11 março 2015

Resenha Crítica: "Paddington" (2014)

 Filme para toda a família que é capaz de chegar a adultos e crianças sem tratar os primeiros como idiotas, "Paddington" teve como base o popular personagem criado por Michael Bond, conseguindo mesclar com surpreendente eficácia actores e actrizes reais com um urso em CGI. Existe alguma candura, realismo e fantasia a rodear o enredo de "Paddington", com Paul King a explorar uma história centrada num urso que tem mais dimensão do que muitos personagens humanos que encontramos no grande ecrã, ao longo de um filme capaz de abordar temas que facilmente chegam a um público alargado. Não faltam temáticas sobre a alienação no espaço citadino, as dificuldades de adaptação dos emigrantes, o elogio à diferença, mensagens de direito à defesa dos animais e dos valores familiares, quase sempre num tom leve, fantasioso e capaz de nos fazer esboçar diversos sorrisos. A própria tensão que se esboça no último terço nunca chega a ser exposta num nível exaustivo, com a antagonista, interpretada por Nicole Kidman, a nunca parecer poder colocar em causa a vida do protagonista, com o tom do filme a ser quase sempre marcado por uma enorme leveza. Procura dispor bem o espectador e alcança esse desiderato, conseguindo aliar elementos de humor físico ao mais refinado, muitas das vezes associado ao choque de culturas entre o personagem do título e a família que o vai acolher. No prólogo, encontramos Montgomery Clyde (Tim Downie), um geógrafo, a aventurar-se pelo Peru, onde descobre dois ursos que conseguem contactar com o mesmo, apresentando enorme inteligência a ponto de aprenderem a falar. O momento é de muito humor, numa espécie de falso documentário gravado por Clyde, enquanto este revela que deu aos ursos os nomes de Lucy (Imelda Staunton) e Pastuzo (Michael Gambon), com estes a terem ficado fãs de marmelada. Ficou a promessa de um dia estes serem bem recebidos em Londres se o visitassem, algo que, muitos anos depois, ainda não aconteceu. No presente, deparamo-nos com Lucy e Pastuzo a cuidarem de Paddington (Ben Whishaw), o seu sobrinho, órfão de pais, um urso curioso que adquiriu o enorme gosto por marmelada. Estes parecem viver de forma feliz, pelo menos até um tremor de terra destruir parte da habitação de ambos e conduzir à morte de Pastuzo. Lucy decide enviar o sobrinho para Londres, com este a partir com o seu kit de sobrevivência que é como quem diz, um conjunto de recipientes de marmelada. Na estação de metro, Paddington logo percebe que o ideal que criara sobre a cidade de Londres era errado. Raramente existe tempo para as pessoas se cumprimentarem, os bons dias e boas tardes não são dados a estranhos, com a alienação a ser tal que um urso pode andar pela estação de comboios que ninguém liga. Claro que existe muita ilusão, algo notório quando encontramos Mary (Sally Hawkins), uma ilustradora, a ficar com pena deste urso de chapéu vermelho a ponto de decidir levá-lo para casa, um acto que vai contra a opinião do esposo, Henry Brown (Hugh Bonneville), de quem tem dois filhos, Judy (Madeleine Harris) e Jonathan (Samuel Joslin). Estes habitam ainda com a Sr.ª Bird (Julie Walters), uma idosa bastante peculiar que guarda uma espécie de aspirador diferente para cada ocasião na sua dispensa, surgindo muitas das vezes como a voz da razão.

 Henry mostra-se algo avesso a contar com a presença de Paddington em casa. Este é um analista de risco que procura evitar qualquer situação que coloque os seus filhos e a sua casa em perigo. A sua esposa é uma ilustradora algo sonhadora, enquanto Judy encontra-se numa idade onde tudo o que os pais fazem a parece envergonhar. Por sua vez, Jonathan apresenta uma enorme rebeldia, iniciando desde logo uma afinidade com Paddington. O humor vai resultar acima de tudo do choque cultural, ou melhor de espécies, entre estes elementos. Paddington é um urso habituado a ambiente selvagem que apenas tinha umas vagas noções do que era Londres. Os Brown claramente não sabem como lidar com um urso falante e bem educado mas incrivelmente trapalhão. Não faltam momentos deste a utilizar as escovas de dentes para tirar a cera dos ouvidos, a deslizar pelo corrimão da habitação, a alagar a casa, a expor a sua inabilidade perante as escadas rolantes da estação do metro, entre muitas outras situações. Os momentos no metro são hilariantes, com Paddington a levar demasiado à letra as indicações, enquanto se envolve em confusões e somos surpreendidos pela fluidez de movimentos do personagem. Existe um trabalho meritório da equipa de animação a ponto de tornar quase real este urso de movimentos antropomórficos, com a voz de Ben Whishaw a ser fundamental para este misto de ingenuidade, candura e atrapalhação que rodeia Paddington. O argumento é sagaz a explorar este elemento que se encontra claramente fora do seu habitat, com "Paddington" a deixar-nos diante da típica história do "peixe fora de água", enquanto assistimos à procura do urso em tentar encontrar Montgomery Clyde. Inicialmente, Jonathan procura entregar Paddington para um orfanato ou como salienta "uma instituição para jovens almas cujos pais já faleceram", um nome mais benigno para a primeira opção (a fazer recordar as recentes trocas de "Troika" para "instituições"), num momento de humor inteligente do filme com o argumento a procurar jogar com as palavras (temos ainda os trocadilhos com o termo "urso"). No entanto, Mary decide ajudar Paddington a encontrar o geógrafo, uma tarefa aparentemente complicada devido à expedição não contar nos registos oficiais. O chapéu de Paddington é uma prova da presença de Montgomery no Peru, com este geógrafo a ser visto pelo urso como uma das esperanças para ajudá-lo a encontrar um lar em Londres. Claro que Paddington começa a sentir-se em casa junto dos Brown, mas uma série de disparates conduzem a que a sua presença nem sempre seja vista como uma boa ideia, apesar do seu bom fundo parecer inquestionável. Enquanto Paddington começa a conquistar os elementos dos Brown e o espectador, também assistimos a Milicent (Nicole Kidman), uma taxidermista, a procurar eliminar o protagonista, num acto que está associado à expedição de Montgomery. Aos poucos o urso começa a ser perseguido, com Milicent a surgir como uma vilã relativamente unidimensional, com Nicole Kidman a parecer ter desfrutado imenso de dar vida a esta mulher fria e calculista que procura perseguir o simpático protagonista. Não é um perigo notório, parecendo sempre certo que mais tarde ou mais cedo Paddington vai salvar-se e ser aceite no interior dos Brown. Pelo caminho faz-nos rir com os seus actos, sejam estes levar demasiado à letra o que vem escrito nas escadas rolantes do metro, seja a deliciar-se com marmelada, seja a pensar de forma ingénua que Londres é um local onde todos se cumprimentam, seja devido ao facto do seu pelo ficar completamente eriçado após um banho, entre outros. Existe também um comentário sobre a sociedade contemporânea e a incapacidade que muitas das vezes temos em "olhar para o lado". Andamos a correr de um lado para o outro e esquecemo-nos muitas das vezes que ao nosso lado pode estar alguém que precisa de ajuda. No caso de "Paddington", um urso bastante peculiar procura adaptar-se a um novo habitat, enquanto assistimos agradavelmente surpreendidos à forma sublime como o realizador Paul King consegue mesclar elementos que tanto dizem aos adultos e às crianças.

 Paul King surpreende ainda na forma como consegue tornar natural a interacção entre um urso e os seres humanos. Facilmente "compramos" a ideia e acreditamo-nos na existência de Paddington, ao mesmo tempo que o elenco contribui para essa situação. Ter intérpretes como Hugh Bonneville, Sally Hawkins, Peter Capaldi, Nicole Kidman, Jim Broadbent ajuda imenso, com o talento dos actores e actrizes a sobressair mesmo nos momentos mais anódinos do filme. Veja-se o caso de Hugh Bonneville, com o actor a dar credibilidade ao previsível arco do seu personagem, um elemento algo pragmático em relação à presença de Paddington que aos poucos se deixa conquistar pelo mesmo. A Sally Hawkins é fácil oferecer elogios, com esta a interpretar uma mulher algo sonhadora, sentimental e por vezes ainda mais infantil que os seus dois filhos. O ambiente da casa dos Brown é credível, tal como muito do universo narrativo que o rodeia, algo que incrementa uma história capaz de agradar a adultos e crianças, onde a fantasia mescla-se com a realidade na justa medida. As crianças (e adultos) certamente irão desfrutar mais do humor mais físico inerente à inadaptação de Paddington ou às suas desventuras, incluindo a procurar devolver uma carteira a um ladrão, ou a infiltrar-se num arquivo, enquanto os adultos certamente irão apreciar alguns dos jogos com a linguagem, bem como os comentários sobre a sociedade moderna. No entanto, os próprios momentos mais infantis facilmente despertam um sorriso, com Paul King a ter plena consciência e respeito pelo material que tem entre mãos. A cidade de Londres é explorada, quer sejam as suas ruas, quer seja o metro, quer sejam as suas lojas, mas também a atmosfera que envolve este espaço urbano, com Paul King a demonstrar uma enorme simpatia para com o mesmo no final. Inicialmente demonstra as dificuldades que "alguém de fora" sofre para se adaptar ao território, numa metáfora relacionada com os emigrantes que se dirigem para o local em busca de melhores condições de vida, com Paddington a nunca deixar de lado algumas mensagens subtis e sérias, escondidas no seu tom leve, não faltando pelo caminho referências a obras como "Missão Impossível" e uma visão do mundo que por vezes parece saída da mente de Wes Anderson (veja-se como Paddington apresenta os elementos que habitam a casa dos Brown). Vale ainda a pena realçar todo o cuidado colocado na representação das diferentes divisórias da casa dos Brown, com cada uma a reflectir a personalidade dos seus habitantes (um exemplo paradigmático é o quarto do casal, marcado por tonalidades vermelhas). Divertido, surpreendentemente inteligente e marcado por um elenco de actores e actrizes competentes, "Paddington" surge como um filme para toda a família irresistível, capaz de nos fazer preocupar e acreditar no personagem do título ao mesmo tempo que consegue dispor bem e deixar-nos com um enorme sorriso nos lábios. Não apresenta divagações sobre a humanidade, nem procura apresentar uma profundidade extrema, "limitando-se" a cumprir com êxito o propósito de divertir o espectador ao longo da sua duração. Tendo em conta os risos (incluindo da minha parte) no visionamento de imprensa, parece que o propósito foi conseguido.

Título original: "Paddington". 
Realizador: Paul King.
Argumento: Paul King e Hamish McColl.
Elenco: Hugh Bonneville, Sally Hawkins, Julie Walters, Jim Broadbent, Peter Capaldi, Nicole Kidman, Ben Whishaw.

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