephen Prince: "The parallel Kurosawa intuited and explored was with the century of civil war in medieval Japan. Following the Onin War, which lasted from 1467 to 1477 and laid waste to the imperial city of Kyoto, the nation entered this prolonged time of turmoil, the Sengoku Jidai (the Age of the Country at War), which was marked by internecine conflicts among rival clans, the absence of a central political power, and the kind of treachery, prevarication, and murder that Kurosawa dramatizes in Throne of Blood". O enredo desenrola-se a um ritmo que permite desenvolver a forma gradual como Washizu cede aos seus instintos, com o último terço a surgir marcado por maior dinamismo, pronto a explorar o misticismo que rodeia a narrativa, mas também a violência. A chegada de Washizu ao poder não conduz ao fim dos perigos para este, com Yoshiteru, Noriyasu, Kunimaru e Inui a unirem-se contra o personagem interpretado por Toshiro Mifune. As cenas finais são marcadas por enorme carga dramática e violência, com o célebre esvoaçar de setas a ficar como um dos momentos mais icónicos de "Throne of Blood", mesclando algum lirismo no meio de toda a visceralidade que acompanha o episódio.

Antes desse ataque ao castelo, Washizu ainda volta a contactar com o espírito para saber sobre as suas hipóteses, com esta a salientar que o protagonista será derrotado se as árvores do Bosque avançarem sobre o castelo. Washizu encara esta premonição com alguma troça, mas já deveria ter percebido que este espírito é para ser levado a sério. Chieko Naniwa é sublime a incutir alguma malícia e mistério à personagem que interpreta, um espírito que se encontra a tecer, provavelmente, o destino do protagonista, rodeada de uma luz que momentaneamente invade este espaço. Diga-se que o nevoeiro que envolve o bosque atribui algum misticismo ao mesmo, mas também uma enorme incerteza em relação aos elementos que circulam o cenário, com este local a surgir como um aparente labirinto que trava os inimigos mas também propenso a episódios sobrenaturais. A profecia desta mulher influencia e de que maneira o protagonista, com o último terço a ser marcado por uma maior intensidade e violência. As flechas voam, os sentimentos também, enquanto Washizu vê o seu destino traçado após um conjunto de actos nem sempre recomendáveis. Kurosawa não poupa ainda nas cenas interiores, nos diálogos entre Washizu e a sua esposa, marcados por enorme carga dramática, com esta a procurar influenciar o esposo, quer a instigar o medo e paranoia no mesmo, quer a procurar que este mantenha o poder, já para não voltarmos a abordar a cena do banquete. Diga-se que o cuidado na elaboração dos cenários interiores remete ainda para a procura de atribuir maior densidade psicológica aos personagens, algo visível nas declarações de Yoshiro Muraki, o designer de produção, citado por Donald Richie no artigo publicado no site da Criterion: "To emphasize the psychology of the hero, driven by compulsion, we made the interiors wide with low ceilings and squat pillars to create the effect of oppression". Akira Kurosawa utilizou ainda elementos do teatro Noh, algo especificado de forma concisa por Glenn Erickson no seu recomendável texto sobre o filme "Sometimes called the Noh version of Macbeth, Throne of Blood gives Shakespeare's characters a highly stylized theatrical manner, including devices like the Noh chorus. The players are frequently isolated in large gloomy rooms, and when they talk they rarely make eye contact". Os diálogos são bem construídos, enquanto assistimos a uma série de mortes, jogos de poder e traições ao longo do filme, com Kurosawa a conseguir transpor esta história sobre a ambição humana e sede de poder para a realidade do Japão feudal. Temos ainda a grandiosidade que Kurosawa consegue transmitir à história, contrastando os momentos de maior proximidade entre o casal (o afecto entre Washizu e Asaji pouco é exibido, se é que este existe) com as cenas onde encontramos um número imenso de figurantes, algo notório nos momentos finais do filme nos quais o protagonista observa no topo à revolta de vários elementos até então aparentemente fiéis a si, já para não falar na chegada dos seus rivais. É uma história que reflecte o lado negro da ambição e do medo excessivos, mas também a capacidade do ser humano em tomar más decisões, ao longo de uma obra cinematográfica marcada por bons valores de produção e uma narrativa construída de forma exímia por Akira Kurosawa.

Título original: "Kumonosu-jô".
Título em inglês: "Throne of Blood". 
Título em Portugal: "Trono de Sangue". 
Realizador: Akira Kurosawa.
Argumento:
Shinobu Hashimoto, Ryûzô Kikushima, Akira Kurosawa, Hideo Oguni.
Elenco: Toshiro Mifune, Isuzu Yamada, Takashi Shimura, Chieko Naniwa.

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