08 março 2015

Resenha Crítica: "Pour une Femme" (Por Uma Mulher)

 No último terço de "Pour une femme", a nostalgia parece acercar-se dos personagens. Memórias do passado são levantadas, uma vida encontra-se prestes a perder-se, enquanto a banda sonora procura apresentar a delicadeza necessária para adequar-se aos episódios expostos ao longo do enredo sem sobressair em demasia em relação aos mesmos. A banda sonora, tal como a cinematografia, contribuem para esta atmosfera melancólica colocada por Diane Kurys na sua nova obra cinematográfica. Existem elementos auto-biográficos de Kurys, realizadora e argumentista, mas também ficcionais, partindo da descoberta de uma fotografia do seu misterioso tio Jean, um indivíduo com quem o seu pai deixou de falar, que parece ter mantido um curto affair com a mãe da cineasta, ou pelo menos é esta situação que esta cogita, algo que representa através dos protagonistas de "Pour une femme". Este é um filme que nos deixa diante de um história que procura mesclar romance, traição, elementos de espionagem e a representação de um país que se encontra a lamber as feridas dos episódios da II Guerra Mundial. O país é a França. A história desenrola-se na década de 80 e em 1946, no pós-II Guerra Mundial. Nos anos 80, após a morte da sua mãe, há três meses, Anne (Sylvie Testud), em conjunto com Tania (Julie Ferrier), pesquisa os bens deixados pela progenitora, cuidando a espaços do pai, um indivíduo que padece de uma doença grave. É então que encontram uma foto, onde se deparam com Léna (Mélanie Thierry), a mãe de ambas, acompanhada por Jean (Nicolas Duvauchelle), o irmão de Michel (Benoît Magimel), o esposo da personagem interpretada por Mélanie Thierry. Estas pouco conhecem Jean, tal como desconhecem muito do passado dos pais, dois elementos divorciados, algo que intriga Anne, uma argumentista. Anne procura reconstruir a história do passado da sua mãe, Michel e Jean, parecendo a filha mais apegada ao pai, um indivíduo que se encontra bastante doente, tendo no seu cão a sua melhor companhia. No presente, Michel mantém os seus fortes valores comunistas, algo que resulta num episódio de maior humor entre as duas irmãs para o tentarem confortar no leito da morte, ao mesmo tempo que exibe um comportamento bastante taciturno, nem sempre de fácil trato, mas capaz de ter um momento onde exibe que o amor pode não morrer com o final de uma relação ou de uma vida. No passado era bem diferente, apresentando um optimismo latente enquanto se preparava para tentar obter a nacionalidade francesa. Este nasceu em Kovel, na Ucrânia, espaço da União Soviética no período em que pediu a nacionalidade ao lado da esposa, Léna. Esta casara-se com Michel durante a II Guerra Mundial, quando se encontram num campo de concentração e Léna se preparava para ser condenada à morte. O casamento permitiu a sua salvação no interior do campo de concentração, desenvolvendo uma enorme gratidão para com Michel, de quem está grávida da primeira filha, Tania, um nome dado por parecer russo. Léna é uma mulher elegante, loira, algo misteriosa e de uma sensualidade que lhe permite despertar facilmente a atenção dos homens, incluindo Michel que se encantou pela mesma. Estes formam um casal aparentemente sólido, pelo menos no que nos é dado a conhecer nos flashbacks reconstruídos por Anne, enquanto investiga a intrigante história da sua família.

A história de Anne e Tania pouco é explorada, ou pelo menos não consegue despertar o mesmo interesse que a de Michel, Léna e Jean. Sabemos que não são muito próximas, mas também não se dão mal, com Anne a parecer ser mais próxima do pai do que Tania, procurando acompanhá-lo e estudar o seu passado com a mãe e Jean, enquanto Michel demonstra que, apesar de todas as contrariedades e o divórcio, nunca deixou de amar a esposa. Nos momentos iniciais do filme parece certo que Michel e Léna se amam. Podem ter pouco em comum. Ele gosta de política e é um fervoroso comunista. Ela não liga a política. Ele não gosta de cinema. Ela gosta de cinema e actividades capitalistas. Ela não quer ser apenas uma dona de casa. Ele parece tratá-la muitas das vezes dessa maneira. Ele é dedicado ao emprego e ao Partido. Ela parece que gostava de poder estar mais tempo com o esposo. Não deixam de apresentar alguma intimidade, com Michel a procurar integrá-la junto dos elementos do Partido, incluindo com Madeleine (Clotilde Hesme), com quem forma amizade. Esta é uma mulher adúltera que é casada com Maurice (Denis Podalydès), embora mantenha um caso extra-conjugal com Paul, um elemento do partido que é bem mais jovem do que esta. Léna diz que nunca seria capaz de trair o marido. Pelo menos é o que esta idealiza, com muito da sua vida a mudar gradualmente com a chegada de Jean, o irmão de Michel. Nicolas Duvauchelle consegue manter o mistério inicial em relação ao personagem que interpreta, um indivíduo que supostamente conseguiu escapar da União Soviética e procura restabelecer os laços com o irmão, embora muitas das vezes tenhamos dúvidas sobre a sua actividade profissional e identidade. Veja-se quando arranja tecidos para Michel poder vender roupas na alfaiataria aos mesmos preços baixos, mas também como o ensina a produzir fatos feitos à mão de acordo com as regras do "pronto a vestir", alterando as medidas dos mesmos ao invés de produzir uma vestimenta por semana. Jean fica instalado na casa do casal, iniciando aos poucos uma relação de cumplicidade com Léna, algo que a vai deixar com algumas dúvidas em relação ao seu casamento com Michel. É certo que está grata por este ter salvo a sua vida, mas Jean parece trazer um mistério e energia que o seu esposo não tem. Jean procura não trair o irmão, sabendo que as suas actividades são perigosas demais para algum dia poder ter uma vida estável, encontrando-se a procurar eliminar elementos nazis que se encontram escondidos, participando activamente numa célula procurada pela polícia. Aos poucos forma-se um triângulo amoroso entre o trio, com o espaço da casa a transformar-se num local onde as tensões são latentes e as dúvidas são mais do que muitas. Michel sente que Léna parece estar atraída pelo irmão, algo visível quando estes dois últimos dançam num baile ou conversam à noite no quarto onde Jean se encontra instalado. Léna parece indecisa no que fazer. Jean teme não controlar os seus impulsos. Michel parece claramente desagrado com toda a situação, sobretudo devido a nutrir um amor notório pela esposa.

Diane Kurys procura explorar este triângulo amoroso no meio de um contexto político quente, com Michel a ser um comunista fervoroso que se recusa a aceitar as atrocidades cometidas por Estaline, tal como parece ser incapaz de lidar com o facto de poder vir a perder a esposa entrando em claro confronto com o irmão, não só do ponto de vista ideológico, mas também a nível pessoal. Jean e Michel até pareciam ter formado uma amizade, mas os segredos do primeiro e o interesse que gera e desperta em Léna fazem com que o convívio entre ambos seja contaminado, enquanto uma filha procura descobrir a verdade sobre o passado nebuloso da história dos pais. Não existe direito a grandes surpresas, com Diane Kurys a basicamente cumprir em expor aquilo que esperamos numa história do género, ao mesmo tempo que procura introduzir um subtexto político associado aos dois períodos históricos retratados. Esse contexto fica desde logo latente no início do filme quando ouvimos na rádio "Parece que o Rainbow Warrior foi afundado por mergulhadores de combate franceses, o que contradiz o relatório oficial. O governo está na defensiva. Existem chamadas para a renúncia de Mitterrand, comparando o caso Greenpeace ao de Watergate". Não é uma citação inocente, num filme que procura ainda expor os ideais comunistas do protagonista e o optimismo que este tem em relação ao Partido Comunista, embora Diane Kurys também deixa latente as atrocidades do Governo de Estaline, sempre sem deixar de lado que Léna e Michel estiveram num campo de concentração. As origens judaicas do protagonista não são esquecidas, tais como as de Lena, com ambos a terem sofrido na pele esta situação perante as políticas loucas de Adolf Hitler. No caso, acabaram por se conhecer num espaço onde a esperança pouco existe, formando uma relação que está longe de ser efusiva mas é credível e marcada por alguma cumplicidade. Michel parece amá-la. Léna parece sentir algo mais do que gratidão por Michel. Jean intromete-se na vida do casal e provoca um furacão de sentimentos que vai afectar para sempre o matrimónio dos protagonistas. A história do passado dos protagonistas, explorada nos flashbacks, é sempre mais interessante do que o enredo que envolve os personagens no presente, com "Pour une femme" a concentrar-se sobretudo na história deste trio de protagonistas, procurando evitar os sentimentalismos excessivos ao mesmo tempo que nos apresenta a alguns personagens secundários que incrementam a narrativa. Veja-se o caso de Madeleine, uma mulher que se encontra entre um casamento sem amor e uma paixão com um homem mais jovem que não parece ter alicerces para durar, algo que poderá conduzir à sua expulsão e de Paul do partido. Esta representa uma mulher que procura a sua independência e expor a sua individualidade, quer no interior do Partido, quer no interior da sociedade, ao mesmo tempo que tenta ser feliz do ponto de vista amoroso sem estar a ligar aos estereótipos do seu tempo. Temos ainda Sacha (Clément Sibony), um colega e amigo de Jean, para além do caso de Georges (Jean-Claude Bolle-Reddat), o funcionário da loja de Michel.

Georges é sobretudo importante para percebermos que os ideais políticos de Michel não são expostos apenas no interior do Partido Comunista no qual está inserido, mas também na sua vida em sociedade, com o protagonista a recusar-se a ser tratado por chefe ou senhor, procurando que o personagem interpretado por Bolle-Reddat o trate como alguém igual a si. Benoît Magimel consegue atribuir a dimensão necessária a este personagem idealista, numa obra que apresenta ainda uma procura em representar assertivamente os elementos associados às épocas expostas, quer a nível do guarda-roupa, quer dos comportamentos, quer dos cenários, exibindo alguns bons valores de produção. A própria utilização da cor foi pensada para corresponder às duas épocas específicas, algo comentado por Kurys: "Some colors were eliminated, because some colors we think of in the 1950s only exist in the collective imagination. So, in the apartment and the store we favored wood, beige, green, and brown which correspond to the period after the war. For the 1980s, we went to more colorful hues". Este comentário da cineasta exprime bem a sua procura em atribuir credibilidade a "Pour une femme", incluindo em pormenores como a paleta cromática, tendo em vista a que a obra pareça realmente desenrolar-se no final da década de 40 e nos anos 80. É um drama competente, mesclado com elementos de romance e alguma intriga política, que conta com trio de protagonistas que consegue facilmente despertar o nosso interesse, onde parece existir sempre uma certa nostalgia a rodear o enredo. Esta é uma representação muito pessoal de Diane Kurys sobre um possível triângulo amoroso formado pelos seus pais e o misterioso tio, procurando colocar-nos diante da percepção que criou do caso e dos seus progenitores. Diga-se que a representação de elementos da família no grande ecrã e a procura de investigar e interpretar os mesmos não é uma novidade nas obras de Diane Kurys, algo salientado pela própria no press kit de "Pour une femme": "As 'Entre Nous' was a film about my mother, so this film speaks of my father – this man I misunderstood and who, it seems, I resemble. Even if I’m told that he might not be my father, I identified with him and I felt the need to do him justice, to "know” him through a film, since I had known him so little in life. For A Woman is the portrait of a man betrayed. By his brother, by his woman, by the Communist party, by life...". No final, ficamos a saber mais sobre este triângulo de personagens cujas relações aos poucos se degradam, enquanto Diane Kurys permite que Mélanie Thierry, Benoit Magimel e Nicolas Duvauchelle consigam destacar-se pela positiva numa história bastante pessoal da cineasta. A personagem interpretada por Sylvie Testud aparece praticamente como um duplo da realizadora, surgindo como uma mulher que aos poucos parece procurar mais os sentimentos vividos pelos pais naquele período quente do pós-Guerra do que encontrar a verdade sobre Jean e o affair. Diga-se que "Pour une femme" também é um filme sobre sentimentos, sobre dois homens que amam uma mulher de forma distinta, enquanto esta se encontra na mesma situação em relação a ambos. Mais tarde sabemos que se separam. No material que pertencia a Léna encontramos elementos que permitem reconstruir alguns episódios do passado. Na figura envelhecida de Michel encontramos os sentimentos deste período nebuloso da vida do casal ainda bastante vivos. No final fica sempre a ideia que Diane Kurys nos deixa perante uma homenagem às qualidades e defeitos dos seus pais, quer em relação aos elementos que conheceu sobre os mesmos, quer em relação aos pormenores que desconhece, sabendo que acima de tudo isso estão os sentimentos que nutre pelos mesmos e estes nutriram um pelo outro.

Título original: "Pour une Femme". 
Título em Portugal: "Por Uma Mulher". 
Título em inglês: "For a Woman". 
Realizadora: Diane Kurys.
Argumento: Diane Kurys.
Elenco: Benoît Magimel, Mélanie Thierry, Nicolas Duvauchelle.

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