03 março 2015

Resenha Crítica: "Rosewater"

     “Rosewater” inicia-se com a intrusão repentina de três indivíduos da polícia política iraniana ao apartamento da mãe do jornalista Maziar Bahari (Gael García Bernal), obrigando o protagonista a levantar-se da cama e a observar, indefeso, o vasculhar que os invasores vão perpetrar aos seus bens pessoais. O responsável pela operação é um tipo calvo e anafado, enfiado num fato sem gravata (Haluk Bilginer), que, na sua cordialidade cínica, corrompida pela ignorância, empunhará obras de arte ocidentais que incriminam o protagonista. «O que é isto?», inquire ele, triunfante. «Isto é porno?» «Não… não, não! É um filme italiano, um filme artístico.» «Porno…», sentencia o inspetor; «E o que é isto?», apontando para um DVD, «The Sopranos!» «Porno.» «Sopranos…!» «Pooorno…!»; e, segurando num vinil: «Leonard Cohen?!» «É só uma música...» «Judaica…?». É evidente que nenhuma resposta poderia ajudar Bahari a evitar o destino que lhe fora programado, e passados poucos minutos algemam-no e encaminham-no para as traseiras de um carro.
     A partir deste instante a narrativa envereda por um flashback, contextualizando o despoletar do acontecimento. Ficamos a saber que o jornalista reside em Londres, onde tem uma esposa grávida de três meses em casa. A separação entre os dois é emotiva, pois ambos se amam perdidamente, mas nada de grave se sucederá: assegura-lhe o jornalista, confiante, de que só se ausentará do país durante uma semana. A revista Newsweek encarregara-o de cobrir as eleições de 2009 no Irão, a sua terra natal, responsabilidade impossível de ser contornada.
     Bahari chega ao aeroporto de Teerão e apanha imediatamente um táxi, com o propósito de se dirigir a casa da sua mãe: uma senhora simpática e com personalidade, que, no entanto, como as restantes personagens secundárias da narrativa, será desenvolvida superficialmente. Após manterem a conversa em dia, a história avança para o dia seguinte, por ventura mais interessante. Nas primeiras horas da manhã, o jornalista imiscui-se no reduto de uns apoiantes de uma fação concorrente às eleições, por convite do taxista conhecido no dia anterior. Travamos então conhecimento com um bando de jovens calorosos, sem posses mas instruídos, cientes do radicalismo do atual presidente Ahmadinejad. Sedentos de progresso, colocaram as suas esperanças na eleição do seu opositor, Mir-Hossein Mousavi. Pondo de lado a sua imparcialidade, Bahari forma uma relação de amizade com estes simpáticos marginais, encantando-se facilmente com a sua consciência política.
     Infelizmente, porém, depois de um ato eleitoral de contornos duvidosos, a vitória cabe a Ahmadinejad. Enraivecidos, os seus opositores irrompem pelas ruas exigindo uma recontagem. Até concordamos com as suas pretensões mas, como tantas vezes acontece, as manifestações são monopolizadas, eventualmente, por um grupo de radicais com vontade de causar distúrbios, que aproveitam a atenção para recorrerem ao vandalismo. Viaturas são incendiadas, um edifício governamental vítima de uma invasão, e a intervenção de uma milícia governamental uma ocorrência inevitável. Assustados e ansiosos, os soldados abrem fogo sobre a multidão, derramando sangue inocente sem escrúpulos, desconhecendo que estavam a ser filmados pela câmara do protagonista.
     Refletindo ponderadamente no que fazer ao seu testemunho, Bahari recorre ao conselho de dois sensatos jornalistas estrangeiros. Questionam-no sobre as suas intenções, e alertam-no de que, na eventualidade de as concretizar, incorrerá num perigo indesejável. Temeroso destas consequências, e até com um bocado de ingenuidade, o protagonista divulgará, não obstante, as suas imagens às estações ocidentais. No dia seguinte, antes da hora de almoço, três polícias invadem-lhe o apartamento, acusando-o de espionagem. Retornamos à cena inicial, protagonizada pelo homem anafado, calvo e ignorante.
   Penso que neste ponto da narrativa já esboçámos uma noção básica do contexto político iraniano. De facto, o realizador e argumentista Jon Stewart não se coíbe, em “Rosewater”, de repetir de certa forma o método utilizado no The Daily Show, apresentando-nos a uma ocorrência verídica e contextualizando-a politicamente, distinguindo, com base na sua ideologia, marcada sempre pelo bom senso, quem é o herói e quem é o vilão. Não surpreende por isso que Maziar Bahari, um seu amigo pessoal, nos pareça um homem íntegro e profissional, e o governo de Ahmadinejad, o seu cárcere ditatorial, uma estrutura disfuncional e autoritária. Outro aspeto ideológico de Stewart transposto para o grande ecrã é o respeito que ele tantas vezes demonstra pelos grupos sociais mais pobres, expostos, neste caso, a acorrerem às urnas e a manifestarem-se com civismo. A representação efetuada aos opositores a Ahmadinejad, no entanto, evitou simplismos forçados, ilustrando-se sem problemas os delinquentes mais incendiários.
     O cárcere de Maziar Bahari mudará o rumo da narrativa, que, daqui em diante, se desenrolará numa deprimente prisão iraniana, de aparência quase desértica, onde reterão o protagonista por um período de quatro meses. A ação terá lugar, essencialmente, em dois espaços distintos, ambos propositadamente claustrofóbicos e mal iluminados: por um lado a sala em que Bahari será interrogado pelo seu zeloso “especialista”, o tal careca anafado, agora piamente convencido de que o jornalista é um espião, e, por outro, a sua cela, um quarto austero, sem qualquer mobília, de paredes altas e uma janela inacessível, onde o protagonista ficará em reclusão com os seus pensamentos, refugiando-se nas aparições imaginárias do seu pai e da sua irmã, também eles outrora vítimas da ditadura iraniana.
     Assim, o foco do filme analisado, longe de ser a contemplação do sofrimento de Bahari, assenta nas suas constantes lutas interiores expostas em conversas com os seus falecidos familiares. Distante da representação de um homem cheio de coragem, o prisioneiro é retratado como um indivíduo sensível e vulnerável e, portanto, comum, que tenta não soçobrar ao desespero através da recordação de memórias queridas. Chegará a perder algumas batalhas, e a certa altura até assinará uma confissão, mas é fácil simpatizarmos com ele dada a sua boa natureza.
     Apesar do prolongado cárcere a que é sujeito o protagonista, “Rosewater” não se alicerça numa atmosfera particularmente opressiva, distanciando-se da perturbação provocada por outros filmes com semelhantes premissas, como sucedeu com “Hunger” ou com “Harmony Lessons”. A tortura será quase exclusivamente psicológica, e, a dado ponto da narrativa, o especialista até defenderá, com convicção, a suavidade dos seus interrogatórios («Eu torturei-te?! O meu pai foi torturado pelo SAVAK… espancaram-no tanto que ele deixou de conseguir andar. Até agora, trinta anos mais tarde…» ). Esta situação não implica que não haja momentos intensos, mas estes por norma não apresentam violência física e, portanto, por mais indignos e maliciosos que sejam, não correspondem às nossas piores expectativas, esperançando-nos em relação à integridade do protagonista.
     Mas o cárcere não se fará só de ameaças e sofrimento e, para suavizar as circunstâncias, Jon Stewart introduziu, oportunamente, alguns momentos de bom humor, particularmente frequentes no último terço do filme, correspondente à sua fase menos pesada. Sobressai entre eles a cena memorável em que, após um inesperado acesso de esperança, Bahari começa a dançar comicamente em toda a extensão da sua cela, envergando uns chinelos manhosos e uma farda prisional contrastantes com o seu estado de euforia, imaginando estar a ouvir uma cantiga de Leonard Cohen. A suavização deste último terço não foi concretizada por acaso, e destina-se a terminar o filme de forma especialmente simpática. Traçamos, desta forma, um novo paralelo entre o filme e o The Daily Show, na medida em que o apresentador, e cineasta, mais uma vez aborda temas graves e relevantes, problematizando as suas consequências trágicas para, logo a seguir, as encarar com algum humor, preferindo fazer rir e consciencializar o espetador ao invés de suscitar emoções extremas.
     Mas é claro que nem tudo o que vemos em “Rosewater” tem paralelos noutros trabalhos e, de facto, a confiança com que o realizador dirigiu a sua primeira longa-metragem é surpreendente em alguns aspetos. Stewart construiu uma história realista e coerente, baseada no livro autobiográfico de Maziar Bahari, e geriu com sensatez não apenas o seu ritmo, mas também as emoções que pretendeu suscitar no espetador, mesmo que, por vezes, o tenha feito de forma pouco subtil. Criou ainda alguns episódios memoráveis e aproveitou com sensatez a cinematografia de Bobby Bukowski, como se comprova pela cena desenrolada no apertado pátio desértico da prisão, rodeado de paredes brancas onde sobressaem as sombras do arame farpado. Mais importante que isso, porém, foi a liberdade concedida a Gael Garcia Bernal, que, num filme centrado no personagem que interpreta, fazendo de iraniano quando é sul-americano, tem numerosas oportunidades para recorrer à sua expressividade ao variar naturalmente entre estados de euforia e de desespero. Entre danças e depressões, entre risos e súplicas por misericórdia, a câmara não cessará de o focar, por vezes demoradamente, levando-o elevar o nível do filme.
     É claro que se avista um outro percalço, mas estes são tudo menos frequentes. Num ou noutro caso a banda sonora é usada sem necessidade, como o da entrada do protagonista no estabelecimento prisional, e a ideia de fazer as personagens comunicarem em inglês para, ocasionalmente, soltarem expressões em persa não é muito convincente. Também já mencionei a superficialidade das personagens secundárias, mas este aspeto é compreensível – é evidente, desde o primeiro minuto, que a narrativa centrar-se-á, unicamente, em Maziar Bahari, e até há um certo esforço para humanizar o seu “especialista”. Seja como for, sem ser particularmente complexo ou deveras impressionante, “Rosewater” é uma boa estreia para Jon Stewart, que correspondeu às expectativas que nele tínhamos colocado. A sua única desilusão, que nem lhe pode ser atribuída, é a discrição com que passou pelas salas de cinema. Tivesse ele aprendido com Eastwood a retratar um “verdadeiro herói Americano”, e era possível que este texto tivesse mais visualizações. Mas nós cá não nos importamos, e, o mais provável, é que o Jon Stewart também não.

Ficha Técnica:

Nome original: "Rosewater"
Título em Portugal: "Rosewater - Uma Esperança de Liberdade"
Título no Brasil: "118 Dias"
Realização: Jon Stewart
Argumento: Jon Stewart
Elenco: Gael Garcia Bernal, Kim Bodnia, Dimitri Leonidas, Haluk Bilginer, entre outros.

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