30 março 2015

Resenha Crítica: "Suite Française" (Suite Francesa)

 Confesso que queria ter gostado de "Suite Française". Vários elementos contribuíam para este desejo: o elenco é recheado de elementos talentosos e capazes de despertarem alguma da minha simpatia e respeito, entre os quais Michelle Williams, Matthias Schoenaerts, Margot Robbie, Ruth Wilson, Kristin Scott Thomas, Sam Riley, Lambert Wilson, entre outros; os valores de produção são elevados, algo visível no cuidado guarda-roupa e decoração dos cenários, prontos a remeterem para o período de tempo representado, em particular, a ocupação da França por parte da Alemanha durante a II Guerra Mundial; a sua história prometia um romance recheado de enorme ambiguidade moral mesclado com elementos de filmes de guerra. No entanto, estes elementos facilmente são desperdiçados diante de uma realização insípida de Saul Dibb, um cineasta que já revelou ser capaz de elaborar filmes de época em "The Duchess" mas espalha-se ao comprido em "Suite Française". O argumento não consegue atribuir densidade aos personagens secundários nem coerência a diversos momentos da narrativa, para além de falhar por completo ao não conseguir incutir a ambiguidade e complexidade necessárias ao curto romance improvável entre uma francesa casada e um soldado alemão. A francesa casada é Lucille Angellier (Michelle Williams), uma mulher que espera notícias do seu esposo, enquanto habita com Madame Angellier (Kristin Scott Thomas), a sua sogra, uma mulher fria, algo austera de sentimentos, pronta a impor as suas decisões e opiniões. A personagem interpretada por Kristin Scott Thomas procura que Lucille aprenda a gerir os negócios da família, tais como recolher as verbas aos rendeiros que trabalham nas terras possuídas pelos Angellier. Entre esses rendeiros encontram-se elementos como Benoît (Sam Riley) e Madeleine (Ruth Wilson), um casal que conta com dois filhos, para além de Celine (Margot Robbie) e a sua família. Se os rendeiros trabalham a terra, já os Angellier limitam-se a recolher o dinheiro, exibindo o seu estatuto social mais elevado, algo ainda exposto no facto de terem uma das melhores casas da região. A narração em off da personagem interpretada por Michelle Williams, inicialmente útil para nos contextualizar em relação ao enredo e ao ponto da situação, gradualmente torna-se intrusiva, parecendo uma forma preguiçosa de "Suite Française" expor alguns dos sentimentos e episódios do enredo que o argumento, o elenco e Saul Dibb não conseguem desenvolver e explorar de forma competente, incluindo do ponto de vista visual. Tudo muda no quotidiano de Lucille quando os alemães invadem a França, em particular o território de Bussy. Os aviões começam por bombardear o comboio e o espaço campestre, com o pânico a ser geral. Chegam tanques, soldados enfileirados, quase todos frios e unidimensionais, com excepção do Comandante Bruno von Falk (Matthias Schoenaerts). Este fica instalado na casa de Lucille e da sua sogra, uma decisão que desagrada às duas mulheres. Aos poucos, as melodias que Bruno toca no piano começam a gerar uma estranha atenção por parte de Lucille, embora esta inicialmente evite qualquer fala com o militar. Diga-se que, apesar desta aparente rejeição inicial, a figura deste militar alemão não a deixa indiferente, algo que é recíproco e promete ganhar contornos mais quentes com o avançar da narrativa.

Michelle Williams e Matthias Schoenaerts, uma dupla de talento inegável, conseguem expressar alguns dos sentimentos que os personagens começam a nutrir um pelo outro. Ela receia-o. Ele sabe das suas funções. Ela é uma mulher casada, embora os relatos da sua relação com o esposo pareçam remeter para um envolvimento algo frio, com os dois a praticamente não se conhecerem quando se casaram. O esposo foi combater na II Guerra Mundial contra os alemães, enquanto esta permaneceu neste território rural a tomar conta das terras e propriedades da família, ao lado da sogra. Bruno também é casado, trajando uma farda das tropas das SS, ao mesmo tempo que apresenta um conjunto de comportamentos bastante polidos junto desta mulher. Defendem ideais e causas diferentes, algo que até chegam a expor, mas o argumento raramente atribui a ambiguidade e complexidade necessárias para o iniciar deste estranho romance, com tudo a ser abordado com uma enorme leveza. Bruno von Falk é exposto como um indivíduo que procura cumprir as suas ordens, mas algo isolado dos seus colegas, exibindo um conjunto de comportamentos distintos dos mesmos. Veja-se a diferença em relação ao militar que Benoït e Madeleine recebem em sua casa, com este a logo procurar tirar benefícios sexuais da mesma e escarnecer do facto do primeiro ser coxo de uma perna, necessitando de uma espécie de muleta para andar. Diga-se que não são apenas os alemães que são representados de forma pouco aprazível, com "Suite Française" a deixar-nos também diante de episódios pouco agradáveis por parte dos franceses. A personagem interpretada por Kristin Scott Thomas é exemplo disso, com esta a surgir inicialmente como uma mulher fria e algo odiada pelos rendeiros, não tendo problemas em expulsar a família de Celine da habitação para arrendar a propriedade a um preço mais caro. Temos ainda os exemplos das cartas de denúncia efectuadas pelos próprios franceses contra elementos da mesma nacionalidade, mas também as atitudes do corrupto Visconde de Montmort (Lambert Wilson), um indivíduo que procura colaborar ao máximo com os alemães para manter a sua vida. Lambert Wilson é um dos vários elementos desperdiçados por "Suite Française", com o actor a interpretar o estereótipo do elemento corrupto e colaboracionista nunca chegando a ser um personagem propriamente dito, com Saul Dibb a deixá-lo quase sempre no plano da caricatura. Não é só Lambert Wilson que é pouco aproveitado. Veja-se o caso flagrante de Margot Robbie como Celine, uma mulher que facilmente inicia relações com um alemão, com a actriz a ter pouco tempo para aparecer no ecrã ou conseguir fazer evoluir a personagem que interpreta. Ter elementos como Margot Robbie, Ruth Wilson, Lambert Wilson e afins para não aproveitá-los devidamente faz tanto sentido como ser treinador de futebol, ter o Lionel Messi a 100% e colocá-lo em campo nos descontos apenas para queimar tempo. Diga-se que não é por ter um "mau plantel" que Saul Dibb falha praticamente por completo no campo cinematográfico. Veja-se os casos dos personagens que modificam a personalidade de forma brusca, tal como a sogra da protagonista, com esta a surgir inicialmente como uma mulher fria e temida (o próprio Bruno chega a parecer temer a ira desta mulher), pronta a lucrar o máximo que puder com os rendeiros, até repentinamente alterar os seus objectivos ao ponto de ajudar dois elementos que fogem dos alemães, incluindo um jovem judeu, num momento que parece completamente gratuito. A própria trama entre Lucille e Bruno nem sempre é devidamente desenvolvida, tal como nem sempre são exploradas as subtramas como a de Benoït e Madeleine. Benoït encontra-se revoltado pela presença alemã, com o casal a sofrer as consequências do conflito. Estes já viviam em parcas condições, embora Madeleine ainda mantivesse uma relação de relativa proximidade com Lucille, com esta última a ajudá-la, mas a chegada do militar alemão vem piorar tudo. Ver o que Ruth Wilson consegue fazer na série "The Affair" e depararmo-nos com a personagem que interpreta em "Suite Française" chega quase a ser doloroso, tal a banalidade da mesma, com esta a surgir como o objecto de desejo de um soldado alemão.

Saul Dibb procura ainda expor as alterações ocorridas na cidade de Bussy com a entrada dos alemães no território. Desde posters pró-Alemanha e mensagens anti-judaicas, até à forte presença militar, o território conhece algumas alterações ao longo do período da ocupação alemã, com as forças ocupantes a serem representadas de forma praticamente unidimensional, com excepção de Bruno. A representação simpática de Bruno e a notícia de que o marido de Lucille traía-a e tinha uma filha com a amante tiram ainda mais peso e complexidade ao curto caso entre ambos, com as diferenças que os separam a surgirem demasiado esbatidas. Saul Dibb explora o romance da dupla de protagonistas com uma leveza impressionante quando teria aqui a oportunidade de criar algo de complexo, um pouco como já tinha efectuado com algum sucesso nos relacionamentos em "The Duchess". No entanto, é na casa de Lucille e da sogra desta que ocorrem alguns dos momentos mais inspirados do filme. O cuidado na decoração do cenário é notório, com este a exibir o estatuto social mais elevado desta família. Não falta um piano, mobiliário aparentemente caro e vestuário diversificado numa habitação que é remodelada temporariamente para Bruno ficar no local. Bruno logo é rejeitado pela personagem interpretada por Kristin Scott Thomas, com esta mulher a pretender que Lucille não fale com o mesmo, apesar desta última parecer algo intrigada em relação ao soldado. Michelle Williams consegue exibir um pouco (realçamos mesmo o "um pouco") do seu talento a interpretar esta mulher que tem de lidar com a presença castradora da sogra e de um soldado alemão que lhe desperta estranhos sentimentos. Williams forma uma dupla relativamente convincente com Matthias Schoenaerts, mas esta situação deve-se mais ao talento de ambos os actores do que à densidade atribuída pelo argumento aos personagens que interpretam. Tudo muda quando alguns elementos franceses como Benoït começam a apresentar uma atitude mais violenta contra a presença alemã, com este a eliminar o militar que estava na sua casa, algo que conduz a uma violenta caça ao homem. O desfecho desta busca, bem como de "Suite Française", vai ao encontro das várias incoerências de um filme que nunca parece encontrar o seu tom. Ora procura explorar as questões relacionadas com a ocupação alemã do território francês, algo que envolve não só a presença militar mas também o colaboracionismo ou rejeição dos franceses, ora procura abordar o romance improvável entre a dupla de protagonistas, ora tenta explorar subtramas que pouco são desenvolvidas. Os melhores momentos do filme ocorrem na casa de Lucille, com Saul Dibb a conseguir aproveitar o cenário para desenvolver a estranha relação entre este alemão e uma francesa num período onde supostamente deveriam odiar-se. A possível tensão entre os dois facilmente se esbate devido à inaptidão de Saul Dibb em explorar as diferenças entre Lucille e Bruno. Representa-os antes como dois elementos solitários, que gostam de tocar piano e formam alguns estranhos elos de ligação.

Os momentos de Bruno ao piano influenciam não só a protagonista, mas também a banda sonora do filme, por vezes intrusiva, pronta a marcar a forma como o espectador se deve sentir, numa obra cinematográfica que tinha potencial para muito mais. As incoerências são mais do que muitas. Veja-se o caso do personagem interpretado por Sam Riley, com este em pouco tempo a deixar de precisar da espécie de muleta para andar, conseguindo até fugir numa mota e locomover-se quase normalmente, existindo uma desastrada direcção de actores. A própria representação dos soldados alemães, com excepção de Bruno, fica quase sempre pela caricatura, com "Suite Française" a raramente conseguir distinguir-se de outros filmes que contam com a II Guerra Mundial como pano de fundo. No final fica a ideia que Saul Dibb desperdiçou uma boa oportunidade para criar um drama pungente tendo como pano de fundo a II Guerra Mundial, com o cineasta a tropeçar num argumento desastrado mas também na sua incapacidade de atribuir alguma chama e sentimento ao filme. É uma obra que passa por nós sem deixar marca, recheada de inconsistências, personagens que muitas das vezes não passam dos estereótipos ou caricaturas, algo que a juntar aos elementos associados às línguas faladas e às incoerências da narrativa conduzem a que "Suite Française" seja um fracasso tão grande como as suas ambições. O título remete para a partitura elaborada por Bruno, um compositor antes de ser militar. No entanto, de francês o filme conta apenas com o território, o título e os nomes de alguns personagens, com Saul Dibb a pouco se preocupar com o facto de termos alemães a falarem alemão, tanto entre si como com os franceses, com estes últimos a perceberem quase tudo e, por sua vez, a comunicarem uns com os outros em inglês. Por vezes nem parece que estamos perante um realizador que conta já com alguma experiência e um elenco talentoso à disposição, com o próprio orçamento do filme a não ter sido propriamente baixo para a realidade europeia (cerca de vinte milhões de dólares). Existe ainda uma aparente falta de coragem ou inaptidão para avançar com a exploração de temáticas mais polémicas, tais como a averiguação das cartas com denúncias enviadas ao protagonista de franceses contra franceses. A própria protagonista a certa altura começa a ser encarada de forma ambígua pelos locais, com estes a não saberem bem se a devem tratar como uma heroína capaz de enfrentar os alemães ou uma colaboracionista. Na realidade, esta apenas parece ceder aos seus instintos mais primitivos, com os ideais políticos distintos a serem um entrave inicial mas a não pouparem a dupla a alguns momentos mais quentes. Falta exactamente complexidade e subtileza à relação, algo que incrementaria e muito este filme baseado parcialmente na obra literária homónima de Irène Némirovsky, em particular em "Dolce", a segunda parte do livro. Némirovsky pretendia escrever uma série de cinco obras, mas a sua prisão e morte num campo de concentração conduziram a que só tenha conseguido escrever "Têmpete en juin" e "Dolce". Com um elenco de luxo, uma história promissora e bons valores de produção, "Suite Française" parece contar com todos os elementos para ser uma obra cinematográfica acima da média mas no final resulta numa tremenda desilusão onde Saul Dibb não parece ter "unhas" para "tocar esta guitarra". Costuma-se dizer que sem ovos não se fazem omeletes. Saul Dibb tinha os ovos para a omelete mas, no final, saiu-lhe um pastelão que promete ser facilmente esquecido.

Título original: "Suite Française".
Realizador: Saul Dibb.
Argumento: Saul Dibb e Matt Charman.
Elenco: Michelle Williams, Kristin Scott Thomas, Matthias Schoenaerts, Lambert Wilson, Ruth Wilson, Margot Robbie, Sam Riley.

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