12 março 2015

Resenha Crítica: "Relatos salvajes" (Relatos Selvagens)

 Não faltam vinganças, violência entre seres humanos e momentos algo surreais em "Relatos salvajes", uma obra cinematográfica que nos coloca diante de seis histórias que se iniciam e terminam ao longo desta antologia que procura expor-nos a elementos que perderam as estribeiras diante de situações adversas ou revoltantes, algo que os leva a cometer actos considerados imorais. Existe espaço para os actores e actrizes sobressaírem, apesar de, no final, "Relatos salvajes" não dar muito mais do que aquilo que nos promete inicialmente, ou seja, apresentar algumas cenas tensas, marcadas pela violência, que procuram expor algumas das injustiças da sociedade contemporânea, tais como a utilização abusiva da lei, as assimetrias sociais, a procura dos poderosos em escaparem da justiça, para além de nos colocar diante da facilidade do ser humano em perder o controlo, entre tantas outras temáticas que são expostas de forma bem directa, precisa, concisa e competente. "Relatos salvajes" tem algo a dizer e consegue, embora a sua mensagem seja relativamente universal, com Damián Szifron, o realizador e argumentista, a explorar como situações aparentemente banais podem conduzir à violência, ao mesmo tempo que exibe, em alguns momentos, algum prazer dos personagens principais em cederem aos seus instintos mais primitivos. Existe algum humor advindo do absurdo de algumas dessas situações, algo que fica desde logo demonstrado na primeira destas histórias, intitulada de "Pasternak", onde encontramos no mesmo avião Salgado (Darío Grandinetti), um crítico musical que devastou a tese do personagem do título, bem como Isabel (María Marull), a ex-namorada do citado Pasternak, com todos naquele voo a parecerem ter uma ligação com este elemento. Mais tarde percebemos que não é uma pura coincidência, mas sim um acto premeditado por Pasternak, com este a preparar uma vingança contra todos aqueles que o humilharam. Isabel traíra Pasternak com o melhor amigo, Salgado devastou a carreira do revoltoso quando ainda estava a dar os primeiros passos, não faltando a professora que o chumbou, o dono do supermercado onde trabalhou e foi despedido, entre outros elementos, com o personagem do título a preparar uma violenta vingança. Em "Las Ratas", a empregada de mesa (Julieta Zylberberg) depara-se com um antigo agiota, hoje vendedor imobiliário e político (César Bórdon) que outrora arruinara a vida do progenitor desta a ponto do mesmo cometer suicídio. A cozinheira (Rita Cortese) logo incita a protagonista a colocar veneno de rato na refeição deste indivíduo arrogante, algo que a personagem interpretada por Julieta Zylberberg reluta mas acaba por aceder. No entanto, a chegada do filho deste homem traz uma mudança de planos por parte da empregada de mesa, embora a cozinheira esteja disposta a colocar em prática a violência, mesmo que isso implique regressar à prisão. Na terceira história, que conta com o título "El más fuerte", uns insultos no trânsito por parte de Diego (Leonardo Sbaraglia), o dono de um luxuoso Audi, a Mario (Walter Donado), vão conduzir a um violento confronto quando este último se depara com o primeiro. A conclusão é hilariante, com o humor negro a estar presente, numa situação até então marcada pela intensidade, com esta a ser a história onde talvez Damián Szifron mais sobressai, quer pelo grotesco das situações, quer pela exposição do ser humano como um indivíduo capaz de tomar as atitudes mais cavernícolas em discussões de trânsito, quer a exibir como uma pequena troca de palavras pouco delicadas pode conduzir a uma erupção de violência. Diga-se que Walter Donado e Leonardo Sbaraglia são capazes de exporem com competência as personalidades peculiares dos personagens que interpretam, com o primeiro a dar vida a um indivíduo sem pejo em partir para a violência e o segundo a surgir como um elemento arrogante e pouco dado a grandes contemplações para com aqueles que o rodeiam.

 No quarto segmento, intitulado de "Bombita", encontramos Simón Fisher (Ricardo Darín), um indivíduo aparentemente calmo, a lidar com as malhas da burocracia. O seu carro é rebocado num local onde a linha que assinalava a proibição de estacionamento não era visível, algo que o leva a ser multado e a revoltar-se contra o sistema e atrasar-se para o aniversário da filha. Este é um especialista em demolição de edifícios e, ao ser confrontado com um conjunto de situações que considera injustas, logo decide colocar em prática os seus conhecimentos. Ricardo Darín, um dos melhores e mais populares actores argentinos da actualidade, atribui credibilidade e dimensão a este personagem que é uma autêntica bomba relógio prestes a explodir. No quinto segmento, "La Propuesta", deparamo-nos com a procura de Mauricio (Oscar Martínez) em encobrir o crime cometido por Santiago (Alan Daicz), o seu filho, um jovem que atropelou uma mulher grávida, algo que resultou na morte da mesma, tendo entrado em fuga. O carro que Santiago utilizara era o do seu pai. É então que o advogado de Mauricio resolve propor, em consonância com um elemento da justiça e o jardineiro, em troca de uma quantia avultada, que este último assuma o crime. "La Propuesta", tal como as outras histórias, expõe uma situação contemporânea, ao procurar explorar a tensão no interior de uma negociação intrincada entre um conjunto de indivíduos corruptos que procuram omitir a identidade do culpado de um crime. A procura dos poderosos em fugirem à justiça, para além da existência de um sistema judicial passível de ser corrompido, são expostos, embora de forma bastante superficial, com Damián Szifron a nunca sair do óbvio nos comentários que efectua ao longo do filme, algo que tira alguma profundidade a estas histórias que facilmente captam a nossa atenção. A sexta e última história, "Hasta que la muerte nos separe", apresenta-nos a Romina (Érica Rivas), uma mulher que descobre, na festa do seu casamento, que Ariel (Diego Gentile), o seu esposo, a traiu com uma colega de trabalho. Está o caldo entornado, com Romina a apresentar uma atitude explosiva e actos espalhafatosos, expondo toda a sua fúria diante do esposo. São seis histórias tensas, marcadas por alguma violência e muitas das vezes pelo absurdo, com um bom trabalho a nível de cinematografia de Javier Juliá, capaz de se adaptar a cada uma das diferentes narrativas, enquanto Damián Szifron procura fazer um comentário universal sobre a sociedade contemporânea e extrai algumas interpretações dignas de nota dos elementos do elenco (a sexta história é deliciosamente absurda com todos os elementos a contribuírem para esta situação, desde os actores e actrizes, passando pela cinematografia, banda sonora e realização). Existe algo de latino no modo como os personagens fervem "em pouca água", mas os temas e histórias que nos são apresentadas são facilmente discerníveis, com "Relatos Selvagens" a exibir, ainda que num tom algo satírico, uma sociedade que esconde dentro de si um imensidão de problemas prestes a explodirem. Violento, absurdo, marcado por algum humor negro e tensão, "Relatos Salvajes" apresenta-nos a seis histórias que surpreendem por nos conseguirem agarrar na igual medida, ao mesmo tempo que dá espaço para um leque alargado de actores e actrizes talentosos sobressaírem nos respectivos papéis. Não é uma obra-prima mas vale cada minuto da sua visualização ao mesmo tempo que nos deixa perante um conjunto de seres humanos que, perante situações extremas, são capazes de actos "selvagens". Se todos nós reagíssemos desta forma seria o fim da humanidade, mas a realidade é que as injustiças sociais existem, os actos irreflectidos dos seres humanos também e "Relatos Selvajes" consegue representar essa situação de forma eficaz. Poderia ser mais complexo? Parece óbvio que sim. No entanto, o resultado final também não é nada de se deitar fora, bem pelo contrário.

Título original: "Relatos salvajes". 
Título em Portugal: "Relatos Selvagens". 
Realizador: Damián Szifron.
Argumento: Damián Szifron.
Elenco: Ricardo Darín, Oscar Martínez, Leonardo Sbaraglia, Érica Rivas, Rita Cortes, Julieta Zylberberg, Darío Grandinetti.

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