17 março 2015

Resenha Crítica: "Mommy" (Mamã)

 Entre o exagero e a sobriedade, entre os silêncios bem sonoros e uma banda sonora marcante e arreigadamente pronta a fazer-se sentir, "Mamã" continua a exibir a evolução de Xavier Dolan como cineasta, num filme simultaneamente inebriante e sufocante que nos agarra e nos expulsa, despertando os sentimentos mais dicotómicos ao mesmo tempo que se exibe como uma obra cinematográfica que não nos consegue deixar totalmente indiferentes. Nem sempre é fácil de visualizar, tal como se revela uma obra difícil de odiar, exigindo de nós comprometimento, quer para com os personagens, quer para com o ego de Xavier Dolan, visível em alguns exageros estéticos, com o cineasta a criar uma obra capaz de bombear emoções com a mesma facilidade com que nos aliena. É um objecto estranho que se infiltra dentro de nós e não nos larga. Passa o tempo e as suas imagens continuam a atormentar a nossa memória, a dizer-nos que os exageros de Dolan se calhar não eram assim tão excessivos, que a música Wonderwall da banda Oasis era essencial para o momento definido, que "On ne change pas" de Céline Dion ganha toda outra dimensão aquando da sua exibição no filme, ao mesmo tempo que "Born to Die" de Lana del Rey nunca fez tanto sentido. Diga-se que a banda sonora é magnífica, não só pela forma como se adequa, mas também como surge como um corpo estranho da narrativa, onde "Blue" de "Eiffel 65" é recuperado e utilizado sem pejo. O enredo desenrola-se num Canadá ficcional mas ao mesmo tempo tão real, onde foi aprovada uma lei na qual os pais poderiam internar os seus filhos que padecessem de problemas a nível comportamental se estivessem em situações de privação financeira ou estes colocassem em perigo a integridade dos progenitores e daqueles que os rodeiam. A medida é descrita logo no início do filme, sendo ainda revelado que estes indivíduos, ainda considerados menores, são internados sem serem levados a julgamento. Esta questão é colocada a Dianne "Die" Després (Anne Dorval), uma mãe solteira, viúva, bastante peculiar que procura cuidar de Steve (Antoine-Olivier Pilon), o seu filho, um adolescente com quinze anos de idade que padece de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Estes não formam uma relação que podemos chamar de "normal" entre mãe e filho. Distribuem palavrões, apresentam os sentimentos de forma exagerada, surgindo como dois seres humanos algo alienados da sociedade que os rodeia, com Diane a procurar sustentar um lar que se encontra à beira da ruptura com os comportamentos de Steve e as dificuldades desta em conseguir um emprego fixo. Este é uma figura que inicialmente quase chegamos a desprezar e até a embirrar. É violento, mal-educado, racista, incapaz de expor os sentimentos de forma adequada, mas aos poucos vamos ficando a conhecer melhor esta figura complexa. Tem momentos de maior humanidade, ainda que estranhos, tal como oferecer um colar a dizer "Mommy" à sua mãe, num gesto que esta coloca em causa devido a pensar que o rebento roubou o adereço. No início do filme encontramos este personagem a sair do centro de detenção onde se encontrava e provocou distúrbios, com Diane a assinar o documento no qual assume a responsabilidade da guarda do mesmo. Parece temer o filho, mas também amá-lo, com estes dois a serem duas forças da natureza difíceis de serem controladas pelas regras, pela sociedade e até pela câmara de Xavier Dolan.

 Se o filho distribui palavrões aos guardas e enfermeiros, a mãe apresenta uma atitude insolente, sobressaindo o momento em que tira o chaveiro com a caneta e assina "Die" com o coração a acompanhar a letra "i". Nem sempre compreendemos Steve, tal como nem sempre vamos compreender Anne, nem seria isso que certamente Xavier Dolan deveria pretender quando elaborou "Mommy". Estes dois formam uma relação demasiado complexa, feroz e intensa para conseguirmos compreender totalmente os seus sentimentos, algo que nos deixa muitas das vezes desarmados perante as imagens em movimento e as emoções emanadas por estas. Diane procura defender e cuidar o filho mas também evitar que este se envolva em mais problemas, algo que a conduz a desconfiar constantemente do mesmo. Steve apresenta um espírito de protecção demasiado elevado em relação à sua mãe, com ambos a serem os primeiros a defenderem-se e a atacarem-se mutuamente. Antoine-Olivier Pilon tem uma interpretação que facilmente promete marcar a sua carreira, atribuindo uma naturalidade notável aos exageros e comportamentos deste jovem, ao mesmo tempo que a espaços exibe algumas das fragilidades deste indivíduo. É uma interpretação muito física, sobretudo nos momentos de maior violência ou extravagância do jovem, algo notório quando discute com a mãe e entra num estado de loucura que apenas termina quando fica ferido. Os close-ups, por vezes extremos, permitem exacerbar e expor os estados de alma deste personagem, com Antoine-Olivier Pilou a ser competente neste capítulo (bem como Anne Dorval e Suzanne Clément, duas actrizes que já tinham colaborado com Xavier Dolan em "J'ai tué ma mère"). Também é capaz de exibir o seu lado mais frágil. Veja-se quando descobrimos que os seus gostos musicais, bastante distintos e por vezes marcados por canções que não o esperaríamos encontrar a ouvir, devem-se ao facto destas músicas constarem numa mixtape que o seu pai efectuara para escutarem numa viagem para Califórnia. Steve gosta de dançar, de cometer actos que parecem aparentemente irracionais, de ser o centro das atenções, tendo uma enorme dificuldade em estar quieto e uma enorme facilidade em fazer merda. Os seus gostos musicais são como a sua personalidade: de extremos. Diga-se que a banda sonora é essencial para o filme. Por vezes adequa-se aos momentos, por vezes parece estranha aos mesmos, mas raramente causa indiferença, tal como estes estranhos personagens que habitam o enredo. O quotidiano entre Die e Steve é sufocante, bizarro, recheado de sentimentos díspares e a noção de que o segundo a qualquer momento pode explodir e tornar-se incontrolável. Diane procura cuidar do lar, embora não consiga um emprego fixo para além de uns biscates como tradutora. Steve quer um dia ir para Julliard mas o mais certo é dar-se mal com algum dos seus actos impensados. Veja-se os momentos no táxi, onde ofende o taxista por ser negro. Die também ofende o taxista, sendo expulsa do veículo, tal como o filho que logo irrompe em fúria contra o motorista devido a ter ofendido a mãe.

 Não parece existir meio-termo para Diane e Steve. Ambos não são pródigos na utilização da linguagem, utilizam vernáculo impróprio, praguejam com uma facilidade enorme, mesmo entre si, existindo uma estranha relação de proximidade entre ambos que não se pode reduzir apenas a algo de edipiano. O quotidiano destes dois personagens muda com a entrada em cena de Kyla (Suzanne Clément), a vizinha da frente, uma mulher casada com Patrick, de quem tem uma filha. Kyla é uma professora em licença sabática, mais reservada do que Diane e Steve mas parece igualmente inábil a expor os seus sentimentos e a falar, formando com estes uma relação de enorme proximidade. Diga-se que o próprio formato do filme (filmado em formato 1:1 algo que permite concentrar muita da atenção nos protagonistas), quase prendendo os personagens a uma pequena moldura, adensa esta proximidade e claustrofobia que se gera em torno do trio, apenas se abrindo um pouco mais num momento onde Steve resolve exibir que nem as limitações do ecrã são fortes o suficiente para o amarrarem. Diane fica próxima de Kyla, com esta última a surpreendentemente não se sentir repelida pela presença de Steve, bem pelo contrário. Veja-se a refeição que partilham em conjunto, num misto de intimidade e estranheza, com Steve a não se calar, enquanto Diane procura controlar o filho e Kyla demonstra os seus problemas a nível de imposição, com os três a revelarem os seus problemas e a exibirem que existe muito mais a uni-los do que inicialmente poderíamos esperar. Isso não implica que Kyla não chegue a passar-se por completo com este. Veja-se quando Steve, num dos seus vários momentos de dança e exageros a nível comportamental, decide provocar Kyla ao máximo para esta dançar consigo. Mexe-lhe nos seios, provoca-a verbalmente, tira-lhe um colar, até esta ameaçá-lo violentamente perdendo por completo as estribeiras a ponto deste urinar-se com medo. É um momento intenso, onde aos gestos de Steve se junta em pano de fundo a música "Blue", com Xavier Dolan a recorrer de forma sublime à utilização da música diegética. Estes três personagens vão ser a força motriz do enredo. Com Kyla assistimos por vezes a momentos de maior leveza e descompressão, incluindo quando ela e Die vão a circular de bicicleta e Steve anda pela estrada com um carro das compras a atirar alimentos para os veículos que se encontram atrás de si. Parece um momento saído de um sonho bizarro de um conjunto de personagens para quem lidar com a realidade por vezes parece tarefa complicada. É o amor de Die pelo filho que muitas das vezes a parece fazer aguentar as suas atitudes, para além de ter de enfrentar um processo contra Steve devido aos danos provocados pelo mesmo. Paul, um advogado, ainda a tenta ajudar, demonstrando interesse por Die, mas Steve logo o parece procurar afastar, em mais uma das suas várias atitudes violentas. É praticamente impossível ignorar o desempenho magnífico de Anne Dorval como esta mulher que está longe de ser sempre uma pessoa agradável, mas que facilmente desperta a nossa atenção pela sua procura constante em lidar com um filho deveras complicado.

 Die parece ter expectativas em relação a Steve, procurando evitar entregá-lo para um hospício, parecendo certo que deseja vê-lo a ter um futuro mais promissor do que aquele que se parece avizinhar do mesmo. Os personagens que rodeiam o enredo de "Mommy" nem sempre são agradáveis. Diga-se que os próprios diálogos que trocam por vezes reflectem um nível de educação baixo, em particular, os de Die e Steve. No entanto, tal como nos repelem, estes personagens também nos aproximam, em parte devido ao mérito de Xavier Dolan que constrói algo de muito próprio em volta destes elementos. Filmes sobre relações entre pais e filhos não são novos. No entanto, Xavier Dolan atribui a "Mommy" uma atmosfera quase claustrofóbica, por vezes bizarra, tensa e marcante a esta relação entre Steve e Die. Confrontam-se, defendem-se, atacam-se, temem-se e surpreendem-nos. A dinâmica entre Anne Dorval e Antoine-Olivier Pilon é fundamental, bem como a naturalidade que Xavier Dolan concede à entrada da personagem interpretada por Suzanne Clément em cena. Esta interpreta uma professora em dificuldades do ponto de vista emocional que veio morar para aquele local devido ao facto da profissão do esposo, um programador informático, obrigar o casal a constantes mudanças. Clément é o elemento sublime que adicionado a Dorval e Pilon permite elevar uma narrativa marcada por um argumento coeso, embora pareça sempre certo que a força deste último centra-se muito mais na intensidade que Xavier Dolan atribui à realização. Dolan realiza uma obra de extremos: sentimentos são oprimidos e extravasados; cores berrantes são contrastadas com tonalidades discretas; músicas magníficas como "Wonderwall" dos Oasis partilham o mesmo tempo de antena de objectos estranhos como "Blue" dos Eiffel 65; diálogos que parecem saídos de um tasco em ponto alto de bebedeira dos seus clientes são contrastados com falas mais sérias e profundas; actos de violência são colocados em contraponto com momentos de maior fragilidade emocional; movimentos de câmara bruscos destoam de planos mais fixos; tonalidades vermelhas e amarelas esverdeadas invadem os cenários interiores e surgem díspares da crueza de algumas cenas filmadas em espaços exteriores. É um filme de contrastes, de sentimentos, de imagens que nos fascinam, que nos atrai e nos repele, que nos fascina e nos escandaliza. Nem sempre é fácil de visionar, tal como não é fácil de esquecer. Talvez aqui residam alguns dos maiores méritos de "Mommy", ou seja, na sua capacidade de estimular os sentidos e não nos deixar indiferentes, de despertar os sentimentos mais díspares ao longo da sua visualização. No final não auguramos um grande futuro a estes personagens, mas saímos com a sensação de termos partilhado estes momentos que nos são apresentados com os mesmos, tal a proximidade que Xavier Dolan cria entre a obra e o espectador, beneficiando do elogiável trabalho de André Turpin na cinematografia. Ao longo de "Mommy" podemos duvidar dos nossos sentimentos em relação ao filme, mas raramente conseguimos afirmar que este nos deixou indiferentes, bem pelo contrário. "Mommy" é um filme de disparidades que nos conquista exactamente pelas suas dicotomias. É simultaneamente exagerado e contido, é irrealista e realista, apresenta tonalidades berrantes e discretas, ao mesmo tempo que nos coloca perante um conjunto de estranhas relações humanas que aos poucos despertam e repelem a nossa atenção. Quando menos nos damos por isso já "Mommy" se apoderou de nós e deixa claro que a confiança enorme de Xavier Dolan em si próprio tem alguma razão de ser, com o seu talento como realizador a ficar mais uma vez confirmado.

Título original: "Mommy".
Título em Portugal: "Mamã". 
Realizador: Xavier Dolan.
Argumento: Xavier Dolan.
Elenco: Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément.

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