19 março 2015

Resenha Crítica: "Seven Samurai" (Shichinin no samurai)

 Épico nas suas ambições e duração, "Seven Samurai" é um exemplo paradigmático da capacidade de Akira Kurosawa em controlar os ritmos da narrativa e desenvolver os personagens que povoam o enredo dos seus filmes numa obra cinematográfica que mescla estratégia militar, valores morais, acção, romance, algum humor e valores de produção notoriamente elevados. Não falta um guarda-roupa adequado ao período representado, um trabalho de caracterização competente, um argumento coeso que é capaz de sustentar as quase três horas e trinta minutos do filme, cenários elaborados de forma meticulosa, embora o que mais sobressaia é mesmo a sobriedade com que Akira Kurosawa faz a narrativa fluir, criando uma obra cinematográfica que roça a perfeição. Estamos perante o Japão do Século XVI, em pleno período Sengoku, uma das fases mais complicadas da História deste país, marcada por uma guerra civil que colocou diversos clãs em pé de guerra após a queda do Xogunato Ashikaga. Perante o perigo do regresso de um grupo de bandidos conhecido por roubar as colheitas e os bens, o pranto da população de um território rural é notório. Desesperam devido à falta de controlo por parte das forças lei, pelos elevados impostos, pelas fracas condições de vida e pela insegurança, algo que conduz elementos como Manzō (Kamatari Fujiwara), Rikichi (Yoshio Tsuchiya), Yohei (Bokuzen Hidari), entre outros, a contactarem Gisaku (Kokuten Kōdō), o ancião da aldeia, um indivíduo que os incita a contratarem quatro samurais. A falta de fundos destes elementos dificulta a tarefa, embora tenham a sorte de se depararem com Kambei (Takashi Shimura), um ronin experiente, sem grandes posses financeiras, que salva uma criança que se encontrava refém de um bandido. Todos parecem convencidos da habilidade e estratégia deste homem que rapa o cabelo e finge ser um monge para invadir o espaço onde o bandido se encontrava barricado, com este episódio a surgir sobretudo como uma forma de Akira Kurosawa introduzir o personagem na narrativa. Takashi Shimura, colaborador habitual de Akira Kurosawa, surge num dos papéis mais marcantes nos filmes do cineasta, incutindo a Kambei um carisma, capacidade de liderança e sapiência que lhe vão permitir destacar-se no interior do núcleo dos sete samurais, a par do personagem interpretado por Toshiro Mifune. É Kambei quem acaba inicialmente convencido, quer por necessidade, quer pelos seus ideais, da ideia de ajudar os camponeses a troco de três malgas de arroz por dia. Este é o único pagamento que os camponeses podem efectuar, algo que até os leva a comer milho-miúdo para poderem dar as melhores refeições aos samurais. O recrutamento não é fácil, embora Katsushirō Okamoto (Isao Kimura), um jovem aspirante a samurai, logo ofereça os seus serviços para poder ser pupilo de Kambei, algo que este inicialmente reluta em aceitar. Se contratar samurais competentes e leais é tarefa difícil e requer engenho, já trazer Kikuchiyo (Toshiro Mifune), um elemento que finge ser um samurai, parece ser o mais fácil, com este a surgir por diversas vezes e a ser regularmente ignorado. É o último a juntar-se ao grupo, mas também é um dos elementos mais carismáticos, com Toshiro Mifune a surpreender mais uma vez pela forma exímia como utiliza os seus gestos corporais ao serviço dos papéis que interpreta, mas também pela intensidade que incute aos personagens a quem dá vida. 

Kikuchiyo é um falso samurai, embora a sua valentia permita que não se distinga assim tanto dos restantes elementos que vão compor o grupo, com este a surgir muitas das vezes como um importante ponto de contacto com os camponeses, ou não fosse ele oriundo de uma família ligada ao campesinato. Diga-se que este ainda vai efectuar um comentário de relevo sobre o medo dos camponeses em relação aos samurais e os comportamentos menos positivos dos primeiros, expondo os "telhados de vidro" que existem de parte a parte, com Akira Kurosawa a deixar-nos perante uma observação de cariz social. Veja-se os casos dos samurais que ficaram sem o seu líder, passando a roubar, algo que explica alguma da desconfiança inicial dos camponeses em relação a estes elementos, ao mesmo tempo que Kurosawa expõe um problema da época representada. No entanto, antes de Kikuchiyo ainda são contratados elementos como Gorōbei Katayama (Yoshio Inaba), um valente arqueiro que se deixa convencer mais pelo carisma e ideais do protagonista do que pelo parco pagamento, enquanto Shichirōji (Daisuke Katō), outro dos elementos que passa a integrar o grupo, já tinha anteriormente colaborado com Kambei. Heihachi Hayashida (Minoru Chiaki) é um combatente menos habilidoso mas a sua personalidade é vista como algo de positivo, até para moralizar as tropas em momentos de maior adversidade, embora um dos "reforços de peso" seja Kyūzō (Seiji Miyaguchi), um elemento ponderado, extremamente habilidoso com a espada que inicialmente até recusa a oferta. Se Toshiro Mifune sobressai pela enérgica interpretação como Kikuchiyo, já Seiji Miyaguchi destaca-se pela sobriedade que atribui ao personagem a quem dá vida. Kyūzō é um samurai que pretende aprimorar ao máximo a sua técnica, surgindo quase sempre impassível perante os adversários, algo visível quando inicialmente o encontramos a colocar as habilidades em acção. Inicialmente são reunidos apenas seis samurais, com Kikuchiyo a seguir os mesmos, após ter sido alvo de troça devido ao seu estado alcoolizado e à falsa identidade que apresenta para fingir ser um samurai. Atribui alguns momento de humor à travessia que estes personagens fazem da cidade até ao campo, não faltando pelo caminho uma pescaria bastante peculiar. Os momentos iniciais servem sobretudo para apresentar de forma rápida o contexto dos camponeses e a reunião dos samurais, bem como algumas das características dos segundos. A segunda fase do enredo pode ser situada na chegada dos samurais ao território onde são recebidos com algum receio pela população, algo visível na atitude de Manzō em cortar o cabelo de Shino (Keiko Tsushima), a sua filha, de forma a esta parecer um rapaz e assim não despertar a atenção dos samurais. Perante o desprezo de boa parte dos camponeses, os samurais decidem contactar com o ancião, com este a procurar justificar a temeridade destes lavradores. No entanto, Kikuchiyo logo decide armar das suas e faz soar o alarme da chegada dos bandidos, algo que conduz os camponeses a saírem apressadamente das suas casas tendo em vista a pedirem auxílio aos samurais. O personagem interpretado por Toshiro Mifune logo começa a ironizar de forma bem viva com a situação, sendo integrado definitivamente no grupo, ao mesmo tempo que quebra "o gelo" inicial entre os camponeses e os samurais. Este destaca-se em relação aos restantes elementos, muito marcados pela sobriedade, contando com uma personalidade expansiva e pouco cuidadosa que expõe o facto de não ter recebido o treino de samurai. Embebeda-se, brinca, parece tirar algum divertimento nos combates, exibindo uma enorme coragem e personalidade, não tendo problemas em colocar a sua vida em risco para salvar aqueles que estão em perigo. 

A certa altura de "Seven Samurai" encontramos Kikuchiyo a salvar um bebé que fica órfão, uma situação que o faz recordar-se da sua infância, entrando num pranto, ao mesmo tempo que exibe um lado mais frágil que procura esconder. Durante o desenvolvimento do filme, vamos assistindo à integração dos samurais entre si, à procura destes em treinarem os camponeses, à estratégia traçada por Kambei para travar os ataques inimigos, até chegar a altura dos camponeses terem de efectuar a colheita. O período de acalmia é tal que alguns elementos ainda chegam a desconfiar que os criminosos desistiram do ataque, mas a chegada de três elementos para espiarem o território conduz os samurais a terem de entrar em acção. Os samurais logo vão ter de colocar em prática as suas habilidades, com Akira Kurosawa a não poupar em algumas cenas de acção magnificamente coreografadas. Não vão faltar mortes, mesmo de personagens de relevo, para além das célebres tempestades que povoam as obras de Akira Kurosawa, algo que atribui ainda um maior dramatismo aos acontecimentos do último terço onde a coragem dos samurais e dos camponeses é testada numa batalha onde os primeiros sairão sempre derrotados. Parece certo que os sete elementos são homens honrados, mas os samurais estão longe de ter a prosperidade que alcançaram noutras épocas, com estes personagens a surgirem como ronins sem grande rumo. Veja-se que durante o Xogunato Tokugawa os samurais passam a ter funções mais administrativas e burocráticas do que guerreiras. Em "Seven Samurai" encontramos já estes elementos adaptados à utilização do arco e flecha, embora a espada seja a arma que mais utilizam, apesar dos criminosos contarem com armas de fogo, algo representativo da presença portuguesa no território. É o primeiro filme de samurais de Akira Kurosawa mas também uma das suas obras-primas, com a duração de "Seven Samurai" a raramente fazer-se sentir perante a fluidez com que decorrem os episódios da narrativa. O cineasta dá tempo para desenvolver os personagens, bem como o seu funcionamento em grupo, explora o seu envolvimento com os camponeses, ao mesmo tempo que demonstra que estes últimos também estão longe de serem um exemplo. Veja-se quando descobrimos que estes roubaram armamento de samurais mantidos em cativeiro, mas também a forma como inicialmente tratam os sete elementos que viriam em resgate do território a troco de comida, ou seja, um pagamento praticamente irrisório se pensarmos na respeitabilidade que o estatuto de samurai ainda tinha. Um dos exemplos de elementos que desconfiam dos protagonistas é Manzō, embora não consiga evitar que Shino se envolva com Okamoto. Estes são dois jovens, ainda algo inexperientes, que vivem alguns momentos de romance num território marcado sempre pela presença do medo e receio em relação aos criminosos, mas também pelos valores tradicionais com estes a impedirem que uma camponesa e um samurai, dois elementos de estatuto distinto, tenham uma relação. Akira Kurosawa também atribui alguns momentos idílicos no filme, em particular quando o casal se encontra deitado num campo florido, apesar dos receios desta cortarem um pouco o momento, ou quando Okamoto decide dar a sua malga de arroz a Shino. Isao Kimura interpreta um elemento que apresenta um enorme fascínio pela actividade dos samurais, em particular pelo carisma de Kambei e pela eficiência de Kyūzō. Já Shino é uma das camponesas que tem maior destaque, sobretudo devido ao seu envolvimento com Okamoto e à sua relação complicada com o pai, um elemento violento para com a jovem. 

É Shino que dá a conhecer a "avó de Kyuemon", uma mulher sem posses que perdeu a sua família devido aos criminosos. Todos se condoem da mesma, com excepção de Kikuchiyo, embora a dureza deste seja muitas das vezes uma capa exterior para esconder o seu lado mais sentimental. Percebemos das dificuldades pelas quais estes elementos passam, enquanto Kambei procura ensiná-los a agir em grupo para defenderem o território dos inimigos, algo que inicialmente ainda conhece alguma resistência por parte de alguns camponeses. Só a trabalharem em grupo é que estes elementos poderão conseguir uma vitória contra os criminosos, com a entreajuda a ser essencial, numa época onde a lei pouco era cumprida com eficácia. Os samurais ainda atacam um dos acampamentos dos bandidos, algo que não resulta num sucesso total. É certo que o espaço é queimado mas Heihachi acaba por ser eliminado, enquanto descobrimos que a esposa de Rikichi tinha sido raptada pelos criminosos, acabando por cometer suicídio pela vergonha a que foi sujeita. Rikichi fica devastado, surgindo como um dos elementos em maior destaque entre os camponeses, bem como o ancião, para além dos vários elementos citados. Já os antagonistas surgem na maioria como tipos unidimensionais que apenas pretendem roubar os mantimentos dos camponeses, com o argumento a atribuir pouca densidade aos mesmos, um grupo que aparece como uma ameaça misteriosa que promete afectar o território rural e os seus habitantes. Estes surgem como representantes do perigo, parecendo os únicos elementos à altura dos samurais, colocando os protagonistas e os camponeses em sentido. Akira Kurosawa faz com que os combates entre ambos os elementos sejam sentidos e tenham consequências para os mesmos. Desde logo por todo o cuidado colocado por Akira Kurosawa no desenvolvimento dos personagens, algo que faz com que o espectador crie alguma ligação com os mesmos, mas também pela pormenorização que rodeiam os combates. Veja-se o cuidado apresentado por Kambei na estratégia defensiva e ofensiva, mas também na colocação da mesma em prática durante o combate onde a valentia destes homens é exposta, incluindo de Kikuchyo, um elemento que exibiu ser tão ou mais destemido que os samurais verdadeiros apesar da sua indisciplina por vezes não se coadunar com as regras do grupo. Estes samurais parecem ter entrado "no jogo" não tanto pelo pagamento, mas sim pela diversão e testarem as suas capacidades, ao mesmo tempo que fazem algo que os leva a sentirem-se úteis. No final fica saliente que, quer os camponeses, quer os samurais nunca poderão estar totalmente do mesmo lado, existindo não só o estatuto social a separá-los mas também a História, com este episódio a ser uma reunião fugaz de esforços entre ambos. Tal como os camponeses já atacaram samurais, também os primeiros foram assaltados e alvos de violência de elementos menos sérios do segundo grupo. É uma época onde nem todos os samurais tinham um mestre a quem responder, ou para financiá-los, algo que conduzia alguns destes elementos a entrarem no mundo do crime. No caso de "Seven Samurai" ficamos diante de seis ronins, mais um elemento que se pretende fazer passar por tal, honrados e prontos a defenderem os camponeses que os contrataram, exibindo a sua boa índole ao participarem num combate que poderia trazer tudo menos a vitória ou não estivessem a enfrentar um grupo de quarenta criminosos. "Seven Samurai" (ou se preferirem "Shichinin no samurai") surge assim como um dos grandes épicos da História do Cinema e um dos exemplos paradigmáticos da capacidade de Akira Kurosawa em praticamente atingir a perfeição. Controla os ritmos da narrativa, apresenta personagens recheados de enorme humanidade e densidade, apresenta um cuidado notório na representação ainda que ficcional de um período histórico conturbado da História do Japão, ao mesmo tempo que nos deixa ainda perante muita acção, cenas de humor marcantes e interpretações de grande nível.

 Toshiro Mifune e Akira Kurosawa colaboraram em dezasseis filmes. Em "Seven Samurai", Mifune teve mais liberdades do que os restantes elementos do elenco para improvisar ou pelo menos assim parece, tendo a interpretação que mais nos deixa marca no filme. O personagem que Mifune interpreta é aparentemente um "chico-esperto" que se faz passar por samurai. Bebe mais do que a conta. Apresenta modos pouco polidos. No entanto, evidencia uma humanidade muito típica dos personagens que habitam as obras do cineasta. Veja-se a forma como procura proteger um bebé ou como fisicamente debilitado ainda avança pronto a livrar-se dos inimigos, apesar de cometer muitos erros pelo caminho. Ainda consegue fazer rir muitos dos elementos à sua volta, seja a lidar com as crianças, seja a tentar montar um cavalo até cair do mesmo e ter de andar a correr atrás deste, seja a confraternizar com Yohei, seja quando descobre que existem mais mulheres no local, entre tantos outros momentos. Por sua vez, Takashi Shimura surge também em enorme destaque, com o personagem a quem dá vida a ser um estratega nato, com um vício saliente de esfregar a cabeça rapada, mas também como alguém pragmático em relação à vida, algo visível nos seus comentários finais. Diga-se que Akira Kurosawa deixa-nos com um final agridoce, optimista para uns personagens, pessimista para outros, enquanto exibe paradigmaticamente as baixas que um conflito desta natureza pode trazer. No caso, os samurais sabiam que as suas vidas poderiam correr perigo e estavam a lutar mais pelos seus ideais de justiça do que pelo pagamento, com Akira Kurosawa a deixar-nos perante sete elementos que podem não sobressair de igual maneira mas nem por isso não deixam de ser desenvolvidos e contar com alguma densidade e personalidades muito próprias. O cineasta parece preocupar-se com os personagens e faz com que nos preocupemos com os mesmos, ao mesmo tempo que nos deixa perante uma obra marcada ainda por uma cinematografia que desperta a atenção. Existem planos que facilmente ficam na memória, seja do casal formado pelos dois jovens quando estão num abrigo e o samurai dá uma malga de arroz à jovem camponesa, seja nos combates, seja uma bandeira a esvoaçar pelos céus, seja a utilização paradigmática do deep focus. A banda sonora adequa-se ao tom épico do filme, mas também aos seus momentos mais leves ou de maior dramatismo, com Akira Kurosawa a distinguir-se num subgénero que viria e muito a marcar a sua extraordinária carreira. É também visível o perfeccionismo do cineasta, algo notório na própria criação e utilização dos cenários, bem como no guarda-roupa dos personagens, prontos a adequarem-se ao tom que Akira Kurosawa pretende dar ao enredo. Temos ainda a sublime utilização dos close-ups ou dos planos mais abertos. Veja-se no caso dos close-ups quando somos colocados diante da face do ancião, logo no primeiro terço do filme, com Kokuten Kōdō a procurar expor a sapiência deste elemento, para além do poderoso plano em que ficamos perante o rosto de Keiko Tsushima como Shino num momento de aparente maior intimidade com Okamoto. Nos planos mais abertos ficamos diante deste território rural, marcado por um enorme lamaçal e chuva forte no último terço, com Akira Kurosawa a atribuir uma grandiosidade e ferocidade notória aos combates. Não falta lama, violência, indivíduos a cavalo, espadas, flechas, em momentos finais intensos do ponto de vista físico e emocional. "Seven Samurai" é uma vitória da Sétima Arte, com Akira Kurosawa a nunca descurar o desenvolvimento dos personagens e dos episódios da narrativa, ao mesmo tempo que nos deixa perante um filme marcado por elevados valores de produção, um enredo que se desenrola a um ritmo surpreendentemente fluido, acção, drama, romance e muitos momentos marcantes num épico que influenciou várias obras cinematográficas do género.

Título original: "Shichinin no samurai".
Título em inglês: "Seven Samurai".
Título em Portugal: "Sete Samurais".
Realizador: Akira Kurosawa.
Argumento: Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni.
Elenco: Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Keiko Tsushima, Isao Kimura, Daisuke Katō, Seiji Miyaguchi, Yoshio Inaba, Minoru Chiaki, Kamatari Fujiwara, Kokuten Kōdō,

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