16 março 2015

Resenha Crítica: "Leviathan" (Leviatã)

 Andrey Zvyagintsev vai às entranhas da Rússia profunda e expõe-nos a uma nação onde a corrupção e a violência dominam, algo que promete afectar a vida de Kolya (Alexei Serebriakov), o protagonista de "Leviathan". Não é por acaso que no escritório de Vadim (Roman Madyanov), o presidente da Câmara de Pribrezhny, uma cidade costeira no Norte da Rússia, encontramos um retrato de Vladimir Putin, nem é casual encontrarmos expostos em grande destaque a carcaça de uma baleia e barcos destruídos encalhados no mar, com estes últimos a simbolizarem, em parte, o estado a que chegou este país. Diga-se que esta história surge como um extrapolar para algo mais lato em relação à Rússia dos nossos dias, seja esta urbana ou rural. Situações "esquisitas" é o que não faltam neste país, quer a nível de política interna, quer a nível de política externa, com "Leviathan" a deixar-nos perante um homem que se vê diante de uma situação onde as malhas da burocracia e corrupção arrasam com a sua liberdade e independência, enquanto Andrey Zvyagintsev efectua um retrato crítico do seu país entroncando-o na vida familiar e social de Kolya. Este é um indivíduo que não parece ter grandes posses, ganhando a vida em alguns biscates como mecânico. A sua casa, na sua família há várias gerações, encontra-se num terreno pretendido por Vadim, que logo utiliza a lei e o seu poder para expropriar Kolya da habitação, tendo em vista aproveitar o espaço para outros empreendimentos. Vadim é representado como aquilo que esperamos de um político que utiliza todos os subterfúgios legais e ilegais para conseguir obter os seus intentos, surgindo como um indivíduo beberrão, violento, mais para chefe da máfia do que para Presidente de uma Câmara Municipal, que conta com o apoio da Igreja Ortodoxa local. Kolya vai entrar em choque com Vadim ao contar com o apoio de Dmitriy (Vladimir Vdovichenkov), um advogado e amigo pessoal, residente em Moscovo, que não tem problemas em utilizar o seu conhecimento legal para hostilizar o político. Se Kolya parece uma fera prestes a explodir, um pouco como Vadim, já Dmitriy procura ser a voz da razão, parecendo a calma em pessoa embora também cometa alguns actos que prometem arrasar com o quotidiano do protagonista. Alexei Serebriakov é competente a demonstrar a indignação do personagem que interpreta perante toda esta situação, exprimindo ainda algum afecto por Lilya (Elena Lyadova), a sua segunda esposa. A vida familiar de Kolya encontra-se em convulsão. Roma (Sergey Pokhodaev), o seu filho adolescente, fruto do primeiro casamento, é um indivíduo rebelde que não parece suportar a presença da madrasta, para além de faltar às aulas e manter amizade com um grupo de delinquentes. Lilya trai Kolya com Dmitriy, algo que este descobre quando os encontra em pleno acto sexual numa passeata que envolveu muitos tiros, álcool e promessas de vingança. A relação entre Dmitriy e Kolya fica minada, mas o seu afastamento do caso deve-se acima de tudo a uma demonstração de força por parte de Vadim e dos seus capangas, sem problemas em agredirem-no, após o advogado exibir um dossier com provas concretas dos actos de corrupção do político tendo em vista a conseguir uma indemnização choruda para o protagonista.

Os momentos em que Dmitriy se encontra com Vadim e os seus homens parecem saídos de um filme da máfia, com este político amplamente religioso a demonstrar que os valores associados à fé ficam-se pela igreja. O bispo apoia este político corrupto, tendo também interesses nos negócios de Vadim, existindo uma promiscuidade latente entre o poder político e religioso. Tudo piora para Kolya após a morte de uma pessoa importante para a sua vida, com este a lidar mais uma vez com a corrupção no interior de uma Rússia representada como um país que parece parado no tempo, onde a lei serve para proteger os mais poderosos. "Leviathan" remete-nos para a Rússia de Vladimir Putin, mas também para uma história muito definida por elementos religiosos adaptados à realidade quotidiana deste país nos dias de hoje. Longe de ser considerado um exemplo de um político democrático, Vladimir Putin tem colocado a Rússia num patamar que praticamente não víamos desde os tempos mais quentes da Guerra Fria. Seja a notícia de mortes estranhas, seja o conflito na Ucrânia, sejam alegadas situações que atentam contra a Democracia, Vladimir Putin é neste momento uma figura em foco, muitas das vezes pelo lado negativo, que daqui a uns anos será certamente um indivíduo que irá despertar a atenção e curiosidade dos Historiadores. No caso de "Leviathan" o que encontramos é uma Rússia marcada por políticos prontos a utilizarem a lei para se servirem da mesma, uma sistema burocrático corrupto e gentes que procuram sobreviver num território que parece tão estagnado como os barcos decadentes apresentados no início e final do filme. O título da obra cinematográfica remete-nos inicialmente para o "Leviatã", um demónio representado no Antigo Testamento, cuja imagem aparece retratada pela primeira vez no Livro de Jó. De acordo com as informações da nem sempre confiável mas informativa Wikipedia, este foi considerado pela Igreja Católica, durante a Idade Média, como o demónio representante do quinto pecado, a Inveja. É também no Livro de Jó onde é dito sobre este monstro: "ninguém é bastante ousado para provocá-lo (...)" (mais info na Wikipedia). O próprio Kolya, um indivíduo que, em conjunto com o advogado, procura desafiar os tentáculos que rodeiam Vadim, é comparado pelo bispo a Jó, num momento algo irónico, onde a fé parece ser apregoada pelos eclesiásticos mas pouco cumprida na prática. Diga-se que os próprios fiéis estão longe de ser elementos recheados de privações, com Andrey Zvyagintsev a traçar um retrato mordaz das contradições daqueles que frequentam a igreja quando exibe os mesmos a saírem com carros de luxo ou de valor acima da média dos que o cidadão comum pode adquirir. Kolya parece pouco dado a religiões mas aparece inicialmente pronto a defender aquela que considera ser a sua propriedade e aqueles que são os seus direitos, mesmo que para isso tenha de enfrentar o "Leviatã", parecendo algo avesso a uma possível mudança para Moscovo. A igreja surge como um símbolo transversal da nossa História, que se tende a repetir demasiadas vezes, incluindo os erros, com o conhecimento sobre a mesma a não parecer travar a humanidade de cometê-los. É a crítica social, aliada a um poderoso drama humano e a um rigor estético assinalável, que mais sobressai em "Leviathan", com Andrey Zvyagintsev a merecer os elogios que tem recebido por esta obra cinematográfica que tem provocado algum burburinho na Rússia, a ponto de ter sido exibida de forma limitada, surpreendendo como o cineasta conseguiu apoios públicos para o financiamento de “Leviathan” (num filme por vezes mordaz e marcado por algum humor negro, nada ultrapassa a ironia desta situação). Vale a pena realçar que o título da obra cinematográfica e as suas temáticas podem ainda remeter para o livro "Leviathan or The Matter, Forme and Power of a Common Wealth Ecclesiasticall and Civil", escrito por Thomas Hobbes, descrito da seguinte forma "(...) argues for a social contract and rule by an absolute sovereign. Hobbes wrote that civil war and the brute situation of a state of nature ("the war of all against all") could only be avoided by strong undivided government". Aquilo com que nos deparamos em "Leviathan" é perante um Governo incapaz de pacificar o povo ou Governar ao serviço do mesmo, com Roman Madyanov a conceder a esta personagem que interpreta uma malícia latente. É exagerado nos seus gestos, prepotente, alcoólico, por vezes patético, com o retrato a Vladimir Putin no seu escritório a não enganar em relação ao alvo da obra cinematográfica.

No entanto, não é apenas uma Rússia em desintegração a nível de valores morais, políticos e sociais, que nos é apresentada. É também uma unidade familiar que cai em desgraça, bem como uma amizade. A relação entre Kolya e Lilya está longe de ser marcada por enormes demonstrações de romantismo, mas também não parece péssima ao ponto de esperarmos que esta o vá trair com o advogado e amigo do primeiro. Lilya é interpretada por Elena Lyadova, uma actriz que atribui uma sobriedade e mistério latentes à personagem que interpreta, uma mulher complexa que lida com um marido em dificuldades e um filho adoptivo que pouco lhe obedece, iniciando uma relação adúltera que promete causar escândalo. A juntar a tudo isto, os próprios elementos que pareciam amigos do protagonista, tais como Pasha e Angela Polivanova, também duvidam a certa altura do mesmo, enquanto somos apresentados a personagens secundários como Stepanych Degtyaryev, um polícia corrupto, entre outros que povoam este enredo marcado por uma atmosfera pessimista. "Leviatã" apresenta-nos quase a um movimento circular, a uma Rússia parada e a apodrecer no tempo, enquanto as suas gentes procuram sobreviver, entre as quais Kolya, com Alexei Serebriakov a expressar paradigmaticamente os sentimentos díspares que envolvem o personagem que interpreta. A certa altura do filme encontramos Kolya no meio de um espaço rural, com a esposa, um casal amigo, Dimitry e Stepanych a desfrutar de alguns momentos de descanso. Consome-se muito álcool, são disparados tiros contra alvos (primeiro disparam contra garrafas, posteriormente contra retratos de antigos políticos russos), até uma traição ser descoberta e os actos quotidianos aparentemente banais serem interrompidos por esta situação. É um exemplo da sobriedade na representação do quotidiano destes personagens, algo já exibido na própria casa de Kolya, um espaço modesto, perto da orla costeira, que se prepara para passar a ser posse de Vadim por um valor simbólico. No final, ficamos diante de um filme que nos faz reflectir sobre a Rússia dos dias de hoje, cujos ecos do passado ainda continuam muito fortes no presente, numa obra onde Andrey Zvyagintsev consegue mesclar na justa medida a forma como a sociedade, a política e a economia podem influir na vida dos indivíduos, através da representação de Kolya e da sua família. O território onde estes habitam surge representado com uma mescla de crueza e estranha beleza, ficando particularmente na memória a carcaça da baleia, presa na areia, tal como estes homens e mulheres parecem estar parados diante de um espaço onde a lei serve para beneficiar os mais poderosos. Fica ainda na memória o território montanhoso onde estes personagens se encontram inicialmente a conviver durante o aniversário de Stepanych Degtyaryev, com a cinematografia de Mikhail Krichman a ser merecedora dos mais variados elogios. Esteticamente irrepreensível, marcada por um argumento coeso e inteligente, "Leviatã" surge como uma obra cinematográfica que não se cinge à crítica social, mesclando a mesma com um poderoso drama humano, onde os elementos quotidianos destas gentes nos são apresentados com enorme realismo. Ficamos diante do retrato de uma nação, através de um conjunto de casos particulares, num filme que deve e pode servir como material de debate sobre a Rússia contemporânea.

Título original: "Leviafan".
Título em Portugal: "Leviatã".
Título em inglês: "Leviathan".
Realizador: Andrey Zvyagintsev.
Argumento: Andrey Zvyagintsev e Oleg Negin.
Elenco: Aleksei Serebryakov, Elena Lyadova, Vladimir Vdovichenkov, Roman Madyanov.

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