31 março 2015

Resenha Crítica: "Se, jie" (Lust, Caution)

 A carreira de Ang Lee conheceu um dos seus pontos mais altos com "Se, jie", um thriller marcado por enorme classe, erotismo, espionagem e sentimentos à flor da pele, que nos seduz, conquista, inebria e envolve. É uma das grandes obras do género lançadas neste ainda curto século mas também um dos trabalhos mais conseguidos de Ang Lee, com o cineasta a ser capaz de explorar com igual eficácia a trama relacionada com a missão desenvolvida pela protagonista e o grupo no qual se inseria, a personalidade dos personagens principais, sempre com enorme atenção à representação do período histórico, quer a nível dos cenários, quer a nível do guarda-roupa, quer a nível do contexto político e social. Tendo como pano de fundo locais como Hong Kong e Xangai, durante o período a rondar 1938 e 1942, "Se, jie" pode conter alguns anacronismos mas nem por isso deixa de ser um thriller brilhante e envolvente, marcado por uma história onde um estranho desejo se desenvolve e um assassinato é planeado de forma demorada. A história começa por nos apresentar a Wong Chia Chi (Tang Wei) a jogar mahjong com um grupo de mulheres até se dirigir a um café onde se nota claramente que está a comunicar em código. Durante o jogo de mahjong, assistimos desde logo à meticulosa utilização dos close-ups por parte de Ang Lee, com este a ser capaz de utilizar a expressividade da sua protagonista ao serviço da narrativa, ao mesmo tempo que deixa a câmara de filmar a fitar estas mulheres enquanto jogam. Por vezes a câmara move-se repentinamente, por vezes fica estática diante de um rosto, embora pareça sempre certo que dentro destas mulheres, Chia Chi é aquela que parece apresentar algum desconforto. Depois do telefonema, a história recua até 1938, data em que conhecemos Wong Chia Chi, inicialmente uma jovem e tímida estudante da Universidade de Lingnan que viajou para o território de Hong Kong, após o pai ter partido com o irmão desta para o Reino Unido, prometendo levá-la mais tarde. Esse desiderato não acontece, com esta a partir da China para Hong Kong, enquanto a Segunda Guerra Sino-Japonesa encontra-se a afectar a vida de todos. Cinéfila, inteligente, algo ingénua em relação à vida mas informada em relação ao mundo que a rodeia, Wong Chia Chi procura integrar-se no meio universitário onde conhece Kuang Yu Min (Wang Leehom), um estudante patriota que a convida a integrar o novo grupo de teatro. Esta nunca representou, ao contrário de Lai Shu Jin (Chu Chih-Ying), uma amiga e colega que integrava a companhia de teatro feminina. Estas juntam-se ao grupo, com Chia Chi a impressionar tudo e todos com a emotividade que transmite, assim como Yu Min, um indivíduo que procura exaltar o patriotismo chinês. No final da peça, o público grita "A China não pode ceder", com o grupo a conseguir o objectivo de incitar o espírito de luta contra o Japão. É então que a chegada de Yee (Tony Leung Chiu-wai), um indivíduo conhecido por colaborar com Wang Jingwei, o futuro líder do Governo colaboracionista chinês, conduz a uma mudança no quotidiano destes personagens. Yee é descrito como um indivíduo favorável ao Japão, capaz dos actos mais hediondos para manter o seu estatuto de poder, embora nunca vejamos este a colocar em prática as suas "habilidades". É então que o grupo decide eliminar Yee de forma a conseguir na prática vingar-se de um indivíduo que consideram ser traidor da China. O plano passa por instalarem-se temporariamente numa habitação e fingirem que Wong Chia Chi e Auyang Lingwen (Johnson Yuen) formam um casal. Estes assumem os nomes de Srª e Sr. Mak. Ela é uma dona de casa, ele é um homem de negócios do ramo das exportações e importações. Sorte ou azar, Chia Chi forma amizade com a Srª Yee (Joan Chen), participando nas partidas de mahjong com esta e as amigas, aconselhando um alfaiate, locais para passear e restaurantes à esposa do alvo destes personagens.

Os Yee chegaram recentemente a Hong Kong, tendo ainda formado poucas amizades, em parte devido à atitude cautelosa do personagem interpretado por Tony Leung. Este pouca abertura dá a Chia Chi, parecendo ter todos os seus movimentos acautelados de forma a não ser surpreendido por algum atentado à sua integridade. Passado um mês, o grupo continua sem conseguir cumprir os seus intentos, algo que gera algumas tensões internas a ponto de se temer o pior. Um convite para ir a um alfaiate e jantar por parte de Yee a Chia Chi demonstra um interesse inesperado deste na jovem, algo que traz uma reviravolta na conjuntura do grupo e na missão. Yee é um indivíduo discreto, aparentemente calmo e ponderado que esconde dentro de si um lado mais violento, embora se deixe atrair pela protagonista, um sentimento que inicialmente não é recíproco. A aproximação deixa os revoltosos entusiasmados mas este sentimento logo é esbatido quando o casal Yee tem de regressar a Xangai devido ao facto do personagem interpretado por Tony Leung ter sido promovido, encontrando-se encarregue das operações de espionagem de Wang Jingwe. A operação do grupo sai frustrada. Em 1942, Chia Chi reencontra Kuang em Xangai. Este agora é um agente secreto ao serviço do KMT que procura lutar contra a ocupação japonesa do território. A ocupação é exposta desde logo em situações como a protagonista a passar a ter aulas em japonês, mas também na dificuldade a nível de circulação de bens e uma apertada segurança, com Ang Lee a atribuir características opressoras a este território de Xangai. Chia Chi é incitada por Kuang a retomar a missão e reintegrar-se no círculo dos Yee. A protagonista recebe ordens estritas que não pode falhar, caso contrário o seu destino será o mesmo das suas antecessoras: a morte. Yee não apresenta contemplações para com os traidores pelo que esta terá de ter um imenso cuidado para conseguir seduzir este homem a um ponto em que este baixe a guarda e seja possível os elementos ligados ao KMT assassinarem-no. A sedução demora mas é conseguida. Inicia-se um jogo de parte a parte, com Yee a utilizar a força para conseguir os seus intentos. O primeiro acto sexual entre ambos é brutal e doloroso. Este ata as mãos de Chia Chi com o seu cinto e penetra-a violentamente. Posteriormente assistimos a cedências de parte a parte, mas também uma maior intimidade, com Tony Leung e Tang Wei a protagonizarem alguns momentos mais quentes e sexualmente explícitos, enquanto os personagens que interpretam parecem começar a nutrir estranhos sentimentos um pelo outro. Ela continua a reunir-se com os elementos que resistem contra a ocupação japonesa e os colaboracionistas, chegando a descrever algo repugnada os actos sexuais que tem de praticar com Yee. Ele aos poucos parece começar a nutrir algo mais pela protagonista do que simples desejo sexual e de dominar uma mulher que inicialmente lhe parecia resistir. As relações sexuais entre ambos, excepção feita à primeira, são marcadas por algum erotismo, com Ang Lee a filmar as mesmas com um misto de realismo e sensualidade. Dois corpos unem-se, estranhos sentimentos reúnem-se e dois personagens misteriosos entregam-se aos prazeres e dores que acompanham os seus gestos. Ele quer submetê-la mas acaba por se deixar envolver. Ela quer eliminá-lo mas parece gradualmente perder a coragem para esse acto. Tang Wei surge sublime como esta mulher misteriosa e inteligente, capaz de se envolver numa intriga perigosa ao mesmo tempo que exibe uma série de fragilidades. O seu rosto transmite uma candura e fragilidade que tornam ainda mais impressionante o espírito de sacrifício desta mulher, uma estudante universitária que aos poucos se deixa seduzir pelos ideais nacionalistas de Kuang Yu Min. O seu empenho e lealdade à causa raramente são colocados em causa, a ponto desta ter actos sexuais com Liang Junsheng (Lawrence Ko), um colega do grupo, o único a ter experiência do foro sexual, de forma a perder a virgindade e assim não estragar o disfarce. As relações sexuais desta com Junsheng são marcadas por uma enorme frieza, com esta a demonstrar um desconforto notório, embora demonstrem o quão longe esta se encontra a ir para continuar com o disfarce e concluir o plano para eliminar Yee. A manutenção do disfarce é essencial para a vida desta e a missão não correrem perigo. Ang Lee deixa sempre saliente que a vida destes corre perigo, bastando um pequeno deslize para todos os planos se desmoronarem e todo o esforço despendido ir por água abaixo. É latente a tensão de alguns momentos entre Yee e Chia Chi, com o primeiro a ser um enigma muitas das vezes difícil de ler, enquanto a segunda pode a qualquer momento "espalhar-se ao comprido" e revelar mais do que deve.

Tony Leung, um dos actores mais talentosos da sua geração, consegue incutir um misto de frieza, brutalidade e dissimulação a Yee, mas também alguma sobriedade e capacidade de exprimir sentimentos mais amigáveis. Quando o encontramos a oferecer uma joia caríssima a Chia Chi percebemos que nutre algo mais por esta do que apenas desejo, tal como aos poucos percepcionamos que a relação entre estes dois desemboca em algo mais complexo do que poderia inicialmente aparentar. Ela tem tudo para o odiar. Ele apenas a parece desejar. Aos corpos junta-se a união de sentimentos e a certeza que esta relação pode correr mal, ou ambos não tivessem objectivos e ideais dicotómicos. Yee representa um elemento alinhado com os japoneses, que pensa sobretudo nos seus interesses e manutenção do poder. Os actos violentos e interrogatórios que protagoniza demonstram bem a sua frieza, com a sua brutalidade a ficar desde logo exposta de forma paradigmática no primeiro acto sexual com Chia Chi. Esta é uma jovem inicialmente algo naïve em relação a todas estas questões relacionadas com a política e espionagem, transformando-se ao longo do filme numa mulher confiante, deslumbrante e aparentemente fria. Aos poucos, através de uma identidade falsa, esta parece começar a descobrir o seu próprio "eu", a definir a sua própria personalidade, ideais e modos de agir. É certo que tem directrizes a seguir, mas muito do que alcança deve-se à sua inteligência e capacidade de improvisar embora no último terço nos surpreenda com um acto que pode ser considerado de amor (não revelaremos aqui se à causa ou a Yee). Diga-se que, embora lutem por causas distintas, em alguns momentos Yee e Chia Chi, parecem apresentar mais semelhanças do que divergências. Ambos procuram ser frios, calculistas e pouco dados a sentimentalismos excessivos, mas essa situação nem sempre é concretizada por estes personagens solitários. A dinâmica entre Tony Leung e Tang Wei é sublime, com Ang Lee a conseguir ainda explorar o conturbado contexto histórico que envolve este thriller onde não faltam elementos de espionagem, erotismo e drama, num território de Xangai a lidar com a ocupação japonesa. Alguns elementos colaboram com os japoneses, outros lutam contra a sua presença, mas todos parecem ser peões do destino e dos próprios desejos. Chia Chi e Yee em determinado momento parecem ceder ao desejo, com Ang Lee a filmar muitas destas cenas com um erotismo e beleza latentes, com a própria iluminação a contribuir para a atmosfera sedutora que rodeia algumas destas cenas. Já o contexto é apresentado em elementos como a peça de teatro nacionalista, o filme dos EUA que é interrompido, a presença dos ciclo-riquexós, o guarda-roupa dos personagens, as mudanças políticas e educacionais, as dificuldades em adquirir alguns bens, a existência de um mercado negro bastante activo, embora existam alguns anacronismos à mistura que são facilmente desculpáveis perante uma obra cinematográfica sublime. Diga-se que o próprio fascínio de Ang Lee pelo cinema e as relações conturbadas é visível na figura da protagonista, um cinéfila, mas também pelos filmes em exibição, com "Lust, Caution" a brindar-nos com um poster de "Suspicion" de Alfred Hitchcock, mas também da protagonista a assistir a Ingrid Bergman em "Intermezzo". Diga-se que a história de Chia Chi até está mais para ser entroncada em "Notorious" de Alfred Hitchcock, na qual a protagonista tem de seduzir um elemento nazi, algo que coloca a sua vida em perigo no caso das suas reais intenções serem descobertas. Existem alguns traços noir em "Lust, Caution", algo que vai desde os personagens moralmente ambíguos à atmosfera de malaise que rodeia o enredo, passando pelo próprio cinismo inerente às personalidades e actos destes elementos. Ang Lee atribui sempre algum mistério ao destino da dupla de protagonista, deixando-os sempre no limiar do risco ao mesmo tempo que nos envolve para o interior desta história marcante.

Existe um misto de tensão e erotismo a rodear "Lust, Caution", mas também de medo e sedução, com Ang Lee a explorar um universo narrativo onde ainda existe espaço para diversos elementos secundários sobressaírem. Veja-se o caso de Joan Chen como a esposa de Yee, uma mulher aparentemente simpática que passa boa parte dos seus dias a jogar mahjong com as amigas, ou Wang Leehom como Kuang Yu Min, um personagem idealista que parece demonstrar interesse pela protagonista embora apenas concretize o mesmo de forma tardia. Chia Chi também parece demonstrar interesse por Kuang Yu Min, mas a causa que ambos defendem sobrepõe-se sempre aos sentimentos que escondem um pelo outro. O argumento do filme, baseado no livro "Sè, Jiè" de Eileen Cheng, é competente a explorar os intrincados relacionamentos que envolvem os personagens, mas também a evolução que estes apresentam a nível de personalidade e as mudanças sociais e políticas que acompanham as suas histórias. O contexto histórico é fulcral para compreendermos o comportamento destes personagens. Yee procura defender a posição que conquistou, sendo conhecido pelos seus actos implacáveis perante os elementos revoltosos, chegando ao ponto de expor oralmente alguns dos seus feitos, embora nunca vejamos os mesmos. O poder deste homem aumenta com o avançar da narrativa, embora as suas cautelas em relação a Chia Chi diminuam a um ponto que a sua vida parece estar mesmo em perigo. Chia Chi começa como uma jovem inexperiente na representação que aos poucos se embrenha no mundo da espionagem. É inteligente, leal e disposta a tudo para cumprir os seus intentos, mas a frieza que lhe é exigida por vezes parece difícil de manter. As mudanças desta personagem são desde logo visíveis no contraste das roupas e maquilhagem que apresenta quando a encontramos na universidade e durante os momentos em que se faz passar pela Srª Mak. Na universidade surge simples, com o rosto descoberto, praticamente sem maquilhagem. Como Srª Mak surge com os lábios e unhas pintados de vermelho, mas também uma atitude mais confiante. Essa confiança é desde logo visível no primeiro jantar que tem a sós com Yee, onde a própria banda sonora remete para uma atmosfera de maior intimidade entre ambos, com as duas partes a parecerem estar em "missão de reconhecimento". O jantar apresenta um misto de descontração e tensão, tal como o momento em que ficamos na expectativa se este vai ou não entrar na casa de Chia Chi, algo que contrasta com a cacofonia de sentimentos expostos nas cenas de maior erotismo entre ambos. Ang Lee explora a história destes dois com a complexidade e ambiguidade que a mesma merece. Cada acto sexual entre ambos está longe de ser gratuito, com estas cenas a serem fulcrais para exporem os estados de espírito do casal. Começa com uma cena violenta até gradualmente entregarem-se aos prazeres carnais e partilharem sentimentos. É certo que Chia Chi odeia Yee mas, aos poucos, este sentimento parece mesclar-se com outros mais benignos em relação à figura do personagem interpretado por Tony Leung. Seria possível que a dupla de protagonistas depois de tantos actos sexuais e momentos em conjunto não começasse a sentir algo mais? Ang Lee responde-nos a isso, sempre sem deixar de lado alguma da ambiguidade que envolve os dois protagonistas, mas não vamos aqui revelar o desfecho do filme. O cineasta tem em "Se, jie" uma das suas obras mais recomendáveis, provavelmente não tão popular como "Crouching Tiger, Hidden Dragon", mas talvez seja um dos melhores exemplos onde ficamos perante a perícia de Ang Lee em controlar os ritmos da narrativa, em fazer-nos preocupar com os personagens que habitam a mesma ao mesmo tempo que é capaz de aproveitar o talentoso elenco que tem à disposição. "Se, jie" surge assim como um filme capaz de mesclar de forma competente espionagem e erotismo, ao mesmo tempo que nos coloca diante uma dupla de protagonistas complexa ao longo de uma obra cinematográfica que facilmente nos seduz, seja pelas suas imagens, seja pelos seus valores de produção, seja pelo seu argumento, seja pela sua banda sonora sublime, seja pelo talento de Ang Lee aqui exposto numa magnitude assinalável.

Título original: "Se, jie".
Título em inglês: "Lust, Caution".
Título em Portugal: "Sedução, Conspiração".
Realizador: Ang Lee.
Argumento: Hui-Ling Wang e James Schamus.
Elenco: Tony Leung Chiu-Wai, Tang Wei, Joan Chen, Wang Leehom.

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